quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O cinema já alertava para as ilusões do dinheiro fácil

A grave crise que vem aí e os alertas do cinema.

O blog não é de economia. Porém, o texto abaixo de Galligaris, publicado dia 2 de outubro, na Folha de SPaulo, ajuda a compreender os motivos pelos quais o cinema (filmes: Elogio do amor (foto)- Godard, Ensaio sobre a cegueira, Nossa música, Linha de passe, Casa de areia e névoa, entre outros) já alertava para o mundo ilusório do ganho rápido e do consumismo desmobilizador. Esses filmes criticam o "pensamento positivo" e a ausência da "dúvida" no ideário econômico e político contemporâneos.

* Email de José Teixeira (SP): "Prezado professor Lisandro, acho que as fontes da ultraesquerda (Godard) não são as melhores para nelas se buscar referências de um pensamento sobre a crise do capitalismo.Um abraço Zeca"

* Lourival Belém Jr. tem uma visão diferente e postou nos comentários (embaixo) um breve texto sobre Linha de Passe.

Aritmética da crise

Contardo Galligaris

Um responsável pela crise: o pensamento positivo (foto), triunfante na cultura americana
EM 1994 , nos EUA, os juros dos empréstimos bancários eram baixos. Em Nova York, os Jones, um casal de professores, decidiram comprar um apartamento que valia US$ 300 mil. Graças a uma herança, eles dispunham de um aporte inicial de US$ 100 mil e conseguiram um empréstimo hipotecário de US$ 200 mil a juros fixos; a mensalidade, que pagariam por 30 anos, era compatível com seus salários.Em 1996, o apartamento dos Jones, comprado por US$ 300 mil, já estava valendo US$ 450 mil, e os bancos competiam para refinanciá-lo. Os Jones contrataram novo empréstimo hipotecário de US$ 350 mil; com isso, pagaram o saldo da hipoteca anterior (quase US$ 200 mil) e ficaram com US$ 150 mil líquidos, para eles.A bolsa não parava de subir, e os Jones investiram seus 150 mil (sobre os quais pagavam juros de 6%) em fundos de ações (com retorno médio de 16% ao ano).

Nada mal.Dois anos mais tarde, o apartamento valia US$ 600 mil. Os Jones pediram a seu banco uma linha de crédito garantida por uma segunda hipoteca sobre o imóvel: mais US$ 150 mil, que eles investiram nos mesmos fundos de ações.Nessa altura, além do apartamento (que valia 600 mil, mas com duas hipotecas, de 350 e 150 mil), os Jones possuíam um capital investido de US$ 300 mil. Sucesso, hein?Preocupados em não perder o trem da alegria, convencidos de que não há bem-estar sem crescimento contínuo e entusiastas da internet, os Jones venderam seus fundos e passaram a negociar ações diretamente numa corretora on-line, com bons resultados: naqueles anos, era difícil errar.

Preferiam as ações de empresas das novas tecnologias, que prometiam lucros rápidos. Seus investimentos serviam como garantia para eles alavancarem dinheiro para mais investimentos, o que multiplicava o retorno (e também os riscos, mas os Jones se sentiam confiantes: só conheciam céus azuis -longo período de juros baixos, aumento vertiginoso do preço dos imóveis e subida contínua das bolsas).

Em março de 2000, no desastre das ações de tecnologia, alavancados além da conta, os Jones tiveram que vender na pior baixa. Perderam metade de seu capital. Mas, nesta altura, seu imóvel valia US$ 800 mil; eles ampliaram a linha de crédito e voltaram para a bolsa com toda força.No 11 de Setembro de 2001, novo desastre. Os Jones ficaram com quase nada. Sobrava-lhes seu imóvel. Problema: entre 2000 e 2001, pela queda nas bolsas, US$ 4 trilhões sumiram das contas dos americanos; o preço dos imóveis estava fadado a baixar. No fim de 2007, o apartamento dos Jones, hipotecado por US$ 500 mil, valia US$ 450 mil. Entregar a casa para o banco credor se tornava um bom negócio. Essa é a história de uma hipoteca de primeira linha. A das hipotecas de segunda linha ("subprime") é mais simples.

Nos anos 90, os Smiths não tinham renda para pagar as mensalidades de um empréstimo. Para que os menos solventes aproveitassem a "festa" imobiliária, os bancos inventaram um tipo de empréstimo com juros bem altos, mas que seriam cobrados só a partir do terceiro ano. Ou seja, antes de dois anos, os Smiths venderiam seu imóvel (cujo valor teria aumentado de, digamos, 30%), reembolsariam o empréstimo do banco e ficariam com o tal 30%, um pequeno patrimônio.

