domingo, 26 de abril de 2009

Simplesmente Feliz e Divã: feliz e infeliz













O ESTILO E O PADRÃO

Lisandro Nogueira

O filme Simplesmente feliz, de Mike Leigh, está em cartaz em Goiânia há três semanas. Aqui no blog o debate prossegue porque ecoa ainda a pergunta: Poppy é ou não é feliz? Essa pergunta atravessa sutilmente o filme por meio dos gestos e movimentos da personagem, edificada aos poucos, no contraponto com os antagonistas.

O cineasta escolhe contar a história em uma estrutura clássica, sem chocar o espectador com as singularidades do cinema moderno. Não há oscilações na estrutura foco narrativo, narração onisciente, enquadramentos, tempo e espaço. No centro do interesse está a personagem e a sua construção passo a passo. É através dela que acompanhamos a história e seus desdobramentos.

A direção de Mike Leigh continua criativa como em Segredos e Mentiras e O segredo de Vera Drake. Ele conhece bem a narrativa clássica que domestica o olhar do espectador. Consciente disso, ele procura criar um estilo que lhe permita estabelecer uma visão de mundo singular, sua. Mas, como firmar um estilo próprio com uma narrativa que aprisiona e padroniza?

Mike expande-se quando cria uma personagem ambígua e de uma densidade capaz de provocar dúvidas e perguntas. Não sabemos exatamente por que Poppy é tão... esfuziante!. Não vemos nela um tipo (o estereótipo), recorrente no cinema clássico, pois sequer é possível um processo automático de identificação.

Ela se mostra feliz, no entanto sua desenvoltura e pensamento não nos concedem segurança suficiente para afirmar com convicção que ela o é deveras. Se a estrutura narrativa não oscila, a personagem dá saltos e caminha para uma ambiguidade muitíssimo bem construída. Os espectadores ficam maravilhados, chateados, irritados, confusos com a maneira Poppy de viver. Mérito do metteur-en-scène (o cineasta) que elabora, dentro de uma estrutura narrativa quase convencional, uma personagem distante do estereótipo clássico.

Posta em outro âmbito, a ambígua Poppy rivaliza com a personagem principal do filme Divã, vivida por Lília Cabral. O diretor Alvarenga, ao escolher uma narrativa plenamente convencional, põe abaixo todo o esforço para apresentar o perfil da mulher contemporânea. Como faz a opção por uma narrativa bem comum, recheada com alguns malabarismos supostamente modernos na montagem e direção, estanca as possibilidades de problematizar o tema. Ficamos com as gracinhas, os clichês e a simpatia dos atores aos quais as telenovelas já nos habituaram.

Temos, portanto, no primeiro caso, um cineasta que, dentro de uma estrutura clássica, vai além do convencional, com um resultado envolvente, instigante e criativo. E neste último, o filme trancafiado na narrativa que não dá margem sequer para a construção de personagens levemente ambíguas.

Divã e o olhar masculino: Poppy não é uma vítima: é "feliz" e enfrenta as dores do mundo e os obstáculos cotidianos; a personagem de Lilía Cabral (Mercedes), em Divã, apesar do tom de autonomia, não possui ambiguidade, densidade e a leveza da personagem de Mike. O final, repleto de significados de certa vitimização, dá continuidade a um "cinema feminista" que, apesar de datado, ainda vê a conspiração patriarcal obstruir a estrada moderna das mulheres. O olhar masculino do diretor José Alvarenga é capenga ao não problematizar as relações homem-mulher em outra chave, ou seja, não tenta - mesmo porque sua escolha narrativa é limitada - sequer incluir um "olhar feminino" na sua visada (que talvez possibilitasse ver as relações com outro prisma). Mercedes (Lília Cabral) apresenta sinais de ressentimento e acaba nos lembrando de outras personagens como Ada (O Piano - 1992) e Kate (A casa do lago - 2007). A construção desses filmes pretende mostrar uma mulher moderna que enfrenta os problemas e é dona do seu nariz; o público, acostumado com a "estrutura narrativa clássica" (estética naturalista-realista, doses de melodrama, edificação fácil de heróis), compra o pacote sem perceber o tom superficial da narrativa. Sem mencionar filmes do cinema moderno, nos quais o enfoque das relações homem-mulher geralmente é visto por outro ângulo, podemos lembrar de algumas mulheres interessantes em filmes de "estrutura clássica": Francesca (Pontes de Madison) e a personagem de Maria Luisa Mendonça em Coraçõa Iluminado.

26 Comentários

Lisandro Nogueira disse...

Olá pessoal,
Com o objetivo de continuar o debate sobre o filme "Simplesmente feliz" (continua em cartaz no Lumière-Shopping Bougainville), copiamos os comentários já feitos durante as duas últimas semanas. E vamos continuar o debate (Pedro Vinitz):

* 28 Comentários


1. Anônimo Anônimo disse...

Pessoal,
Eu não gostava desse cineasta. Mas vendo seus filmes com calma passei a entendê-lo mais. Isso que o Valente fala é verdade: os filmes dele parecem simples mas não são. Eu, Milordi e Samuel, o alemão, vimos "Naked" - é uma pancada de sensibilidade. (Pedro).

07/04/09 20:53

2. Milordi disse...

Senhores e moças,
Pedro tem razão: esse cineasta tem um padrão de boa qualidade. "Naked" é imperdível. O melhor dele é fazer a gente achar que o mundo é "calmo e feliz". No meio da "normalidade" as coisas acontecem de forma bacana. Gostaria de ser ator de seus filmes. Assinado; Milordi.

07/04/09 20:58
3. amocadofigo disse...

humm.. me deixou curiosa. podia estrear amanhã.
sempre ótimas pautas no blog,professor Lisandro!
abraços

07/04/09 21:50
4. Lisandro disse...

Olá Moça do Figo,
Os filmes de Mike Leigh são especiais. É um dos meus cineastas prediletos na atualidade. Realiza filmes pseudo-melodramáticos e sabe usar as ferramentas da narrativa clássica para abordar temas importantes. Se puder veja o filme e vamos conversar sobre ele aqui.

09/04/09 19:14

6. Siuzete disse...

Olá!

Gostaria que me indicasse filmes importantes para a história, para a nossa história.
Às vezes fico em dúvida se determinado filme é bom ou não.. Qual o critério para a escolha de um bom filme?? existe objetividade na escolha ou impera mesmo a subjetividade, ou seja, o que é bom para mim pode não ser bom para você! é pessoal mesmo? Tenho dois filhos; uma de 15 e um de 16. Quais os filmes que devo indicar para eles que venham agregar algum conhecimento ou informação importante.
Gostaria de saber um pouco dos Diretores. Devo guiar-me por eles ou isto não é relevante?
Se quizer perder um pouco do seu tempo respondendo-me ficaria feliz!
Agradeço desde já.
Siuzete

12/04/09 17:11

8. Lisandro disse...

Olá Siuzete,
Aqui no blog: vá até o mês de outubro. Eu publiquei um texto denominado "O que é um bom filme?".
No mês de janeiro publiquei outros dois: "O olhar domesticado" e "A qualificação do olhar". Esse textos podem te ajudar a pensar as questões importantes que você traz á tona.
O melhor que podemos fazer em relação aos filhos é dar-lhe exemplos. Se gosta de ler e ver bons filmes, mais cedou ou mais tarde, eles vão gostar e compreender os seus exemplos.
Um grande abraço e pode fazer comentários no blog.
Lisandro.

