sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ela faz cinema

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Ela faz cinema



Chico Buarque


Quando ela chora

Não sei se é dos olhos para fora

Não sei do que ri

Eu não sei se ela agora

Está fora de si

Ou se é o estilo de uma grande dama

Quando me encara e desata os cabelos

Não sei se ela está mesmo aqui

Quando se joga na minha cama



Ela faz cinema

Ela faz cinema

Ela é a tal

Sei que ela pode ser mil

Mas não existe outra igual



Quando ela mente

Não sei se ela deveras sente

O que mente para mim

Serei eu meramente

Mais um personagem efêmero

Da sua trama

Quando vestida de preto

Dá-me um beijo seco

Prevejo meu fim

E a cada vez que o perdão

Me clama



Ela faz cinema

Ela faz cinema

Ela é demais

Talvez nem me queira bem

Porém faz um bem que ninguém

Me faz



Eu não sei

Se ela sabe o que fez

Quando fez o meu peito

Cantar outra vez

Quando ela jura

Não sei por que Deus ela jura

Que tem coração

e quando o meu coração

Se inflama



Ela faz cinema

Ela faz cinema

Ela é assim

Nunca será de ninguém

Porém eu não sei viver sem

E fim.

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

"A capacidade de ver e ouvir diminuiu muito." (Julio Bressane)

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Entrevista com Júlio Bressane


O


 Caroline Pires*
  especial para o blog




 Qual a sua perspectiva do cinema nacional atual?

 Minha perspectiva não mudou muito. Eu continuo achando muita dificuldade em fazer filmes. A política de cinema nacional é a política do cinema no mundo inteiro, são negócios. E eu te digo uma coisa, eu não poderia te responder porque eu não sei como está o cinema nacional atual, eu estou afastado disso. A criação de filmes absorve muito mais do que essa política de cinema. O cinema que eu faço considero como um cinema de desapareceu. Eu não consigo falar de um cinema que é feito por uma política que eu não participo.

Você acha que o cinema de arte é desvalorizado no Brasil e no mundo?

 O cinema de arte desapareceu no Brasil e no mundo. O que se discute é o naufrágio do espectador, os filmes naufragaram. O cinema e a cultura é no mundo inteiro mantido pelo Estado. O público naufragou ele não quer mais, está interessado em outra coisa. Eu sempre fiz um cinema pensando nele como ferramenta que auto transformação. Considero o cinema uma exigência muito grande e um esforço radical de auto transformação. Esse cinema vai existir para sempre, porque essas conquista e esses esforços existem individualmente e um dia vão ser coletivas.


Agora, o cinema como experimento no sentido de cinema de linguagem… esse cinema desapareceu e isso aconteceu porque não tem mais público para ele. Hoje o que se tem é uma grande tirania e o público está enfraquecido para resistir. A capacidade de ver e ouvir diminuiu muito. É difícil se enxergar e pensar quando você está sentindo. Hoje está se fazendo um trajeto de mediocrização generalizada de tudo porque o dinheiro está de tal maneira organizado que essa questão da concentração da auto transformação e do autoconhecimento está fora das preocupações. Hoje a preocupação é a do salário escravo. O tempo que você tem que é dedicado ao trabalho e com esse dinheiro você vai gastar como consumo de coisas que são impostas ao seu gosto. E entre essas coisas não estão as controvérsias, nem os paradoxos, isso é aplainado. Toda a promessa hoje é uma promessa de coisas imediatas e sensações imediatas. Não tem mais o gosto nem o prazer e nem mais sabe como prolongar esse prazer. O gozo é uma coisa necessária mas é um momento de extinção, o problema está em você prolongar esse momento do gozo, você fazer com que essa tensão se multiplique e se estenda o máximo possível. Essa preparação e essa resistência como fonte de prazer está perdida.

Então como que você trabalha nos seus filmes, apesar dessa descrença e desilusão do cinema?

 Eu faço filme por necessidade, desde os 11 anos de idade. Todo trabalho de criação você faz para si, a idéia mesmo psicológica de fazer para o outro é uma tolice, porque não tem possibilidade de você saber o que seja o outro para fazer no gosto dele. E essa é uma das razões do naufrágio do espectador: fazer filme para o público. Eu faço filmes e invento maneira de fazer filmes com qualidade. Essa tem sido a minha permanecia no cinema.

E o que você diz sobre festivais como o Festcine?

