quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Catherine Deneuve

Uma atriz, o próprio cinema

Lisandro Nogueira

Ela marcou uma geração de cinéfilos. É bela e inteligente. Trabalhou com diretores importantes: Buñuel, François Truffaut, Roman Polanski, François Ozon, Lars Von Trier e Jacques Demmy. Continua ativa, criativa e mostra, em entrevista exclusiva para o jornalista Arnaud Desplechin, da revista Film Comment (n. nov/dez 2008), suas idéias e como foi o contato com diretores e atores do cinema.
O blog reproduz trechos da inédita entrevista, publicada, aqui no Brasil, pelo jornal Folha de SPaulo.
Acesse a entrevista completa aqui (filme comment) .

ARNAUD DESPLECHIN É claro que sua beleza é chocante, direta. Catherine Deneuve é bela de uma maneira direta. E porque ela carrega essa beleza deslumbrante com grande serenidade. E há sua audácia -Catherine é audaciosa! Sua velocidade -é a atriz mais veloz do mundo (ela rejeita a ênfase; a estupidez a entedia). Sua rebelião: nunca jogar os jogos dos adultos! Ela certa vez descreveu Marcello Mastroianni [com quem teve uma filha] como "um garoto", porque ele nunca se esqueceu da criança que tinha sido. Devido a sua rebelião, Catherine é a atriz favorita de todas as crianças francesas. Porque é uma menina. Um de seus segredos: nunca se queixar, nunca explicar -uma rainha!

CATHERINE DENEUVE - Isto vai ser sério?

PERGUNTA - É para a "Film Comment". É um pouco como uma "Cahiers du Cinéma" dos EUA.

DENEUVE - Eu não leio a "Cahiers"; compro, mas não leio. Essas revistas são na realidade para pessoas que refletem sobre o cinema, que pensam o cinema. Não são feitas para pessoas como eu. Na verdade, não leio muito sobre filmes.
PERGUNTA - Leio os "Cahiers" desde os 16 anos.
DENEUVE - Para mim há duas coisas: ação e reflexão. E constato que sou mais uma pessoa de ação. Sou uma leitora lenta, então prefiro passar esse tempo assistindo a um filme.
PERGUNTA - A sra. nunca foi à Cinémathèque?
DENEUVE - Às vezes. Esperei ter um namorado cinéfilo para começar a ir ao cinema. Eu não ia por conta própria.
PERGUNTA - Então a sra. não era cinéfila na época em que fez seus primeiros filmes?
DENEUVE - Sim, era, já tinha assistido a muitos filmes. Era muito jovem quando tive um namorado, comecei a ver filmes interessantes aos 15 anos, mais ou menos na época em que fiz "Les Portes Claquent" [As Portas Batem, 1960, de Michel Fermaud e Jacques Poitrenaud]. Ver "Ivã, o Terrível" [de Eisenstein] exerceu um efeito tremendo sobre mim.
PERGUNTA - Quem a sra. curtia mais: atores ou diretores?

DENEUVE - É estranho, mas os atores nunca me fascinaram muito, com exceção de Marilyn Monroe. Para mim, sempre foi o filme em primeiro lugar. Sempre me senti um pouco à margem, até conhecer Jacques Demy. Foi então que me dei conta de que o cinema poderia ser outra coisa, quando comecei a ter um relacionamento (profissional) com alguém que realmente me queria, para esse filme em particular.
PERGUNTA - Foi apenas após fazer "Os Guarda-Chuvas do Amor" [1964, de Jacques Demy] que o cinema virou sua paixão?

DENEUVE - Sim. O fato de o filme ser musical contou muito. Fizemos com muito poucos recursos, acho que isso o beneficiou, pois tínhamos que ser muito criativos. Estava presente em todas as gravações.
PERGUNTA - Além do trabalho de atriz, a sra. estava muito presente durante o trabalho de direção. DENEUVE - Com certeza, porque a preparação realmente era responsável por metade do filme. Jacques era muito exigente, mas também muito tímido, e gostava de rir. Eu me reconheci completamente em sua maneira de trabalhar. Para mim, alguma coisa mudou definitivamente quando trabalhei com ele. Alguma coisa profunda aconteceu em torno do relacionamento que podemos ter com um filme.
PERGUNTA - Quando considero todos os seus filmes, vejo uma qualidade singular que não enxergo em outros atores. O que vejo é a marca de uma autora. Além da excelência de sua atuação, o que seus filmes parecem compartilhar é seu olhar.

DENEUVE- Sim, você tem razão, é isso o que é: um olhar. Acho que sempre tendi a isso. Talvez por nunca ter feito escola de atuação e nunca ter trabalhado com atores. Só os encontrava nos sets de filmagem -nunca tive realmente amigos atores, com a exceção de minha irmã.
PERGUNTA - A sra. falou antes de sua paixão por Marilyn. Mais tarde, a sra. tingiu seu cabelo de loiro, e esse gesto me fascinou.