12/04/09 17:15

9. Siuzete disse...

Obrigada pela atenção!

fiquei horas lendo seus textos e de outros em seu Blog. Gostei!
Ficarei atenta.

abraço
Siuzete

Obs. Fui assitir "Simplesmente Feliz". Sua percepção e colocações sobre ele são muito pertinentes. A Princípio fiquei um pouco incomodada com aquele "estado de felicidade". É difícil crer que possa existir "um estado natural de felicidade" INABALÁVEL! parece mais um estado ABOBALHADO! até por conta do nosso cotidiano que nos impede de enxergar coisas simples de beleza pura. Mas depois comecei a gostar e a pensar.... pensar...pensar...pensar. Será????

12/04/09 17:17

9. Anônimo disse...

Olá a todos.
Num primeiro momento ,e tecendo um opinião mais superficial, o filme apresenta-se como sendo fraco e que não traz elementos suficientes para despertar o interesse de um espectador esperançoso de algo denso e cheio de reviravoltas, ou ainda, de uma história leve mas com características marcantes.
Para além dessa primeira impressão, diria que o filme traz bons elementos para nos provocar acerca de o que é felicidade? Se a felicidade plena e total realmente existe?
Se o entendimento de felicidade é o que a personagem Poppy (Sally Hawkins) transmite nas cenas creio que tal felicidade seja equivocada. Certamente e, de maneira proposital, Leigh nos apresentou uma felicidade extremada. Da mesma forma o fez com o instrutor de autoescola Scott (Eddie Marsan ), ao nos apresentar um indivíduo extremamente nervoso e infeliz. Em meio aos vários personagens que rodeiam a vida de Poppy vou me ater apenas às ótimas cenas envolvendo Scott em seus momentos de fúria e Poppy com sua felicidade irritante ou como citou Siuzete " um estado ABOBALHADO" de felicidade.
Scott consegue “roubar” as cenas em que atua ao lado da protagonista do filme. Um show à parte de Eddie Marsan. E com ele também o ponto crítico do filme quando ocorre uma forte discussão entre o instrutor e Poppy chegando até a um princípio de agressão física.
Não conhecia o trabalho de Leigh ou até já tenha assistido a algum filme mas não me recordo. Desta forma já me programei para Naked (1994) e outras produções de mike leigh.

14/04/09 18:01

10. Fran disse...

Também confesso que não conhecia o trabalho de Leigh e me surpreendi. Assisti ao filme, a constante alegria de Pauline às vezes me irritou no filme, e aí percebi que no dia-a-dia somos um pouco assim, ou um tanto, sem paciência para a felicidade, sem cabeça para o que não está nos preocupando. Scott, por outro lado, se fez o lado sério dessa felicidade personificada, o lado pensante, e que por isso, por pensar o mundo, por pensar o sistema de educação, por pensar os perigos que os outros sempre oferecem, é mal-humorado, carrancudo, grosseiro. Mas isso não significa que Pauline não pense na vida, não reflita sobre ela, aliás, ela o faz o tempo todo. A diferença está em como os problemas podem ser encarados, como se não houvessem solução, ou como se a esperança de uma solução já fosse a própria resolução do problema.

15/04/09 16:59

11. Lisandro disse...

Fran,
Muito bom seu comentário. Hoje, nas aulas, dei ênfase ao filme. Ele é muito importante no momento. Ele tem uma "estrutura clássica" mas problematiza o tema e os personagens. E possui uma direção muito boa: Mike Leig é um grande cineasta. Meus alunos e eu não chegamos a nenhuma conclusão sobre o filme: Poppy é feliz? É atabalhoada? Finge ser o que é? É uma "bipolar", como afirmou um aluno? É alienada. Para mim é o exemplo de um bom filme: provoca indagações e não dá respostas prontas e previsíveis.


13. Renato Dantas disse...

Depois das discussões em sala de aula, não resisti e fui assistir a “Simplesmente Feliz”. Ao contrário de alguns outros alunos, não me senti sendo repelido, em algum nível, pelo filme e seus personagens. Ainda que a protagonista soe demasiadamente estranha ou deslocada de uma abordagem mais realista, sua felicidade me cativou. Lembrou-me o "Fabuloso Destino de Amélie Poulain": Poppy e Poulain compartilham uma maneira única de ver o mundo e de reagir aos acontecimentos deste. Suas semelhanças vão além: da improvável combinação de cores de suas vestimentas (que revelam traços indeléveis de suas personalidades) ao objetivo altruísta (ao menos aparentemente) de levar algo de felicidade a outrem.

Se eu digo que suas intenções aparentam altruísmo, é mais pelas suspeitas que recaem sobre Poppy do que pelo o que eu realmente penso. As discussões que cercam esse filme tendem a fixar-se na natureza demasiadamente feliz da personagem. Um estado de quase inabalável euforia destoa do que encontramos costumeiramente no cinema ou mesmo na vida. No entanto, recordo-me de uma ou duas pessoas que conseguiam o feito de extrair humor das situações mais improváveis. Talvez por isso, Poppy não tenha me parecido tão incrível.

De todo modo, como disse Eduardo Valente no texto publicado neste blog, os personagens, em algumas situações, mais parecem peões do diretor Leigh sendo guiados a fim de colocar em cena uma tese ou, ao menos, uma discussão. Ainda que o faça, Leigh deixa entrever a profundidade dramática da personagem quando esta se entrega a um momento de abalo emocional. Ora, Poppy não era, afinal, uma fonte inesgotável de euforia. Ela sabe reconhecer e dar valor às situações que exigem uma outra maneira de sentir; e sentiu-se triste, ainda que por pouco tempo.

Talvez o que o filme sugere é que a felicidade não pode ser mensurada ou restrita a perguntas como da sua natureza ou da sua real existência. Provavelmente felicidade simplesmente parta de critérios profundamente subjetivos. A ver, a írmã da protagonista, casada e grávida, revela-se muito mais insegura sobre seu estado emocional e sua vida do que Poppy, ainda que aquela esteja amparada pela segurança do "sonho americano". Penso que o que filme propõe é a possibilidade de uma outra maneira de se repousar o olhar sobre o mundo; ao invés de nos apavorar com o fato de a torre de Washington medir 666 metros, deveríamos ater nossa atenção e despender nossa preocupação apenas com o que realmente valha a pena. Ou talvez Poppy tenha me contagiado e eu esteja sendo muito otimista...

15/04/09 22:10

14. Lisandro disse...

Caros alunos,
Minha insistência rende frutos. Professor deve ser sempre "chato" com aluno e insistir muito: Renato acabou de postar um belo texto/análise sobre o filme "Simplesmente feliz". Parabéns!!
Que outros sigam seu exemplo.
ps- Renato, caso queira, poderá ser um bom crítico de cultura - não só de cinema. Está no caminho....
Lisandro

15/04/09 23:58

15. Fran disse...

Belo texto mesmo Renato. O que é mais engraçado de tudo isso, é que depois que saí da sala de cinema, toda e qualquer situação extrema que me encontro, me pergunto: como Pauline reagiria agora? Com certeza fazendo mais uma das piadinhas e brincadeiras...por isso, penso que o filme realmente atingiu algum objetivo, pelo menos em mim, seja lá intencional ou não. Penso também, que, por isso mesmo, este não é um filme passageiro, mas um dos poucos que realmente conseguem mudar um pouco nossa bagagem pessoal, a qual já está pronta ao entrar na sala de cinema, uma bagagem cheia de impressões e visões de mundo que podem ou não concordar com o que o filme transmite, e podem ou não serem transformadas por esse conteúdo. Ao final de tudo, concordo com o que Renato diz, não se faz impossível a existência de pessoas que levam a vida um "pouco menos a sério", sem essa total necessidade de sentir sofrimento e angústia pelo simples fato de ter que viver, como a maioria.

16/04/09 14:53

17. Cleuza Dias disse...

O filme é muito bom mas tem momentos chatos demais. Gosto mais de Segredos e Mentiras. A atriz é genial.

