domingo, 19 de outubro de 2008

Poesia e política são demais para uma pessoa?.

O cinema político: Alberto Moravia e Bertolucci em O conformista e Glauber Rocha em Terra em transe.

Lisandro Nogueira

Paulo Martins, o jornalista-escritor de Terra em Transe (1967), diz mais ou menos assim: "A política e a poesia são demais para uma só pessoa". Essa frase sempre soou forte e emblemática para a minha geração. A queda do pensamento de esquerda após o governo de FHC (1994-2002) e, principalmente, a capitulação do PT e do governo Lula ante o neoliberalismo ligth, revitalizaram e multiplicaram por mil as idéias contidas em Terra em transe.

Não deixa de ser estranho que esse filme não seja amado pela esquerda e muito menos pela direita. Paulo Martins já antecipava as enormes dificuldades para o intelectual brasileiro pensar as contradições do "processo nativo". Ele parece afirmar que nossas idéias quase sempre estão em desacordo com a "realidade profunda" do país. Não conseguimos vislumbrar e muito menos pensar na totalidade os matizes mais fortes das nossas oscilações históricas. Ou seja, o Brasil é um país difícil de compreender. Estamos ainda tateando, vislumbrando possibilidades de compreendê-lo depois de 500 anos.


Penso que depois de Terra em Transe, nenhum outro filme conseguiu, com a elegância da junção forma e conteúdo, realizar um pensamento tão vibrante, melancólico e perene sobre a nossa maneira de fazer política. Qual o papel do intelectual universitário? Quais as chances para se modernizar o processo político? Que motivos levaram partidos de centro-esquerda (PSDB) e de esquerda (PT) a fazaer alianças com velhas oligarquias ( já estamos desanimados de toda a política?), Por que a universidade ficou sem interesse pela Política e voltou para si mesma e seus intermináveis relatórios e rituais burocráticos? Que motivos levam os nossos políticos a realizarem a "baixa política"? Por que somos tão indiferentes à política? Sem ela seria pior ou trágico: voltaríamos ao regime ditatorial.

Terra em Transe é atual porque continua a levantar essas questões, a provocar indagações pertinentes e a contribuir para o enraizamento de uma boa estética no cinema brasileiro.

Outro filme, O Conformista (1970), de Bernardo Bertolucci, tb. revela muito da política e da sociedade. Em outra chave, mas fazendo perguntas igualmente tb. complexas sobre as perplexidades da relação do indivíduo com o processo político, o filme aborda os motivos pelos quais há o fascínio das massas pelos regimes fechados e totalitários.

W. Reich (1897-1957) no seu instigante "A psicologia de massas do fascismo" (1933), explica como a força da repressão sexual e da religião são importantes para o estabelecimento de regimes fechados e avessos ao indivíduo. O filme não é pessimista mas tampouco é otimista, assim como Terra em transe, e elabora uma profunda fotografia do sujeito que se coloca aos pés de uma força superior (o Estado totalitário) e se abre para uma pungente "servidão voluntária". O filme é baseado no livro publicado em 1951 por Alberto Moravia (1907-1990) , de quem li Os indiferentes que impressionou pela densidade dos personagens (nem as crianças escapam: são más e cruéis) e pela maneira forte com que contrapõe a alegria de alguns e a terrível perplexidade de outros perante o fascismo.

Cinema e política são bons assuntos. E quando o filme consegue, com uma forma instigante, tratar da política, melhor ainda para todos nós que gostamos de cinema.


* Os filmes podem ser encontrados em DVD na Cara Vídeo (rua 10, centro de Goiânia)













26 Comentários

Riccardo Joss disse...

Isso de política e poesia serem demais pra uma só pessoa me remeteu ao Ezra Pound.

Anônimo disse...

Depois de Terra em Transe, com elegância de forma e conteúdo, temos Linha de Passe de Walter Salles.
Inteligente da sua parte comentar filme tendo como referência: forma e conteúdo.

Abraço,

Thomas

Lisandro Nogueira disse...

