domingo, 31 de janeiro de 2010

Cinema Novo e MPB....o samba quis dizer...eu sou o filme

 Cinema Novo e MPB


Lisandro Nogueira*


Em 1993, em plena aula de cinema com Ismail Xavier, um aluno lembrou de uma passagem do filme "Deus e o diabo na terra do sol" (Glauber Rocha - 1963) e a relacionou com uma música que havia sido lançada naquele mês. Em seguida, Ricardo Basbaum, músico e estudioso do cinema marginal, cantou um trecho dela para todos nós (depois Basbaum a tocou e cantou num show no Sesc da Vila Mariana).

No início dos anos 90, Caetano Veloso ainda era muito amado pela esquerda (e centro-esquerda) brasileira. Ninguém podia criticar o baiano nas rodas acadêmicas. Ele era celebrado por causa da sua postura independente, livre e solta. Hoje, apesar de continuar independente, livre e solto, é duramente criticado exatamente por ser o que ele sempre foi. Coisas do Brasil "nacionalista/provinciano".

O disco/CD "Tropicália 2", dele e de Gilberto Gil, fez enorme sucesso. Comemorava-se os 25 anos do movimento Tropicalista. A música que Basbaum cantou: "Cinema Novo" (letra abaixo).

A música é uma apaixonada homenagem ao cinema brasileiro dos anos 60/70. Caetano vai citando filmes e mais filmes. Filmes do Cinema Novo, do Cinema Marginal (Bressane, Sgarzela).  Conheço poucas homenagens ao cinema brasileiro tão sincera e bonita como essa.

Recordo-me que cantamos um trecho depois da aula, com Ismail Xavier, e todos nós, tecendo elogios e mais elogios ao  Caetano e sua música significativa para o cinema brasileiro. Hoje, não consigo pensar no Cinema Novo sem lembrar dessa música. Ela mostra o quanto de poesia há nesses filmes...

Como gosto muito  desses dois cinemas (Novo e Marginal), penso que cada vez mais eles permanecem em mim como compreensão do Brasil e como memória afetiva de alto quilate. Afinal, minha formação e de boa parte dos meus amigos, foi realizada debaixo das asas dos filmes brasileiros e da pulsante MPB. Considero um luxo e uma dádiva, ter nascido para ser educado e formado vendo e ouvindo filmes e músicas brasileiras.


 CINEMA NOVO

Caetano Veloso


O filme quis dizer "Eu sou o samba"
A voz do morro rasgou a tela do cinema
E começaram a se configurar
Visões das coisas grandes e pequenas
Que nos formaram e estão a nos formar

Todas e muitas: Deus e o diabo, vidas secas, os fuzis
Os cafajestes, o padre e a moça, a grande feira, o desafio
Outras conversas, outras conversas sobre os jeitos do Brasil
Outras conversas sobre os jeitos do Brasil

A bossa nova passou na prova
Nos salvou na dimensão da eternidade
Porém aqui embaixo "A vida mera metade de nada"
Nem morria nem enfrentava o problema
Pedia soluções e explicações
E foi por isso que as imagens do país desse cinema
Entraram nas palavras das canções
Entraram nas palavras das canções

Primeiro foram aquelas que explicavam
E a música parava pra pensar
Mas era tão bonito que parece
Que a gente nem queria reclamar
Depois foram as imagens que assombravam
E outras palavras já queriam se cantar

De ordem e desordem de loucura
De alma a meia-noite e de indústria
E a Terra entrou em transe
E no sertão de Ipanema
Em transe é, no mar de monte santo
E a luz do nosso canto e as vozes do poema
Necessitaram transformar-se tanto
Que o samba quis dizer...