17/04/09 16:02

18. Minia Gomes disse...

Questões sobre o texto "O olhar domesticado".

- O levar ao choro não é hoje uma estratégia interessante de envolvimento, visto que enquanto indústria dos sonhos, o cinema vende emoções que no corre corre da pós-modernaidade dificulta até a expressão dos sentimentos. Nesse caso a narrativa se mantém por uma questão de lucro, ou porque é realmente mais interessante ao cinema manter uma narrativa que ja se consagrou?
- Percebendo essa tendência brasileira e notando que os índices de lucro do cinema nacional tem aumentado significativamente já que a tendência é sairmos dos apoios estatais e conseguirmos o mercado, dá pra dizer que o esperado do cinema brasileiro era que ele se tornasse realmente uma industria dos alivios e espelhos da sociedade?
- A questão da psicopatia como resposta para os personagens não enquadrados é um lenitivo que a sociedade encontra para não peder seu refugio nas salas de cinema? Pensando assim isso vem sendo trazido para as novelas no caso da Yvone da novela das oito, onde seria impossivel a alguém ser tão ruim, portanto a melhor resposta está em dar a eles a alcunha de psicopata?
- A questão Gosto não se dicute dá pano pra manga. Pelo jeito vc. acha que goste se discute sim, então o que se dicutir no gosto? O ato de gostar, ou a lente, o recorte que se usa para definir esse gosto?
-Concordo contigo na análise do filme sete vidas. Realmente não problematiza, não mostra soluções, vitimiza um Will smith louco por tirar o estigma de ator de ação ou comédia (porque oscar só pra quem chora e faz chorar). Mas ainda fico comigo na questão PORQUE essa necessidade de fazer chorar? Sai mais barato ir ao cinema colocar as emoções pra fora no escurinho que pagar um analista? Essa é a razão do sucesso do melodrama, fuga pessoal?
- Ainda num tá claro pra mim o que vc. denomina gosto melhor. O cult não é gosto melhor, o Hollywodiano também não... filme de arte não pode entrar na dicussão porque esse é pra quem gosta mesmo. Gosto melhor seria então busca por adensamento? E se a pessoa não quiser ser densa, quiser apenas ser visual, ela não tem gosto?


- Defina melhor iamginação melodramática

17/04/09 17:17

19. Minia Gomes disse...

Sempre me pergunto porque o ser humano tem perguntas que nunca esquece, principalmente porque talvez nunca irá encontrar uma resposta que seja realmente aceitável. Quem é deus?, Porque jovens morrem? O que é felicidade?
Nós seres extremamente rebelados contra o tal destino, buscamos avidamente uma resposta racional, ao que a meu ver, a razão não abarca.
Por sugestão de um professor assisiti na segunda um filme de Mike Leigh, um cineasta que gosta de discutir o cotidiano ( mais um humano revoltado). Até então era desconhecido pra mim, porque fora Sir Alfred Joseph Hitchcock, nunca tive muita empatia com cineastas ingleses. E aparentemente mantenho a opinião.

Simplemente Feliz, é um filme, meio água com açucar que tem poucos pontos altos. A discussão batida do que venha ser felicidade torna o filme massante ( veja bem eu achei, tem gente que conseguiu até fazer reflexão de vida com ele). Poppy a persoagem principal vivida pela atriz Sally Hawckins é uma trintona com complexo de peter pan que faz uns péssimos trocadilhos na intenção de dizer que está sempre muito bem humorada. Inevitavelmente não pude deixar de lembrar da música do Oswaldo Montenegro que diz: " Ah todo chato é bonzinho, não como evitar, todo chato é calminho, como se faltasse sal... Ah todo chato te conta aonde passou o natal e sempre te dá uma dica de onde ir no carnaval" . O Filme é uma sequência sem graça de diálogos-monólogos ( é isso mesmo, parece que sempre os personagens estão falando consigo ) onde a melhor cena é a dela com o mendigo. Cena fantástica, talvez uma das poucas que fez o filme assistível. Quase não há falas, mas no silencio dos personagens e na repetição do diálogo há uma circularidade na comunicação onde ambos se entendem e nós que vemos o filme entendemos mais ainda.
Li em uma crítica que o tema proposto por Leigh é claro e límpido. Não acho. Pra mim ele usa uma lente idiossincrática muito forte na construção de Poppy. Ele diz ainda em outra entrevista que Poppy é um espirito livre , e a pergunta é livre de que? Que concepção de liberdade é essa? Porque ela está fora dos tais padrões ela é livre? E a prisão que ela constroi ao redor de si, ao criar um mundo a parte onde ela nega pra si a realidade presente em seu cotidiano. Poppy apenas se eximiu de lidar com suas próprias limitações enquanto ser humano. Não há equilíbrio em Poppy, portanto ela apenas é o espelho dos outros personagens com quem ela é comparada.

O Filme creio, não deveria tratar de felicidade mais sim de percepção do outro. Talvez a única coisa interessante na mal vestida Poppy, seja o fantástico senso do outro que ela tem. E penso que ser for para discutir a tal pergunta filosófica : O que é Felicidade? Então creio que devia-se partir dessa percepção do outro que Leigh apresenta. Nem imagino se essa era a real intenção dele (só vendo outro filme pra saber), mas buscar na existência do outro o entendimento da própria felicidade, creio, seja o melhor caminho. Impossivel entender felicidade cultivando o egoismo e o orgulho. Assim nossa garotona do filme quando deixa de lado seu mundo de flores de papel, talvez enxergue bem o que é ser feliz e nós espectadores também.

17/04/09 17:20

20. Pedro Vinitz disse...

Pessoal,
os textos da Francielly e do Renato estão bons demais. Parabéns!! Mas faltou comentar a música do filme.Eu fiquei torcendo para ter alguma coisa dos Beatles na trilha. Pena!! Penny Lane pegaria bem assim como algumas coisas do Paul. (Pedro)

17/04/09 23:37

21. Thiago Lopes disse...

“Dizem que sou louca por pensar assim
Se sou muito louca por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz que não é feliz
Não é feliz”
(Balada do Louco – Rita Lee)


Ao me deparar com Poppy pela primeira vez tive a inquietante sensação de estar diante de alguém irritantemente feliz, efusiva ao extremo, o que foi se transformando no decorrer do filme. A personagem conseguiu me cativar aos poucos, extraindo-me sorrisos tímidos que foram gradativamente se tornando gratuitos. Poppy, ou Pauline, é mostrada como uma alegoria para a Felicidade, o que é pretensioso de se dizer, pois a felicidade não é algo que se define. No entanto, é fácil de perceber quando vemos alguém feliz, e “ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade” disse Carlos Drummond de Andrade certa vez. Assim, Poppy com seus sorrisos e ironias saudáveis vai se relacionando com outros personagens que apresentam características particulares como a sensatez, o pessimismo, a descrença e tentando cativá-los também com sua alegria.

No início do filme vemos Poppy, uma garota com roupas um tanto excêntricas e com um ar etéreo no rosto, entrar numa livraria e parar diante de um livro, “O Caminho para a Realidade”, e recusá-lo dizendo “Não quero ir pra lá” e posteriormente começar a ler trechos de outro, chamado “O Reino do Sol”. Aqui percebemos que a Felicidade não exige um estado de Realidade, que é preciso ter um pouco de fantasia para se deliciar num mundo onde o real pode ser feio e sem graça. Após sair da livraria ela percebe que sua bicicleta foi roubada, e ao contrário do que muitos de nós faríamos (pronunciar nomes tão feios e deixar a raiva nos consumir) ela apenas solta uma de suas ironias (“E eu nem tive a chance de me despedir dela”) e tira da situação um objetivo novo, o qual o filme se desenrola, Poppy decide que está na hora de aprender a dirigir.

