quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Woody Allen: perguntas para mulheres e homens.

Wood Allen acerta mais uma vez com "Vick, Cristina e Barcelona".

Lisandro Nogueira

Woody Alen acerta mais uma vez: o elenco é muito bom, os diálogos [primorosos, irônicos, cômicos, cativantes] e cenas retomam as ironias morais e realiza uma comédia "quase cínica". O narrador em off (uma voz conta a história e podemos nos deliciar com os comentários aparentemente objetivos) torna a trama ainda mais envolvente.


Não gostei da trilha: é exaustiva e atrapalha certos diálogos. Aos 73 anos, Allen consegue o que poucos cineastas tentam depois de vários anos: manter a fecundidade criativa. Ele equilibra seu roteiro, sempre afinado, com o trabalho de direção de atores. Allen deixa os atores bem tranqüilos quanto ao método de interpretação. Pede sempre que não façam improvisação com o texto (falas) e sigam a sua velha intuição segura.


Os atores, novos ou experientes, sempre fazem uma interpretação diferente nos filmes dele. Javier Barden perde a "impostação naturalista" e alcança Allan Alda – ótima interpretação em Crimes e pecados.


Ele faz filmes com temas universais. Se estivesse na corte de Luís 14, seria um cronista irônico dos costumes e comportamentos da realeza – talvez não sobrevivesse muito tempo até ser fatalmente atirado aos leões.


Mais uma vez ele focaliza o universo feminino, fazendo perguntas antigas: o que querem as mulheres? Será que Laura Mulvey e Ann Kaplan (duas teóricas feministas do cinema*) dão conta dessa "mulher contemporânea", seja ela espanhola ou americana ou francesa ou japonesa? Será que a teoria delas ficou parada lá nos anos 70 e 80? Com que teorias podemos pensar hoje o "feminismo" no cinema? O filme de Allen pode ajudar a iluminar essas questões.



Mas seu olhar dirige-se mesmo, com toda a firmeza, é para a fragilidade do homem contemporâneo. Os personagens não sabem como se relacionar com as mulheres. São seres sem lugar e carentes de discernimento quanto ao seu papel. Aqui, Allen retoma velhos filmes (Crimes e pecados, Hanna e suas irmãs) e repensa as "tiranias da intimidade" (Sennet), que colocaram o homem sem lugar definido no espaço público. Se o que há é uma redefinição de valores, o filme escancara as enormes dificuldades para o equilíbrio dos relacionamentos a dois. Temos dificuldades enormes para fazer escolhas e ficamos "deprimidos" diante de tantas possibilidades. Nessa nova conformação comportamental, são os homens que mais sentem o deslocamento. O personagens masculinos no filme refletem esse "novo homem" e sua perplexidade no pós-moderno.



Sem os papéis sociais muito claros que a pré-modernidade assegurava, homens e mulheres procuram redefinir espaços de convivência e garantias de liberdades mútuas – Allen aponta ironicamente para uma mútua "liberdade vigiada". O maior desafio para um bom cineasta é manter a criatividade a longo prazo. O filme mostra a vitalidade desse velho diretor. O selo de qualidade de Allen tão cedo não perde a validade




* Kaplan, E. Ann. A mulher no cinema. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
* Mulvey, Laura. O prazer visual e cinema narrativo. In.: Xavier, Ismail (Org.). A experiência do cinema. São Paulo: Graal, 1991.

9 Comentários

José Teixeira Neto disse...

Grande Lisandro!

ainda não assisti ao filme, mas já li o seu texto. E gostei, servirá de roteiro para comparar com o que minha observação me mostrar. De antemão já me interesso pela discussão do que você chama de "pré-moderno".
Um abraço

Zeca

Riccardo Joss disse...

Woody Allen filmou NYC como ninguém, pois conhece aquela cidade mlehor do que qualquer outro cineasta. Londres foi filmada por um turista. Ainda não assisti a Vicky..., mas estou curioso para ver Barcelona.

Fernando disse...

Lisandro,
o filme é realmente bom demais da conta...
Ainda bem que tem Woody Alen pra fazer filmes pra nós, pobres mortais que gostamos de um bom filme, inteligente mas não pedante.

Lisandro Nogueira disse...

Caros amigos Teixeira, Joss e Fernando: Vale a pena!!! Allen consegue ser criativo depois de tanto tempo. Muita atenção para a "voz off" que comenta o filme.

amocadofigo disse...

Sobre a fragilidade do homem no filme de Woody Allen...

