sábado, 10 de janeiro de 2009

A troca, de Clint Eastwood (a estréia da semana)

Complexidade na medida certa

Camila Vieira*

Ao lado de atuais cineastas norte-americanos que merecem ser apreciados com atenção - como James Gray e David Fincher, só para citar alguns -, o veterano Clint Eastwood certamente é o que melhor herdou os códigos do cinema clássico norte-americano. A cada filme, torna-se mais evidente o quanto Eastwood acredita na força de seus personagens e dos dramas que inventa, bem como na maneira sutil de operar uma determinada forma de decupagem tradicional.

No entanto, nenhum desses elementos consegue apagar o próprio estilo de Eastwood como cineasta, principalmente em A Troca.Eastwood assina a direção, a produção e a trilha sonora deste longa-metragem, que narra o drama de Christine Collins, uma mãe solteira que, na década de 1920 e 1930, sofre com o desaparecimento do filho e, logo em seguida, se vê vítima da irresponsabilidade e da negligência do Departamento de Polícia de Los Angeles na resolução do seu caso.

Diante de um argumento tão banal como este - ainda mais com a marca clichê do "a true story" (uma história verídica) -, o que faz de A Troca um filme que emociona e que se diferencia de um mero melodrama de época? Com certeza, não é a interpretação de Angelina Jolie, que recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz pelo papel, tampouco sua chance de também ser indicada ao Oscar. Acredite: Jolie não merece todo esse crédito.Talvez o grande mérito de A Troca seja sua inadequação a um determinado gênero. Se os mais apressados o classificam amplamente como drama, os mais cuidadosos percebem as inúmeras modulações narrativas do filme, sobretudo as transformações dos temas do roteiro.

A Troca se apresenta como um típico drama familiar, logo depois, desenvolve-se como uma espécie de filme-denúncia acerca da inoperância das instituições e do peso da injustiça sobre os indivíduos, em seguida, torna-se um thriller, depois drama de tribunal, depois volta a ser melodrama... Com essas constantes variações, Eastwood faz de seu filme uma estrutura complexa, mas ao mesmo tempo enxuta naquilo que pretende obter a cada cena construída.

Em A Troca, o estilo eastwodiano é facilmente reconhecido. Temos a crítica voraz às instituições, a defesa ao cidadão comum cuja vida é destroçada pelo sistema, o lado perverso do ser humano exposto sem qualquer tipo de sensacionalismo, a possibilidade de sobrevivência e de esperança apesar da morte do outro. Eastwood demonstra mais uma vez que é o cineasta da precisão e do rigor, ao fazer cinema apenas com o que é necessário.
* A Camila tem um blog e solicita aos aos interessados visitá-la visando a troca de idéias: imagem_em_movimento.blogspot.com
* Jornalista e mestranda em comunicação da Universidade Federal do Ceará.

18 Comentários

Anônimo disse...

O filme "A troca" está em cartaz nos cinemas Lumière, Cinemark, Goiânia Shopping e Flamboyant.(Pedro Vinitz)

João Angelo Fantini disse...

fiquei interessado depois deste artigo, já que o trailer é bem desanimador. parece um dramalhão mesmo...
falando nisso, vi Gomorra. como tinha acabado de chegar do Rio onde subi o morro (para ouvir jazz. acredite se quiser), achei pinto, como dizia o Francis. aquilo ali só impressiona europeu, acho.

Anônimo disse...

Olá João, diga quais os motivos para não ter gostado de Gomorra. No post publicado aqui no blog, um crítico português faz boas considerações e os comentários, em geral, compartilham com sua desaprovação. (Lisandro)

Fernando disse...

Eu vi hoje "A troca", com meus dois filhos e nós gostamos muito. O Filme é muito bem feito e consegue sim ser um épico.

Belém Neto disse...

Para mim o problema de "A troca" é que não nos convida a pensar, pelo contrário, nos entrega a reflexão já toda pronta e tudo o que nos sobra é o convite a sofrer com a história.

Talvez eu diria que seja exatamente o oposto de dogville por exemplo... Só para fazer uma comparação.

E problema disso é que depois de algumas semanas, no máximo alguns meses você já não pensa mais no filme, nem no tema, muito menos tem o sofrimento (ainda bem!).

Enquanto no oposto, como Dogville, onde a reflexão é sua também, você jamais esquece, logo te transforma..

José Teixeira Neto disse...

Camila e a quem mais possa interessar-se pelo tema,

Por que existe "a marca clichê do 'a true story' (uma história verídica)" e isso é motivo para diminuir um tipo de cinema, enquanto, se o filme autodenominar-se "cinema-verdade", dispensar o aprofundamento do trabalho artístico, acreditar numa contradição em termos que é a chamada "estética imanente" e seu autor sair por aí falando em "realismo", "autenticidade" etc., isso pode ser visto como algo Bom, Virtuoso?

Rodrigo Cássio disse...

José Teixeira,

A sua pergunta é uma exclusão de meio termo. Não tem resposta - porque, no fundo, não tem pergunta.