 Eu nunca estive aqui, mais qualquer iniciativa que promover festivais é importante e deve ser bem vinda como uma maneira de divulgar filmes. É preciso sempre saber o que se pode fazer com isso. É preciso mais do que um festival, mais do que o Estado, o filme precisa voltar a dar ênfase na formação, na criação do cineasta, essa é a questão. O cinema desapareceu também porque desapareceu essa figura difícil de se construir que é o cineasta, que talvez não exista e não tenha existido.
O cinema é um organismo intelectual que atravessa as linguagens, as artes, a história, a música, a dança a filosofia, a física, a química, a poesia, o cinema se faz quando atravessa isso, são nesses cruzamentos que o cinema de faz. O cinema é a principio uma disciplina de grande alcance, e se ela ultrapassa toda a vida você precisa juntar um número de experiência e um esforço de concentração. É preciso uma coisa que hoje não tem mais: tempo. Hoje se tem uma revogação do tempo, a vitória é a vitória da sociedade do trabalho. Na luta pela coisa sagrada que era a ociosidade, a luta em torno do ócio ganha o negócio  e não o sacerdócio que é a sagração do ócio.


* Caroline Pires é jornalista. Realizou monografia sobre "Cinema e jornalismo". Entrevista com Julio Bressane feita durante o Festcine. 


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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A vida dos outros (em cartaz)

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 Uma reflexão sobre os regimes autoritários




Carolina Soares*



A Vida dos Outros, do diretor alemão Florian Henckel von Donnersmarck, se passa na Alemanha oriental durante a ditadura socialista e retrata uma das faces mais cruéis do regime, mas é, acima de tudo, um filme sobre o humano e seu lugar no mundo.
 
  Gerd Wiesler é um austero e metódico funcionário da Stasi, polícia secreta da Agência de Segurança Nacional, e é encarregado de manter vigilância sobre Georg Dreyman, famoso escritor e dramaturgo, e sua namorada, a atriz Christa-Maria Sieland. Wiesler se orgulha do sistema e, principalmente, se orgulha dos seus métodos. Pouco a pouco, Wiesler cria um laço afetivo com o casal, que para ele são como personagens de um romance, e passa a questionar o sistema e o papel que exerce nele.

    O filme tem como pano de fundo a reflexão sobre os regimes autoritários, que independentemente da orientação política, sempre caem nos mesmos clichês, seja o mote igualdade, ordem ou poder, tudo virá às custas da liberdade. Contudo, o aparelho repressor do Estado não é o foco principal da narrativa, ele é apenas o ponto de partida para observarmos onde o ser humano se insere em um ambiente tão hostil. Ao contrário da maioria dos filmes que denunciam abusos ideológicos de guerra, nós vemos a história sob a perspectiva do algoz, e não das vítimas, e é a partir de Wiesler que assistimos à história de Dreyman. É nessa perspectiva voyeurística, presente no cinema desde o célebre Janela Indiscreta, que se desenvolve a trama de A Vida dos Outros.

     Wiesler, que trabalha a serviço do governo espionando, interrogando e descobrindo potenciais conspiradores, é apresentado, no começo do filme, como um homem frio, impiedoso, convicto em sua função de espião e delator. À medida que a narrativa se desenvolve, o personagem vai se tornando cada vez mais ambíguo e complexo, Wiesler vai se humanizando no decorrer da trama, enquanto assiste, da sua posição de voyeur, ao drama da vida de Dreyman e Chista-Maria. A vida de Wiesler passa a ser a vida de Dreyman e Christa-Maria, ou seja, sua vida passa a ser A Vida dos Outros. E assim como Wiesler passa a viver a vida das pessoas que observa, o espectador vive a vida de Wiesler, assim como o personagem é um voyeur, nós também o somos quando assistimos a um filme. A metáfora fica clara: Wiesler experimenta o equivalente à experiência cinematográfica na vida real.

      É a partir do suicídio de seu amigo, o escritor Albert Jerska, que Dreyman, até então acomodado, confortável em não fazer nada que o indispusesse com o governo, decide tomar uma atitude e escrever um artigo sobre os números não-divulgados de suicídios na DDR. Jerska é o retrato do intelectual desiludido, nas cenas em que aparece sempre faz reflexões um pouco niilistas sobre a vida e o ser humano. Dreyman resolve publicar anonimamente seu artigo na Alemanha Ocidental e para isso mobiliza alguns amigos que já são inimigos do regime, ele passa a escrever em uma máquina emprestada para que o autor não possa ser identificado. Essa máquina, só escreve em tinta vermelha, ironia, já que o vermelho é emblemático da causa socialista, vermelho esse que se destaca entre as cores predominantemente pastéis do filme. Quando termina de escrever a primeira versão do texto, Dreyman olha para suas mãos sujas de vermelho, lembrando sangue, cena que parece ser o prenúncio de uma tragédia que está por vir. O vermelho tem grande importância simbólica no filme, como se marcasse a ação, representando algo indelével. 