Ricardo e Thomas, o cinema brasileiro deve muito ao Glauber Rocha. Sem dúvida que comparações entre o cinema de hoje e aquele dos anos 60 são "delicadas", pois são contextos diferentes. Mas Glauber deixou um legado importante: a preocupação com a Forma e a importância da atuação "teatral" dos atores. Nossos atores são bons mas cheios de vícios - em virtude da TV. Mas tb. por causa dos diretores q. não sabem dirigir bem. Isto é, não dão segurança para uma boa performance.

Riccardo Joss disse...

Na tv, Lisando, os atores - sobretudo os mais velhos - não levam alguns exageros do teatro? Por exemplo, não suporto ver a Renata "overacting" Sorrah com trejeitos até pra matar uma barata.

Lisandro Nogueira disse...

Ricardo: penso que não. Renata é uma boa atriz. O problema é o formato extremamente coloquial da telenovela. Os atrizes ficam "over" e encenam com exagero. Não gosto!! As novelas estão apelando muito, em todos os sentidos. Deve ser a briga pela audiência.

Rodrigo Cássio disse...

Riccardo: Você já viu a Renata Sorrah em "Matou a família e foi ao cinema", do Júlio Bressane? Grande filme, grande atriz.

João Angelo Fantini disse...

De fato Lisandro este é o filme sobre politica no Brasil ainda. E contado pela forma narrativa, diferente de um costa Gravas por exmplo, de quem já gostei nos meus tempos de moviemento estudantil, mas que hoje acho chato.
Nesta linha também, escrevi no meu blog sobre o caso Eloá, e sobre o papel cumplice da midia.

joaoangelofantiniclinicadacultura.blogspot.com

http://joaoangelofantiniclinicadacultura.blogspot.com

Daniel Christino disse...

Essa discussão sobre cinema engajado - via Costa Gravas, a quem, com ressalvas, considero um cineasta corajoso - me lembra outra questão, um pouco mais árida, sobre o estatuto epistemológico da imagem. Sou daquele que acredita na capacidade desveladora da arte e, por consequência, não dou lá muita bola para filmes engajados, cuja retórica política encaixota a liberdade discursiva e, claro, "psicanalítica" da imagem. Se for necessário tomar partidos, fico com Glauber, sempre.

Riccardo Joss disse...

João, culpar a mídia por tudo é bem fácil. O importante seria o Lula construir mais cadeias. O caso Eloá serviu para encontrarmos mais um bandido solto na rua, o seu (dela) pai. Lamentável!

Rodrigo Cássio, não é - apartir do seu exemplo - como a Renata Sorrah consegiui se tornar uma péssima atriz?

Lisandro Nogueira disse...

João,
Li no seu blog sobre o caso Eloá. Muito bom!! Costa Gravas é fraquíssimo e seu cinema só teve força por causa do contexto político da época. Seus filmes são "risíveis" e pretensiosos. O mais chato foi ele dar o prêmio de melhor filme para "Tropa de Elite", em Berlin. Ele era pres. do júri. Faz filmes limitadíssimos e ainda contribui para o terrível "tropa" ganhar um prêmio.
Cara Daniel, você considera Gravas corajoso? O vento soprava a favor daquele cinema limitadíssimo: muito panfleto, pouca política para valer e estética conservadora.
Lisandro.

Rodrigo Cássio disse...

Riccardo: Eu acredito que as personagens que a Renata Sorrah tem interpretado nas telenovelas contribuem para essa impressão de que ela se tornou uma atriz ruim. Lembro-me de lamentar toda vez que a vi em cena, nos últimos anos, na Globo. Ela passou por personagens que acentuam aquilo que já é uma tônica do melodrama: o exagero. Mas, a meu ver, há boas atuações dela no cinema, inclusive uma mais recente que o filme do Bressane: "Madame Satã". O que deixa ver que não é apenas o ator quem determina o sucesso da atuação, mas também a direção, ou mesmo a produção do filme (o que é muito bem feito em Madame Satã) etc. Concorda? Um abraço.

Lisandro Nogueira disse...

