domingo, 23 de novembro de 2008

Cinema: revelação e engano.

Entrevista com Ismail Xavier*

a) Basicamente qual o enfoque da sua conferência na Universidade Federal de Goiás- "cinema: revelação e engano"?

Meu enfoque destaca o percurso havido na história da teoria do cinema, entre os anos 20 e os anos 70, em que podemos grosso modo identificar duas fases: a primeira marcada pelas promessas de revelação do real e de celebração da imagem em movimento como o recurso privilegiado que nos daria acesso transparente ao que antes estava fora de nossa percepção; a segunda marcada pela crítica feroz destas esperanças e pela tematização da imagem cinematográfica como simulacro, aparência habilmente construída para compor um jogo sedutor que aciona nossas disposições inconscientes e convida a uma viagem regressiva pelo imaginário administrado pela indústria. Não partilho nem da esperança talvez inocente da primeira fase, nem deste desencanto radical da segunda. Neste sentido, quero conduzir um debate que possa estabelecer a mediação entre tais extremos, tal como efetivamente tem acontecido com a crítica e a teoria mais recente.

b) O cinema documentário angariou um público novo nos últimos sete anos. E voltou a interessar o meio acadêmico. Vários livros foram lançados nos últimos três anos. Quais os motivos para esse interesse?

São de ordens diversas. Em primeiro lugar, pela qualidade dos filmes. Cineastas como Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Andrea Tonacci, Arthur Omar, José Padilha, Jorge Furtado, Eduardo Escorel, Paulo Sacramento, Carlos Adriano, Marília Rocha, Paulo Caldas, Evaldo Mocarzel, Walter Carvalho e Maria Augusta Ramos (certamente estou esquecendo outros exemplos) têm conduzido o documentário a novos patamares. Isto acontece numa direção mais ensaística, em que o próprio cinema se torna parte das indagações trazidas de forma explícita pelo filme, e acontece também nas mais variadas formas de compor os procedimentos de investigação (entrevista, métodos de observação, montagem) na abordagem de experiências sociais que estão em debate na sociedade, como a violência urbana e as instituições que administram a justiça no Brasil.

O leque é enorme, e pela enumeração acima, que não cobre tudo, é possível dimensionar a amplitude deste movimento de renovação. Em segundo lugar, porque esta atualização das formas e a contundência dos temas encontram um público que procura superar a saturação de simulacros em que estamos submersos através do contato com uma experiência que lhe propicie uma recuperação de um corpo a corpo com a realidade.

Claro que o filme é sempre uma representação, uma provocação, e tem sua retórica, mas o trabalho dos cineastas citados enfrenta a questão do real, ilumina aspectos da vida social e nos oferece uma oportunidade de aprofundar a nossa percepção do próprio cinema, suas forças e suas fraquezas, seu contraste com outros meios e seu olhar original dirigido para o mundo.

c)) Apesar do tom conservador e até oportunista, vide Tropa de Elite, o cinema de ficção brasileiro continua atento as questões sociais e políticas. Mas o cinema documentário tem feito diagnósticos mais contundentes e colocado com mais intensidade o "dedo na ferida". Qual a importância de Eduardo Coutinho e de João Moreira Sales nos diagnósticos sobre o Brasil?

Sim, o cinema de ficção também tem, a seu modo, tratado das questões sociais, notadamente a violência, através de uma organização da experiência que se vale das regras do drama clássico ou do melodrama, como a do filme de ação centrado na figura de um herói com que a platéia se identifica na modulação de suas emoções e de seus conceitos (aqui está o problema) diante do que é chocante, como em Tropa de elite. Sim o documentário tem sido mais conseqüente na exposição da complexidade da experiência atual, em diferentes direções.
Há os novos olhares para o perfil da religiosidade do brasileiro, terreno em que tanto Coutinho quanto João Salles nos deram ótimos exemplos (Santo forte e Santa Cruz); há o iluminador dueto composto por Entreatos (Salles) e Peões (Coutinho) na exposição do processo político marcado pelo percurso do PT, do ABC de 1978-80 até a primeira eleição de Lula; e há a elaboração mais aguda do filme como ensaio, reflexão ao mesmo tempo pessoal e objetiva na abordagem de uma experiência.
Falo do filmes em que esta envolvida a relação do cineasta com as performances captadas pela câmera, misto de talento, angústia e auto-exposição reveladora, como acontece no diálogo com o extraordinário pianista (Nelson Freire) ou com o ex-empregado da família Salles (Santiago), no caso de Salles, e como acontece na relação de Coutinho com os recém chegados ao contato com a câmera ou com os atores experientes que aceitaram participar do experimento em que ele complica o jogo de cena que já vinha marcando seus filmes (lembro de Edifício Máster) neste que tem nome tão emblemático: Jogo de cena.

* Ismail Xavier é prof. de cinema na USP. Autor de vários livros sobre cinema, entre eles "O discurso cinematográfico" e "O olhar e a cena".
* Entrevista publicada no Jornal O Popular - agosto de 2008
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2 Comentários

Rodrigo Cássio disse...

Penso que a entrevista do Ismail Xavier deixa ver o que está implícito nos breves comentários sobre o "Última Parada 174", em posts anteriores. Esse filme pode ser tomado como um exemplo do apego ao melodrama de que fala Xavier, referindo-se ao cinema de ficção contemporâneo.

Pra mim, continua sendo inquietante outro aspecto sobre o qual o professor comenta: a permanência da temática sociológica, dos problemas coletivos, como a violência que permeia o cotidiano das classes menos favorecidas.

No cinema novo, esse tema era tratado em uma chave diferente. A violência está em Glauber, mas, inclusive, de uma maneira positiva, afirmada como meio legítimo de intervenção (entre muitos filmes, no Dragão da Maldade, por ex.), ou problematizado pela percepção das dificuldades inerentes a essa intervenção ("Terra em Transe" ou "O Leão de Sete Cabeça", por ex.)

E hoje? O cinema de ficção aborda a violência, mas sua representação não estaria despotencializada, precisamente pelos limites do drama clássico? Crise das ideologias? Por que essa diferença em relação ao documentário? Algo a ver com as leis de incentivo, da busca de legitimidade dos cineastas?

Parece-me que um leque de perguntas importantes se abre, a partir daqui.

Abraços!

Lisandro Nogueira disse...

Rodrigo, existe uma pretensão enorme dos novos cineastas (não todos, felizmente!!) em cortar o diálogo com a tradição. Eles só perdem com isso. Cineastas que não pensam desta forma terão vida longa no cinema. Esse fenômeno já ocorreu nos anos 70/80. Hector Babenco optou por um cinema mais popular. Fez e faz um cinema instigante. Mas nunca "apelou' e partiu para a "pancada". Hoje, é um cineasta de peso - vide "O passado". Os documentários são mais instigantes hoje q. boa parte das ficções. Concordo plenamente com você.

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