sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Entrevista com Slavoj Zizek: "a vida é estúpida"


 Um intelectual instigante


Lisandro Nogueira*


 O filósofo Slavoj Zizek é um ícone no mundo intelectual contemporâneo. No Brasil, angariou seguidores e discípulos. Seu "marco teórico" é Jacques Lacan, o psicanalista francês. Com Lacan a tiracolo, ele dispara reflexões rápidas (algumas bem confusas) sobre política, cinema, filosofia e outros assuntos. O que me chama a atenção é sua figura ousada, corajosa e "mal comportada". Ele não tem medo e se expõe livremente. Nem parece um intelectual acadêmico tradicional. Sabe "manipular" a mídia e provoca seus interlocutores constantemente. Outra característica que me chama a atenção: conhece profundamente os filmes de Hollywood.

Quem o viu "ao vivo" na entrevista da TV Cultura (diponível no Youtube) pôde constatar a sua inteligência privilegiada e o variado leque de assuntos abordados em tão pouco tempo. Estou lendo seu livro recém lançado no Brasil: "Lacrimae Rerum - ensaios sobre cinema moderno" (editora Boitempo).  São cinco capítulos e um prefácio intitulado "Hollywood hoje: notícias de um front ideológico". Os capítulos: "A teologia materialista de Kiéslowski", "Alfredo Hitchcock ou haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", "Tarkovski ou a coisa vinda do espaço interior", "David Lynch ou a arte do sublime ridículo" e "Matrix ou os dois lados da pervesão".

São textos intrigantes. Como seu marco teórico é Lacan e o marxismo, ficamos sempre tomados por filiações conceituais complexas e, em alguns trechos, por uma escrita "confusa". Não é fácil ler Zizek. É mais fácil acompanhá-lo na TV ou em palestras "ao vivo", segundo meus amigos. Zizek seria um novo tipo de intelectual pós-moderno: escreve rápido, fala apressadamente, mistura conceitos distantes no tempo e espaço e ainda ocupa regularmente o espaço da mídia?

O blog Buda Verde postou uma entrevista dele publicada no jornal inglês The Guardian (4 de abril de 2009 - http: budaverde.blogspot.com). Rafhael do blog Buda Verde fez a tradução e, agora, republicamos para conhecermos essa interessante figura do mundo intelectual. Essa entrevista foi sugerida por um ex-aluno (Victor Arantes): ele a considera "estranha" ( uma das mais singulares que ele já leu tratando-se de um filósofo).

Não sabemos bem se Zizek brinca ou fala sério. De qualquer forma vamos acompanhar:

A ENTREVISTA


Slavoj Zizek, 59 anos, nasceu em Liubliana, Eslovênia. É professor do European Graduate School, diretor internacional do Birkbeck Institute for Humanities em Londres e pesquisador sênior do instituto de sociologia da Universidade de Liubliana. Tem mais de 30 livros publicados sobre vários temas como Hitchock, Lênin, 11 de setembro e também apresentou o programa de TV “The Pervert’s Guide to Cinema.

