domingo, 11 de janeiro de 2009

Um jovem cinéfilo em Paris

Lourival Belém Neto, em entrevista, revela a relação dos estudantes com os cinemas - em Paris.

Lisandro Nogueira

Em 1978 os jovens do Cineclube Antonio das Mortes (fundado em 1977 na UFG e que depois ganhou o mundo) estavam no aeroporto de Goiânia. Esperavam Ismail Xavier, prof. de cinema da USP – que lançaria seu livro "O discurso cinematográfico" em Goiânia. Belém Neto, o Beteto, não estava lá. Mas seu pai, Lourival Belém Jr., cineasta e psiquiatra, lá estava.

Em 1985 em Brasília, Beteto tinha dois anos. Nós do cineclube, na roda de conversa com Ismail Xavier, víamos o olhar dele para aquele pequeno "mundo do cinema". Guaralice Paulista, sua mãe, carregava Beteto nos braços junto com a máquina fotográfica - o pequeno cinéfilo teve ali sua primeira aula de cinema!!.

Todo mundo que passou pelo Cineclube Antônio das Mortes está ligado de uma forma ou de outra ao cinema. Formação cultural é quase tudo na vida de uma pessoa. Beteto, é neto do Cineclube. Estudou na Unicamp e faz mestrado, toca violão e faz fotos em Paris. Na entrevista, Beteto, Lourival Belém Neto, descreve a vida de um jovem cinéfilo em Paris:

Os cinemas em Paris são acessíveis aos jovens estudantes? O cinema aqui em Paris é muito mais acessível aos estudantes que no Brasil de forma geral. A carteirinha de estudante dá algum desconto. Mas o mais interessante são as carteirinhas de "passe livre" bancadas por associações de cinemas. Por exemplo, a UGC illimité me dá direito a ver quantos filmes eu quiser e quando eu quiser, em mais ou menos 60% dos 110 cinemas de Paris, por 19,80 euros por mês.

Pode até parecer caro se convertermos para real, o que seria algo em torno de 63 reais, mas na verdade não é. Pois a entrada do cinema para estudante gira em torno de 6 euros. E se levarmos em conta o poder de compra da moeda e o custo de vida aqui, podemos dizer que 6 euros aqui vale mais ou menos como 8 reais ai. Logo, o cinema aqui é muito mais barato. É como pagar 25 reais por mês para assistir o tanto de filme que quiser, sabendo que aqui tem uma programação que pode te levar ao cinema pelos menos 10 vezes por semana.

Quais as diferenças entre os cinemas de Paris e os cinemas de Goiânia?; (conforto, localização, projeção);

A primeira diferença é o tamanho das salas. Paris tem carência de espaço físico, logo as salas grandes são mais raras. Por outro lado, é difícil encontrar uma sala com poltronas desconfortáveis. As telas em geral são boas e adaptáveis ao formato do filme para que não sobre aquele espaço em branco na lateral. O áudio raramente é de última geração, mas nunca deixa a desejar.

E talvez o mais importante sobre as salas seja o comportamento dos franceses dentro da sala. É impecável... nem um ruído, nada de pipocas e barulhos de canudos de refrigerante. E completamente imóveis. Pode parecer estranho, mas é um saco assistir um filme com uma cabeça na sua frente que não pára de mexer, aqui em Paris nunca tive esse problema, parecem múmias dentro da sala.

Os jovens parisienses q. você conhece são ligados no cinema americano ou são mais ligados no cinema francês?.

Os jovens franceses que conheço são mais ligados ao cinema latino americano... Não vejo muito falarem de filmes franceses especificamente, poderia dizer talvez que sejam mais ligados aos filmes europeus. Por outro lado, se você caminhar pela champs-elysé e perto dos cinemas mais populares (como o Severiano Ribeiro aí no Brasil), ou na Bastilha, verá filas de jovens para ver filmes americanos, ou filmes franceses que são verdadeiras cópias de filmes americanos, mas com atores franceses e falado em francês.

11 Comentários

José Teixeira Neto disse...

Senhor entrevistador,

ficou faltando uma informação básica a respeito de Lourival Belém Neto, com quem conversei (ele estando em Paris) numa conexão feita por sua irmã, hospedada na casa de Rubens Machado, com a tecnologia do lap-top + câmara digital de vídeo: o que ele estudou na Unicamp e o que pesquisa agora na França?

José Teixeira Neto disse...

Lisandro e amigos do blog,

fiz (lá embaixo) um longo comentário sobre a discussão iniciada sobre "Gomorra" e as comparações, feitas em termos equivocados por você, com "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles.
Tudo em busca de chegar a um foco frutífero para o debate (o "pensar conjunto", disse Kant).
Abraços

Zeca

Lisandro Nogueira disse...