Discutindo na volta-pós-filme-e-pós-discussão de quarta-feira com a turma, começo a pensar que Juan tem seu papel de mulher em parte considerável do filme. Ele passa a ser "mulher" após o retorno da "masculina" Maria Helena. Suas bases estremecem sob o controle visual, verbal e ativo dela. Na relação com Maria Helena, os papéis se invertem. Ele é inteiramente dependente dela, mesmo ela não estando presente _cenas do início do filme, nas quais ele sempre cita a ex-mulher, com admiração ou apenas como referência.

O "olhar masculino" (se não estou equivocada) que tínhamos diante do personagem no começo do filme como conquistador cai por terra.

Ele volta a "ser homem" depois que não há mais Maria Helena na vida dele. Claro, isso temporariamente, porque ela tão pouco não sabe viver sem ele, mesmo em caos.

E diria mais, vejo-o como mulher no que se refere a buscar algo para preencher o vazio provocado pela recente separação. Transas vazias seriam a forma dele encontrar seu verdadeiro "falo".

Apenas uma opinião que me veio pós-filme e pós-diversas-opiniões. Poderíamos dar uma predominância de olhar feminino no filme de Woody Allen pela quantidade de tipos femininos, pelo título do filme, e por essa sensibilidade adquirida pelo "homem contemporâneo"?

Rodrigo Cássio disse...

Oi, Lidiane! (é você, não é?)

Concordo com o que escreveu sobre a personagen Juan Antonio. Ele passa por uma instabilidade muito grande assim que volta a conviver com a mulher "masculinizada", que tem um controle decisivo sobre ele. Os papéis de homem/mulher se "invertem".

No começo do filme, quando ele aborda Vicky e Cristina, o plano mostra ele em pé, enquanto elas estão sentadas. Há um "desnível" explorado pela câmera, que acentua o quanto ele tem o controle daquela situação. Ele expressa com muita liberdade o desejo de tranformar as duas americanas em objeto sexual. Naquele momento, ele é o típico astro hollywoodiano que Mulvey descreve no seu texto dos anos 1970.

Mas enquanto Maria Elena está em cena, ele se torna um ser frágil, dependente, um refém do olhar da esposa (por isso a cena que eu ressaltei, em que ela o acusa de roubar seu "olhar" artístico, é sintomática; ao mesmo tempo, ela não permite que ele tenha o típico olhar masculino sobre as outras mulheres, e foi por isso que houve uma briga do casal anteriormente).

Mas eu não sei se isso tudo leva a que o filme tenha uma predominância do olhar feminino. Por que você pensou assim? Ainda que tenhamos muitas mulheres em cena, o que importa são as posições que as personagens e o espectador ocupam. E, com Maria Elena ou sem Maria Elena, o filme sempre tem um olhar masculino determinando as ações e projetando nossas identificações (seja ele exercido, na diegese, por Maria Elena ou por Juan Antonio). O que você pensa disso?

Um abraço!

amocadofigo disse...

Olá, Rodrigo . Sou eu mesma!! hehehhe

vou me reposicionar sobre o que afirmei.rs..na verdade não seria pelos tipos femininos (concordo com você, Rodrigo). Tendo os papéis invertidos, Maria Helena já se afirma como homem. Acho que fiz uma confusão entre olhar feminino e filme de temática feminina.

Vou ler mais um pouco para formar melhor minha opinião sobre o filme.

abraços,

Fabrício disse...

Lembro de esbarrar com você quando "Match Point" estava em cartaz, lá no Goiânia Shopping, e, salvo engano, você disse ter gostado bastante. "Match Point" está entre meus Allens favoritos, e ainda guardo um desejo de revê-lo, e foi delicioso ver "Vicky Cristina Barcelona", pois sentia Woody Allen meio recuado com "Scoop" (seu pior, pra mim) e "O Sonho de Cassandra". Percebe-se que Woody está adorando seu tour europeu, filmando como um turista encantado essa Espanha folheada e, me parece, sintonizando o ótimo elenco como se quisesse fazer deles representações de conceitos artísticos (gênio, talento, artista, musa...). Além disso, há uma intimidade muito grande, de modo que é gracioso ver Woody dando uma doce atenção para o particular momento em que Vicky testa várias combinações de roupa ao se arrumar para um encontro.

Lisandro Nogueira disse...

Olá Fabricio, que bom vê-lo no blog. Woody Allen sempre generoso consigo mesmo e esbanjando inteligência.

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