terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Para que serve uma mulher?

Para que serve uma mulher?

Dar prazer ao homem é fundamento da vida amorosa

Maria Rita Kehl*

Muita gente se chocou com a (suposta) brincadeira do candidato Ciro Gomes quando disse a um repórter que 'o papel de minha mulher na campanha é dormir comigo'. Frase bem típica de macho nordestino, herdeiro de muitas gerações de coronéis acostumados a mandos e desmandos, para quem mulher boa é mulher calada. Mas, pensando bem, não é essa a frase que a maioria dos homens brasileiros, de norte a sul do país, gostaria de poder dizer impunemente? 'O papel de minha mulher na minha vida é me dar prazer.'

Somos bastante hipócritas em relação a isso. O feminismo brasileiro importou da vanguarda americana uma detestável parcela de puritanismo sexual. Não sei se Patrícia Pillar reclamou na intimidade; em público, foi disciplinada e levou no bom humor. Soube, como poucas mulheres, colocar o interesse público (supondo que a candidatura Ciro represente interesses públicos) à frente de suas reivindicações privadas.

Também não sei se teria razões para se ofender. Lula, principal rival de Ciro nessa campanha (2002), costuma dizer que o preconceito é como a gripe: só pega em quem já está fragilizado. O preconceito só atinge quem se identifica com ele. O papel de 'dormir com ele' pode ofender uma esposa profissional, das que escolheram anular todas as outras ambições pessoais para melhor servir ao marido. Ofende porque revela a pobreza dessa condição. Mas não sei se ofenderia uma mulher que, além do (agradável) papel de objeto sexual, sabe que tem outros interesses e outras qualidades.

Quem há de negar que o prazer é o fundamento da vida amorosa? Respeito, admiração, amizade, projetos em comum, são importantes para viabilizar e dar consistência ao amor. Para impedir que ele se esgote na consumação da paixão sexual. São a face civilizada do amor. Nós, seres civilizados até prova em contrário, valorizamos o respeito e a admiração (de preferência, mútuos) entre os casais, assim como prezamos os projetos ambiciosos e a dedicação às belas 'obras da cultura', como dizia Freud, que ampliam o sentido da vida para além daquele que nos oferece o princípio do prazer.

Nada disso, no entanto, substitui o leite e o mel com que o prazer vem suavizar a aridez da vida. As mulheres sabem disso. Sabem também como é bom ocupar o lugar de objeto do prazer e do desejo de alguém. Sabem melhor do que os homens, que tradicionalmente sempre foram sujeitos da História e morrem de medo de experimentar a posição de objeto. Morrem de medo de gostar. Pensam que a masculinidade é incompatível com uma certa passividade. São bobos os homens! Ou nem todos, felizmente.

Já as mulheres não precisam bancar as puritanas – desde que fiquem espertas. Não se trata, como pensam algumas feministas, de evitar a todo custo o papel de objeto sexual, e sim de não se confundir com ele. Se a mulher de um candidato está a fim de desempenhar um papel decorativo na campanha e depois desfrutar as noites junto dele, bom para ela. Esse é seu papel – no amor! Mas que não seja seu único papel na vida – esta seria uma escolha infeliz. Ser 'toda' objeto de prazer para o outro é uma bela cilada. Mesmo porque os homens – pelo menos os que valem a pena – só querem em sua cama uma mulher que escape de seu domínio. Que não pertença tão completamente a eles.

* publicado na revista Época em 2002.
* Filmes relacionados: Atame, de Pedro Almodovar; Hanna e suas irmãs, de Woody Allen.
* Livros relacionados: "Deslocamentos do feminino", de Maria R. Kehl (Imago).
* Foto: 1900 - ChipPix-Shutterstock


4 Comentários

Rodrigo Cássio disse...

Lisandro: Gostei bastante. Em meio aos articulistas que enchem as revistas brasileiras de falácias e agressões ao gosto de um público de leitores acríticos, a Rita Kehl se destaca com um texto leve, que não deixa de ser fundamentado, dirigindo-se a todo tipo de leitor.