Seu instrutor de direção, Scott é de um humor completamente oposto, sério, arrogante e mal-humorado. Enxerga as peripécias de Poppy como bobagens, brincadeiras estúpidas que não são apropriadas para ela. Com o desenrolar das aulas, Scott passa a questionar Poppy também, como se ela estivesse ganhando a confiança dele aos poucos. Nas muitas conversas que se seguem, ele diz que acordou para a vida há muito tempo e questiona Poppy “Olhe a sua volta, o que você vê? Você vê felicidade? Vê uma política de levar felicidade as pessoas? Não. Não. Você vê ignorância e medo”, aqui vemos a lente pela qual Scott enxerga o mundo, com descrença, criando muros a sua volta que o impedem de aproveitar as pequenas coisas. Poppy apenas lança um olhar de pena e ao sair do carro lhe dá um conselho: “Alegre-se!”. Apesar do conselho dado, Poppy fica pensativa sobre o que ouviu, mas não se importa tanto assim.

Mais adiante, temos uma sequência bastante metafórica do filme, ainda pensativa Poppy desvia de seu caminho e mergulha em uma atmosfera diferente, encontrando um mendigo, um louco. A alegoria aqui explícita é o encontro entre a Felicidade e a Loucura, Leigh consegue mostrar um limiar entre os dois, o quão próximo um pode estar do outro e a parte cômica, um entende o outro. Na letra da música “Balada do louco” de Rita Lee, citada no início do texto, é possível compreender essa relação. Ele deixa claro que os dois têm muito em comum, mas são distintos, fato mostrado quando Poppy e o louco se despedem seguindo por caminhos opostos.

Ao visitar sua irmã, Helen, Poppy nos apresenta outra personagem que é extremamente ligada à realidade. A sensatez e seriedade de Helen conseguem ser desconcertante, o que é percebido na expressão de seu marido. Helen diz a Poppy que ela precisa ver a vida com seriedade e que quer vê-la feliz. Poppy rebate dizendo que é feliz e que adora seu estado de liberdade. Isso irrita sua irmã, que apesar de seguir todas as regras se mostra insegura em relação a seu futuro, como se a felicidade de Poppy fosse algo insustentável para ela.

Em um trecho do filme, Poppy conhece um cara com um humor leve como o seu e tão otimista quanto. Eles se relacionam o que provoca ciúmes em Scott que deixa claro suas emoções. Neste momento há um clímax no filme, que é a discussão entre Poppy e Scott. Voltamos a idéia da alegoria se analisarmos o discurso de Scott, que em fúria diz: “Você quer que o mundo gire a sua volta, você me seduziu, você me envolveu e mentiu pra mim. Por quê? Porque você quer ser adorada”. Como se ele, que antes não sabia o que era a felicidade, mas almejasse por ela, e ao conhecê-la e se envolver com ela, a visse escapulir por suas mãos. A sensação de perder antes mesmo de ganhar. Afinal é isso que todos queremos, desejamos a felicidade, nossas ações são em prol dela, nos deixamos seduzir por ela, mas sofremos quando ela acaba, não entendemos que a felicidade é um estado passageiro. Poppy apenas responde: “Eu só queria te fazer feliz”.

Poppy no fundo é apenas um ser humano como todos os outros, mas com o diferencial de aceitar a felicidade como uma possibilidade de estado humano, como nos disse Eduardo Valente. Em alguns poucos momentos do filme, presenciamos situações as quais certamente nos deixariam tristes, mas Poppy escolheu pensar, vendo que poderia se deixar tombar ou poderia escolher sorrir e assim o fez. Por fim, saímos da sala de cinema sem saber definir o que é a felicidade, mas com a vontade de continuar buscá-la, sendo cativados pela felicidade da personagem com um sorriso tímido no rosto.

O filme segue uma estrutura clássica, retratando uma suavidade de apresentar os fatos e cenários simples e comuns. No entanto, Mike Leigh brinca nesse processo de construção utilizado os personagens, principalmente Poppy e Scott que são extremos, como se fizesse uma crítica discreta ao naturalismo comum. Ele nos faz levantar dúvidas sobre o que se passa na tela, não é apenas uma realidade estática e imutável. Nos faz pensar a respeito da felicidade, o quão atingível ela pode ser, se queremos admiti-la em nossas vidas ou declarar que de fato não a temos. A fotografia do filme foi tão bem colocada como a trilha, que acentua as emoções ao longo das cenas.

19/04/09 16:00

22. Lisandro disse...

Olá Thiago,
Seu comentário ficou bom. Mas discuti-lo em sala de aula.

20/04/09 11:19

23. Caroline disse...

Assisti o filme hoje a tarde e confesso que ainda estou digerindo minhas impressões. Logo nos primeiros 20 minutos pensei 'Se eu conhecesse alguém como a Poppy não conseguiria conviver com ela nem por um dia!'
Me incomodou aquela felicidade (a meu ver totalmente forçada propositalmente), as cores berrantes por todos os lados, a diminuição de problemas que deveriam ser mais discutidos (como o caso do menino que aparentemente sofria abusos do namorado da mãe).
Mas tudo isso são só impressões iniciais...
Parabéns a todos pela discussão e pelo que parece ainda há muito a ser falado sobre este filme.
Obrigada.

20/04/09 23:38

24. Bruno Abdala disse...

Tive a mesma sensação de um colega, que em sala de aula, afirmou não ter conseguido "adentrar" o personagem principal do filme Simplismente Feliz. Eu também me senti deslocado de sua história e, pricipalmente, de sua personalidade. Talvez tenha me identificado mais com os coadjuvantes, creditando a eles um certo egoismo de não aceitar Poppy da maneira como ela quer se mostrar, ou da maneira que ela realmente é. Talvez faço aqui um comentário de senso comum e não tão profundo como outros, mas a história me deixou crer que

21/04/09 21:13

25. Bruno Abdala disse...

Tive a mesma sensação de um colega, que em sala de aula, afirmou não ter conseguido "adentrar" o personagem principal do filme Simplismente Feliz. Eu também me senti deslocado de sua história e, pricipalmente, de sua personalidade. Talvez tenha me identificado mais com os coadjuvantes, creditando a eles um certo egoismo de não aceitar Poppy da maneira como ela quer se mostrar, (ou da forma como ela realmente é). Talvez faço aqui um comentário de senso comum e não tão profundo como outros, mas a história me deixou crer que somos nós os mais egoistas, e não Poppy, diferentemente do que comentaram alguns colegas na aula. É incrível como nós nos incomodamos com a vida alheia. Talvez não percebemos o prazer que sentimos quando alguém sofre, mas percebemos sim, um enorme desprazer quando alguém está o tempo todo feliz. Sentimos a necessidade do sofrimento alheio. Isso certamente é explicado por algum estudioso no assunto, que não ouso pesquisar agora, mas sem estudos teóricos, percebo com a minha própria prática.

21/04/09 21:22

26. Vívian Rodrigues disse...

O fato de Poppy demonstrar em todos os momentos sua felicidade extrema, um sentimento que deveria ser de admiração (afinal, não é isso que buscamos todo o tempo?) dá lugar a uma irritação imensa. Sua característica mais marcante, que é a felicidade, perde espaço para o egoísmo. É como se a personagem não se "desse ao luxo" de achar de algo ruim pode acontecer em sua vida. Ao meu ver, Poppy não quer ter uma opção para ser ou não ser feliz. Ela simplesmente escolheu essa forma de levar a vida e tenta fazer com que todas as pessoas ao seu redor façam também essa escolha.
A grande questão do filme, no entando, é instigar a forma com que as outras pessoas reagem convivendo com a Poppy. O relacionamento dela com o instrutor - Scott - evidencia a dificuldade dessa relação. Quando os dois começam a se encontrar com frequencia, nas aulas de direção, Scott deixa claro que o fato de Poppy não deixar que coisas ruins abalem sua vida faz dela uma mulher ingênua. Nesse momento, consegui me identificar com o instrutor, talvez com pena de Poppy, pena por ela não perceber que nem tudo é bom.
Em Simplesmente Feliz, Leigh promove uma confusão nas mentes que tentam decifrá-lo. Observando o desenrolar da história, me deparei com uma série de perguntas e dúvidas na qual as respostas eram outras perguntas. Existe felicidade? Poppy é feliz? A definição de felicidade para a personagem é a mesma da minha? E até onde vai essa felicidade? Talvez até a favela mais próxima, ou talvez eu ignore o que acontece ao meu lado e acredite em uma felicidade extrema. Enfim, é atrás dessa felicidade que estamos?

