terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Herondes Cezar para Lisandro Nogueira



Amigo Lisandro,

Desta vez acho que o Calligaris (texto abaixo) acertou. Atualmente, os filmes têm de ser exageradamente explícitos, porque já ninguém "perde tempo" tentando deduzir algum conteúdo subjacente, apenas sugerido pelas imagens ou diálogos. E ninguém tem a humildade de reconhecer qualidades em um filme que não se entrega fácil. Então, mesmo filmes interessantes como "Sangue Negro" e "Notas sobre um Escândalo" escancaram tudo para o espectador, inclusive com diálogos gritados sem nenhuma necessidade. 

Também, já ninguém tem paciência para acompanhar uma história que se constrói gradualmente, agregando elementos até culminar no grande clímax. Filmes como "Piaf - Um Hino ao Amor" e "Na Natureza Selvagem" avançam e recuam no tempo vezem sem-conta, tentando agradar a "espectadores" que não conseguem ter mais de 15 minutos de atenção. Isso, quando o filme não começa com a cena climática de explosão ou violência para, em seguida, explicar os motivos do que aconteceu. "Os Bons Companheiros", "Cassino" e "Conduta de Risco" são alguns exemplos.
A saída, pra mim, está no cinema antigo. E o que mais me encanta, hoje em dia, é o de Hollywood dos anos 1950.

Abraço grande e bom fim de semana.
Herondes*

* Herondes Cezar é membro fundador do Cineclube "Antonio das Mortes".







CONTARDO CALLIGARIS

Adultos infantilizados

A infantilização do consumidor é peça chave do espírito do capitalismo atual



D URANTE O feriado, nos cinemas, só dava "Lua Nova", de Chris Weitz, "2012", de Roland Emmerich, e "Os Fantasmas de Scrooge", de Robert Zemeckis. Claro, havia outros filmes, mas meio que perdidos na programação.

Imaginemos que você preferisse ler um romance e consultasse a lista dos mais vendidos. Você encontraria cinco títulos de Stephenie Meyer (a autora da saga de vampiros, cujo segundo volume inspira o filme "Lua Nova"), dois volumes dos "Diários do Vampiro", de L. J. Smith, e, no fim, "O Pequeno Príncipe".

Ora, assisti a "Os Fantasmas de Scrooge" (não perderia um filme de Zemeckis, o diretor de "Forrest Gump") e achei excelente; vi de óculos, em 3D, deleitando-me com a atmosfera encantada: como disse uma menina, nevava na sala de cinema. Não vi "Lua Nova", mas gosto da saga de Meyer, sobre a qual escrevi nesta coluna, assim como escrevi sobre o primeiro filme da série, "Crepúsculo". Além disso, aposto que me divertiria com a fantasia catastrófica de "2012"; Emmerich já me divertiu com "Independence Day". Enfim, tenho uma lembrança comovida de "O Pequeno Príncipe".

Então, por que me queixaria dessa preponderância de filmes e livros obviamente infantojuvenis? Não me queixo, apenas constato: nas salas de cinema ou nas livrarias, aparentemente, os adultos devem ser uma pequena minoria, com a exceção, é claro, dos que acompanham suas crianças ou as presenteiam com livros. Estou sendo irônico: é claro que os grandes consumidores de filmes e livros infantojuvenis só podem ser os adultos.
Domingo, um amigo editor me explicava, justamente, que o filé mignon atual são os "crossovers", ou seja, as obras que "atravessam", que seduzem tanto as crianças quanto os adultos. O best-seller e o blockbuster ideais são histórias supostamente para crianças e adolescentes, mas capazes de conquistar os leitores e os espectadores adultos.

Se consultarmos a lista dos livros mais vendidos de não ficção, a conclusão é a mesma. Como assim? Os ensaios não são o domínio reservado e sisudo dos adultos? Artifício: o sucesso dos livros de autoajuda forçou os jornais a separá-los dos de não ficção, mas, de fato, os mais vendidos de não ficção são os livros de autoajuda. Ora, o texto de autoajuda se relaciona com o leitor como com alguém que precisa e prefere ser guiado, orientado, ajudado a pensar, decidir e agir, ou seja, relaciona-se com o leitor como com uma criança.

Pois bem, Benjamin Barber, no seu novo livro, "Consumido - Como o Mercado Corrompe Crianças, Infantiliza Adultos e Engole Cidadãos" (Record), apresenta a infantilização do consumidor não como um acidente cultural momentâneo, mas como a peça chave do espírito do capitalismo contemporâneo.
Barber é convincente e divertido: chegaram os "kidadults", os "criançultos". O drama do dia não é que as crianças sejam alvo do mercado, mas que o mercado esteja transformando os adultos em crianças.