       Mais que um quadro político, A Vida dos Outros fala das contradições do ser humano, da patrulha ideológica e vigilância onipresente e do que isso causa no dia-a-dia das pessoas e, em especial, da solidão, que independe de regimes ou partidos e não cessa – talvez até se intensifique – por sabermos tudo sobre todos. Um grande filme.




* Carolina Soares faz parte da equipe do projeto "Cine-UFG, debates".   O filme em cartaz no cine-ufg
       

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sábado, 14 de novembro de 2009

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Qual o melhor expresso de Goiânia?


Lisandro Nogueira

O pessoal da Confraria sumiu do blog. Pensei que a degustação tinha sido suspensa. Que nada!! Está mais sofisticada. Existem mais de 150 pontos para beber o delicioso café expresso em Goiânia (reafirmo: o expresso é melhor do que qualquer  cerveja - inclusive a cerveja importada).

 A confraria do café divulgou a lista dos melhores cafés do mês de outubro. Os critérios são os mesmos da Illy. Os critérios são: gosto, tato, olfato, vista e o som. Para saber mais sobre degustação vale a pena acessar o site da Illy. O blog apresenta os cinco melhores do mês de outubro:


* Tabacaria e cafeteria N. 1 - em frente ao shopping Buena Vista - rua T-38, Setor Bueno;

* Café do Mundo - Piso 1 do S. Bougainville - em frente Livraria Nobel;

* Café da Pão & Cia. - Av. República do Líbano - Setor Oeste.

* Café do Ponto - Shopping Bougainville - praça de alimentação;

Café do Frans Café - Setor Marista.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Caetano Veloso e Paulo Francis...

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 ...pensando e debatendo o Brasil....em 1983


Lisandro Nogueira*



"Que país mais chato este, em que os inteligentes brigam e os burros andam de mãos dadas!" (W. Olivetto)



   Em 8 de outubro de 1983 o jornal Folha de São Paulo abriu seu caderno Ilustrada para a "polêmica do século". O exagero é evidente. Porém, os debatedores eram de alto nível e, na verdade, não foi uma "polêmica", mas sim um embate inteligente no qual dois ótimos intelectuais pensavam naquelo momento as questões do Brasil.

Os temas da "polêmica" eram liberdade de expressão, papel dos intelectuais e a qualidade do jornalismo e da MPB. Quem eram os dois intelectuais? Caetano Veloso e Paulo Francis.O jornal convidou vários artistas e professores para opinarem sobre o bom debate. Leiam abaixo a matéria de Ruy Castro.



QUEM FAZ MAIS A SUA CABEÇA: PAULO FRANCIS OU CAETANO VELOSO



Ruy Castro*



É a polêmica do século. Ou a deste fim de semana -por aí. A cidade está acompanhando, entre perplexa e apaixonada, a briga entre o jornalista Paulo Francis, correspondente da Folha em Nova York, e o cantor e compositor Caetano Veloso, pelas páginas deste caderno. Há algumas semanas, Paulo Francis criticou a entrevista que Caetano realizou com Mick Jagger no programa "Conexão Internacional", da TV Manchete, classificando de reverente e submissa a postura de Caetano diante do complacente líder dos Stones.
Caetano não gostou e, numa entrevista coletiva nesta terça-feira, rompeu publicamente com Francis, a quem sempre admirou.. A resposta de Paulo Francis foi publicada na edição de quinta, em que ele devolve a Caetano os epítetos e lamenta que um argumento cultural seja respondido com insultos.
Tsk, tsk. Mas a briga existe e não se fala em outra coisa. Espera-se que ela sirva pelo menos como base de discussão sobre o conceito do intelectual no Brasil, a liberdade de expressão e a maior ou menor qualidade da nossa atual produção artística. Afinal, ambos têm mais do que cacife para isso.
São pessoas corajosas, inteligentes e talentosas. E estão entre os intelectuais e artistas que mais fizeram cabeças neste país nos últimos 20 anos. Quem faz mais a sua cabeça: Paulo Francis ou Caetano Veloso? Esta foi a pergunta que a Folha fez a várias pessoas influentes. Eis as respostas

