quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Cinema documentário: real ou real construído?



Documentário – A representação do real ou o novo real construído?


Simone Tuzzo*

Não é exagero dizer que a comunicação constrói a realidade. Num mundo todo permeado de comunicação, num mundo de sinais, num mundo todo teleinformatizado, a única realidade passa a ser a representação da realidade, um mundo simbólico, imaterial. Uma situação existe ou deixa de existir, à medida que é comunicada, veiculada. É por isso que a comunicação é duplamente poderosa: tanto porque pode criar realidades, quanto porque pode fazer com que elas deixem de existir pelo fato de serem silenciadas.


Nenhuma imagem é inocente. Mas nenhuma imagem, é claro, é culpada já que somos nós que, a partir dela, criamos nossos próprios constrangimentos. Além disso, como nenhuma representação visual é eficaz nela e por si mesma, o princípio de eficácia não deve ser procurado no olho humano, simples captador de raios luminosos, mas no cérebro que está por detrás. O olhar não é a retina. 


A imagem não é o olhar sob pontos de luz, sob a tinta no papel, a imagem é algo que se completa na mente humana, e todo indivíduo é carregado de valores, crenças, preconceitos e idéias. Há informações que  formam e outras que não formam um significado, não porque são problemáticas em si mesmas, mas porque, para além do criador de uma imagem há um receptor que deverá compreendê-la a partir dos valores que já possui no seu universo de interpretação. 


Vivemos em um mundo composto por 3 partes: O mundo real, que vivemos por meio do corpo; um mundo simbólico, que vivemos por meio da linguagem; e um mundo imaginário, que vivemos por meio de nossa fantasia. 


O mundo das imagens se define em dois domínios: O primeiro é o domínio das imagens como representações visuais, ou seja, a fotografia, o cinema, a TV, pinturas, gravuras etc. O segundo é o domínio imaterial das imagens em nossa mente. 


Entre quem produz uma imagem e o veículo utilizado pela sua propagação / difusão, há um ser humano, e é por isso que a lógica de recepção não é uma ciência exata. 


Autores como Baudrillard e Muniz Sodré sugerem que o mundo em que vivemos foi substituído por um mundo-cópia, no qual vivemos cercados por um simulacro. A cópia é uma imagem dotada de semelhança, o simulacro uma imagem sem semelhança. O simulacro nega tanto o original como a cópia, tanto o modelo como a reprodução. 


O que existe no filme documentário é uma representação do real. Mesmo com a intenção de se produzir uma imagem real e apresentá-la a partir da estética cinematográfica, causa nos personagens reais uma apropriação do modelo de ator e mesmo sendo ele mesmo, ele sempre apresentará aquilo que ele quer que seja passado, ou seja, sempre será um real com recorte e criação do próprio ator/real, muito mais do que o diretor do filme possa imaginar.
O documentário não fornece uma reprodução fiel da realidade, apesar de trazer imagens concretas. Ele é o resultado de pontos de vista de câmera, produtor, editor, efeitos, dramatização, sonoplastia, ingredientes que podem transformar uma realidade. A montagem é um elemento de extrema importância. Através dela é possível trocar, retirar, deslocar, redimensionar o tempo e o espaço, favorecendo uma possibilidade da verdade ser transformada em inverdade.


Diante disso, o cinema documentário pode ser considerado como uma fonte de pesquisa, como fonte de ensino de História? É comum pensarmos no filme documentário como uma expressão legítima do real. Isso é verdade, ou será que, neste caso, a verdade é somente uma das versões dos fatos?

* Simone Tuzzo é Relações Públicas, Doutora em Comunicação, professora do Curso de Relações Públicas da Universidade Federal de Goiás – UFG. simonetuzzo@hotmail.com

6 Comentários

Alfredo disse...

Não sei, não. Vou ler mais mas não sei se é bem por aí, não.

Anônimo disse...

Adorei o texto e como o outro já postado pela professora Simone neste Blog nos faz pensar, refletir... É tudo real nas minhas mentiras ou é tudo irreal mesmo sendo verdade?

Anônimo disse...

Adorei a idéia de que o olhar não é a retina mas a mente.
Realmente vemos muito mais com o cérebro do que com os olhos, pois nossos olhos podem nos enganar e acima de tudo precisamos de nossas experiências e valores para interpretar o que vemos.
A Profa. Simone novamente nos surpreende com suas idéias inovadoras.
Parabéns pra ela.

Leandro Felizolla disse...

Também concordo que o olhar não é a retina, mas a mente.
Também acho importante considerarmos a questão da realidade a partir dos documentários.
Muito louca a hipótese de que a verdade é somente uma versão dos fatos. Isso tem a ver com a idéia de que "quem conta a História é quem ganha a guerra"?

Jefferson Iuri disse...

Professora Simone Tuzzo! Bonito nome.
Belo texto.
Apaixonei.
Abraço

Tatiana Cristina disse...

Gostei do texto Professora!

Confesso que já tinha uma certa noção dessa teoria, e foi bom ler seu ponto de vista porque concordo plenamente com ele, e me esclareceu algumas dúvidas que tinha.

Realmente a verdade é construída, por isso devemos ter um olhar bem apurado para poder distinguir os fatos e posteriormente tirar conclusões.

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