Caro Teixeira e amigos do blog, lá embaixo,no post sobre "Gomorra" eu volto no assunto do Meirelles. O post com Beteto me fez lembrar que nem só de cinema vivem os professores. Aproveito para relatar a noite de ontem. Cecília Paes, ex-aluna e assistente do blog, me convidou para ver e ouvir a banda de pop/rock "Dos sons". Eles começaram com uma sessão anos 70: Led Zepelin, Genesis, Yes e sacudiram prá valer o público com duas canções de Suzy Quatro (quem lembra??). Uma bateria (Ricardo), duas guitarras (Cecília e Jorge), baixo (Henrique Sérgio) e a bateria enorme com Mineiro e Jorge Rafael somam os "Dos sons". Em seguida tocaram três seguidas do The Police e me emocionaram com "Top Loader". Tocaram "dancing in the moonlight" e fui às lágrimas. Minha filha ouve sempre no Ipod e meus amigos distantes tocam essa música no inverno. Finalizaram com uma sessão brasileira: Barão Vermelho (Beteto nasceu ouvindo "Bete Balanço" - q. eu levei em fita para o seu pai na maternidade), duas do Paralamas (Óculos e Meu erro) e, em homenagem, imagino, aos "velhos" que gostam de vinho e café, duas deliciosas do Belhcior: "Medo de avião" e a sutil e bela "Comentários a respeito de John". Noite inesquecível como são inesquecíveis as dezenas de sessões do Cineclube Antonio das Mortes. (Lisandro Nogueira).

MARINA MUNIZ MENDES disse...

Lisandro, gostei muito da entrevista e ressalto que a diminuição dos ruídos (barulho de pipoca,
conversas durante o filme, troca troca de poltronas...) se dá pelo
espaço de socialização nos cinemas franceses se dar próximo à entrada
do cinema. Antes e depois do filme, do lado de fora das salas de
cinema, as pessoas se encontram e conversam ou comem pipoca.
Entretanto, aqui no Brasil esse espaço, tradicionalmente, se dá dentro
das salas, durante a projeção do filme. É uma experiência diferente ir
ao cinema onde as pessoas estão focadas no filme e após o mesmo
permanecem no "lobby" do cinema discutindo sobre o filme e apesar das
comuns críticas sobre a "frieza" dos europeus, o cinema é um local de
bater um bom papo com pessoas desconhecidas.

Anônimo disse...

Caros amigos, Lourival Belém Neto estudou economia na Unicamp e estuda agora na Sorbonne: tb. economia. Além de estudar fotografia e música. (Lisandro)

José Teixeira Neto disse...

Lisandro,

era isso que eu queria ver publicado! A especialização do estudioso. Quanto mais avança o conhecimento da pessoa (ainda que as dúvidas também cresçam...), mais ela fica marcada por sua área, e é bom que seja assim, em prol da sociedade em função da qual essas pesquisas sejam desenvolvidas.

José Teixeira Neto disse...

Lisandro,

gostaria de ver aqui alguma participação do Belém (pai). Como cineclubista, cineasta e cinéfilo, ele certamente teria muitas e valiosas contribuições.
Um abraço

Lisandro Nogueira disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

Wiliam disse...

Olá José Teixeira e amigos do blog, estou em Goiânia. Volto para à Itália em março. Conheci o Café n. 01 - aparece aqui no blog como um dos melhores. Tivemos uma aula sobre como conseguir a excelência do café - lá estava um "especialista" q. nos deu várias dicas preciosas. Saindo dali, vi árvores com mais flores que folhas. Me impressionei tanto com isso...
Não conhecia Goiânia. A minha expectativa era ver o cerrado ao amanhecer...e tive essa visão verde - não sei explicar - cheio de relevos diferentes, uma variedade de cores, cheiros. Um abraço, Wiliam Farnesi.

José Teixeira Neto disse...

Grande Wiliam!

você, ao atravessar o Atlântico, deixou o "Farnesi" e adotou o "Wiliam", como é mais comum por aqui. Só o Lisandro, que no fundo é um tradicionalista, me chama de "Teixeira". Legal você observar tão atentamente as árvores, que para nós muitas vezes passam despercebidas. Tente sentir o perfume que se desprende de uma palmeirinha chamada "cica", para mim uma das coisas mais características do Brasil (o perfume, não a palmeirinha). Esse perfume só exala, em São Paulo e nos estados do Sul, no verão, mas em Goiás e no Nordeste (claro que na Amazônia também) pode-se senti-lo o ano inteiro. Curiosamente, descobri que essa palmeira existe em todos os continentes... Não é originária do Brasil...

amocadofigo disse...

Isso sim é incentivo a cultura. Não leis que apenas incentivam a produção de filmes (que não deixa de ter sua importância), mas que dá acessibilidade (“democratização”- vide decretos de alterações da Lei Rouanet) tão explicitada nas leis relacionadas ao Cinema no Brasil.

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