O samba quis dizer: eu sou cinema
O samba quis dizer: eu sou cinema
Aí o anjo nasceu, veio o bandido meterorango
Hitler terceiro mundo, sem essa aranha, fome de amor
E o filme disse: Eu quero ser poema
Ou mais: Quero ser filme e filme-filme
Acossado no limite da garganta do diabo
Voltar a Atlântida e ultrapassar o eclipse
Matar o ovo e ver a vera cruz

E o samba agora diz: Eu sou a luz
Da lira do delírio, da alforria de Xica
De toda a nudez de índia
De flor de macabéia, de asa branca
Meu nome é Stelinha é Inocência
Meu nome é Orson Antonio Vieira conselheiro de pixote
Superoutro

Quero ser velho de novo eterno, quero ser novo de novo
Quero ser Ganga bruta e clara gema
Eu sou o samba viva o cinema

28 Comentários

Pedro Vinitz, Alemão e Patricia disse...

Pessoal, o Nogueira está fazendo um esforço para os pastores não dominarem o blog dele e nosso. Lá em Anápolis, um pastor disse a ele (tinha citado o movimento tropicalista e Gil e Caetano) que Caetano tinha que ser silenciado porque é gay e péssima influência. O professor é muito paciente e tolerante. Alngus amigos já pediram para ele colocar um filtro no blog, mas ele parece que tem espírito do Mandela.
Ontem, eu e Patricia, alemão e Milordi vimos o "Invictus". Não vou falar nada, rapeize. Se o Mandela foi aquilo ali, minha nossa senhora...

Rafael C. Parrode disse...

Invictus é outro lindo filme do Clint! Ninguém hoje faz melodramas como ele! GÊNIO!

MOXÉ disse...

Lisandro, só queria dizer uma coisa:

O VILA É FREGUÊS! AHAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

CHORA VILINHA! CHORA CACHORRADA SARNENTA! CHORA TORCIDINHA MEDÍOCRE! O GOIÁS ESTUPRA VCS NA HORA QUE QUISER! SOMOS GIGANTES PERTO DE VCS!

CHUPA VILA NOVA!

Anônimo disse...

Esse comentário acima reforça a necessidade apagar alguns comentários, nem que seja os vulgares.

Lisandro Nogueira disse...

Caros amigos,

Não penso em retirar comentários. Nem dos pastores e nem de torcedores transtornados. Devemos resgatar sempre nossos assuntos costumeiros e fazer nosso bom debate.

Sobre o filme de Clint Eastwood, "Invictus": vi apenas uma vez. Gostei bastante da mensagem do filme. Entretanto, a narrativa é muito comum e apela para certo sentimentalismo. Penso que a figura do Mandela ficou bastante "envernizada".
Se der tempo, pretendo ver o filme mais uma vez.

Continuemos o bom debate.

ps: sobre o jogo Vila Nova e Goiás: ganhou quem conseguiu fazer os gols.

Elaine Camargo disse...

É isso mesmo, vamos realçar o o debate bom. O problema é manter o nívl e não ser vulgar. Mudando de assunto, eu gostei demais de "Invictus". Acho mesmo que o velho Clint acertou de novo assim como em Gran Torino.

Rafael C. Parrode disse...

Mas Lisandro, eu acho que o Clint deixa muito claro todas essas opções, seja por uma "narrativa mais comum", pelo sentimentalismo, ou mesmo por esse verniz em torno do Mandela. À certa altura do filme o Mandela do Clint solta algo no sentido de que aquilo tudo não se trata de manobra política, mas sobretudo humana! Pronto, a partir daí comecei a olhar o filme com outros olhos. Clint tem investido forte num cinema bem clássico, e o melodrama é a ferramenta mais carregada dentro dessa proposta de cinema dele. Não acho o sentimentalismo aqui muito diferente de um Menina de Ouro, A Troca ou Gran Torino, pra ficar só nos mais recentes. Clint não pretende fazer filme crítico sobre o fim do Apartheid, sobre assistencialismo, pobreza, fome... mas sim sobre ideologia, sobre espírito, sobre fé e transformação. E o Mandela nesse filme encarna exatamente esse espírito que transforma a vida de François e consequentemente de todo um time, um país, um continente, ou quiçá do mundo. Clint faz um filme de exemplo, de um exemplo humano a ser seguido (não há espaço para o homem Mandela).

