terça-feira, 16 de setembro de 2008

Um filme especial sobre os relacionamentos a dois

Amor em cinco tempos, um filme polêmico de Ozon.

Comentário:

François Ozon (O tempo que resta, Oito mulheres, Sob a areia) é um cineasta peculiar: filma como os grandes mestres dos anos 60. Os enquadramentos são precisos, não há muitos cortes (usual no cinema visceral da atualidade) e a abordagem da temática é pertinente e delicada. Um casal resolve se separar.

Em vez da história costumeira, linear, que começa no namoro até a separação, acompanhamos o inverso: o casamento desgastante, o tempo bom do namoro, as primeiras brigas, os desentendimentos, os momentos felizes e o “amor à primeira vista”. Ozon inova e mostra os relacionamentos a dois de outro modo. Com melancolia e transparência. Em alguns filmes, Ozon lembra a ironia fina e o humor do cineasta Eric Rhomer (Conto de primavera, O joelho de Claire).

6 Comentários

Giselle disse...

O filme possui uma história, aparentemente, comum: o desfecho de um caso de amor; a separação de um casal. Porém, ao inverter a ordem dos acontecimentos, Ozon quebra o modelo clássico de narrativa, mas lança mão de estratégias que prendem a atenção do espectador. Para mim (que fui assistir com meu namorado, aconselhada pelo Lisandro!), o filme gerou inquietações e perguntas sobre como um relacionamento pode se desfazer por meio de situações cotidianas de um casal. Toda a trama é permeada por incidentes comuns numa relação a dois que fazem um “amor à primeira vista” se findar em divórcio. A cena na qual Gilles, após a separação, violenta Marion (no caso um estupro consentido), abre a narrativa demonstrando que esta não é mais uma história com “final feliz”. Para mim, foi terrível Gilles abandoná-la no hospital, quando Marion pariu seu filho prematuro. O filme pretende representar sentimentos e fraquezas, demonstrando que a emergência do amor é esplendorosa e já faz com que a vida humana valha à pena, mesmo que seja por um período curto de tempo. Fica a impressão de que ninguém fica ileso num relacionamento e que não há outra saída a não ser a separação. É claro que o que está lá não é a "verdade". Porém, ao sair do cinema, fiquei pensativa, ponderando como o que estava ali fazia sentido. Acho que o filme revela mais do que engana. Quais são as respostas do filme? Existe amor? É possível evitar o fim trágico de uma relação? Vale à pena???

Lisandro Nogueira disse...

Olá Giselle,
Comentário bom. Você ficou atenta. Fez perguntas. Não ficou intimidada com a possibilidade de emitir sua opinião. Veja outros filmes do Ozon: Sob areia, 8 mulheres e O tempo q. resta.

Lorena disse...

O "Amor em cinco tempos" é um filme aparentemente de comédia romântica que mostra situações de um casal em saias justas, mas carrega um fundo dramático, pois revela de maneira inusitada a intimidade da relação entre marido e mulher: começa com o fim de um relacionamento desgastado e volta ao momento onde Gilles e Marion se conhecem.
A história é contada a partir dos cinco principais pontos da vida de um casal, tendo início no momento da formalização do divórcio e evolui, ou retrocede, para o momento em que se conhecem, num momento de férias na Itália.
A história é basicamente centrada nos dois personagens principais e apesar disto, não revela muito sobre a personalidade de cada um deles. Mesmo assim é possível identificar caraterísticas de Gilles, como sua frieza, imaturidade e tendência à infidelidade, como no momento em que narra ao seu irmão gay e o companheiro, em um jantar com sua esposa, sobre uma orgia que participou com Marion, e não teve pudores de contar que teve relações com homens e mulheres na frente de sua parceira.
Já Marion, ao final percebemos que era uma mulher forte, que viaja sozinha nas férias, que toma suas próprias decisões e que o relacionemanto com Gilles a deixou melancólica e dependente.
A fragilidade do relacionamento é o ponto principal do filme e Ozon vai construindo isso de maneira a causar no espectador uma curiosidade de saber a partir de que ponto tudo começa a desmoronar, visto que no início do filme já se sabe que tudo vai acabar no divórcio.
As situações vão revelando que as atitudes do casal levam ao inevitável, pois apesar de parecerem abertos um com o outro, não discutem a relação, ao contrário dos pais de Marion, que mesmo depois de anos de casados ainda estão juntos, mesmo brigando sempre.
O filme mostra um casal atípico, pois não se vê como nos filmes de narrativa clássica, o casal feliz em nenhum momento do filme. É uma história contada sem qualquer teorização psicológica em cima de um relacionamento. Apenas revela que nem sempre as situações têm um final feliz, que às vezes a história contada nas telas não é a realidade como esperamos que seja.