DENEUVE- Foi um gesto de amor.
PERGUNTA - Existe uma ambigüidade nele. Foi uma rebelião ao estilo de Monroe, um sonho ao estilo de Demy ou classicismo hitchcockiano? É como a pergunta que um jovem cineasta se poderia fazer: para que serve o cinema?

DENEUVE - O cinema me ajudou a amadurecer, isso é certo. Eu realmente era ignorante em muitas coisas. É difícil imaginar como o fato de fazer parte de uma família grande muda seu relacionamento com o mundo de fora. Pois uma família grande é ao mesmo tempo muito protetora e muito fechada. Foi quando me dei conta de que eu tinha o anseio de partir. Achei isso um pouco preocupante, então saí de casa ainda bastante jovem.
PERGUNTA - A experiência de fazer "Repulsa ao Sexo" [1965] em Londres com Roman Polanski durante a revolução pop exerceu um efeito mais forte sobre a sra. que a guerra dos modernos, na França?

DENEUVE - É engraçado, porque nós três éramos franceses: Roman, que, apesar de ser polonês, falava francês o tempo todo, Gérard Brach e eu. Éramos realmente os três mosqueteiros. Todas as outras pessoas no set eram britânicas. Roman sabia exatamente como fazer para ser respeitado pela equipe; não era de se deixar dominar. Mas, pelo fato de falarmos francês, vivemos a experiência de fazer aquele filme um pouco pelo lado de fora, num ambiente singular. Éramos um núcleo no interior da equipe.
PERGUNTA - Como o filme que a sra. fez com Demy, "Repulsa ao Sexo" exige uma proximidade entre o diretor e a atriz.

DENEUVE - Sim, eu me sentia muito próxima de Roman. Aquele é o filme que sinto que ajudei a fazer, pois os produtores estavam acostumados a produzir pornôs. Era um filme de orçamento baixo e, para eles, sem grande importância...
PERGUNTA - Outra atriz teria aceito os papéis por serem escandalosos...

DENEUVE - Não, não. Para mim, de jeito nenhum.
PERGUNTA - Mas o que me chama a atenção em sua performance é que a sra. aceita o papel porque acha que talvez não seja tão escandaloso assim, afinal. Ou que o escândalo é inerente à vida.

DENEUVE - Sim, isso é absolutamente verdade. Pareceu interessante e normal. Recordo-me de ter encontrado um jornalista em Los Angeles quando saiu "Os Ladrões" [1996], de André Téchiné, que me disse: "Você não sabe como vocês têm sorte, vocês atrizes da Europa". "Uma atriz americana jamais aceitaria representar uma lésbica num filme, após uma certa idade e em determinado ponto de sua vida ou carreira. É arriscado demais." Admito que sempre ziguezagueei. Você sabe, realmente depende de que filmes lhe são oferecidos. Talvez as pessoas aceitem mais minhas escolhas, enquanto, no caso de outra pessoa, diriam: "Que estranho ela ter feito aquilo". A porta que se abriu para mim após "A Bela da Tarde" [1967] foi tão grande que muitas coisas puderam passar por ela. É um filme que ficou maior com o tempo. Saiu-se bem quando foi lançado, mas apenas mais tarde se tornou mítico, quase um filme cult. E aquela personagem virou, até certo ponto um símbolo, uma heroína estranha. E, porque eu a representei, as pessoas supunham coisas a meu respeito.
PERGUNTA - Confesso que prefiro "Tristana" [1970].

DENEUVE- Eu definitivamente prefiro "Tristana" a "A Bela da Tarde"!
PERGUNTA - Sua performance como Tristana é estupenda. Os saltos que a personagem faz, da dor à inocência, da alegria ao desespero. E, então, a amargura...

DENEUVE - Sim, a experiência de fazer aquele filme foi única. E é raro representar um personagem que passa por tantos estados emocionais.
PERGUNTA - No diário que escreveu no set de "Tristana", a sra. registrou que as primeiras cenas que rodou foram as cenas de sua amargura, ambientadas no hall. A sra. escolheu seu próprio figurino e fez sua própria maquiagem. Enquanto Buñuel está em outro lugar, rodando outra cena, a sra. se confere um rosto fantasmagórico...

DENEUVE - Eu tinha mencionado a Buñuel a rainha malévola de "Branca de Neve". Com Buñuel, a experiência foi única, porque ele era muito modesto e gostava de fazer piadas sobre as coisas. Truffaut era igual. Quando filmávamos, nunca falava comigo de modo direto.
PERGUNTA - A sra. menciona que durante a filmagem da cena da sacada, Buñuel disse: "Nada de psicologia". Essa cena fez história! Por causa dela, Hitchcock escreveu uma carta a Buñuel lhe falando de sua admiração e dizendo que tinha inveja dessa tomada. Uma cena tão escabrosa, tão chocante não pode ser explicada com a psicologia.

