quinta-feira, 2 de julho de 2009

Michael Jackson: o estranho e o familiar.



Odiado pelo avesso


João Fantini*


Odiado pelo avesso, o astro pop representou como poucos a ambiguidade que sempre cercou os ídolos. Semblante do objeto de desejo, o ídolo representa não apenas o que se gostaria de ser ou ter, mas também seu avesso inconsciente: aquilo que nos falta e nos angustia.

Um dos alvos preferenciais do paranóicos clínicos e da paranóia geral, não raro terminam mortos por fãs ou massacrados pela mídia que procuram neles fantasmas que assombram a humanidade (o estuprador, o perverso, o estranho), epitomados na figura de alguém que tudo pode, que roubou o gozo de todos nós.

Nos moldes do pai da horda freudiano, Michael deve retornar totomizado, livre de todas a acusações, endeusado como vítima dos pecados de todos nós.


Esta é a lógica do sacrifício que mantém as sociedades unidas desde sempre: o sacrifício é tanto mais efetivo quanto mais o sacrificado é inocente. Que ele seja parte da sociedade, mas que seja também um excluído, compõem a figura do unheimlich (o estranho/familiar), protótipo dos santos e loucos aos quais os homens adoram de joelhos para garantir sua sanidade.

* João Fantini é
psicanalista, professor do curso de Psicologia da UFSCAR. É meu amigo desde 1980.

14 Comentários

Pedro disse...

Pessoal,
Sintético e sincero, João pegou na veia. O Jackson sobrevive nas músicas.

Mary disse...

João apenas falou do lado controvérso de Michael Jackson. Isso é apenas um detalhe da vida dele. O que vai sobreviver não serão as suas esquisitices mas o talento que é dificil achar no mundo da música atualmente.

Thomas Silva disse...

E a loucura da vaidade matou o Michael.
Dancei muito na voz deste compositor e dançarino. Salve salve Quincy Jones, seu pai artístico.
Don't Stop 'Til You Get Enough - http://www.youtube.com/watch?v=4_hz2am90Hk . Demais.

Maria Euci disse...

O breve texto mostra com lucidez a tragédia dos ídolos. Quem lembra de Lennon? É só ver aqui no Brasil o que aconteceu com Wilson Simonal. É só tragédia e sofrimento.

Michel deixa a obra. E também uma liçãod e vida para todos nós: dinheiro e fama trazem muitos problemas.

Candido Cesar disse...

Eu discordo de todos. O astro pop deu mostras de insanidade e irresponsabilidade. E mais: deu maus exemplos para os jovens. Se drogava com frequência e não conseguia resolver seus problemas com a sexualidade. Ele deu mostras de que o chamado mundo pós-moderno pifou de vez. Tenho pena da pessoa dele.
E as músicas eram também muito ruins.

Prof. Edigar da UEG disse...

Prof. Lisandro,

seu blog é bom e bastante informativo, com comentários bons e instrutivos. É pena que determinadas pessoas, como no comentário acima, não procuram estar em consonância elegante com o nível muito bom dos comentadores (muitos convidados de alto nível) e participantes do blog.
Podemos concordar e discordar, porém, com respeito e elegância.

Parabéns, professor, pela sua atitude democrática e de paciência.

Thomas Silva disse...

Sr. Candido Cesar,
Mau exemplo para os jovens do mundo pós-moderno é a hipocrisia em excesso. De geração em geração é ela, a hipocrisia, que perpetua o mal com l e o mau com u.
A obra não é extensa como a dos gênios (Tom, Chico, Cae, Gil, Djavan..), mas Michael Jackson e seus parceiros comporam belas canções, realmente nem todos têm que gostar.
Se ele se drogava (ilícitas) não sei, da sexualidade dele não sei. Por pedofilia foi julgado e absolvido. Recentemente garoto agora maior de idade confirma que foi obrigado pelos pais a mentir sobre abuso sexual.
Tenho pena dos hipócritas, do Michael não.
Viveu como deu e morreu em casa depois de ensaiar para fazer shows.
Insanidade e irresponsabilidade está com o senador Eduardo Azeredo que não pára de tentar voltar a censura por projeto lei da internet.

Rodrigo Cássio disse...

Olá,

Mais que gostar ou não de Michael Jackson, é importante pensar sobre o que ele significou para a cultura "pop", de mercado, na qual a minha geração foi criada (eu era criança nos anos 1980). E o texto do Fantini faz isso muito bem!

Inclusive, Fantini faz isso mostrando que MJ não pode ser tomado apenas como um bom ou mau exemplo, sob o risco de termos uma opinião simplista. O que envolve a identidade de MJ, assim como o seu lugar entre nós, tem muitas nuances e precisa ser melhor entendida.

Tacilda Aquino disse...

A vida particular do artista nunca me interessou. Sempre gostei e sempre gostarei de sua arte, que comecei a apreciar em The Wiz, a versão negra de O Magico de Oz, no qual Michael fazia o papel do Espantalho.

Lisandro Nogueira disse...

Amiga Tacilda,

Vi esse filme há muito tempo. Mas me recordo do Michael. Os artistas encarnam muitos dos nossos desejos e aflições. Não por acaso eles ficam sem saber separar o privado da representação. Preste bem atenção nas duas fotos. A mesma pessoa, personas diferentes...o trágico nos dois rostos.

Andréia disse...

Reconheço muita atualidade na figura do MJ, principalmente os conflitos: homem /mulher, negro/branco, genialidade/insanidade, rico/falido, imaculado/pedófilo (?), adulto/criança... O que tento fazer é conhecer como me relaciono com essa "síntese” que de tão humana é abstrata demais. Impossível enteder, se aproximar, quanto mais comunicar. A opção de comentar o que “fizemos/fazemos” com isso me parece um caminho fecundo, talvez o único: a “lógica do sacrifício”, “odiado pelo avesso”!! É mmmmmmmuito bommmmmm

Lisandro Nogueira disse...

Olá Andréia,

Gostei muito do seu comentário. E realmente João conseguiu uma síntese com esse "odiado pelo avesso".

Socorro Nogueira disse...

Prezado João,

Achei muito bom o que você escreveu. Todavia, o texto poderia ser menos hermético. Ficou um pouco abstrato.

Um grande abraço,

João Angelo Fantini disse...

É Socorro, vc tem razão, mas eu tenho minha razões também, e uma delas aprendi com Lacan: "Dar a entender demais é criar uma saída para a evitação (...) é fornecer um suplemento de Alhures para que eles se apressem a se achar".

Enfim, a ética do discurso psicanalítico hoje é contrapor ao universo infindável de saídas (falsas) oferecidas pelo capitalismo, o caminho para uma verdade do sujeito, responsabilidade dele e de mais ninguém.
Obrigado pelo puxão de orelha!
um abraço

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