segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Conteúdo e forma no cinema.

ENTREVISTA COM O JEAN-CLAUDE BERNARDET.


Lisandro Nogueira

O professor Jean-Claude Bernardet sempre foi rigoroso e exigente – como devem ser os bons professores. O “populismo” chegou à educação ainda nos anos 80 e a sala de aula converteu-se (em muitas universidades e escolas de primeiro e segundo graus) em um espaço meramente “amigável” para alunos e professores: “um nada exige do outro”, parece ser o lema.

Com Jean-Claude ficou claro que não existe essa “camaradagem” entre aluno e professor, enquanto perdura o processo de aprendizagem. Este requer distanciamento, afetividade focada no objeto de estudo, cobranças firmes para desvelar o conhecimento e a inevitável disciplina.


Quando estudei com Jean-Claude na ECA/USP, fazíamos lições extremamente complicadas e difíceis sobre a linguagem cinematográfica. Lembro que fizemos até planta baixa (dessas que os arquitetos usam) para analisar os planos e enquadramentos do filme Laura, de Otto Preminger (1944).

Aparentemente é um filme fácil para análise. Pode até ser. Ele pode até não exigir tanto, se o intuito for um comentário misturado com informações extrafilme, próprias do estilo jornalístico. No entanto, quando nos debruçamos para analisar, cena a cena, plano a plano, ângulo a ângulo, vimos, Ricardo Basbaum e eu, o quanto é complicada a análise fílmica.

Suas aulas me levaram também a compreender a idéia de que a forma é o conteúdo (a concepção de que a forma é o conteúdo facilita a proposta da análise fílmica). Essa afirmação “dá pano pra manga”. Mas é um caminho seguro para pensar o cinema.

Enviei, por e-mail, três perguntas ao Jean-Claude. Ele só respondeu uma. Alega que está trabalhando muito (sempre trabalhou demais e, agora, virou ator, em Filmefobia, de Kiko Goiffman, que ganhou o mais recente Festival de Brasília). Transcrevo abaixo sua resposta para a pergunta sobre os anos 60.

Entrevista

"Sorry: estou trabalhando 24 horas por dia para Tata Amaral, que está realizando 2 filmes, num dos quais pode entrar um produtor alemão, motivo pelo qual eu tive que reescrever a metade de um roteiro. Eu por enquanto só vou responder a uma de suas perguntas: sobre o debate referente aos anos 60. Existe um filme de 2000 intitulado “Itaú cultural propôe uma reflexão de Jean-Claude Bernardet SOBRE ANOS 60”.

Na realidade eu estava mais interessado em saber que reflexão podia produzir a opção de fazer um filme sobre os anos 60 apenas com imagens e sons da época, sem entrevistas, sem textos expositivos, sem cronologia precisa, sem citação de nomes etc. Uma outra opção de montagem teria produzido uma outra reflexão.

Brasil em tempo de cinema (livro) não é propriamente uma reflexão sobre os anos 60, mas é uma ação nos anos 60. Pelo menos penso que é assim que o livro funcionou.

Ou Cineastas e imagens do povo (livro) então pode ser considerado como uma reflexão sobre o cinema documentário no Brasil dos anos 60, ou como uma reflexão sobre questões do cinema documentário em geral, ou como a aplicação de um método de análise que – como muito bem disse certa vez Maria Rita Galvão – se apóia sobre uma hipótese que pode ser condensada nas seguintes palavras: a forma é o conteúdo. Não há dúvida de que é esta a leitura que eu prefiro. Um abraço, Jean-Claude"

7 Comentários

Lisandro Nogueira disse...

Jean-claude Bernardet foi professor de cinema na ECA/USP. é ator, roteirista eautor dos livros "Brasil em tempo de cinema", "O autor no cinema", "Vôo dos anjos - sobre Bressane e Rogerio Sganzerla", "Cineastas e imagens do povo", "Caminhos de Kiarostami", entre outros ensaios. E mais os romances "A doença, uma experiência", "Aquele rapaz" e "Os histéricos", junto com Teixeira Coelho.

José Teixeira Neto disse...

Basicamente Jean-Claude recomendou que se leiam ou releiam os seus livros. Os felizardos que puderam assistir a seus cursos que guardem bem na memória a bela experiência, e procurem repassá-la às novas gerações!

José Teixeira Neto disse...

Queria avisar que deixei um brevíssimo comentário, no espaço adequado, sobre a questão do melodrama...

Marco A. Vigario disse...

Fiquei curioso: qual foi exatamente a pergunta que ele respondeu e quais foram as outras duas que ele não respondeu?

Lisandro Nogueira disse...

Olá M. Aurelio: ele respondeu sobre os anos 60: qual a importância do cinema brasileiro naquele período. As outras duas sobre o filme "Filmefobia" (que ele atuou como ator) e sobre cinema contemporâneo.

Lisandro Nogueira disse...

M. Aurélio, uso bastante os livros do Jean-Claude em sala de aula - principalmente "Cineastas e imagens..." e "Brasil em tempo de cinema". Apesa de afirmar que uma ação nos anos 60, "Brasil..." é um livro que faz uma grande reflexão sobre o cinema naquele período.

Álder Teixeira disse...

Meu caro Lisandro! Oportuna a sua visada sobre essa complexa relação entre forma e conteúdo no cinema. Em verdade são coisas indissociáveis, mas a primeira, via de regra, tem sido negligenciada pela crítica e os realizadores com maior frequência são examinados na perspectiva da segunda, isto é, do significado de suas obras. Foi o que me levou a estudar a cinematografia de Bergman, em doutorado (ainda não concluído) junto à UFMG, do ponto de vista dos meios de expressão adotados na sua vasta produção, uma vez que tem sido expressivamente explorado como um 'escritor', e não como um artista que lida com uma linguagem específica, com meios técnicos próprios de uma arte que não pode ser confundida com as demais. Arte é, acima de tudo, forma. É ela, a forma, o significante, que diferencia a arte de outros meios de expressão, a exemplo do que se pode ver em se tratando de cinema: enquadramento, ângulo de câmera, composição de quadro, luz, som etc. No que Bergman, para ficar num exemplo, é o artista extraordinário que é. Abraço!

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