Por que o mercado prefere lidar com "criançultos"? E o que nos predispõe a sermos infantilizados? Uma breve hipótese. Houve, sobretudo a partir da segunda metade do século 20, uma explosão de um tipo especial de amor dos pais pelos filhos, um amor feito de esperanças e expectativas monstruosas (as crianças serão o que quisemos e não conseguimos ser, nada lhes faltará). Esse tipo de amor parental cria consumidores ideais: por exemplo, indivíduos com pouquíssima tolerância à frustração (e alergia à própria ideia de que algo seja difícil ou, pior, impossível) e com uma imperiosa necessidade de satisfação imediata (e alergia a tudo o que posterga: preparação, estudo, reflexão, complexidade, poupança).

Alguém dirá: e daí, qual é o problema? Exemplo. João quer ser rapper na África do Sul e gasta, impulsivamente, o décimo terceiro da mãe na roupa certa para se parecer com seus ídolos. Para ser rapper na África do Sul, talvez fosse mais urgente que ele estudasse inglês seriamente. 


Mas essa observação poderia entristecer João. Melhor deixá-lo sonhar e confundir sua mascarada com o começo da realização de seu desejo; afinal, ele é feliz assim, não é? Pois é, suposição errada: quem cresce sem nunca se deparar com o impossível ou mesmo com o difícil, acaba, mais cedo mais tarde, vivendo no desespero. Por quê? Simples (como um filme para crianças): ele só consegue atribuir seus fracassos ao que lhe parece ser sua própria impotência.

* publicado na Folha de São Paulo em 26.11.2009

10 Comentários

Herondes Cesar disse...

Não sei se fico ao seu lado, Herondes. Mas sua carta mexeu comigo porque gosto dos filmes que você citou. Vou pensar mais e volto aqui.

Rodrigo Cássio disse...

Penso que Calligaris e Benjamin Barber (a julgar pelo que foi comentado sobre o livro dele, que ainda não li) assinalam bem a nossa experiência com as mercadorias culturais de hoje.

Contudo, a infantilização dos adultos não é algo próprio das últimas décadas; não é uma peculiaridade do capitalismo contemporâneo, a não ser que este contemporâneo esteja em um sentido bem lato. A explicação do Calligaris, nos últimos parágrafos, me parece apressada, e não aborda o problema em sua amplitude.

A infantilização é um processo que teve início junto com o século XX, e que agora se aprofunda. De fato, o público do cinema mais recente é majoritariamente jovem. Para os adultos, que não vão mais ao cinema, a infantilização se realiza em outra mídia: a TV (depois dos anos 1950, não é mais preciso sair de casa para se infantilizar). Ao cinema restaram os jovens como público-alvo.

Por isso, talvez, a existência dos criançultos de hoje seja o retorno programado dos adultos às salas de cinema. Já condicionados pelos muitos anos de intensa relação com a TV, eles podem agora desfrutar de bobagens como Lua Nova, sem se sentirem envergonhados. Sempre perspicaz, o mercado investe pesado nesses adultos-crianças, e os filmes e livros são lançados com estratégias de marketing que ressaltam a união de toda a família na frente das telas e portas de livrarias, consumindo, ansiosamente, best sellers e blockbusters que já não separam papai e mamãe do filhinho e da filhinha.

Por outro lado, concordo com a observação do Herondes. O cinema clássico de Hollywood, anos 30-50, obedecia a um ritmo menos frenético. Havia mais tempo para a cena, para o pensamento (claro que dentro dos limites deste cinema, que sempre foi narrativo e priorizou a ação). Na Hollywood contemporânea, há muito mais cortes e agilidade. Quem mostra isso bem, inclusive com estatísticas de análise fílmica, é o David Bordwell, em Figuras Traçadas na Luz (Editora Papirus).

Abraços!

Rodrigo Cássio disse...
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Rodrigo Cássio disse...
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Tatiana Cristina disse...

Gostei do texto do Calligari, e das observações que o Herondes fez.

Rodrigo Cássio, o que você disse também é mais do que certo. Aproveito também para te parabenizar pelo doutorado, não lhe conheço pessoalmente, mas mesmo assim o congratulo pois tenho certeza que merece e que se esforçou muito para chegar em tal fase.
Gosto e admiro sua posição em nossos debates virtuais.

Em relação aos filmes que tentam laçar o espectador logo no início, isso - segundo o livro O Cinema e a Invenção da Vida Moderna - se deve aos hiperestímulos aos quais todos nós somos submetidos todos os dias. Como por exemplo: poluição visual; out-doors em cada esquina que passamos, luminosos, placas, muitas cores. Poluição sonora; sons vindos de todos os lados, até os celulares tocam músicas em vez de toque de telefone, carros de som, música tocando no elevador, supermercado, consultório médico, no carro, no mp3.