Caros amigos: ainda sobre Costa Gravas: o filme "O que é isso companheiro?" de Bruno Barreto (tb. um filme limitadíssimo), é um similar de "Estado de Sítio" e "Z". Nessa linha de cinema político, Hector Babenco de "Lúcio Flávio, o passageiro da agonia - 1976" é bem melhor - mesmo com todas as limitações.
ps: Renata Sorah é uma boa atriz. Mas Rodrigo tem razão: o veículo tb. "faz o ator"
ps- vejam o blog do joão: www.joaoangelofantiniclinicadacultura.blogspot.com

Riccardo Joss disse...

Lisandro: "O que é isso..." tem o agravente da participação especial de Lulu Santos. Costa Gravas nao colocou o Demis Russos (lembra?) em "Z". ;-)

Daniel Christino disse...

Gravas é um nome do cinema engajado e não esperava grandes elogios do Lisandro para ele. Eu conheci Gravas pelas locadoras na década de 80, ou seja, já bastante hollywoodiano. Mas naquela década filmes como Missing - com o Jack Lemmon, numa de suas melhores interpretações -, Betrayed e, depois, Amém não faziam parte do cinemão goiano. Como eu tinha uma acentuada preferência por Bergman, Felini, Kurosawa, Spilberg, Romero e Woody Allen, Gravas me parecia exemplo de um cinema que discutia coisa incômodas na sala de casa, menos arte e mais porrada. Uma espécie de remédio contra a hipocrisia. Mas é um cineasta formalmente limitado, concedo.

Lisandro Nogueira disse...

Daniel,
Não acho que Gravas não sirva, por exemplo, para exemplicar um momento da história. O problema geralmente é que usam o filme "como a verdade dos fatos". Daí a velha discussão da forma. Observando bem ele não consegue "sair daquele contexto", ou seja, ficou datado. Mas vale utilizá-lo, por exemplo, nas auals de história do cinema.
Em termos de cinema político, podemos lembrar do inglês Kean Loach e do cubabo Gutierrez Alea.

Riccardo Joss disse...

Pô, só tem filme político de esquerda?

daniel christino disse...

Acho que a vantagem do Ken Loach (Fatherland, Pão e Rosas, Os Navegadores) é complexificar a discussão, o que impede seus filmes de assumirem um caráter escancaradamente denuncista, a marca registrada do Gravas. Ele é mais sutil e poético e, por isso, acho eu, talvez até mais impactante (como em Rainning Stones ou My name is Joe).

Sabe do que eu me lembrei? De "Os idiotas" do Von Trier, no contexto do movimento dogma 95. Você consideraria este um tipo de cinema político ou engajado com uma discussão sólida sobre a forma? Para mim parecia uma adaptação do Grotowiski para o cinema, com altos e baixos. O que acha?

Rodrigo Cássio disse...

A pergunta do Riccardo é muito boa. Não pela falta de uma cinema político de direita, mas porque chama a atenção para essa relação entre o que é considerado normalmente "cinema político" e o ideário crítico da esquerda. Como poderíamos definir o cinema político? Ele depende de filiações ideológicas?

O Foucault faz uma crítica muito sutil ao marxismo em "As Palavras e as Coisas", quando afirma que todo discurso na modernidade traz consigo um posicionamento político. Não porque os sujeitos estão cravados em um mundo no qual participam inevitavelmente do hegemônico ou do crítico, mas porque o pensamento moderno, diferentemente do clássico, é ele próprio um modo de ação, um fundador de realidades.

E o cinema é completamente moderno. Partindo de Foucault, não vejo diferença entre cinema "engajado" e "cinema político", ao mesmo tempo em que, no sentido acima, todo cinema pode ser considerado político. Um western, um melodrama dos anos 50 ou uma chanchada são tão políticos quanto o cinema novo e o neorealismo. A diferença entre eles estaria, de fato, na forma. Esta não pode ser entendida à revelia do conteúdo. A forma do filme determina o seu discurso, tanto quanto o seu conteúdo. A forma determina o seu "engajamento político".

Que o digam um Kenneth Anger ou um Jack Smith.

