terça-feira, 22 de setembro de 2009

O melodrama continua forte, segundo Ismail Xavier




Produção brasileira atual é "cinema-ONG"


Entrevista de Alcino Leite  com Ismail Xavier*


 
Os melhores livros sobre cinema são aqueles que nos ajudam a compreender não apenas as imagens em movimento, mas também o movimento da História nos próprios filmes. E é esse um dos principais méritos de "O Olhar e a Cena", de Ismail Xavier, lançado pela Cosac & Naify.


O livro tem duas partes. Na primeira, faz uma completa genealogia da manifestação do melodrama no cinema. Na segunda, examina uma vasta coleção de adaptações cinematográficas de peças de Nelson Rodrigues.


A seguir, Ismail Xavier, 62, fala do papel social do melodrama e do cinema brasileiro atual. "É um cinema-ONG", diz ele.


Folha - Por que o melodrama se impôs tanto ao cinema desde os primórdios dessa arte?



 
Ismail Xavier - O circuito cultural e o espaço do imaginário que o cinema passa a ocupar vêm substituir outras formas de entretenimento que já vinham do século 19, como o circo e o teatro popular. A indústria canalizou a produção cinematográfica para responder a uma demanda de grandes públicos.
A partir da Revolução Francesa e da Revolução Industrial, há a ruptura com uma sociedade de estamentos, em que se tem classes bastante estanques. Ocorre também o desenvolvimento do capitalismo, que cria uma instabilidade permanente. Num aspecto, o melodrama se engata nessa aceleração e, noutro, fornece balizas para que o espectador encontre um guia no plano da moralidade, um mundo que ainda tem espaço para reconciliações.


Folha - Como o sr. interpretaria o cinema brasileiro atual à luz de sua análise do melodrama?




 
Xavier - O cinema brasileiro tem hoje uma afinidade com aquilo que é o ideário das ONGs, é um cinema-ONG. Ele coloca os personagens nesta encruzilhada: ou eles encontram a arte ou vão para a violência, como em "Cidade de Deus". Claro que o cinema está fazendo isso porque a sociedade vive o mesmo processo. Não estou querendo cobrar que o cinema dê recados pedagogicamente simples numa situação como a nossa. Mas é interessante ver como as estruturas dramáticas estão muito mais ajustadas para expor mecanismos de expressão de projetos de vingança ou de uma saída a partir do assistencialismo do que de qualquer outra forma de encaminhamento das coisas.


* Entrevista concedia em fev. 2004 - Folha On Line.

8 Comentários

Elaine Camargo disse...

O professor Ismail Xavier é sempre lúcido. E gostei do "cinema-ong". Tem aí um certo preconceito de intelectual contra o cinema que faz sucesso? Tenho dúvida. O Ismail esclarece que é um cinema que veio para ficar.

Candido Cesar disse...

Esses intelectuais e as implicências costumeiras com o capitalismo. Ora, o capitalismo criou instabilidades permanentes? Eu respondo: o mundo sempre foi instável. Eu não entendo essa coisa de sempre colocar o capitalismo nas colocações. O melodrama é forte independente do capitalismo.

O mundo sempre foi complicado bem antes do capitalismo. O professor Ismail Xavier é bom e respeitado. Mas não pode entrar nessa de sempre culpar o capitalismo por tudo.
Candido Cesar

Edigar disse...

Quem disse que o melodrama e o capitalismo não caminham juntos? É só observar as religiões e seus pastores, as telenovelas sentimentalóides e tantos outros problemas nessa relação.

O professor Ismail disse tudo e mais um pouco.

Tatiana Cristina disse...

Apreciei muito o termo Cinema – Ong.

Cândido, o mundo sempre foi instável, as coisas mudam e sempre mudarão, eu também não gosto quando as pessoas colocam o capitalismo em tudo, acredito que é falta de argumento para responder mais claramente a uma questão, mas o Ismail foi feliz em relacionar o capitalismo ao melodrama.

Eu comprei o livro – O Olhar e a Cena – e ele me foi bastante revelador, não terminei de ler, mas até onde fui me ajudou a compreender muita coisa. O melodrama continua forte, pois segundo o livro ele é uma combinação de “sentimentalismo e prazer visual”, coisa que garante - e muito - um público fiel, e ansioso por distração, sendo então algo que tira as pessoas, por alguns minutos, da vida que lhes esgota diariamente.