21/04/09 22:15

27. Lorena Gonçalves disse...

Ontem uma amiga comentou suscintamente: "Não assista a Simplesmente Feliz!". Como eu já havia assistido, perguntei o porquê da indignação. Ela me contou que o filme era ruim, que a personagem era idiota, e que a história era muito cansativa, não tinha "ação".

Então começamos a debater sobre a finalidade do filme, e encontramos uma intersecção de pensamentos. Superficialmente ela não havia percebido, mas após sair do cinema, as dúvidas propostas por Simplesmente Feliz pairavam sobre sua mente. O filme incomodou, trouxe reflexão exatamente pela falta de identificação com a personagem principal. Por isso o adjetivo "ruim". É uma forma de expressar como o filme não a fez sentir confortável.

22/04/09 21:49

28. Lisandro Nogueira disse...

Os comentários mais recentes: Thiago Lopes, Minia, Bruno Abdala, Dã Paranhos e Vivian estão bons e vamos debatê-los nas próximas aulas. Observem a diferença entre um filme "clássico" e o "Simplesmente feliz": há uma diferença enorme apesar da "estrutura clássica" utilizada pelo Mike Leigh. Vejam tb. dele "Segredos e mentiras" e "O segredo de Vera Drake".

23/04/09 09:37

29.Marina Muniz Mendes disse...

"criança pura, de olhar despreocupado e o rosto sonhador de maravilhas", essa definição da Alice, em Alice no país do espelho, se encaixa perfeitamento com a figura da Poppy, em Simplesmente Feliz. Ao assistir ao filme, não duvidei em nenhum momento de que a felicidade da protagonista fosse vazia, pelo contrário, se essa discussão não tivesse ocorrido na aula de "Olhar domesticado" eu nem pararia pra duvidar da felicidade dela. Ao assistir ao filme, em todos os momentos, eu aceitei entrar no faz-de-conta, não só do filme, mas no faz-de-conta da personagem, que ao meu ver é tão complexa que pode se confundir com boba. Não encontrei na Poppy uma personagem bem definida, construida sem conflitos internos ou características que podem ser facilmente definidas. Encontrei na Poppy (simplificando, para fins de discussão) uma personagem segura de si, e que apresenta um constante estado de bem-estar, mas que também vive, intensamente, momentos onde ocorre a quebra desse estado de bem estar. Poppy se construiu assim, ela quer ser feliz o tempo todo e consegue fazer isso de um jeito natural e nada forçado. Além disso, os momentos que levam a interrupção do seu estado de bem estar não levam contornou drásticos, que mudam seu modo de ver a vida ou sua rotina de vida, como o caso em que ela descobre que seu aluno sofre agressões do namorado da mãe. No cinema clássico hollywoodiano, esse fato não se daria desse jeito, afinal o estado inicial violado deve ser reestabelecido, mas essa busca pelo estado inicial modifica as personagens e é levado extremamente a sério, no sentido, de que "na vida real" isso não acontece. Poppy fica extremamente chateada com a questão da violência contra seu aluno, mas deixa que esse fato apodere da sua vida. Poppy está em constante mudança, mas costuma conservar a unidade do bem estar e felicidade, quando possível. Afinal, como diria Alice "Quem é que sou? Ah, essa é a grande charada"

23/04/09 16:30

30. amocadofigo disse...

Depois de finalmente ter assistido, aplaudo "Simplesmente Feliz".
Mas não por suas gracinhas, seu clima incômodo (para alguns) da felicidade do próximo. Mas, simplesmente por ter sido algo além do que eu esperava.
Após ter lido o texto de Eduardo Valente, pensei que o fato da protagonista ser extremamente feliz e de transpirar isso 24horas por dia sobre quem estivesse ao seu lado iria me irritar a ponto de arrepender de ter entrado na sala de cinema. Mas até que não. Ao contrário, gostei bastante do filme. A pegada crítica com relação a encarar a vida real, a violência, a educação foi ótima. Tão ótima que tira o ser feliz o tempo inteiro um pouco do foco.
Questionar a felicidade é muito pertinente, seja ela minha ou do outro. Talvez por isso, alguns mais que outros se incomodem com a felicidade da protagonista.
Para mim incomodou pouco. Às vezes, soava como forçada, um tanto meio bêbada-feliz, bêbada-cheia-de-querer-fazer-graça. E outras, apenas vínha-me à cabeça a imagem de Björk, de "Dançando no Escuro", mixada com a cantora Feist, no clipe "1234".
Poulain, Renato? Bem, acho que pouco. Penso que Poppy, mesmo com seu 'abobalhamento', é mais pé no chão que Poulain. Poppy sabe o que a rodeia, perfeitamente, mas na maioria das vezes ignora através da "felicidade" . Apenas quando a "realidade" invade suas percepções de um mundo colorido - a (visual e muda) briga entre dois alunos na escola, o cantar do mendigo que fura a noite silenciosa, ou o instrutor que agride fisicamente e verbalmente Poppy.
Sobre as opiniões aqui registradas, as que definitivamente não concordei foram sobre o figurino.
As roupas de Poppy tem, além do ar alegre, um ar vintage com pegada fashion. Não vejo como improváveis e nem como mal vestida. Nada fora das passarelas, de revistas ou da vida de artistas famosos. Apenas, fora das convenções, do tradicional e das ruas brasileiras, com exceções.
Tirando isso, concordo com Renato sobre a quantidade de risadas, contadas nos dedos, que Poppy consegue arrancar (percebi no público ao meu redor), mesmo que isso não seja a intenção do cineasta. *com exceção de um grupo de amigas que entraram no melodrama de cabeça e de mãos dadas, quase como em Thelma e Louise.
Concordo com Eduardo Valente ao destacar as relações de Poppy com outros personagens de forma mais curta, como o vendedor da loja de livros, o mendigo, a irmã grávida e seu marido, as aulas de flamenco, e claro, (destaque meu) o aluno de Poppy que se mete em brigas na escola. Nessas, a reflexão e o riso, em diferentes níveis (com exceção do aluno de Poppy), fizeram a diferença, tornando a "felicidade inabalável" uma firulinha (feliz) para desenvolver o filme. O melhor, definitivamente, fica por conta de outras situações que não envolvem o riso ou a áurea de felicidade.
Alguns pontos...
- Será que só eu que percebi um riso de canto de boca de Scott em alguns momentos que Poppy desenfreava em "jogar flores" sobre o instrutor para ver se ele se soltava? Cheguei a pensar que nesses momentos Scott ia soltar uma gaitada, como diria minha mãe. hehehehhe
- A cena do mendigo também foi para mim a melhor (Mínia). O subjetivo no olhar e nas poucas palavras tecem um pouco de poesia ao filme e abrem portas/janelas/frestas para maiores questionamentos.
- “Percepção do outro” iria entregar o filme, mas seria uma alternativa para a "tradução livre" do título do filme em português e quem sabe, até para o inglês (Mínia).
abraços, Lisandro!