Se ela critica o feminismo, o faz deixando ver o seu embasamento. Ela é sutil, e não leva a polêmicas rasas; ao contrário, vejo que é possível debater muito positivamente, com as próprias feministas, a partir do que ela diz.

Eu percebo um forte espírito de conservadorismo na minha geração, que é ainda maior na geração que vem aí. De uma fase muito crítica, caímos em um momento de apatia, de desconfiança, ou como diz o Safatle, de cinismo. O que pode ser feito, a meu ver, é munir a crítica dos anos 1960/70 de uma sofisticação que ela não tinha, e que acabou marcando o seu envelhecimento, sua rejeição no presente. Vejo essa disposição na Rita Kehl - ao menos nos textos dela que você já nos apresentou.

Um abraço.

Marina Morena disse...

Como a Maria Rita Kehl foi feliz no artigo dela !!! Ela sabe exatamente para quê serve uma mulher... sabe que podemos ser modernas, fortes, trabalhadoras e muito competentes. Mas sabe também que não podemos, e não gostamos de perder a feminilidade. Ainda temos prazer em dar prazer, em ser objeto de desejo. A vaidade feminina faz parte da mulher e é um combustível na vida dela. Eu vejo as mulheres brasileiras muito hipócritas no feminismo delas. Falam em profissão e direitos iguais, mas não são capazes de se defenderem do machismo dos homens quando o assunto sai em uma mesa de buteco. Não querem ser inconvenientes e preferem se calar para parecer a moça boazinha. Ainda sonham com o príncipe encantado e são capazes de ser infelizes a vida toda por não terem arrumado um marido. E querem um marido rico! Esses dias um senhor me telefonou na redação e disse que se eu conseguisse um contato para ele, ele iria rezar pra mim para que eu arrumasse um ótimo marido, bem rico ! Eu fiquei espantada. Chocada. Duvido que ele diria isso a um homem. "Se vc me conseguir esse contato, eu vou rezar pra você arrumar uma esposa bem rica!" Mas a resposta já estava na ponta da língua: "se eu quisesse me casar, meu senhor, teria me casado com meu namorado que ja pediu a minha mão milhares de vezes. Eu não quero um marido rico. Eu é que vou trabalhar e ganhar muito dinheiro, e ele vai ser todinho meu!!!"

João Angelo Fantini disse...

"Não se trata, como pensam algumas feministas, de evitar a todo custo o papel de objeto sexual, e sim de não se confundir com ele. " Neste parágrafo se encontra o cerne do drama feminino. Talvez as mulheres nunca tenham tido tanto sexo como nas ultimas décadas, no entanto, padecem como nunca de depressão. A falta contemporânea cobra da mulher o papel de sujeito e não apenas de objeto (especialmente o papel de objeto de troca). Sempre houve mulheres que sacaram isso, desde Cleopatra a Leila Diniz. Porém o lugar de sujeito é duro: implica abrir mão das benesses, e mais, enfrentar não apenas os homens, mas especialmente as mulheres que veêm nestas mulheres (muitas delas) um papel social não muito respeitável.
As que aceitam o papel histórico da mulher objeto, resta muitas vezes a depressão, preço a ser pago pela covardia moral.

amocadofigo disse...

Que ótimo texto, Lisandro

Achei que o papel de objeto ficou mais leve com as palavras de Maria Rita, como o Rodrigo mesmo falou. Com essa leveza, fica aceitável a objetificação, seja da mulher ou do homem, pelo simples fato de considerarmos que somos humanos, temos sentimentos, e que vivemos do prazer e satisfação com diversas coisas. Uma nova visão do "ser objeto", do que isso representa para o ser humano, indo além da discussão de bom/ruim para a mulher, e de olhar dominante (masculino).

Falando em objetificar, Louis Garrel, ator de "A Fronteira da Alvorada", em entrevista a Ilustrada no Cinema, da Folha de S.P., disse não se incomodar em ser chamado de "ator-fetiche" do cinema francês - que bom para nós, espectadoras invertidas da "narrativa clássica dominante", (vide), nesta situação. Rs.


abraços,

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