No livro, página 85, 1º parágrafo, diz assim: “ao melodrama estaria reservada a organização de um mundo mais simples em que os projetos humanos parecem ter a vocação de chegar a termo, em que o sucesso é produto do mérito e da ajuda da Providência, ao passo que o fracasso resulta de uma conspiração exterior que isenta o sujeito de culpa e transforma-o em vítima radical”.

O sistema econômico vigente, nada mais é que isso, um mundo organizado – mesmo que mal dividido -, onde as pessoas buscam em tudo crescer e crescer cada vez mais, movidos por uma ambição infindável. E quando não são “bem sucedidas” o sistema lhe exclui, ainda pregando que devemos sempre lutar por alguma coisa o tempo todo.

A sociedade, mais do que nunca, hoje precisa de um guia, algo para lhe orinentar, por causa de toda essa instabilidade que sofremos o tempo todo. Somos assim, frutos de uma sociedade que nos oprimi ao mesmo tempo em que nos estimula, mas não nos orienta, como salientou Ismail.

Para concluir, digo que estou gostando do livro, e o indico sem pestanejar.

Elaine Camargo disse...

O livro "O olhar e a cena" é o mais completo para copreendermos as relações entre a sociedade e o espetáculo, ou seja, a força do cinema de Hollywood. Participei de uma mostra e teve uma palestra do professor Xavier. Em seguida, li seu livro, a parte que fala do Nelson Rodrigues, e fiquei bem posicionada quanto aos efeitos do melodrama na vida das pessoas.

Juliana Marton disse...

Gostei, especialmente, desse apontamento do professor Ismail. Sempre tive essa impressão de que o cinema brasileiro caminha nessa direção de melodrama de serviço. Pelo menos, aqueles cuja temática, como Cidade de Deus e Proibido Proibir, traz aspectos de debate.

Mas, o que sinto falta, senão em todos, pelo menos na maioria desses filmes, é de um apresentar de soluções. Claro! Bem sei que não é a isso que o cinema se propõe, mas a abrir o debate a sociedade. Entretanto, não vejo até que ponto esse debate ajuda em alguma coisa.

No mais, aprendi muito, do pouco que sei sobre cinema, lendo so textos que você (Lisandro) indicou em suas aulas de autoria do professor Ismail. É realmente, imperdível, pra quem quer entender o mínimo que seja, como é o meu caso.

Ah! Tomei a liberdade de citar uma parte da entrevista (com os devidos créditos) no texto que escrevi sobre Proibido Proibir e Juventude Transviada em meu blog.

Abraços,

Juliana.

Pedro disse...

Oi Juliana, aqui é o Pedro, do auxilio luxuoso do blog: deixa o endereço do seu blog para o pessoal acessar o seu texto.

Conheci o Ismail. Ele é bacana prá caramba, nem parece o professor convidado de Chicago, Sorbonne, Buenos Aires, Leeds. Fiquei de longe, só ouvindo. Pesquei essa: "O bom filme não é somente aquele que te emociona, mas aquele que te provoca". Ou seja, PROVOCA. Provoca inclusive ou até mesmo emoção. Mas tem que PROVOCAR alguma coisa. Uma coisa que faça com que você fiqque com ele na cabeça, girando, girando. Os melodramas são mais complicados do que a gente imagina.

Juliana Marton disse...

Oi, Pedro!

Ótima colocação do professor, hein. Concordo inteiramente. Por isso que hoje em dia, não tem muito mais essa de cinema moderno ou clássico, os dois estilos mesclam-se e surge o que chamamos de cinema contemporâneo. Este ainda tem muitos resquícios da narrativa clássica, mas absorveu muito desse cinema de poesia, que emociona, mas que intriga.

Acho isso extremamente fascinante. Mas, confesso, que um filme que consegue ME emocionar, também me choca, e muito. rs

O link do meu texto pra quem quiser acessar é esse: http://julianaever.blogspot.com/2009/09/relacao-classico-x-moderno.html

Abraços,

Juliana.

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