Quando você foi mais feliz?
Algumas vezes quando estou diante de um momento feliz ou lembro deles – quando nunca estão acontecendo.
Qual seu maior medo?
Despertar depois da morte – é por isso quero ser queimado imediatamente.
Qual sua lembrança de infância?
Minha mãe nua. Desagradável.
Qual a personalidade viva que você mais admira, e por quê?
Jean-Bertrand Aristide, o presidente do Haiti duas vezes deposto. Ele é um modelo do que pode ser feito para as pessoas, mesmo numa situação desesperada.
Qual característica sua que você mais lhe incomoda?
Indiferença aos dramas dos outros.
Qual a característica que você mais deplora nos outros?
Suas sensíveis prontidões em me oferecerem ajuda quando não preciso ou não quero.
Qual foi seu momento mais embaraçoso?
Estar nu na frente de uma mulher antes de fazer amor.
Além da propriedade aonde mora, qual é a coisa mais cara que você já comprou?
A nova edição alemã da obra completa de Hegel.
Qual é seu maior tesouro?
Veja na resposta anterior.
O que te deixa deprimido?
Ver pessoas estúpidas felizes.
O que mais lhe desagrada na sua aparência?
O que me faz parecer da maneira que eu realmente sou.
Qual é seu habito mais desagradável?
Os excessos ridículos de tiques das minhas mãos enquanto eu falo.
Qual fantasia escolheria vestir?
Uma máscara do meu rosto, para as pessoas pensarem que eu não sou eu mesmo, mas alguém pretendendo ser eu.
Qual é o prazer que o faz sentir-se mais culpado?
Assistir embaraçosamente filmes patéticos como A Noviça Rebelde.
O que você deve aos seus pais?
Nada, eu espero. Eu não lamento um minuto a mortes deles.
Para quem você mais pede desculpa, e porquê?
Para meus filhos, por não ser suficientemente bom pai.
Como é o sentimento do amor para você?
Como uma grande desgraça, um monstro parasita, um permanente estado de emergência onde qualquer ruína são pequenos prazeres.
O quê ou quem é o amor da sua vida?
Filosofia. Secretamente acho que existe um objetivo nela, então podemos especular sobre isto.
Qual é seu cheiro favorito?
Natureza em apodrecimento, como árvores em decomposição.
Alguma vez você disse ‘eu te amo’ sem querer dizer isso?
Toda vez. Quando realmente amo alguém, só posso mostrar tornando-me agressivo e fazendo observações de mal-gosto.
Qual(ou quais) pessoas vivas você mais deprecia, e porquê?
Médicos que assistem aos torturadores.
Qual é o pior trabalho que você já fez?
Ensino. Odeio estudantes, eles são (como todas as pessoas) na maior parte das vezes estúpidos e enfadonhos.
O quê tem sido sua maior frustração?
O que Alain Badiou chama de “desastre obscuro do século XX”: a falha catastrófica do comunismo.
Se você pudesse mudar seu passado, o quê mudaria?
Meu nascimento. Concordo com Sófocles: a maior sorte não é ter nascido – mas , como a piada prossegue, poucas pessoas tem sucesso nisso.
Se você pudesse voltar no tempo, aonde você iria?
Para Alemanha do começo do século XIX, e seguir o curso universitário com Hegel.
Como você relaxa?
Ouvindo repetidamente Wagner.
Quantas vezes você faz sexo?
Isto depende de qual o meio para o sexo. Se for a usual masturbação com o parceiro, eu tento não ter isto em tudo.
Quando foi o momento mais próximo da morte?
Quando tive um leve ataque cardíaco. Eu comecei a odiar meu corpo por se recusar a fazer seu dever de me servir cegamente.
Qual a única coisa que poderia melhorar sua qualidade de vida?
Evitar a senilidade.
O quê você considera seu maior sucesso?
Os capítulos onde desenvolvo o que eu acho que é uma boa interpretação de Hegel.
Qual é a mais importante lição que a vida te ensinou?
Que a vida é estúpida, coisa sem sentido que nada tem para te ensinar.
Conte-nos um segredo.
O comunismo irá vencer.

Livros publicados em português:
- Às portas da revolução. Ed. Boitempo.
- Bem vindo ao deserto do real! Ed. Boitempo.
- Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. Ed. Zahar.
- O mais sublime dis histéricos: Hegel com Lacan. Ed. Zahar.
- A visão em paralaxe. Ed. Boitempo.
- Um mapa da ideologia (org.). Ed. Contraponto.

3 Comentários

Polly disse...

Gostei de qdo ele fala que os estudantes são estúpidos e enfadonhos. Ri alto, de nervoso, questionando: Putz, será que eu sou tb?!
Alias, ri muito lendo essa entrevista. Muito boa.

Juliana Marton disse...

Ri muito também. Percebi que ele era doido quando assisti ao documentário que ele fez sobre o cinema. E, sem dúvida, essa foi a entrevista mais estranha que eu já li.

Até logo, Lisandro!

Anônimo disse...

“The Pervert’s Guide to Cinema” é um filme..até onde sei
Wolf Wanderer

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