quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Feliz natal com Vinicius de Moraes e Selton Melo

O samba é a tristeza que balança - mesmo no Natal!!


Lisandro Nogueira

Vinicius de Moraes e Baden Powell fizeram o Samba da bênção. Um dos versos é de uma beleza extraordinária: “Porque o samba é a tristeza que balança, e a tristeza tem sempre uma esperança [...] de nunca mais ser triste, não”. Sabemos que a vida é trágica. Não há melodrama que resolva isso. Ele pode no máximo atenuar ou iludir a dor e a tristeza. Mas, exatamente por ser a vida trágica e a morte o destino final, Lacan cunhou a frase: “A morte é a mestra da vida”. Se a morte é a mestra da vida, o samba é sublime e a vida deve ser vivida como uma esperança, que pelo menos balance a tristeza.

A música ainda insiste que “é melhor ser alegre que ser triste”. Mas sabemos também que a tristeza é inevitável e é bem melhor que a “depressão”. Selton Mello tentou mostrar isso em Feliz Natal [em cartaz em Goiânia]. O filme é de uma tristeza vasta. Leonardo Medeiros é o personagem que sai do interior e vai passar o Natal com a família. Como em toda família, os problemas são profundos e o desentendimento é cotidiano – no Natal a possibilidade de eles se agravarem é enorme. O grupo de amigos e os outros personagens são da mesma forma melancólicos e sem esperança.

Mello consegue fugir do lugar-comum do cinema brasileiro atual de querer, a todo momento, “dar um soco na boca do estômago” da classe média [Tropa de elite, Última parada], ao mostrar a violência crua e nua em tons realistas. O intuito, nesses filmes, é a culpabilização, e o cineasta instala-se na posição de um inquisidor ou um Robin Hood dos morros e dos mais fracos. Pobre cinema! Alcança sucesso por causa do imaginário do medo vigente na sociedade brasileira e porque navega com os auspícios do “olhar domesticado” de todos nós.

Se Selton Melo consegue fazer um filme sem esse tom moralista limitador, não abre espaço para que a tristeza profunda dos seus personagens possa ter um pouco de balanço. Não se pede que os personagens tenham uma esperança boba e ingênua diante da dureza da vida. Mas sim que possam “nuançar” um pouco seus sentimentos e expressar a beleza estética possível nas tragédias.

Feliz Natal é um bom filme, apesar da sua fotografia suja e mal granulada, e da ausência da equalização das melancolias. É bom também porque não tem a pretensão de socar ninguém e recupera, para o cinema brasileiro, a perspectiva de sensibilidade e delicadeza, ameaçada por socos e balas de realismo-melodramático.[Linha de passe é tb. delicado e um dos melhores filmes de 2008; Última parada é o pior filme que vi em 2008].
ps- dedico o comentário para o cineasta e psiquiatra Lourival Belém Jr.

13 Comentários

Randall disse...

Gosto muito do Leonardo Medeiros! Você achou que o Selton está realmente "influenciado" pelo Cassavetes, Sean Penn e Lucrécia Martel?

Abç,

Lisandro Nogueira disse...

Caro Randall: penso que ele começa a formular um estilo. Não sei se a influência dessses cineastas citados é grande. Ele, pelos menos, não dá continuidade a esse cinema oportunista: vide Tropa de elite e Última parada. Selton trabalhou em "Lavoura arcaica". Observe a influência do filme em "Feliz Natal". Gosto muito tb. de "Linha de passe". Talvez um dos cinco melhores filmes de 2008: você concorda?

amocadofigo disse...

Noooossa. "...é bom apesar da fotografia suja e granulada"???
Não . Eu adorei a fotografia. O clima pesado que se faz a partir dela, e as luzes do natal que insistem em brilhar ao fundo dos personagens desesperançosos foi o que mais contribuiu para gostar do filme e do tema abordado.
Lula Carvalho foi o diretor de fotografia que mais ouvi falar (de forma elogiosa sobre seu futuro promissor) durante uma oficina do Festcine. Depois de ver 'Feliz Natal', descobrir que ele era o responsável pela fotografia do primeiro longa do Selton Mello (que já admiro bastante por todos os projetos, como ator, já desenvolvidos) foi para mim o presente de natal para quase fechar o ano.

Guillermo disse...

Prezado professor, vida longa a seu blog! Quando sairá o filme que o sr. planeja fazer sobre o Vila Nova? rs

Abraços

Magaly Corgosinho disse...

Gostei muito do texto, Lisandro. E do filme, claro.

E "A festa da menina morta"? Eu achei o filme do Nachtergaele bacana, mas a influência do Cláudio Assis é muito grande, resultando, na minha opinião, em planos idênticos aos já feitos pelo pernambucano. Nada que estrague o filme de Nachtergaele, obviamente, mas me incomoda um pouco essa semelhança clara e evidente de enquadramentos e recursos, pois acaba limitando a formulação de uma narrativa, de um estilo.

De qualquer forma, o filme é bom e intenso. Exaustivo, até. E acho que ele também consegue fugir do lugar-comum do cinema brasileiro atual, assim como fez Mello em Feliz Natal. De uma forma diferente, claro, mas representa uma alternativa ao que temos visto em grande parte das atuais produções nacionais.

Enfim. Aguardo seu comentário sobre o filme.