Acho que há muitas coisas que "diminuem" um projeto de cinema como o de Eastwood, por mais bem acabado que ele seja. O recurso a clichês, sem dúvida, é um peso contra. Ou será que os clichês foram elevados a princípios artísticos da mais alta qualidade?

Hoje, se o que se quer é um "resgate" dos códigos clássicos, eu só vejo relevância em fimes como um Angel, de François Ozon. Ser clássico e não ser. Ser clássico, mas apurado, na própria absorção de uma forma fílmica; enfim, ser maneirista, como Ozon. Ou então abandonar de vez essa obediência, que, todos sabemos, é muito mais de ordem econômica que expressiva.

Ainda não vi "A Troca", logo, não posso ir longe no comentário. Agora, ser "o mais clássico entre os modernos" - como costumam chamar o Eastwood -, a meu ver, é estar um tanto quanto atrasado. Se não para o grande público, que sempre amou os clichês, ao menos para a arte que realmente importa: a que consegue traduzir em forma e conteúdo os problemas do presente.

Camila Vieira disse...

Bem, muitos comentários sobre A Troca... Como escrevi o texto, sinto-me na tarefa de responder alguns.
João Ângelo - O trailer - feito pra vender o filme - é bem dramalhão mesmo.
Belém Neto - O que justamente Clint Eastwood não faz é deixar qualquer tipo de "mensagem" muito clara. A Troca não é um filme-tese, como é o caso de Dogville, que me parece ser bastante moralista e conservador e apresenta um ponto de vista sobre o mundo bastante marcado por esse aspecto.
José Teixeira - A opção de avisar ao espectador de que determinado filme de ficção é inspirado em uma história real me parece ser mais uma jogada de marketing para atrair um determinado tipo de público (veja a explosão de filmes que usam esse recurso, nos últimos anos) do que necessariamente algo que contribui para a construção diegética do filme. A discussão aqui pouco tem a ver com o "cinema-verdade", ou com o realismo.

Rodrigo - Não acho que Eastwood seja um cineasta clássico. Ele usa os códigos do cinema clássico, mas consegue ser contemporâneo, porque lida com os temas de seu tempo. Dizer que A Troca é "um Eastwood menor", como disse a Isabela Boscov, também não contribui em nada para o debate.

Para todos - Essa resenha foi publicada originalmente no blog imagem_em_movimento.blogspot.com. Aguardo o comentário de vcs lá.

José Teixeira Neto disse...

Rodrigo,

você no primeiro momento me deixou feliz: dirigi minha pergunta à Camila e a quem mais "possa interessar-se pelo tema", e apareceu alguém interessado, você. Mas, surpreendentemente, seu comentário negou que houvesse ali uma pergunta. É chato ser negado como interlocutor, mas, de qualquer forma, você ofereceu uma contribuição, no campo de seu gosto pessoal, e isso é o mais importante – que haja contribuições – para o bem do blog. Só digo uma coisa a respeito do início de sua intervenção: não necessariamente o que admite meio termo é bom, ou interessante... Creio que mais importante que buscarmos meios termos (ou absolutos radicais...) é verificarmos se há (e até que ponto há) ou não razão numa manifestação de pensamento.
Voltando brevemente aos termos de meu comentário (em forma de pergunta) a um único aspecto do artigo de Camila, eu não disse que discordo da afirmação dela (na verdade, concordo totalmente; em nada se valoriza um drama como, por exemplo, "Romeu e Julieta" ou um romance como "Madame Bovary", se soubermos que eles ocorreram na "vida real"), apenas digo que a pretensão, que vem desde Dziga Vertov (com muitos seguidores, ainda que usando de outras argumentações, passando pelos realismos e neo-realismos, cinemas-verdade), de abolir o ficcional, o artístico, em nome de uma "verdade" que se auto-revela, além de não produzir bons frutos em termos de obras, presta-se à mistificação.

José Teixeira Neto disse...

Camila,

fiz um comentário focado na intervenção do Rodrigo Cássio sem ver que você endereçara uma resposta a minha pergunta (e você a entendeu como uma pergunta. Obrigado!). De fato, não se trata de cinema-verdade nesse filme, e em qualquer outro de Clint Eastwood, mas direcionei a reflexão de quem lesse seu artigo para a questão da busca de "verismos" e realismos, por achar que há uma relação entre os dois usos da verdade, e porque no blog às vezes se manifesta uma simpatia, a meu ver equivocada, pelo realismo.

Rodrigo Cássio disse...

Oi Camila,

Eu também não acho que o Eastwood é um cineasta clássico. Até porque isso é impossível. Mas já li pelo menos em dois críticos a reverberação da idéia de que ele é o mais "clássico dos modernos". É nesse sentido que vale o comentário: ele é um cineasta bastante tributário de uma maneira de se fazer cinema que é própria do cinema clássico.

Quanto a ele lidar com temas contemporâneos, isso é patente. Mas fica a pergunta: por que usar uma forma tão arraigada nas décadas de 30/40/50 para expressar um mundo que mudou tanto?