Acho o filme beeeeem mais complexo do que muita gente têm pensado por ai. E autoral pacas (Mandela tem problemas mal resolvidos com a família, principalmente a filha, assunto recorrente na obra de Clint, sem falar nessa questão da transformação do mundo a partir de cada um, ou seja, eu ou você como agentes trasnformadores do mundo, como era Christine Collins,ou Walt Kowalski, o general Kuribayashi ou Maggie Fitzgerald...

Enfim, filme merece leituras mais profundas! Sem falar é claro que a fotografia do Tom Stern, fuderosa, algumas sequências geniais como a do 747 sobre o estádio, da visita à prisão, da interação do time com a garotada da favela, da primeira perseguição com van do jornaleiro (aliás, todos aqueles seguranças são sensacionais) e claro a maravilhosa sequência final da partida de rugby,filmada com um misto de agressividade e poesia, com umas fusões impressionantes... lindo!

Rafael C. Parrode disse...

aaaaahhh... não dá pra deixar de dizer que Clint faz um cinema extremamente direto, sem firulas, sem rodeios. Pra ele o negócio é assim, pronto e acabou! E adoro isso nos filmes dele.

Rodrigo Cássio disse...

Rafael,

Você gosta mesmo do Clint Eastwood, rs.

Em seu comentário, você diz que ele deixou claro as opções assumidas em Invictus. Por que você usou isso como argumento para defender o filme? Não acha que podemos fazer uma crítica já a partir das opções que os cineastas escolhem?

Se não pudermos fazer essa crítica "desde as opções", não corremos o risco de avaliar os filmes tecnicamente demais? Por exemplo: julgamos simplesmente se Clint conseguiu ou não fazer um bom melodrama, e pronto. E isso como se a opção pelo melodrama já não tivesse inúmeras implicações (estas implicações não importam para a crítica?).

Levanto a questão porque ela me parece apontar possibilidades de enriquecimento da crítica, hoje muito atenta a virtuosismos técnicos e a "profissionais competentes", ao passo que, segundo vejo, esses tópicos na verdade são os menos importantes.

Abraço.

Rafael C. Parrode disse...

Não entendi a questão Rodrigo. Eu só quis dizer, que ao menos pra mim, a maneira como Clint constrói o filme é completamente coerente dentro de sua proposta. Só falei de questões efetivamente técnicas no final, só pra sublimar meu pensamento sobre o filme (que de fato adorei, como tudo do Clint). Só quis dizer que taxar o filme de sentimentalóide, sem implicações políticas, clássico d+ é ficar muito na superfície de um filme que assume uma postura bem frontal diante do espectador. Confundir o filme com um melodrama de esportes barato é não se atentar para o discuros humano do Clint (e por consequência do Mandela). Friso mais uma vez: Invictus não sobre o homem Mandela, mas sobre essa espírito livre e desafiador que ele foi e é. E essa questão do melodrama de fato já traz uma série de implicações, claro, tanto por isso os filmes do Clint têm trabalhado essas questões do melodrama das mais diversas formas, as vezes de maneiras até meio subversivas. Mas enfim, independente de questões técnicas, o filme mexeu comigo exatamente por querer ser o que ele é! Se me fez chorar uma dúzia de vezes foi por que a sinceridade e a intensão daquilo tudo me pareceu bastante genuínas.

Rafael C. Parrode disse...

e tem outra Rodrigo, acho que, principalemente em cinema, ficar só na discussão do conteúdo pelo conteúdo não faz um filme melhor. Quantos filmes tratam de assuntos que valeriam uma discussão mas acabam sendo nulos como cinema?

Rafael C. Parrode disse...

e essa palavra "virtuosismo técnico" me dá ojeriza! Não quero filmes virtuosos, mas filmes coerentes, em conteúdo e forma!

Rodrigo Cássio disse...

O Clint é um grande diretor, é normal que Invictus seja coerente. (Ainda não vi o filme, Rafael, por isso não entro nele especificamente).

Mas acho pouco querer do cinema filmes coerentes. Um filme pode ser coerente e irrelevante ao mesmo tempo. E acho que a crítica deve assumir um compromisso com a relevância, antes de tudo.

Nesse sentido é que propus a questão. Não foi uma questão direta sobre o que você comentou, Rafael, mas sobre a crítica de cinema de um modo geral.