E como já disseram por aqui, "vida longa a seu blog".

Abraço!!!

Lisandro Nogueira disse...

Olá Moçca do figo, a fotografia poderia ser melhor. O tom escuro, triste e de matizes fúnebres, poderia ser realçado. Lembrei da tecla "brilho" da TV: o problema não é a "imagem pesada". É problema mesmo de qualidade técnica. O fotógrafo trabalhou bem e as cópias não ficaram boas. Outro problema: as salas de cinema não têm bons equipamentos de projeção. Observe no Cine Lumière: quando a projeção é digital (O silêncio de Lorna) a qualidade é outra. Observe tb. no Flamboyant e no Cinemark: os equipamentos poderiam ser melhores. Um abraço, Lidiane, a moça da maça.

Lisandro Nogueira disse...

Caro Guilhermo, o Vila Nova já é um filme cheio de emoções. Não subimos em 2008. Em 2009 será diferente!!!

Lisandro Nogueira disse...

Olá Magaly,
Vou ver a "Festa da menina...". O Claudio Assis fez um grande filme: Amarelo Manga". É um filme radical de verdade. Não é "Tropa de elite" que engana e ilude. Gostei da sua comparação: esses cineastas (Assis e Mateus) são amigos e cinéfilos de primeira. As influências são mútuas. Gostou de "Linha de passe"? Um dos melhores de 2008.

Randall disse...

Linha de Passe é genial, mas quando você mencionou Lavroura Arcaica, puta filme! Interessante fazer um "link" entre esses filmes, no lance das influências...

Abraço!

amocadofigo disse...

Olá Lisandro

Então..interessante isso sobre as cópias.
De qualquer forma, assisti o filme durante o festival, servindo apenas como aperitivo para uma segunda vez, já que cinema lotado e quente desconcentra um pouco. Uma pergunta, se puder respondê-la aqui: como você avalia a qualidade das salas de Gyn para projeção - um ranking de salas no lugar de filmes também cabem aqui?

Outras...Como fazer fotografia, produzir filme, se a projeção fica a desejar? E a fidelidade a intenção do cineasta, como fica nessa história? O que importa apenas é a intenção de produzir "uma idéia (com) uma câmera na mão? E quando ela está comprometida pelo equipamento de exibição, como no caso de Feliz Natal?

Considero importante produzir filmes (mesmo nunca tendo feito algum), mesmo com condições de produção e exibição baixas, mas claro, prezando por um mínimo de qualidade de produção(em todos os sentidos, técnico, argumento, roteiro, etc).

obs.1: Lembrei de um comentário ontem com uma professora da FAV, jornalista, sobre impressões para jornais, que talvez pode ser relacionado a questão produção/ projeção / intenção do cineasta. Não exatamente com essas palavras, ela disse que "o conceito, o tratamento da imagem, tudo pode estar belo, consistente, mas no final, ela sempre muda por causa da máquina de impressão", e tudo bem executado e com unidade pode ir por água abaixo por causa da tecnologia (um "samba" à tecnologia .. ou, amor e ódio à ela rs).

obs.2: Sobre 'Linha de Passe', certamente, um grande filme.

abraços,

Lisandro Nogueira disse...

Olá Lidiane, a moça do figo, realmente o problema da projeção é grave. O Goiânia Ouro tem uma projeção muito ruim - já comentei isso com o secretário, Doracino. Os cinemas Lumière precisam com urgência ajustar e calibrar os projetos. As salas do Goiânia shopping são as melhores. Mas estão em decadência. Eles prometem reformas. Não gosto da projeção do Cinemark. Poderia ser bem melhor, treinar os projecionistas. Os cineastas penam para produzir e colhem frutos ruins na hora da exibição.

Marco A. Vigario disse...

Bom, acho que viajei na maionese também, porque pra mim aquele granulado e aquele tom escuro do filme são coerentes com o que ele se propõe. Assim como aqueles enquadramentos parciais (olhos, bocas, braços, costas). Pra mim, são partes de um discurso visual que tem consciência da precariedade do registro cinematográfico. Um personagem que vive uma história muito humana como aquela não pode ser totalmente contido num enquadramento. Em outras palavras, não pode ser completamente comprendido. O que sabemos do passado ou do futuro deles? Nada. Ele não é nítido, é obscuro. Acho mesmo que Feliz Natal é um pouco sobre isso. Sobre a dificuldade que temos de ver o outro no dia-a-dia, quando estamos cobertos pela cortina do cotidiano, pelos rituais familiares, pelos tapinhas nas costas. Isso só torna minimamente possível nesse filme porque temos um personagem que vê a família e os amigos de um ponto de vista externo, o ponto de vista de quem está no (auto)exílio. A cortina se abre por um instante durante esse breve momento de viagem, mas volta a se fechar com o retorno ao seu próprio dia-a-dia, ao lar e à esposa.

Lisandro Nogueira disse...

M. Aurélio, muito bom comentário. É isso mesmo: o filme tem densidade e a fotografia traduz bem o ambiente depressivo!!! Ainda sobre a fotografia: a intenção é essa mesma: q. seja obscura como os personagens. Mas tecnicamente ele ficou "demasiadamente" escura - além dos projetores q. não estão com as cores "calibradas". Ou seja, eles precisam com urgência de uma reforma ou mesmo aposentadoria.

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