DENEUVE - Às vezes você tem que aceitar que a imagem é mais poderosa que você, que as intenções do diretor são mais fortes que você. Por isso a performance exigia ser extremamente permeável, aberta, sem nenhum pensamento por trás. Quando me disse: "Você sorri", a idéia era ficar tão impávida quanto possível enquanto sorria e me abster de colocar uma intenção atrás do sorriso. Já havia intenção suficiente ali, para começar! Ao mesmo tempo, Buñuel era extremamente modesto. Mesmo com os atores, parecia... Era evidente que aquela não era sua etapa favorita do processo de criação cinematográfica. Era algo pelo qual ele era obrigado a passar: para que o filme exista, é preciso que os atores representem papéis. Mas o que dizia era mínimo. Era mais o que dizia fora do filme ou o que estava escrito. Mas era realmente preciso tentar imaginar ou adivinhar o que ele teria a dizer. Era muito grosseiro em sua maneira de falar. Na verdade, isso me fazia rir.
PERGUNTA - A sra. já trabalhou com vários diretores muito mais velhos: Buñuel, Melville, Manoel de Oliveira. Mas, olhando sua carreira, nunca tive a impressão de que fossem relacionamentos filiais, e sim que poderiam ser mais bem caracterizados como fraternos.

DENEUVE - Acho que isso se deve a meu lado masculino.
PERGUNTA - Também estou pensando em "Dançando no Escuro" [2000, de Lars von Trier]. Sua personagem está num canto do teatro, de mau humor, e a sra. diz "não quero fazer papel de cachorro". Mas começa a latir, mesmo assim. A sra. está de mau humor, mas faz assim mesmo. Não se trata de submissão, mas de diálogo. DENEUVE - Seria difícil explicar exatamente o que aconteceu naquele momento. Porque, na realidade, eu não deveria latir. É verdade que eu lembrei que tinha feito a mesma coisa em "Liza". Sou eu quem late quando gravamos o som. Fiz o papel de cachorro. Eu tinha dito ao [diretor, Marco] Ferreri: "Como estou representando a cadela, também farei o cão!" E assim eu tinha gravado o cachorro latindo, também. Por sinal, eu estava grávida de Chiara quando fiz esse filme. Não sei o que aconteceu com Von Trier. Alguma coisa, um pouco de desfaçatez... E não sou muito descarada. Acho que é preciso ter muita confiança para ser capaz de fazer isso. Você precisa ser capaz de pensar: "Sei subconscientemente que, se não funcionar, ele não vai incluir no filme". O que me assusta mais quando estou com um diretor e a sensação não é boa é quando penso: "Ele não tem ponto de vista, não sabe exatamente o que está fazendo, não será capaz de julgar". Quando é assim, não posso me dar por inteiro, porque não haverá ninguém para me segurar. Para mim, isso é o pior: não confiar, sentir desconfiança. Eu me contenho, quando, na realidade, quero me entregar quando estou filmando. Mas é verdade que, para me entregar, preciso sentir muita confiança. E isso não tem nada a ver com idade ou experiência. Tem a ver com intuição.

3 Comentários

José Teixeira Neto disse...

Lisandro e amigos do Blog,

acho que em geral atores precisam de scripts. Não deu, nem poderia dar, certo aquela tentativa (na qual ele perseverou longamente) do diretor Antunes Filho de encenar peças "escritas" pelos atores que as representavam: "Prêt-à-Porter 1", "Prêt-à-Porter 2", etc. até o 5 ou 6. Mas que beleza vê-los representando bons textos!

Lisandro Nogueira disse...

Olá Teixeira,
Penso como você: atores precisam do texto. E agora temos a figura do "preparado de elenco". Fátima Toledo é a figura central: preparou "atores" para filmes como Pixote, Cidade de Deus, Tropa de elite. No recente n. da Piauí (28), tem uma reportagem com ela. Vale a pena ler os prós e os contras em relação ao seu trabalho.

José Teixeira Neto disse...

Bela dica! Não conhecia a Fátima Toledo. Precisamos ficar bem atentos para o específico do ator, para aquilo que só ele pode captar do real (no campo do não-verbal). Um exemplo que sempre me vem à mente: Dustin Hoffman, em "Tootsie", em sua primeira saída à rua de vestido. Filmado de trás, andando pela calçada, ele dá uma ajeitada na posição da cueca, levantando um pouco a perna para o lado, como 99,99% dos homens fazem... No filme ficou como um resquício da masculinidade, que ele mantinha em sua nova aparência. Mas, mais importante que isso, ele registrava (independentemente da roupa feminina, portanto, fazendo ali, naquela condição, algo que seria bom que já tivesse sido feito mesmo por homens de aparência normal)um gesto corriqueiro, dando-lhe cidadania visual, o que é importante se formos levar em conta que verbalmente é quase impossível descrever o fenômeno para quem nunca o tiver visto (ou feito...).

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