Rafael C. Parrode disse...

iiiiiiihhh... escrevi uma tese aqui e o google fez o favor de apagar!

Mas concordo com vc, Rodrigo, sobre o papel da crítica!

Mas ainda to tentando entender esse papo de relevância que pra mim é muito subjetivo! Essa relevância seria o quê, engajamento? postura ética/política/cultural?

Anônimo disse...

Falar de um filme que não viu... deixa quieto.

Riccardo Joss disse...

Clint Eastwood mais uma vez dando lição de moral, né?

Rodrigo Cássio disse...

Anônimo: Nada do que escrevi se refere ao novo filme. Não estou falando dele. Mas acho que você entendeu isso, e só quer mesmo provocar (sabe-se lá o motivo).

Rafael: Postura ética/política/cultural e engajamento, como você disse, parecem-me boas chaves para pensar a relevância de um filme. Em todo caso, penso que discutir o que determina a relevância já é exercer a crítica. Abraço.

Lisandro disse...

Olá amigos,

Rodrigo Cássio fez e faz comentários pertinentes no blog. Por outro lado, é muito chato dialogar com "anônimos".

Rafael C. Parrode disse...

Mas Rodrigo, e relevância estética? Entra nisso tb?

No mais essa coisa de anônimo é chato mesmo! E esse moralismo clintiano ta longe de ser um discurso! Tá mais pra uma moral ética e política.

Rodrigo Cássio disse...

Rafael: Claro que a relevância estética entra!!

Rafael C. Parrode disse...

aaaahhh, então eu e vc concordamos em (quase) tudo! hehe

Polly disse...

Oh Lisandro,
Acho linda sua relação com o cinema, é um afeto gostoso de compartilhar.
Adorei ler esse texto e conhecer a música do Caetano-doidão.
Desde que vc foi lá na FD conversar com a gente, meu carinho pelo cinema cresceu mais ainda.
Acho delicada (no sentido de suave e elegante) a história do cineclube Antônio das Mortes. A sensibilidade do Belém e a sua...é de respeitar.
Acho legal a sua geração deixar isso para nossa!

Os comentários do Rodrigo Cássio e do Rafael são mto divertidos!
Clint é pura coerência, ele não foge mto, presinho, sabe aquele filme presinho...Rs!

Agora vou lá no blog do Rodrigo C. perguntar por onde ele anda!

BEijo,
Polly

Polly disse...

Esqueci de falar:
PRa quem gosta de acompanhar o Oscar, esse ano a Rede Globo vai transmitir (yes!), dia 07/03.

Rafael C. Parrode disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael C. Parrode disse...

infinitamente longe de ser uma autoridade em cinema como o Lisandro e o Rodrigo, mas de vez em quando gosto de deixar minhas impressões aqui: http://cerradocerebral.blogspot.com/

pra quem se interessar...
aaah, Rodrigo, e qdo o Cascavel retoma suas atividades? Organizando meu tempo pra poder participar das programações do cineclube!

abço

Maria Euci Carvalho disse...

Essa música do Caetano Veloso é mesmo muito bonita. Quero ouvi-la mais vezes. O Cinema Novo produziu bons filmes.

Rodrigo Cássio disse...

Rafael,

Anote aí: o Cascavel retorna dia 09, com uma sessão especial para a reabertura das atividades.

No dia 23, exibiremos um filme de Apichatpong Weerasethakul, um dos grandes cineastas da atualidade, ainda inédito em Goiânia. Imperdível.

Mais notícias em breve!

Polly: eu estou "sumido" porque tenho trabalhado muito na finalização do mestrado. Mas devo terminar em breve, e postarei mais lá no blog. Obrigado pelo afeto! Beijo.

Rafael C. Parrode disse...

Nem acredito que vai ter filme do Joe!!! Sou completamente fascinado pelos seus 3 últimos filmes, Eternamente Sua, Mal dos Trópicos e Síndromes e um Século! Terminando de baixar Misterious Objects of Noon pra voltar a ter contato com esse que é pra mim de longe o grande cineasta da atualidade.

Já ficam agendadas as datas pra não ter desculpa de faltar!

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