.
AUGUSTO DE CAMPOS, poeta e tradutor: "Não tem dúvida: sou 100% Caetano".
JÚLIO MEDAGLIA, maestro e um dos inventores do tropicalismo: "Neste momento, Paulo Francis é mais criativo. Ultimamente, Caetano só tem feito boleros".
DÉCIO PIGNATARI, poeta e professor de literatura: "Os dois fazem igualmente a minha cabeça. Paulo Francis é um homem claramente ideológico e às vezes incursiona no terreno artístico. Caetano é o contrário".
MINO CARTA, jornalista e editor da revista Senhor: "Com respeito por ambos, nem um nem outro".
GILBERTO BRAGA, autor de novela "Louco Amor": "Pela emoção, Caetano. Pela razão, Paulo Francis. Mas, pelo que andam dizendo um do outro, eu poria os dois de castigo durante uma hora".
CARLOS BRICKMAN, jornalista, editor de economia da Folha: "Entre os dois, graças a Deus fico com Millôr Fernandes".
HENFIL, cartunista: "Paulo Francis. Pela sabedoria, pelo compromisso com as outras pessoas e pelo seu orgulho de ter sido preso por suas idéias, enquanto Caetano se envergonha disso. Caetano diz que não lê jornais, mas é capaz de citar o dia e a página de qualquer jornal que tenha falado dele, mesmo que seja a 'Gazeta de Nanuque'. E eu gosto mais da música do Francis".
BELISA RIBEIRO, apresentadora do programa "Canal Livre": "Caetano. Porque, por ele, dá para a gente se apaixonar".
ZÓZIMO BARROZO DO AMARAL, colunista: "Paulo Francis. Eu faço parte da macaquice do auditório dele".
FÁBIO MAGALHÃES, secretário da Cultura municipal: "Nenhum dos dois".
JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI, filósofo e professor: "Os dois não fazem nem o meu pé, quanto mais a minha cabeça".
CARLITO MAIA, publicitário: "Quem faz a minha cabeça é o Goulart, que me corta o cabelo".
FLÁVIO GIKOVATE, psicanalista: "Caetano Veloso. Sem comentários".
JOÃO CÂNDIDO GALVÃO, jornalista, editor-assistente de Veja: "Paulo Francis, porque é mais paradoxal. Caetano anda muito óbvio".
SÓCRATES, jogador do Corinthians e da Seleção: "Admiro os dois como profissionais destacados em suas respectivas áreas, mas nenhum deles faz a minha cabeça. Aprecio informações do Paulo Francis, gosto de muitas músicas do Caetano, mas nenhum deles influi na minha maneira de pensar ou agir".
CASAGRANDE, centroavante do Corinthians: "Caetano Veloso. É um poeta. Gosto também do comportamento dele, que é agressivo com a sociedade. Aliás, como o meu".
MARÍLIA GABRIELA, apresentadora do programa "TV Mulher": "Quando eu quero poesia, prefiro Caetano. Quando quero bom jornalismo, prefiro Paulo Francis".
JOÃO DÓRIA JR., presidente da Paulistur: "Nenhum dos dois. Mas eu prefiro a doçura musical do Caetano à acidez redacional do Paulo Francis".
ANGELI, cartunista: "Eu misturo os dois. Pego o lado doce do Paulo Francis e o ferino do Caetano".
GERALDO MAYRINK, jornalista, editor-assistente de IstoÉ: "Paulo Francis - porque, pelo menos, nunca pediu a minha cabeça, como fez o outro. Além disso, Francis se tornou um dos maiores entertainers do nosso show business".
EDUARDO MASCARENHAS, psicanalista: "Caetano, claro, porque tem mais humor, talento e arte que o sr. Paulo Francis. Caetano já me faz a cabeça há 15 anos. Já o sr. Paulo Francis, no que respeita a subjetividade, é extremamente primário. Mas eu não sei como andam os interiores do sr. Paulo Francis".
WASHINGTON OLIVETTO, publicitário: "Que país mais chato este, em que os inteligentes brigam e os burros andam de mãos dadas!".
ANTONIO MASCHIO, ator e proprietário do Spazio Pirandello: "Paulo Francis, sem dúvida. É um homem do mundo. Caetano, quando muito, é um homem do Brasil. Se todas as bichas do Brasil fossem 'travadas' como o Paulo Francis, este país estaria muito melhor".
CLODOVIL, costureiro: "Eu, hein? Nesse angu, eu não me meto!".
APARÍCIO BASÍLIO DA SILVA, escultor e perfumista: "Paulo Francis. É um conselheiro literário formidável".
PIETRO MARIA BARDI, diretor do Museu de Arte de São Paulo: "Na minha idéia, é Paulo Francis, hoje o maior, mais atual, mais vivo, mais inteligente e mais inventivo escritor brasileiro".
TÃO GOMES PINTO, jornalista da Folha: "Caetano Veloso".
CAIO TÚLIO COSTA, jornalista, secretário da Redação da Folha: "Entre a razão e a emoção, eu fico com Paulo Francis".
MARTA SUPLICY, sexóloga: "Eu gosto dos dois, mas nenhum faz a minha cabeça".
TAVARES DE MIRANDA, colunista social da Folha: "Quem faz a minha cabeça é Jesus Cristo".
RUBENS GERCHMAN, artista plástico: "Paulo Francis. Ele está há anos no centro da ação --sempre no front".
JOSÉ GUILHERME MERQUIOR, diplomata, ensaísta e acadêmico: "Não gosto da expressão 'fazer a cabeça'. Acho-a alienada. Quem faz as minhas idéias, com muita dificuldade, sou eu mesmo. Não tenho nada a considerar sobre esses dois personagens".
THOMAZ FARKAS, produtor cinematográfico e empresário: "Os dois me fazem a cabeça, cada qual do seu jeito".
HELENA SILVEIRA, jornalista e colunista da Folha: "Quem me faz a cabeça é Anthonio Carlos, meu cabeleireiro. Admiro Paulo Francis como colega, gosto de Caetano com restrições. Guru é coisa que já era".
JOSÉ ROBERTO AGUILAR, artista plástico: "Caetano é meu amigo, moramos três anos juntos em Londres. Mas o Francis também é genial e seus livros são monumentais. O problema do Francis é que ele é de uma geração que só ouve jazz e música clássica, e passou a largo da geração do rock. Assim, fica reduzindo tudo a uma coisa de 'lumpenproletariat'. Mas o rock não é só isso. O rock já tem sua literatura e sua cultura".
CARLOS VOGT, lingüista e professor da Unicamp: "Gosto da música do Caetano e acho divertida a destemperança com que escreve Paulo Francis".
JOSÉ MIGUEL WISNIK, professor de literatura: "Cada um de nós faz a sua própria cabeça, mas as sete faces do Caetano ressoam mais em mim do que a cabeça de papel do Paulo Francis".
JULIO BRESSANE, cineasta: "Minha cabeça é feita pelos dois. A região que Caetano ocupa, que é a da poesia e onde habito, é a maior. Mas o Paulo Francis, que é hoje o maior articulista do Brasil, também ocupa uma região imprescindível. Inclusive já começamos a trabalhar juntos numa adaptação para o cinema do seu romance 'Cabeça de Papel'".
ZIRALDO, teatrólogo e humorista: "Sou Caetano. Mas não assumo".
MILLÔR FERNANDES, pensador e humorista: "Olhem, não me meto em briga de baianos".