E é nesse sentido que eu não acredito em um projeto de cinema como o de Eastwood. Falta a forma adequada para lidar com os nossos temas do presente (incluindo o autoritarismo dos EUA, que você reparou como uma crítica lançada por A Troca).

Rodrigo Cássio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodrigo Cássio disse...

Oi José Teixeira,

Eu não questionei a maneira como você fez a pergunta para negar-lhe como interlocutor. O contrário disso!

Acontece que a maneira como você apresentou as alternativas me pareceu inadequada. Se eu simplesmente aceitasse a pergunta, tal como você a formulou, eu estaria aceitando a sua maneira de apresentar os conceitos. E isso eu não poderia fazer, pois é justamente o seu uso dos conceitos que me leva a discordar e a querer intervir.

Seria impossível dialogar, de fato, se eu começasse o meu comentário respondendo a sua pergunta. Pois eu não a reconheço como uma pergunta válida (não é nada pessoal, é óbvio; trata-se apenas de problematizar os conceitos e o lugar de cada um deles).

Logo, eu concordo totalmente com você, quando diz que o que importa é "verificarmos se há (e até que ponto há) ou não razão numa manifestação de pensamento."

Bem, o problema que vejo na pergunta é: será que temos, de fato, o "ficcional" (Griffithiano?) de um lado, e o realismo vertoviano do outro? O primeiro sempre negativizado, e o segundo sempre positivado?

Até certo ponto, eu aceito a sua questão, e percebo que ela se justifica. Mas discordo, principalmente, quando você inclui na pergunta que o realismo vertoviano é uma contradição em termos. E o ilusionismo do cinema ficcional/clássico/griffithiano? Ele também não é uma contradição em termos? Afinal, trata-se de um discurso que criou códigos para anular a sua própria instauração como discurso.

É esse meio termo que, a meu ver, faltou na sua pergunta. O que a tornou, digamos, capiciosa. Um pouco como uma armadilha.

Para continuar o diálogo (por favor, entenda-o assim, como diálogo): Por que você afirma que o realismo de origem vertoviana não produziu bons frutos em termos de obras? Eu discordo completamente. Não só por gosto, mas por razões estéticas, pensando as possibilidades e os limites do cinema como uma expressão artística.

Rodrigo Cássio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodrigo Cássio disse...

José Teixeira (continuando...),

Se eu bem entendi o que você chama de "contradição em termos" do cinema "imanente", estamos falando do cinema direto, para o qual o termo "realismo" é especialmente importante. Justamente esse é o cinema que pretende atingir o real, revogando as intervenções do artista. Tal contradição em termos pode ser denunciada pelo cinema verdade, que mostra o aparato para incluir a intervenção. Um realismo de meios, e não de fins.

Creio que a contradição intrínseca ao cinema direto é semelhante à que vejo no cinema ilusionista/ficional. A propósito, o lance da "true story" cabe muito bem nesse aspecto. Afinal, é o mundo que se dá a conhecer (no âmbito da linguagem ilusionista, tanto faz se o filme se diz apenas "baseado" em fatos reais; ele é apresentado de maneira ilusória, com atuações naturalistas de atores que se envolvem em tramas relativas ao nosso dia-a-dia).

Logo, podemos igualmente ir contra a ala-Griffith munidos com o cinema verdade.

Em certo sentido (quase partindo para o extra-fílmico), poderíamos até dizer que o espectador capaz de se dar conta do jogo ilusionista de faz-de-conta desautoriza a idéia de que esse cinema é contraditório em termos. Mas, se fosse o caso, isso não valeria, também, para o espectador do cinema direto?

Ou, se eu não estiver perguntando bem, onde está, afinal, a contradição?

Aqui, estou tentando ter uma reação mais produtiva ao seu comentário inicial. Mas a minha primeira resposta também teve essa intenção. Seus comentários são provocantes. Eu só poderia responder-lhe também provocando, no melhor sentido do termo!

Rodrigo Cássio disse...

José Teixeira,

Pra fechar: o que mais importa no meu último comentário é que, ao mesmo tempo em que podemos ir contra a ala-Griffith, recorrendo ao cinema verdade, o cinema direto, por sua vez, possui fundamentos que não estão muito distantes desta ala-Griffith. Em síntese, no cinema que você chama de ficcional/artístico, também há um realismo em jogo!

Camila Vieira disse...

Oi José Teixeira,
A inesgotável disputa no cinema entre "realismo" e "ficcional" me parece um pseudo-problema. Um filme é em si mesmo a criação de um mundo (porque sempre agrega valores) e não se reduz a uma mera representação de algo externo a ele.

Rodrigo disse...

José Teixeira e Camila,
O último comentário de Camila foi perfeito. Em poucas palavras, é isso mesmo. Lembrei-me do Bazin, que é, ao mesmo tempo, realista e "ficcional". Nessa via, ele apresenta a idéia de um poder revelatório do cinema em um âmbito bastante singular, que não exclui a narratividade nem o tratamento artístico do que é visto na tela. Enfim, não há nada, a priori, que separe o realismo e a ficcionalidade.

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