quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

"Função da arte não é fazer política"

* O blog reproduz trechos (jornal Folha de SP: 8.12*) do debate "Cultura e Política", realizado em SP: com Maria Rita Kehl, Caetano Veloso, Ferreira Gular e Cacá Diegues.

. Função da arte não é fazer política, (Ferreira Gullar); ."Cronicamente inviável" é abacaxi, (Caetano Veloso-foto);
. As coisas têm valor porque se vendem, (Maria R. Kehl);
. Pirataria não é caso de polícia (Cacá Diegues).

Folha de SPaulo

Poeta revê posições dos anos 60 e Caetano diz que "Cronicamente Inviável" é "abacaxi". O peso do mercado na vida cultural, encerrado o período da ditadura militar e o ciclo das utopias de esquerda, esteve no centro do debate "Cultura e Política".

A psicanalista Maria Rita Kehl destacou que o mercado passou a pautar opiniões sobre a produção cultural numa lógica segundo a qual "as coisas têm valor porque se vendem".O compositor Caetano Veloso, que começou o debate tentando lembrar, em vão, um trecho de seu livro "Verdade Tropical", foi em sentido contrário: "A gente, que trabalha nessas criações mais vendáveis, enfrenta uma perversão oposta: há uma idéia de que uma coisa não é boa porque vende". O poeta e colunista da Folha Ferreira Gullar, que arrancou risos da platéia, disse que as relações entre arte e política, como aconteceram nos anos 60, já não fazem o mesmo sentido. Já o cineasta Cacá Diegues, ao destacar o papel da tecnologia, afirmou que a pirataria não é um problema de polícia.

POLÍTICA E MERCADO (MARIA RITA)Nos anos 80, com velocidade espantosa, o Brasil fez uma passagem da frase do [oficial nazista Hermann] Goehring ("Quando ouço falar em cultura, eu puxo um revólver", que vigorou por aqui por 20 anos) para a frase do magnata americano parodiada por Michel Piccoli no filme ["Desprezo"] do Godard ("Quando ouço falar em cultura, puxo meu talão de cheque"). O Brasil entrou na era do mercado. Na época, a Ilustrada abraçou com alegria a relação entre a cultura e o talão de cheque. O mercado resolveria o problema da cultura.A lógica de mercado aplicada à cultura vai criando uma reversão: começamos com a idéia de que as coisas se vendem porque têm valor e, após algum tempo, passamos a acreditar que elas têm valor porque se vendem.

MERCADO E CRÍTICA (CAETANO)Acho que a crítica do mercado, que é muito inspirada naquela posição dos frankfurtianos, sobretudo em Adorno, no fim das contas é inautêntica. Muitos jornalistas que citam Adorno, e contra a indústria cultural, se tornam criaturas pop na própria imprensa. E fica uma contradição: você fica esperando dali uma produção de grande arte, de arte fina, e não sai nada.Às vezes, você vai ouvir a banda Calypso e, além de estar revolucionando o modelo de distribuição, o modelo industrial e comercial da música popular, eles podem apresentar uma solução tanto de espetáculo quanto de composição e canto que atende a um interesse maior do que uma pretensão como essa. O Paulo Francis, por exemplo, era um cara pop que escreveu péssimos romances.

POLÍTICA X ARTE (GULLAR)Eu aprendi, errei, fui dos que mais erraram, fui sectário numa porção de coisas. À certa altura, comecei a ver que podia fazer poesia política com uma qualidade igual a de outro qualquer. Bastava não me contentar em ficar fazendo denúncia.Tinha de refletir mais fundo nas questões [...]. Hoje a visão que tenho é que uma obra de arte já tem função social, independentemente do conteúdo político. A função da arte é ajudar a inventar o mundo, a vida.A arte existe pois a vida é pouca.E essa função é satisfatória.

POLÍTICA E MÚSICA (CAETANO)A política possível de se detectar na produção e na apreciação de música, e de criação artística, em geral, não está onde a princípio a buscamos, mas nunca está realmente ausente.Procuro auscultar a política do surgimento de modos de produção de música popular que vieram no rastro da reprodutibilidade digital e da difusão via internet: tecnobrega de Belém, funk carioca, arrocha na Bahia.E dos fenômenos de massa que mudam a direção dos ventos da informação entre regiões e classes do Brasil: axé, sertanejo e pagode. E suas relações com a massa crítica da produção sofisticada e da crítica ambiciosa.

MERCADO E PIRATARIA (CACÁ)Não sou muito contra a pirataria, não. A pirataria no cinema não é questão policial, mas social. O cara quer consumir aquele produto e não tem poder aquisitivo. Então ele vai e compra pirata. Um amigo meu, o cineasta Sílvio Tendler, foi ao Vietnã fazer um documentário e voltou com um presente. Ele comprou um DVD pirata de "Tieta". Fiquei felicíssimo, imagina um vietnamita vendo "Tieta". A gente não pode botar polícia na rua para enfrentar isso, impedir que o mundo avance.
* Matéria completa: Jornal Folha SPaulo: 17.12.2008.

4 Comentários

José Teixeira Neto disse...

A frase "Quando ouço falar em cultura, eu puxo o meu talão de cheques", citada por Godard pela boca do personagem vivido por Michel Piccoli, no filme "Desprezo" (baseado no romance homônimo de Alberto Moravia), foi dita originalmente por Groucho Marx.

Herondes Cezar disse...

É interessante ver como pensam, hoje, certos intelectuais veteranos da esquerda brasileira, que eram revolucionários nos anos 60. O rearranjo que promoveram nas suas idéias assemelha-se ao ocorrido com os líderes estudantis europeus de maio de 68. Cada qual que tire suas conclusões.
Por fim, minha modesta contribuição à cultura cinematográfica. A frase "Quando ouço a palavra 'cultura' saco (ou puxo) o meu talão de cheques" é dita no filme "Le Mépris" por Jack Palance, que interpreta o produtor do filme dentro do filme, isto é, o bandido da história, na visão godardiana. Não por coincidência: Palance era especialista em representar bandidos em Hollywood. Michel Piccoli não poderia dizer tal frase, porque encarna o roteirista, outra "vítima" do produtor.

Lisandro Nogueira disse...

Caro Herondes,
Gosto dos artistas e intelectuais que não ficam no "mesmo lugar". Nem Caetano, nem Chico Buarque, nem Cacá, nem Bressane, nem Zé Celso. Os bons artistas sobreviveram porque tinham e têm uma FORMA q. ultrapassa o contexto. Ou melhor, uma Forma que dialoga com o contexto. O que foi feita da "estética" inspirada em Geraldo Vandré?
Você e Teixeira colocaram os pingos nos iss com a história do dinheiro e o filme do Godard.

Anônimo disse...

Seja quem for o autor dessa frase, ele não a criou, apenas parafraseou Josef Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, que disse: "Quando ouço falar em cultura, saco logo o meu revólver".

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