24/04/09 00:49

31. Ana disse...

Estava lendo o comentário da Siuzete e preciso concordar com ela. "Simplesmente Feliz" nos leva a questionar nossa própria felicidade. Ou até mesmo os nossos momentos de infelicidade, muitas vezes definidos pela sociedade. Por que ver uma pessoa "simplesmente feliz" é vista como louca? Se achamos graça em tudo que vemos, se tentamos levar a vida tentando ser felizes ao extremo, seremos taxados de loucos, talvez até mesmo internados.
Quanto à felicidade de Poppy, acredito que ela seja sim, infeliz. Bem lá no fundo, ela é infeliz, ela sofre, ela tem problemas, claro, como todos nós temos. Mas ela tenta passar por cima desses problema e dessa infelicidade, não demonstrar o que realmente sente, e tentar ser feliz. Para se proteger de sofrimentos maiores e para proteger também as pessoas ao seu redor. Por se preocupar com essas pessoas, Poppy quer mostrar pra elas um mundo que talvez só exista em sua imaginação: a felicidade existe sim. Ou talvez não... talvez esse mundo esteja aí para todos nós... e nós é que somos cegos o suficiente para vê-lo. (Ana Carolina)

Sibelle disse...

É tão bom reencontrá-lo professor! Inspirador os textos.

=)

Polly disse...

Fico impressionada e bastante feliz com a qualidade desse Blog. E mais entusiasmada ainda com as calorosas discussoes que ultrapassam qualquer nivel. E ainda saber q isso ocorre em Goiania(é de sorrir por meses) , Ja li citado por aqui,(nos comentarios) Zizek, Foucault. UAUUU!!!

Lisandro disse...

Olá Sibelle: você foi minha aluna no segundo grau? que bom!! apareça sempre por aqui.

Lisandro Nogueira disse...

Olá Polly,
O blog é para isso mesmo: discutir coisas boas e importantes. A linha principal é o cinema. Mas sempre abordamos outros assuntos. Apareça sempre!!!

Lisandro Nogueira disse...

Olá Polly,
O blog é para isso mesmo: discutir coisas boas e importantes. A linha principal é o cinema. Mas sempre abordamos outros assuntos. Apareça sempre!!!

José Teixeira Neto disse...

Prezado Lisandro, esta mensagem é para dizer algo que está comigo há muitos meses. Não fique chateado, não é nada pessoal. É só uma proposta de discussão, mas parte de algo que sinto e lhe digo com toda a sinceridade. Você referiu-se à "narrativa clássica que domestica o olhar do espectador", que Leigh domina. Pois bem, o meu olhar, que assiste a filmes hollywoodianos (ou que seguem seus parâmetros) de modo acrítico (escolho quando quero ser crítico; a crítica não é como uma secreção corporal, como uma lágrima, que sai sem querer) há pelo menos 52 anos é tão domesticado, portanto, quanto o de um cãozinho que se finge de morto para o seu dono sobre o tapete da sala...
Lisandro, esse conceito de "domesticação do olhar" é muito, muito, muito problemático. Não sei se vale a pena insistir com ele!

Anônimo disse...

Olá José Teixeira,
Certamente é um conceito problemático. E você tem razão: no texto ele ficou "peremptório". E o filme você viu? Gostou? Mike Leigh é um cineasta que vale a pena. Viu "Segredo de Vera Drake" e "Segredos e mentiras"? (lisandro)

José Teixeira Neto disse...

Lisandro, dada a dificuldade econômica por que passo, tenho ido bem pouco ao cinema (vejo alguma coisa na TV). Por isso, fico devendo um olhar à produção mais up-to-date. Sem condições de consumir cinema, contento-me em tentar discutir conceitos...

Ana disse...

Estava lendo o comentário da Siuzete e preciso concordar com ela. "Simplesmente Feliz" nos leva a questionar nossa própria felicidade. Ou até mesmo os nossos momentos de infelicidade, muitas vezes definidos pela sociedade. Por que ver uma pessoa "simplesmente feliz" é vista como louca? Se achamos graça em tudo que vemos, se tentamos levar a vida tentando ser felizes ao extremo, seremos taxados de loucos, talvez até mesmo internados.
Quanto à felicidade de Poppy, acredito que ela seja sim, infeliz. Bem lá no fundo, ela é infeliz, ela sofre, ela tem problemas, claro, como todos nós temos. Mas ela tenta passar por cima desses problema e dessa infelicidade, não demonstrar o que realmente sente, e tentar ser feliz. Para se proteger de sofrimentos maiores e para proteger também as pessoas ao seu redor. Por se preocupar com essas pessoas, Poppy quer mostrar pra elas um mundo que talvez só exista em sua imaginação: a felicidade existe sim. Ou talvez não... talvez esse mundo esteja aí para todos nós... e nós é que somos cegos o suficiente para vê-lo. (Ana Carolina)

Anônimo disse...

Pessoal,
O filme "Divã" é muito fraco. Que decepção!!! (Pedro)

Caroline disse...

Marcel Martin disse que "a maior parte dos filmes de qualidade são legíveis a vários níveis, segundo o grau de sensibilidade, de imaginação e de cultura do espectador". Não sei se por ignorância minha ou pela pouca qualidade de Divã, não há muito a se falar sobre este filme.
As personagens são superficiais, o roteiro fraco e a boa intenção da edição de fazer uma montagem original não convenceu. Totalmente o contrário de Simplesmente feliz que com seu roteiro original(não é por acaso que concorreu ao Oscar) e montagem pouco sofisticada alcançou plenamente a intenção de gerar uma reflexão sobre a felicidade.
As diferenças entre a estrutura dos filmes é clara, assim com a densidade das personagens.Enquanto Mercedes tem um final patético e apelativo, Poppy nos deixa sair do cinema sem responder as perguntas que surgem durante o filme.
Simplesmente feliz nos faz ter um riso nervoso, uma sensação de que alguma peça está perdida, e é a partir desta 'falta' e 'desamparo' que o filme nos provoca que procuramos aprofundar em sua análise.
Um sorriso totalmente oposto acontece em Divã que apesar dos momentos cômicos, usa de uma comédia tão superficial quanto suas personagens.
A 'fome cinematográfica' não é saciada em Divã, em pouco tempo o filme se apagará de nossas lembraças, ao contrário de Poppy que é uma personagem difícil de esquecer e que ao invés de trazer respostas, levanta questionamentos. Este é o grande diferencial entre os filmes: um nos oferece comida sólida, enquanto o outro apenas a famosa água com açucar. Tudo é dado a nós, não há espaço para nenhum tipo de problematização da mulher moderna. Não há dúvidas. Não há como completar o sentido de nada. Não há espaço para reflexão.
Assista Divã... só para no final perceber o exemplo perfeito de um 'filme-novela' com um melodrama adaptado, uma comédia fraca e personagens superficiais. Um filme que claramente poderia ser transformado em novela. É como alguém me disse uma vez é um filme "bom pra quem gosta".

Ana Carolina Deus disse...

Olá, professor Lisandro. Acabei de ver o filme Persona e não consegui esperar até quarta-feira pra comentá-lo.

Percebi que o filme não segue nenhum padrão clássico, como mostrado em sala de aula. As transições não são bem definidas, as cenas simplesmente pulam de uma para a outra. A personagem (Alma) fala para a câmera, uma vez diretamente, quando conta de sua vida com seu noivo, e depois quando conta a história de Elizabet e seu filho. O tempo não é definido, não se sabe quanto tempo passou. Existem alguns flash backs, pude notar, mas não se sabe ao certo o porquê de tais flash backs e quando as reais situações ocorreram. O final me deixou esperando por mais. Pensei até ser um erro no meu DVD. Não se sabe o que aconteceu com os personagens e o fim não é nada definido.