* São Paulo: 8 de outubro de 1983 - Ilustrada
Com colaboração de Âmbar de Barros

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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Caetano Veloso, entrevista.....

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As últimas de Caetano Veloso.....

Cantor e compositor baiano  fala sobre Brasil, violência, eleições...
Sonia Racy, de O Estado de S. Paulo



 -  'Sempre achei que o Brasil é um país com destino de grandeza e uma originalidade fatal', diz o cantor e compositor Caetano Veloso. Foto: Fábio Motta/AE

RIO - À exceção de alguns momentos mais incisivos, Caetano Veloso deixou claro, na entrevista ao Estado, semana passada, na sede da Natasha Produções, no Rio, que a maturidade lhe subiu à cabeça. Uma boa sabedoria emerge, fácil, da sua tranquilidade interior. O posicionamento rebelde do início da carreira, que às vezes assumia as cores da esquerda, deu lugar, hoje, a um discurso racional, realista. Que nada tem, no entanto, das desilusões de quem perdeu a esperança - e isso transparece, com força, quando anuncia sua opção pela candidatura de Marina Silva. "Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem."

Sobre as mudanças propostas na Lei Rouanet, Caetano se esquiva: " Eu sou daquelas moças... não estudei direito", diz o artista que, na era da tecnologia, não usa sequer o celular, não gosta do Twitter, mas se comunica sempre por e-mail.