Mariana disse...

Contar a história de Marion e Gilles de tras para frente me lembrou uma das premissas formadoras do melodrama, em que os protagonistas passam por um sofrimento para expurgacao dos pecados para assim serem profundamente merecedores de viver a pureza dos sentimentos. O vilao de uma típica narrativa clássica também, possivelmente, passa por um processo de redencao para se livrar das maldades que tenha cometido, caso queira se manter vivo. É como se Ozon, ao inverter a narrativa, quisesse redimir e conferir um happy end (convenhamos que as avessas) ao casal. Marion e Gilles seriam os mocinhos ou viloes portanto? Ao filme nao cabe um julgamento de valor, é assim porque é. Ozon nao faz questao alguma de dizer que é bom ou ruim um relacionamento assim ou pessoas assim. O que é diferente é que são de carne e osso, agem e tem fraquezas humanas diante determinadas situacoes. Difícil é assistir domingo a noite ao lado do namorado, pois inevitavelmente uma onda de pessimismo carrega o clima da sala de cinema. A esperanca deve prevalecer, senao nao existe relacionamento. Nao acredito que as rupturas com o clássico presente no filme atrapalhem o jogo do espectador com a ficcao, uma vez que quem assisti inevitavelmente discute a relacao, sua propria ou a de outras pessoas, o que indica um envolvimento de quem assiste, mas vale lembrar que de forma mais profunda e intensa, seja pelas cenas fortes ou diálogos densos e dolorosos.

Mirian disse...

Amor em seis tempos

Primeiro tempo- O juiz lê os termos do divórcio de um casal que, assina a separação sem questionamentos ou discussões. É o fim de um amor. Em seguida,o olhar melancólico da atriz rouba a cena, enquanto o ex-marido usufrui do corpo da ex-mulher. Um olhar marcante e triste, o corpo sem reação alguma.
Segundo tempo- Um ano antes da separação, uma pequena reunião de um casal com um outro casal de amigos.
Terceiro tempo- Enquanto a esposa dá a luz, o marido foge da maternidade. O que se passa? Fugir porquê?
Quarto tempo- Um casamento. Alegria, descontração, emoção. Tristeza. Traição na noite de núpcias.
Quinto tempo- Em uma viagem, duas pessoas quase desconhecidas se encontram por coincidência. A identificação entre elas é clara. Surge um amor e, assim, acaba o filme. É o início de uma paixão ao final. A inversão da narrativa.


Mas apesar de a história ser contada pelas avessas, é a tragetória de um casal em crise ou uma metáfora ao amor. Um casal se apaixona, se casa, tem filho, e se separa. Ou melhor. Se separa, tem um filho, se casa e se apaixona.

O filme foi feito para seis tempos. Cinco de narrativa,e a sexta para depois do "The End". Mas
sai do cinema sem o que dizer de Amor em cinco tempos. Se alguém me perguntasse o que achei do filme... Talvez não diria nada. Não mexeu comigo. Sai da sala de cinema como entrei. O filme não me causou nenhuma emoção ou indagação diferente. Nenhuma pergunta provocante. Ficou apenas uma questão talvez, óbvia de mais para ser feita. Porque Ozon inverte a história? Começa pelo fim, entregando para o espectador o desfecho da narrativa? Será que o objetivo dele era desconstrir o amor clássico do cinema melodramático?


Talvez eu não estivesse pronta para assistir 'Amor em cinco tempos'

Lisandro Nogueira disse...

Miriam,
Veja de novo o filme. Ele entra em cartaz sexta, dia 26, no Cine UFG. E volte a escrever.

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