Quanto ao conteúdo do filme, faço agora uma análise de leiga. Penso que Elizabet e Alma são, na verdade, uma personagem só. Alma (ou Elizabet) tem dupla personalidade, e acredita ser a outra. Talvez por isso as duas sejam tão parecidas, fisica e psicologicamente. A loucura de Alma no decorrer do filme, quando ela acredita ver Elizabet e, principalmente, quando ela se encontra com o marido de Elizabet, me fizeram acreditar ainda mais nisso. A rejeição de Elizabet a seu filho pode ter feito com que ela quisesse uma outra vida, diferente da que tinha, e por isso criou todos os personagens à sua volta (seu noivo, a médica) e uma vida completamente diferente (uma enfermeira, cuja mãe também tinha sido enfermeira).

O filme não nos dá uma compreensão definida (Elizabet é louca? O que aconteceu com Alma?). Ele nos faz pensar as duas personagens e aproximar as duas, mesmo tão distantes à primeira vista. Uma enfermeira e uma atriz podem ter os mesmos tipos de doenças e fraquezas, por que não? Acredito que esse meu ponto de vista possa ser confirmado na cena em que o rosto das duas personagens se funde, quando Alma ameaça Elizabet com o que sabe de sua vida (ela não queria o filho que tinha). Gostaria de saber sua opinião sobre o filme, se possível.

Obrigada,

Ana Carolina.

Lisandro disse...

Olá Caroline:

O filme "Simplesmente feliz" é um exemplo daquilo que Bordwell afirma no seu livro "Figuras traçadas na luz": a direção de cena é fundamental para um filme tomar um rumo criativo. Penso que o mérito de Mike Leigh reside exatamente aí. Mike tem um estilo próprio - direção precisa dos atores calcada em um bom texto.

José Teixeira Neto disse...

Lisandro e demais participantes do blog, tenho de confessar que respondi de bate-pronto, sem ter lido direito a pergunta. Na verdade, assisti a dois filmes ("Segredos e mentiras", de 1996, e "Naked", de 1994) de Mike Leigh, e não gostei deles, nem da proposta social-realista neles concretizada. Com isso, Leigh ficou para mim como um cineasta não prioritário. Acho que só veria seu filme espontaneamente depois de ter visto outros dez filmes passando atualmente que despertam mais o meu interesse. Mas queria ouvir também alguma reflexão sobre a questão que formulei sobre a "domesticação do olhar": como fica o caso de uma pessoa "massacrada" durante 50 anos por filmes que domesticam pra valer o olhar, que, além disso, "abre a porta para o vampiro entrar" (como diz Rita Lee), ou seja, gosta do cinema hollywoodiano, não tem nada contra os gêneros e o melodrama etc., e que não é domesticada? Pois eu não considero que o meu olhar seja domesticado (nem selvagem...)

Anônimo disse...

Caro José Teixeira,
acho que as vezes todos nós abusamos de conceitos para simplificar as coisas para nós e para os outros. Concordo em parte com vc - no sentido lógico- já que chamar alguém de domestícado deveria implicar outro alguem `selvagem`(como vc falou).
De outro lado, não posso deixar de concordar com o Lisandro sobre um certo modo médio ou sem surpresa de se fazer cinema. Chamar isso de domésticado, é coisa do nosso amigo Lisandro, que gosta de polêmica.
Por exemplo, Sinédoque - Nova York, para mim é um filme não convencional, ou não domesticado em termos lisandreanos, porém, tenho certeza que para os teóricos do cinema isto não se aplica, já que a linguagem seria `domesticada`...
joao fantini

José Teixeira Neto disse...

Caro Fantini, gostei de suas ponderações: elas vão na direção, justamente, de fomentar uma reflexão sobre um conceito problemático. Confesso que, sempre que ouço o Lisandro falando no combate à domesticação do olhar, sinto como se estivesse diante de um grupo de poetas franceses vanguardistas, cultores aristocratizados de Mallarmé, na Paris do final do século XIX, fechados em um pequeno café (a tomar absinto...) e a lamentar a falta de gosto, a grosseria, a domesticação das massas, que se deliciam com os produtos da indústria cultural. Veja bem, eu não censuro esses vanguardistas: que eles defendam suas preferências culturais nos âmbitos mais adequados a esse discurso. O caso é que o professor Lisandro fala, aqui mesmo no blog e mais ainda na TV, a um público indiferenciado e, por que não dizer?, de massa. Por outro lado, vituperar a domesticação faz pensar que adoramos a selvageria (seria apenas o "bom selvagem" rousseauniano?).

Rodrigo Cássio disse...

Caro José Teixeira,
Eu não consigo entender o motivo pela qual o conceito de "olhar domesticado" parece-lhe tão problemático. A despeito de ele ser resultado de um tratado sistemático de teoria do cinema ou ser uma facilitação para que os efeitos do estabelecimento de um cinema convencional sejam compreendidos, a pertinência do que está representado no conceito é a mesma.
Você afirma que Lisandro usa o conceito quando se dirige às massas, e que isso é reprovável. Mas por qual razão?
A sua ideia de que os "vanguardistas" podem usar esses termos em seus círculos, mas não fora deles, parece-me muito equivocada. Um conceito é válido em relação ao contexto em que é usado, ou em relação àquilo que ele significa?
Da minha parte, entendo a "domesticação" como uma ironia. E acho bom que assim seja. Para além do domesticado, não está o selvagem, mas aquele que pode avaliar a sua condição de domesticado em uma perspectiva (auto)crítica, menos passiva. Logo, o conceito tem uma evidente função pedagógica. E isso é muito apropriado quando se trata de escrever "para as massas", você não acha?
Sobretudo, o que me faz discordar da sua posição é que ela parece defender, em última instância, um relativismo que, a meu veu, sufoca a crítica de cinema. É como se a vanguarda tivesse os seus filmes, as massas tivessem os seus filmes, e não se pudesse mais falar mais nisso. Cada um com o seu "direito" a gostar disso ou daquilo. Será que é por aí?

Thiago Lopes disse...

A idéia proposta pelo Lisandro acho que não é de combater o ''olhar domesticado'' e sim compreendê-lo, estar ciente de sua existência e desconstruí-lo. Afinal, se ele existe há tanto tempo ele tem seus méritos. A questão do gosto é pessoal, o que se discute aqui é o juízo estético. O filme pode ser ruim se considerar apenas os apectos de sua construção e no entanto tocar o espectador de uma forma descompromissada, pois ali estará cumprindo seu objetivo como filme, ou seja, atingir o público para o qual foi realizado. Não há essa diferenciação entre um olhar domesticado e um olhar selvagem, o termo domesticado se refere apenas a um senso comum, uma receita que deu certo. E um olhar não-domesticado não exige um 'olhar selvagem', apenas um olhar que consegue perceber os ingredientes dessa receita e consegue dosá-los criando novas receitas.

No caso de Simplesmente Feliz, Leigh consegue atingir diversos públicos (ou não) por trabalhar melhor a construção de seu filme. Já em Divã, acredito ser um filme que exige bem menos do expectador, mas que nem por isso perde seu valor. Ele segue os padrões do ''olhar domesticado'' gratificando o expectador. No entanto, podemos extrair de Divã pequenos trechos que nos deixam mergulhar em pensamentos mais profundos, mas que são mostrados apenas superficialmente. Talvez não por falta de foco do diretor, mas sim porque a intenção seja de mostrar essa profusão de idéias que circundam a própria personagem, superficializando-a. Mercedes se sente infeliz, mas não sabe bem o por quê, pois ela mesmo diz "Se eu estou infeliz, não é por falta de felicidade", diferentemente de Poppy que não deixa claro sua possível infelicidade, pois se expressa e reafirma o tempo todo em feliz. Os focos adotados nos dois filmes são diferentes, porém se esbarram em algumas facetas.

