terça-feira, 5 de julho de 2011

Filme essencial: "No tempo das diligências".


NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS


                                             Herondes Cesar*                             

         Ainda no início do filme, quando a diligência parte de Tonto rumo a Lordsburg, quase todo o background do enredo e das personagens já está posto. John Ford, o diretor do filme, sabia fazer isto com muita competência e economia de meios.

         Sabe-se, por exemplo, que Gerônimo e seu bando de índios renegados estão atacando propriedades de colonos; que o fora-da-lei Luke Plummer encontra-se em Lordsburg; que Ringo Kid escapou da prisão e, provavelmente, também se dirige para lá, a fim de vingar o assassinato, cometido por Plummer, de seu pai e seu irmão.

         Desde Bisbee, o ponto inicial da linha, a diligência traz dois passageiros que prosseguirão até Lordsburg: Lucy Mallory, mulher de um oficial da cavalaria, e Peacock, vendedor itinerante de uísque.

         Em Tonto, outros passageiros embarcam: a prostituta Dallas, expulsa da cidade pelas megeras da Liga da Lei e da Ordem; o médico alcoólatra Josiah Boone, expulso pela senhoria por não pagar o aluguel; Hatfield, notório jogador profissional, que conhece a sra. Mallory e resolve acompanhá-la para protegê-la; e o banqueiro Gatewood, que acaba de roubar seu próprio banco.

         O xerife de Tonto, Curly, responsável pela recaptura de Ringo, ao ser informado por Buck, o cocheiro, de que Plummer está em Lordsburg, deduz que Ringo também deve estar indo para lá e assume a função de guarda da diligência. O que ele não imagina é que Ringo precisou abandonar seu cavalo e está à espera da diligência.

         Uma vez completa a lotação, os passageiros se dividem em dois subgrupos: de um lado, os párias sociais Ringo, Dallas e dr. Boone; do outro, Lucy, Hatfield e Gatewood, representantes da elite emproada. Nesta divisão, Peacock não se inclui por ser de uma categoria à parte, sensato e conciliador, mais parecido com um clérigo.

         À medida que a diligência avança pela paisagem deslumbrante do Monument Valley, os passageiros se conciliam em duplas, segundo suas afinidades: Ringo e Dallas, o par romântico: Lucy e seu protetor Hatfield, herdeiros da aristocracia sulista; dr. Boone e seu fornecer de uísque, Peacock. Nesta forma de associação, fica sobrando Gatewood, que não tem a simpatia de ninguém.

         A viagem é pontuada por vários episódios, uns pitorescos, outros dramáticos. Merece destaque a entrada em cena de Ringo, certamente uma das mais espetaculares da história do cinema. A diligência segue sem problemas à vista quando se ouve um tiro. Os soldados da cavalaria estão distanciados, atravessando um riacho. De repente, John Wayne aparece à beira da estrada, com a sela numa mão e um rifle na outra. E, num movimento tão rápido que o cameraman nem consegue manter o foco, a câmera avança até ter seu rosto em close-up.

         Na parada para o almoço, em Dry Fork, John Ford exibe sua expertise na mise-en-scène. Enquanto dr. Boone bebe no balcão com Billy Pickett, chefe do posto e seu camarada de armas nos tempos da Guerra da Secessão, Lucy se senta à cabeceira da mesa, tendo Gatewood por perto. Ringo percebe a timidez de Dallas, que se mantém afastada, e a convida a se sentar ao lado dele. Ela aceita o convite e se senta próximo de Lucy, o que não é bem visto por esta nem por Hatfield, que arranja uma desculpa e a leva para a outra ponta da mesa. Gatewood os acompanha.

         Nessa cena, que serve principalmente para explicitar a rejeição dos representantes da elite pelos párias, Peacock nada tem a fazer. Num instante é visto de costas, olhando pela janela, depois desaparece.

         Outra cena excepcional é a da apresentação dos índios. Posicionada no alto, a câmera enquadra a diligência, que avança ao longe no fundo do vale. A distância faz a diligência parecer muito pequena e frágil. Num chicote (movimento panorâmico muito rápido), a câmera gira e, ao som de uma fanfarra de grande impacto, enquadra o grupo de índios sobre o penhasco, observando a diligência com frieza. O que se temia desde o início acontece: a diligência está ao alcance dos índios.

         O filme é rico em fontes de humor. Uma delas é o cocheiro gorducho, cuja covardia e voz esganiçada não combinam com seu porte físico avantajado; além disso, ele está sempre pensando em comida ou reclamando dos parentes da sua mulher. Outra fonte, obviamente, é o médico bebum. Também Chris, o gerente do posto em Apache Wells, cuja mulher índia foge na sua égua de estimação, para o seu desespero – não pela mulher, mas pela égua, que, nas duras condições do oeste, tinha importância capital.

         O filme não contém apenas um clímax, como é usual, mas dois. O primeiro se dá na perseguição à diligência pelos índios, quando os viajantes penam um bocado para se defenderem, e que constitui uma das sequências mais emocionantes da história do faroeste. O último clímax tem lugar no duelo noturno em Lordsburg, entre Ringo e os irmãos Plummer.

         Se bem que o filme não faça referência explícita à época em que se passa a história, pode-se inferir qual seja pela presença de Gerônimo, personagem real. Foragido da reserva de São Carlos em 1881, ele liderou ataques contra os brancos na fronteira dos Estados Unidos com o México até 1886, quando foi recapturado e passou a viver sob vigilância até sua morte. Portanto, o enredo do filme se encaixa nesse período.

         Este foi o primeiro filme de John Ford a ter locações no Monument Valley, que se tornou desde então a geografia imaginária de vários de seus faroestes: nove ao todo. A viagem da diligência dura dois dias e se situa inteiramente dentro desse magnífico vale, cuja extensão não chega a 50 km.

         Por tudo que encerra de engenhoso e belo, o filme recebeu um julgamento insuperável do crítico francês Jean Mitry. No seu livro sobre John Ford, publicado em 1954, ele disse que No Tempo das Diligências “é uma das obras mais perfeitas do cinema”.

* Herondes Cesar é um dos fundadores do Cineclube Antonio das Mortes.

1 Comentário

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Grande filme! Inesquecíveis Thomas Mitchell e Claire Trevor.

O Falcão Maltês

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