E cadê as novas pessoas com a força do talento de um Caetano, um Gil ou Chico? O mundo hoje é de gente pré-fabricada pelo marketing e meios de comunicação? Nada disso. Para Caetano, houve uma mudança tecnológica imensa e também desdobramentos históricos. "Fico me perguntando: aqueles pintores que ficaram famosos, foram mais sagazes em seduzir príncipes ou reis, ou eram mesmo os mais talentosos? Ou foram os que combinaram melhor as duas coisas? Ou os que tiveram a sorte de encontrar um príncipe que gostou deles? A diferença hoje passa por outros canais." E isso é bom ou é ruim? "Nem bom nem ruim, é o que é."

Caetano volta a São Paulo amanhã - por três dias - para seu show Zii e Zie, no Citibank Hall. Que depois, em 2010, transformará em turnê internacional: março pela América Latina, abril nos EUA, julho Europa e talvez Austrália e Ásia em setembro. Só ao final dele é que pensará no futuro de seu futuro. Aqui. trechos da conversa.

Como você vê o Brasil?

Acabei de ler no New York Times que, possivelmente, o Brasil é o País mais importante do mundo para o qual estão voltados todos os olhos do mundo. Não que o artigo todo seja a favor, é até crítico e contra. Mas parte do pressuposto de que o Brasil é um êxito histórico aos olhos deles, estrangeiros, muito maior do que a gente imagina. Partem do pressuposto de que o Brasil é algo grandioso e falam justamente sobre as provas de que o País não superou o que há de horrendo nele. Se referindo à derrubada daquele helicóptero por traficantes no Rio, à violência, e a uma passividade do Brasil em relação às finanças internacionais, como que dizendo que o País deveria liderar uma virada nessa questão.

E você, o que acha?

Sempre achei que o Brasil é um país com destino de grandeza e uma originalidade fatal.

O que é uma "originalidade fatal"?

Somos um país de dimensões continentais, cujo povo fala português nas Américas, com uma população altamente miscigenada... São muitos fatores estranhos... O português é considerado assim o "túmulo de espírito". O próprio padre Antonio Vieira disse isso da língua. No entanto, essas desvantagens apontam para uma originalidade enorme, que a gente pode ou não aproveitar. Então eu gosto, por exemplo, de uma entrevista do (ex-ministro) Mangabeira (Unger) no Estadão sobre a Amazônia, em que ele diz que o Brasil devia fazer dela uma experiência de vanguarda tecnológica e de desbravamento de atitudes com relação ao desenvolvimento sustentável. Uma coisa de grande ambição, experimental. Acho que essas visões é que apontam para a verdadeira vocação do Brasil. É assim que eu penso. E olhe que minha candidata à Presidência é Marina Silva.

Você já escolheu?

Pode botar aí. Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem. Mas olha, eu concordo com o Mangabeira sobre a vanguarda tecnológica e o desbravamento. Parece uma contradição? Mas é assim.

Talvez não seja. Em nenhum momento o Mangabeira fala em destruição, em uso não sustentável...

Não sei se a Marina diria dessa forma. E acho que há, sim, uma tensão da posição dela em relação à de Mangabeira, embora ela seja a minha candidata. Se ela for, voto nela, com a esperança de que ela, com sensatez que sempre demonstra, acolha a complexidade da realidade. E, no poder, seja mais pragmática que Lula. E mais elegante, o que já é.

A Marina teria condições de gerir um país deste tamanho?

Acho que ela é muito responsável e muito sensata. Se empenhar as energias para ganhar e se tornar capaz disso, ela levará a sensatez ao ponto de poder gerir. Suponho que agora ela não parece ter essa capacidade, com as coisas como estão.

Serra faria um bom governo?

Pode fazer. O Serra foi um excelente ministro da Saúde. Agora, ele é o tipo do cara que, se tivesse ganho no lugar de Lula, em 2002, teria trazido mais problemas à economia brasileira. Ele teria feito um governo mais à esquerda e a economia talvez tivesse problemas que não está tendo porque o Lula fez a economia de direita. E ouve os conselhos de Delfim Neto, que o Serra não ouviria. O Lula foi mais realista que o rei. Foi bom, a economia deslanchou.

E Dilma?

Não tenho ideia. Ela tem um trabalho de pura gestão, mas sem experiência de poder político direto. Ela nunca foi eleita a coisa nenhuma.

A Marina tem?

Ela tem. Os candidatos são todos de nível bom. Vou falar em Aécio, de quem eu gosto muito. Talvez seja meu favorito entre os gestores. Porque acho que o Serra talvez ficasse mais isolado que o Aécio. E a Dilma talvez ficasse muito presa ao esquema estabelecido de ocupação dos espaços estatais pelo governo do PT.