Tudo certo -à condição que o preço dos imóveis não parasse de subir.Durante esse tempo, os bancos, assim como seus clientes, também apostaram no eterno "boom" dos imóveis e transformaram os débitos hipotecários dos Jones e dos Smiths em títulos negociáveis, lastro para alavancar mais dinheiro etc.O que foi? Cobiça dos Jones e dos Smiths? Ganância de executivos preocupados só com seu bônus de Natal? Uma grande jornalista americana, Barbara Ehrenreich, no "New York Times" de 23 de setembro, aponta para um responsável menos óbvio: o pensamento positivo, triunfante na cultura americana das últimas décadas.

Para Ehrenreich, o problema é que, há anos, "tropas de pastores de superigrejas e um fluxo infinito de best-sellers de auto-ajuda juram que, para conseguir o que a gente quer, é suficiente "acreditar firme" (foto): deseje ardentemente o objeto de sua ambição, e eis que o mundo e Deus responderão a seu pedido.As estantes das livrarias de aeroporto mandam cada viajante (sobretudo se for um executivo) ser loucamente otimista e confiante. Em seus sites, os conferencistas motivacionais ainda listam orgulhosamente, entre seus clientes importantes, Lehman Brothers e Merril Lynch...

5 Comentários

Lisandro Nogueira disse...

Profesor Lisandro,

[comentário sobre "Linha de Passe" de Lourival Belém Jr.]

Pois é, até o cinema, que não é bem para isso(é para algo muito mais forte e melhor), ajudava a entender essa crise, e quantos outros meios tínhamos para saber disso, mas as pessoas não queriam ver?! É difícil ver o capitalismo(e milhões de outras coisas dos valores burgueses) bem de perto, e principalmente o que ele faz conosco e de nós (nos constrange demais), alguns podem se sufocar...e agora eu me lembro do "assaltante"(pôxa, as aspas no filme do Waltinho, pela primeira vez me lembro de chamá-lo assim - o que aconteceu? ou vinha acontecendo? lembram-se do que eu vinha falando dos filmes dele? para onde ele vai agora? -, as aspas dão a dimensão do que, me parece, ele conseguiu nesse filme) pedindo pro dono do carrão olhar para a cara dele. Que espanto! Que força! Achei lindíssimo o filme. Eu já havia comentado o artigo do Inácio com você quando você me pediu, mesmo sem ter visto o filme. Agora posso completar(parece que eu disse algo sobre a importância do como se ver o pobre no Brasil, e que se ele tinha mostrado isso já dava algum interesse ao artigo), o cara é bom mas não ia dar conta de falar em poucas linhas da recepção do filme em classes e grupos tão diferentes, ficou perdido mesmo. Já falei um pouquinho do filme para o Beteto, e das minhas dúvidas(por exemplo, o lugar dos conflitos na sociedade), então já estou mais tranqüilo, agora quero aguardar as estrelas e, se tiverem tempo, os comentários de vocês.
Não deixem de ver o filme (Linha de Passe)..
Um grande abraço aos manos cineclubistas
Lourival Belém Jr.

Marcelo Nogueira Dutra disse...

Belém, abraço.
Não vi o filme Linha de Passe, mas com certeza verei, o Belém indicou!

Tem uma entrevista (20 min) com Walter Salles sobre seu filme Linha de Passe que vale a pena,

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM879197-7823-LINHA+DE+PASSE+COM+WALTER+SALLES,00.html

Belém, de novo, abraçoOo.

amocadofigo disse...

extraordinário filme mesmo.

não dá para comparar com ensaio sobre cegueira.
mas, mesmo com temática diferente, aliás um outro tipo de cegueira existente, o filme me impressionou bastante pela forma de abordagem, pela linda trilha sonora (também extraordinária), bem..é difícil listar todas as particularidades desse filme que felizmente decidi ver antes de Ensaio sobre Cegueira.

boa dica sobre a entrevista com walter salles ! ;D

Lisandro Nogueira disse...

A moça do figo tem razão: Walter Salles saiu do caminho fácil do melodrama latino. Realizou um filme corajoso: não é populista, faz uma narrativa forte e pensa o Brasil sem "tomar partido". E mais: bela estética. A moça do figo ouviu uma bela trinha sonora. O cinema brasiliero pensa!!

amocadofigo disse...

husiahiusha
Ainda bem que faz pensar (!!!), não é mesmo (como o próprio Ismail Xavier defendeu sobre o cinema que ele aprecia na palestra na ufg)?!

Já tinha lido sobre a trilha do "Ensaio" na verdade, mas de qualquer forma não dava para ela passar desapercebida.

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