Anônimo disse...

Pergunta indiscreta:
Como é que um grupo tão inteligente e bem informado sobre cinema pôde trocar o nome do diretor "Costa-Gavras" por "Costa Gravas"?

daniel christino disse...

Hehehe, meu grego não é muito bom!

Herondes Cezar disse...

Eu tive a alegria de ver "Terra em Transe" no cinema, e posso dizer que sua linguagem era tão nova que entendi muito pouco dele. No dia seguinte um amigo perguntou se eu tinha gostado do filme, eu respondi que sim, mas que não havia entendido muta coisa. Alguém que ouviu o diálogo ponderou: "Se você não entendeu o filme, como pode ter gostado?" Não me lembro qual foi a minha resposta, mas hoje, porque corri atrás do entendimento, ouso dizer que já entendo o filme. E o sabichão que estranhou minha atitude certamente continua não gostando do que não entende.

José Maria e Silva disse...

Caro Lisandro, quem disse que "a universidade ficou sem interesse pela Política e voltou para si mesma e seus intermináveis relatórios e rituais burocráticos?" Até esses "relatórios e rituais burocráticos das universidades" quase sempre estão marcados pela política.

Aliás, quase já não se vê cientistas sociais no Brasil. Todos querem ser "cientistas políticos", como se política comportasse alguma ciência. É só dar uma olhadinha nos currículos Lattes das ciências humanas no CNPq, que a política salta aos olhos, mesmo em pesquisas.

Feliz o dia em que a universidade, meu caro Lisandro, parar de fazer política e cuidar de sua função precípua, que é fazer ciência.

Um abraço.

Lisandro Nogueira disse...

Olá Herondes e José Maria: o comentário de Herondes acerta o alvo em relação ao debate "forma e conteúdo". Penso que você diz exatamente o que possa vir a ser a superação do "olhar domesticado": o problema não é ter esse olhar (todos nós temos), mas ter a abertura para ver além...
Olá José Maria: em parte você tem razão: a burocracia é tb. política. Mas a participação e intervenção da universidade é limitada. Por isso, penso que ela é distante.

Lisandro Nogueira disse...

Olá Rodrigo: sim, todo cinema (filme) é político. Mas no sentido direita e esquerda (mas se pensarmos em Bobbio, é complicado hoje avaliar se ainda faz sentido essa diferença) temos um "cinema político" forte. Concordo com você que a forma é fundamental para determinar a longevidade de um filme. Mas não sei se só a forma determina o "engajamento político". O contexto histórico é importante para a "forma" se estabelecer.

Rodrigo Cássio disse...

Olá Lisandro: Também não creio que apenas a forma determina o engajamento de um filme. O que quis dizer é que ela é fundamental, e mesmo o cinema de vanguarda, que aparentemente não tem conteúdo político, é um cinema que tem suas ressonâncias políticas, como é o caso do Jack Smith, um artista bastante libertário. Penso que podemos usar o termo "política", aqui, em um sentido certamente diferente do que foi empregado pelo José Maria, acima.

Ao citar Foucault eu também quis duvidar da divisão direita/esquerda. Ela serviria para lançar luz ao conceito de cinema político? Penso que sim, mas dentro de certos limites, que se tornam maiores à medida que a "realidade política" se mostra mais complexa.

Há entrevistas em que os cineastas do cinema novo, no auge, contestavam a nouvelle vague como inspiração, justamente pela ausência de um engajamento político mais evidente nos filmes franceses. Eles não percebiam que um filme como "Acossado" ou "Os Incompreendidos" são filmes políticos, mesmo que não tivessem na mira a miséria, a fome, ou o "desajuste social", para lembrar Pasolini. Não é por acaso que Bernardet pôde questionar os cinemanovistas pela intenção de mostrar o outro de classe.

Grande tema esse, não? Um abraço.

Anônimo disse...

hehehe. Adorei. Universidades fazerem ciência ao invés de política.
É que fazer ciência dá "mais trabalho", né não? Fazer é mais trabalhoso que comentar.

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