Qual a função do Estado no processo de desenvolvimento?

Não tenho uma ideia precisa. Simpatizo muito com a tradição liberal inglesa e anglófona. Mas não me identifico plenamente com a ideia de Estado mínimo, de liberdade para as transações.

Antes da crise econômica, você era a favor do Estado mínimo?

Não. Eu tinha uma certa raiva daquela onda de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, embora simpatize com o liberalismo de língua inglesa. Sempre me vem à cabeça a ideia de que a Margaret Thatcher estaria dizendo algo do tipo "eu privatizaria o ar, se pudesse..." Acho que ela chegou mesmo a dizer isso, pelo menos corre a lenda a respeito. E quando eu vejo essa gente dizer que a única coisa que deve mover as pessoas é o desejo de lucro tenho vontade de me agarrar em São Francisco de Assis, entendeu?

O Estado tem que mexer na Lei Rouanet?

Não sou muito bom nesse negócio. Sou como umas moças que eram bonitas e apareciam nuas nos filmes, e tinham de ter uma opinião política. Eu sou assim. Não sei se tem que mudar. Fico com pena do leitor de jornal, quando sai assim "a excursão de tal cantora foi recusada", ou "foi aprovada", ou ainda "pode captar". Para música popular, o máximo da captação é 30%. Mas 30 % de quê? O público lá sabe o que é isso? Para música clássica, pode chegar a 100%... Mas repito: eu sou daquelas moças... não estudei direito.

Mas voltando ao Estado brasileiro, ele é eficiente?

Meu pai foi funcionário público, dedicadíssimo à sua função. Embora estatísticas provem o contrário, ele contrariava as estatísticas. Então eu tenho uma ideia de que o serviço público pode ser amado, a pessoa pode dar todo seu sangue àquilo. E que não apenas o lucro capitalista é a única motivação.

O Estado deve ser um regulador...

Justamente, a ideia é essa. Que ele seja o regulador do equilíbrio de forças. Os governos têm de se submeter à lei, para estar representando o Estado.

Mas é o problema: cumpre-se a lei?

Não, muitas vezes não. Mas esse negócio de Estado muito forte não me atrai. Acho que ele tem de ser firme, mas não tem de ser um Estado de força. A lei tem de ser nítida, obedecida por todos, em primeiro lugar por quem manda. Ele não tem de se meter, tem de regular, para criar um equilíbrio. Agora, é preciso saber se os seres humanos têm essa saúde mental para querer que as coisas funcionem assim. A vida é complicada, dolorosa, difícil, as pessoas na verdade vão para atitudes muito irracionais... Sabe quem eu acho que tem o discurso mais interessante sobre como a gente, em coletividade, se comporta e como é complicado ter esperança? Freud. Acho que Freud fala de modo mais interessante sobre possibilidades do homem como ser social, do que os marxistas e do que muitos liberais. Pessoas não podem ter esses poderes enormes.

E o que acha da América Latina? No que ela está se transformando com pessoas que têm esses poderes enormes?

Tem uma recaída num negócio que é tradicional aqui, a figura do líder populista - uma linha demagógica liderada por Hugo Chávez. Mas o interessante é que Lula tem um papel bem diferente disso. Lula é um grande líder populista, mas é mais pragmático - mesmo com essa euforia em que entrou desde a posse até hoje. Ter tido Fernando Henrique e Lula em seguida é um luxo. Saíram melhor que a encomenda, ambos.

O Rio tem um desafio, de se pôr em ordem até 2016. Vai dar?

Ele tem de conseguir alguma coisa. Eu li na semana passada, no The Economist, que um dos agravantes para o Rio é o relativo igualitarismo da economia do tráfico. A revista não dá ênfase à derrubada do helicóptero, falam é da economia do tráfico. Que os drug lords do Rio não têm aquela vida de carrões, dinheiro, mulheres... diferentemente do resto da sociedade, onde as diferenças são abissais. A gente devia atentar pra isso.

Algum dia pensou em se mudar?

Não, nunca.

A violência o assusta?

Sempre assusta, até em filmes. Mas não vivo com medo.

As pessoas perderam a capacidade de se indignar?

Não acredito muito nisso. Hoje as pessoas aceitam a violência, o Congresso com essa corrupção toda... O povo não é tolo assim. Hoje há mais exposição dessas coisas. . Então não é que as coisas mudaram, é que elas vieram à tona. Suponho que o povo percebe. Passei um ano no Rio e vi como eram as coisas, não se pode dizer que era melhor. E não se falava muito do assunto. Ele apenas veio à tona. Mas olha, vir à tona é uma melhoria.

