segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Meu tempo

Meu tempo

 

Maria Rita Kehl*

Convém que me apresente nesta estreia. Além da combinação única e aleatória de proteínas, aminoácidos, H2O e tal, sou feita de quê? De tempo, assim como vocês. Tempo vivido e tempo imaginado. Feita de passado, o de meus ancestrais, transmitido pelos gens, a cultura, o inconsciente; mais a história de vida que me trouxe até aqui. É só o que temos: um corpo e uma história, já que o presente é uma partícula, deletada tão logo eu acabe de escrever partícula. E o futuro, lamento dizer, não existe. A não ser, é claro, sob a forma de fantasias e projetos. Mas fantasias e projetos são feitos de quê? De restos, fiapos, pedaços não resolvidos do passado. No futuro só o que existe na certa é a morte esperando a gente. Deixa quieto.

Àqueles dez anos inaugurais de perplexidade e inquietação, chamo de infância. Tão minha e tão perdida. Ao longo período da dita maturidade eu me refiro como "outro dia mesmo". Já o pedaço da vida que vai do fim da adolescência (aquela chatice) até os 30, mais ou menos, costumo chamar de "o meu tempo". Nisso não estou sozinha. Pra muita gente, a referência óbvia para "meu tempo..." é a juventude. Os anos de formação, como diziam os românticos do 19. Período das experiências que definiram o que pretendíamos ser, assim como as promessas que continuam a acenar no horizonte das possibilidades.

Um bom amigo que morre de medo de se tornar ultrapassado costuma me contestar com outro refrão: meu tempo é hoje! Mas Paulinho da Viola, que canta o verso de Wilson Batista, "meu mundo é hoje", tem lá suas ressalvas ao império do presente absoluto: "...mas não me altere o samba tanto assim". Defendo o modesto passadismo do sambista. A juventude é um período movediço em que se vai meio às cegas por caminhos excitantes, ou idiotas, ou desastrosos, sem saber o que se quer encontrar. Daí a necessidade de estabelecer, a posteriori, alguma solidez pelo menos às recordações daquele tempo. Redescobrir na memória um filme já superado e atribuir a ele significados incríveis; reler um livro que nos fez a cabeça aos 20 anos (Sidharta, todo mundo lia Sidartha - que não li, sei lá por que); reencontrar a praia dos melhores verões como se ainda fosse deserta, passar pela rua onde a casa que foi comunidade hippie está para virar um prédio. São tentativas de consolidar aquele riquíssimo período em que se estabelecem, por tentativa e erro, nossas grandes referências exogâmicas, cosmopolitas, universais.

Tem gente que entra na juventude como se o mundo fosse continuação do quintal familiar. Vai de cabeça sem medo, sem nem se dar conta de que caminha no escuro. Faço parte do outro grupo: para mim, tudo era grande demais. Eu ia, ansiava por ir, mas com um respeito danado pela imensidão à minha frente. Por isso meu tempo não foi tecido apenas das coisas que efetivamente fiz. Sou fiel ao que fiquei devendo à minha geração, essa rede de identificações imaginárias a que julgamos pertencer. A história daquilo que não fiz é minha biografia em baixo-relevo, indelével como todos os desejos não realizados.

* Maria Rita Khel é psicanalista. Artigo publicado no Estadão em 6.02.2010.

6 Comentários

Pedro e Patricia disse...

O "dono" do blog, meu tio, deixou eu postar um texto que gostei demais. Essa Maria Rita é uma poeta e tanto, além de cuidar da mente dos inquietos e sofredores. Dá-lhe Maria Rita. Bem melhor que a cantora chorosa que também chama Maria Rita.

Lisandro Nogueira disse...

Caros amigos,

A Maria Rita Khel está sempre por aqui, gostamos muito dela. Parabéns pela escolha do artigo. Realmente muito bom, caro Pedro.

Mas gosto também da Maria Rita, cantora, filha de Elis Regina.

Tatiana Cristina disse...

Um texto leve e gostoso de ler, nesta linda manhã que faz em Goiânia.

Também aprecio as palavras da psicanalista e as músicas da cantora...

Elaine Camargo disse...

Esse texto da Maria Rita é bonito demais.

Ivan Bueno disse...

Boa noite, Lisandro.

Sou novo por aqui no seu blog (novo seguidor) e aqui cheguei por indicação, no meu blog, da Eugênia Fraietta (autora do blog Bichodesetecabeças).

Muito bom este texto da psicanalista Maria Rita Khel. O fechamento do texto, então, é magistral. Sublinhei a frase "A história daquilo que não fiz é minha biografia em baixo-relevo..." pra pensar e repensar.

É texto pra ser lido, relido e mantido.

Fica aqui o convite para conhecer, ler, seguir e comentar também no meu blog, sem toda essa bagagem daqui, mas engatinhando direitinho. Vai ser um prazer receber você e quem mais vier.

Grande abraço.
Ivan.

Blog: Empirismo Vernacular
www.eng-ivanbueno.blogspot.com.br

disse...

tem uma frase genial da maria rita que anotei de um café filosófico da cultura: "o pior já passou, e foram os melhores anos da minha vida". parabéns pelo blog, lisandro e colaboradores! eugênia fraietta

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