Não ficamos 1 minuto sem ver ou ouvir algo, e quando chegamos no cinema, para que toda essa carga seja aliviada, precisamos ver um filme que nos provoque um momento catártico, ou seja, um filme que seja mais carregado de emoções do que o dia em que tivemos. Um filme cheio de imagens chocantes, cortes, trilhas sonoras impecáveis que nos extasiem o tempo todo. Se não for assim o filme não prende o público, pois tal espectador não suporta, e não consegue ficar diante de cenas calmas e que o levem a reflexão. Espero estar sendo clara, porque falo aqui de ciência, e não de gostos ou preferências. Sendo assim, a indústria cinematográfica percebendo isso entendeu que para cativar mais espectadores precisava tratar mais de imagens e sons, do que de boas histórias.

Sobre a infantilização dos adultos, aponto um fenômeno inverso: que é a “adultificação” – termo meu – das crianças. Que é o tratamento que os meios de comunicação dão as crianças, como se fossem adultos. Para que isso seja melhor entendido, cito abaixo um trecho do livro do Mauro Wilton – Sujeito o lado oculto do receptor – em que ele diz:

Podemos imaginar um corte de 15 minutos do tempo que uma criança passa diante da televisão. Ela está vendo, por exemplo, um desenho animado no qual há uma estranha forma de violência, os personagens se perseguem, se explodem, se matam, mas voltam a viver em seguida, é um a morte de brincadeirinha sem tragédia, uma morte engraçada – como a gente gostaria que a morte fosse. Reversível. Daí o desenho se interrompe e vem uma propaganda dizendo que, se a criança comer uma certa marca de biscoitos, vai virar a mais forte da turma, capaz de arrasar o quarteirão. Outro corte, e surge uma apresentadora de minissaia seduzindo criancinhas como se fossem miniadultos.

Afinal, em que mundo estamos vivendo, onde crianças são tratadas como adultas, e adultos como crianças? Onde vamos parar? Fora o comércio, qual seria o objetivo de tudo isso?
Precisamos pensar e refletir muito, sobre nossa posição na sociedade, e como criaremos ou criamos nossos filhos...

Herondes Cezar disse...

Quando redigi o e-mail em questão, nem em sonho imaginava que o meu mestre Lisandro veria nele algum interesse para debate. Aliás, e-mails a gente escreve sem maior reflexão ou cuidado, sobretudo os dirigidos aos amigos. Se têm algum mérito, é o de serem expressão da nossa sinceridade. Daí a minha boa surpresa de ver as lúcidas e embasadas reflexões de Rodrigo Cássio e Tatiana Cristina. Espero que o anônimo que usou meu nome lá em cima volte e traga uma contribuição igualmente enriquecedora.
Abraços

Candido Cesar disse...

Prezado Herondes, eu ainda não sei mexer direito com computador, tenho 64 anos, e coloquei seu nome em vez do meu. Eu comecei a gostar de cinema depois dos 50 anos. Aposentei e, como afirma o professor Lisandro, fui domesticado pelo cinema contemporâneo. Se possivel, indique filmes que você considera significativos dos anos 50. Sua carta mexeu comigo e quero resgatar um cinema que pode estar de alguma forma na minha memória.

Rodrigo Cássio disse...

Olá Tatiana,
Obrigado pelas palavras.
Um abraço!

Herondes Cezar disse...

Candido Cesar,
Além de meio xarás, somos da mesma geração. Se vc começou a ir ao cinema na adolescência como todo mundo, certamente viu muitos filmes dos anos 50. Eu comecei em 1958. Como vivia numa cidade pequena, os filmes chegavam lá, no mínimo, 3 anos após o lançamento no Brasil. Então, em 1958, estavam passando ainda filmes do início da década; e continuei vendo filmes dos anos 50 até 1963 ou mais. Os filmes de Hollywood daquela década eram, em geral, mais complexos e sofisticados que os de décadas anteriores, porque Hollywood passava então por grandes mudanças. Motivos: 1) o desmonte progressivo do sistema de estúdio; 2) a concorrência da TV; 3) a busca por temas mais adultos; 4) o esforço criativo de roteiristas e diretores para driblar o código de censura, ainda em vigor. Por isso costumo dizer que, dos anos 50, até os filmes ruins são bons.
Posso sugerir-lhe títulos de filmes da época, mas via e-mail - pois não acho este espaço o local adequado. Portanto, autorize o mestre Lisandro a fornecer-me o seu endereço eletrônico, para que continuemos o nosso diálogo.
Abraços

Candido Cesar disse...

Boa noite!! Herondes, vou enviar via professor Lisandro os meus contatos pessoais.
Agradeço usa gentileza em responder meus comentários.

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