Como você se relaciona com a tecnologia?

Sou um pouco parcimonioso. Por exemplo, não tenho celular. Nunca tive. Vivo como se estivesse em 1957. Sei que o celular veio bem depois, mas eu ajo com relação a isso como se fosse 1957. Escolhi esse ano porque é um ano que eu gosto.

E o Twitter?

Twitter não. Eu gosto muito de e-mail.

* Entrevista publicada no jornal Estado de São Paulo - 05/11/2009

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Fados, o filme (em cartaz)

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 Um filme sensível
 


 Alysson Oliveira*


 

As origens do gênero musical tipicamente português, o fado, são um tanto obscuras. Segundo alguns historiadores, estão remotamente ligadas aos mouros que permaneceram em Lisboa depois da reconquista cristã da cidade. Já outros, mais plausíveis, creem que o gênero está ligado às favelas da capital lusitana e seus imigrantes vindos das colônias, como o Brasil e os países africanos, e dos portugueses que migraram do campo para a cidade. No entanto, o documentário musical "Fados", de Carlos Saura, não está muito interessado nas controvérsias históricas. O que o diretor espanhol busca é um diálogo entre passado e presente e mostrar como essa música sobrevive mais de dois séculos depois de seu nascimento.  

Em "Fados",  Saura encerra sua trilogia sobre "as três formas de expressão musical urbana", nas palavras do diretor, que inclui "Flamenco" (1995) e "Tango" (1998).

Combinando músicas, dança e direção de arte apurada, assinada pelo próprio cineasta, o documentário é uma colagem sensível de apresentações musicais e coreografias, iluminadas por uma luz, às vezes difusa, outras forte, e imagens que remetem a um Portugal antigo ou contemporâneo, projetadas em grandes telas num galpão onde foram feitas as filmagens.

A busca de Saura pela contemporaneidade do gênero resulta em momentos peculiares no filme. O cantor brasileiro Toni Garrido, vestido com roupas contemporâneas, é cortejado por um grupo de donzelas vestidas com roupas da época colonial, enquanto canta o seu lamento amoroso.

Já o passional "Foi na Travessa da Palha" recebe uma coreografia em que duas bailarinas disputam e se debatem pelo "amante canalha". Uma homenagem ao famoso fadista Alfredo Marceneiro (1891-1982) é feita em forma de hip-hop.

A ponte entre o passado e o presente é feita também por um dos fadistas mais conceituados da atualidade, Camané, responsável por "Quadras" e "Sopra Demais o Vento", uma canção que remete à nostalgia da vida bucólica. O mesmo tema está em "Um Homem na Cidade", na voz de Carlos do Carmo. Ele diz: "Eu sou um homem da cidade/ que amanhã cedo acorda e canta/ e, por amar a liberdade,/ com a cidade se levanta."

O fado é, em sua essência, a expressão da cultura nacional portuguesa e tem sobrevivido aos mais diversos períodos da história do país. Essa intersecção entre fado e momento histórico resulta numa das cenas mais bonitas do filme, protagonizada por Chico Buarque de Holanda, que canta uma versão de seu "Fado Tropical", escrita em parceria com Ruy Guerra, cuja letra diz, referindo-se ao Brasil: "Ai, essa terra vai cumprir seu ideal/ainda vai tornar-se um imenso Portugal", enquanto ao fundo, nas telas, são projetadas imagens do documentário português "As Armas e o Povo" (1975), sobre a Revolução dos Cravos, de 1974.

Já Caetano Veloso força desnecessariamente um sotaque lusitano para cantar "Estranha Forma de Vida", no qual é acompanhado por um casal de bailarinos.

O grande clímax do documentário acontece numa casa de fados, uma espécie de taverna, onde jovens fadistas cantam suas músicas. Com um ar de nostalgia e melancolia, é lá que a música encontra o lugar ideal para sua apresentação. E Saura consegue situar no século 21 um gênero que sobrevive às transformações de Portugal. É um tipo de música que, como a sua terra natal, firma-se no presente, sem nunca abandonar as raízes do passado. Ou como canta a grande fadista Mariza: "Trago um fado no meu canto/ na minh'alma vem guardado/ vem por dentro do meu espanto/ a procura do meu fado".

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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Blog do Lisandro © Agosto - 2009 | Por Lorena Gonçalves
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