Pedro disse...

Pessoal,
Li no "Compreender o cinema". Para a maioria das pessoas Hollywood é sinônimo de cinema. Se é assim o "olhar domesticado" é vigente e verdadeiro. Nós não temos culpa porque só foi dado a oportunidade de ver um tipo só de cinema. O olhar fica mesmo domesticado. As escolas é que precisam ajudar a desdomesticar. No meu cursinho, me lembro, a gente era cada vez mais domesticado. Qualquer filme diferente logo diziam que era "coisa de bicha".

Marilia Andrade disse...

O Thiago tem razão. O prof. Lisandro não usa o conceito de olhar domesticado de forma fechada. Aliás, ele é bem aberto e sempre afirma a singularidade do espectador. Mas gostaria de voltar ao filme Simplesmente feliz: ele me fez lembrar que o cinema faz uma crônica do mundo. E desta forma ele afirma um estado de espirito poucas vezes visto no cinema nos últimos anos.

Anônimo disse...

"Divã" conquista a liderança na bilheteria dos cinemas no Brasil
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da Folha Online

A comédia "Divã", com Lília Cabral, conseguiu alcançar a liderança de arrecadação de bilheteria no Brasil no período que vai da última sexta-feira (24) até domingo (26), segundo o Filme B.
Divulgação
Lília Cabral e Reynaldo Gianecchini em cena do filme "Divã"; produção nacional conquistou o topo da arrecadação de bilheteria
Lília Cabral e Reynaldo Gianecchini em cena do filme "Divã"; produção nacional conquistou o topo da arrecadação de bilheteria

"Divã" arrecadou R$ 1,7 milhão no período. Na última semana, o longa-metragem ficou em segundo lugar no ranking.

"Velozes e Furiosos 4" ficou em segundo lugar com R$ 1,1 milhão, seguido de "Monstros vs Alienígenas", com R$ 920 mil.

O filme "Presságio" ficou em quarto lugar, com R$ 919 mil, seguido de "Eu Odeio o Dia dos Namorados", com R$ 650 mil.

Em sexto lugar está "Evocando Espíritos", com R$ 567,1 mil, em sétimo, "Anjos da Noite - A Rebelião", com R$ 545,3 mil, e em oitavo, "A Montanha Enfeitiçada", com R$ 380,2 mil.

"Eu te Amo, Cara", ficou na nona posição, com R$ 373 mil, e em décimo, "Ele Não Está Tão a Fim de Você", com R$ 366 mil.

José Teixeira Neto disse...

"Sabe, gente, é tanta coisa..."
(Gilberto Gil)

Tentando dar uma contribuição à reflexão sobre a ideia problemática (e, a meu ver, prejudicial) de "domesticação do olhar", divulgada pelo professor Lisandro Nogueira, queria dizer que somos todos, de 9 a 90 anos, queiramos ou não, filhos da modernidade, e, como tal, alimentados desde a infância com o material espiritual (mas não só) produzido na esteira do romantismo (belo e amplo tema de estudo...), vicejando a partir do final do século XVIII na França e Alemanha e do qual decorre tudo o que se conhece sob a rubrica de "moderno". Acresce a isso o fato de os mais velhos entre nós terem sofrido também as marcas da contracultura, avassalador movimento irracionalista que, com auxílio nos meios de comunicação de massa, impregnou muitos aspectos da cultura ocidental. Diante desse pano de fundo e desse "embasamento" (mais sentimental que teórico), existe uma grande dificuldade em pensar a questão da convenção. As convenções, não entendidas, passaram a ser abominadas e combatidas, como se vê, por exemplo, na luta incessante de Lisandro contra o emprego de estruturas melodramáticas no cinema (e até em atitudes pessoais, da vida), na desimportância atribuída aos gêneros e quaisquer outras fórmulas empregadas pela indústria, e por aqueles que pretendam alcançar parcelas do mercado, para tornar palatáveis seus produtos. Essa luta pode conduzir (e às vezes conduz de fato) à apologia do oposto disso tudo (daí a atitude vanguardista): o autoral, o experimental, o exótico, o doutrinal, o virulento, a erudição, o hermetismo. Com isso apenas se comprova a filiação romântica. E ignora-se que toda a história da arte e das outras produções culturais (que nos legou a esmagadora maioria das obras que hoje louvamos e que nos servem de parâmetros para julgar o que é arte) desde os egípcios até o final do século XVIII foi constituída com tudo o que os seres humanos fizeram obedecendo a convenções, preceitos e normas (as contribuíram, e muito, para o desenvolvimento das formas) ditados pelos sacerdotes, reis, patronos, mentores e os próprios artistas que se alçaram, em casos excepcionais (como o de Homero), ao papel de condutores de sociedades inteiras.

José Teixeira Neto disse...

Desculpe, gente...
Deixei passar um pequeno salto no penúltimo parágrafo: é (as QUAIS contribuíram, e muito, para o desenvolvimento das formas), e não (as contribuíram, e muito, para o desenvolvimento das formas).

Daniel Christino disse...

Zeca, concordo com muita coisa que você disse. Principalmente sobre o enraizamento da experiência estética na tradição e a paralaxe cognitiva que os movimento de vanguarda têm em relação a essa mesma tradição. Por isso, não consigo ver na expressão "domesticação do olhar" o viés negativo que você sublinha.

Eu sempre entendi a expressão como um apelo à qualificação da platéia. Um apelo à ampliação, pelo estudo inclusive da tradição, da experiência estética dos sujeitos. Se o Lisandro utiliza muitos exemplos do cinema de vanguarda brasileiro e internacional é porque a reflexão sobre a obra de arte cinematográfica é recente e quase toda circunscrita ao século XX. Ela já começa moderna, sem raízes firmes em outros movimentos artísticos, como o romantismo. O que você acha?

junior peixoto disse...

Assisti ao filme Simplesmente Feliz novamente e ainda me chamou muito a atenção a atuação do motorista Scott.


Mas, o que venho dizer é que apesar de o espaço aqui ser outro, gostaria de comentar sobre outros filmes que estão em cartaz. Aproveitei uma pausa no serviço e fiz um "mutirão" às salas de cinema da cidade, fui ver Velozes e Furiosos 4, Presságio, Ele Não Está Tão Afim de Você e Evocando Espíritos. Gostei muito de Presságio e Evocando Espíritos, filmes com trama envolvente e que deixam a plateia apreensiva. Velozes e Furiosos foi uma decepção, não conseguiu manter a boa marca do primeiro filme da série. Ele não está tão afim de você, a meu ver, é um filme bom para um fim de tarde ou para curtir um bom fim de semana. Contudo, ele traz as dúvidas e aventuras amorosas que convivemos no cotidiano. Os namoros de longa data que se desgastam com o tempo, o casamento que já não é mais o mar de rosas, a garota a procura do companheiro ideal. Enfim, quem nunca teve um "amor relâmpago" que termina antes de se desenvolver, ou quem nunca desejou outra(o) estando bem casado(a) ou bem namorado(a) e quem nunca viveu uma decepção, assim somos nós. Despeço-me e já estou me preparando para o próximo mutirão de filmes.



Ha!! E antes que eu me esqueça, ótimo filme "Hanna e suas irmãs" há muito tempo não assistia a um filme de Woody Allen.

Ótima aula essa no Cine UFG. O ser humano vivendo a sua maior angústia. O medo, a incerteza, a dúvida. Certamente a turma teve bons momentos de reflexão durante e após Hanna e suas irmãs.



Até a próxima e abraço a todos.

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Blog do Lisandro © Agosto - 2009 | Por Lorena Gonçalves
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