segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Boyle força a mão e transforma a Índia em esgoto a céu aberto

Um abacaxi!!

Inácio Araújo

Depois de ver O Leitor era justo imaginar que nada pior poderia acontecer. Engano. Depois havia ainda Quem Quer Ser um Milionário?, como a mostrar que o Oscar 2009 busca ser a pior edição de todos os tempos. Soube-se que Danny Boyle, promessa do cinema há pouco mais de dez anos, quando se esforçava para parecer um Gus van Sant inglês, ficou ofendido ao ver seu filme comparado com Cidade de Deus.

Mas o que há de melhor no novo Boyle é uma distante lembrança do filme de Fernando Meirelles. Com efeito, logo no início há a favela, a criançada, as perseguições, a fotografia metálica, a câmera nervosa. Estamos na Índia, ex-colônia britânica. Seria possível dizer que mais valia cineastas ingleses tratarem das mazelas inglesas, que não são poucas, como a permissão para a polícia meter bala em brasileiros impunemente.

O fato é que em "Quem Quer Ser" não estamos em Londres, mas em Mumbai. Estamos às voltas com Jamal, o garoto do chá de um serviço de televendas, que se inscreve num programa de perguntas e respostas famoso por derrubar os mais cultos da Índia. Para surpresa geral, ele começa a ganhar prêmios.Então a polícia intervém: Jamal é preso e torturado para confessar que fraude pratica. Depois de muita tortura, saberemos, nós e o policial que torturava (subitamente convertido em ouvinte atento do rapaz), que cada resposta foi aprendida ao longo da vida.

Esse é o começo, e a coisa já é horrível. Para que Jamal ganhe mil rúpias ou algo assim seremos submetidos a uma das cenas mais desagradáveis da história do cinema: o menino que ficou trancado numa fossa sanitária percebe que a única possibilidade de ver seu ídolo, um cantor ou algo assim que acaba de chegar, é pular nas fezes acumuladas embaixo dele. Ele não pensa duas vezes: pouco depois chega triunfal perto do cantor, coberto de fezes até a cabeça (foto), pedindo um autógrafo. Daí sabemos que é bom ficar preparado: a cada resposta corresponderá um episódio do tipo -e a coisa vai a 20 milhões de rúpias ou, pior, duas longas horas de filme. Nesse intervalo veremos a mãe de Jamal pegar fogo; Jamal, o irmão e a amiguinha serem recolhidos por um gângster, que faz crianças pedirem esmola; um desses meninos ter os olhos arrancados para comover os passantes.

Vista por Boyle, a Índia é um esgoto a céu aberto, moralmente inclusive. Nesse lodo viceja a alma pura de Jamal, uma mistura do estoicismo do dr.Kimble de O Fugitivo com a ingenuidade de Forrest Gump. Com ele entramos no terreno do prodígio. Jamal é puro, bom e forte o bastante para sobreviver. O que o torna assim? Algo de sua natureza, ou da ordem do destino. Ou seja, embora use a mão pesada para os problemas indianos, a explicação do caráter de seu herói é metafísica. Jamal passa incólume por tudo, como esse mundo infame em que vive não o afetasse. Para fechar esse abacaxi, ocorreu a alguém transformar tudo em musical (é como o filme termina -e não há problema em saber, não tem nada a ver com a história): é como se a inconsequência final livrasse o filme da infâmia. Não livra.

20 Comentários

Anônimo disse...

O Inácio Araújo, crítico da Folha e amigo do blog, fez essa crítica. Gostei muito e liguei para ele pedindo para publicar aqui no blog. Ele é um dos poucos críticos que fazem uma boa análise e não douram a pílula. (lisandro)

Rodrigo Cássio disse...

Bela crítica. Uma das melhores que li nos últimos tempos.

Caroline disse...

Concordo plenamente... Cenas como a de Jamal pulando nas fezes é com certeza a sequencia mais apelativa. É como se todo o tempo o filme gritasse 'lembre-se de mim!'. Para bem ou para mal, se essa era a intenção, Danny Boyle conseguiu!

Thiago disse...

Acho injusto comparar o filme de Boyle com "O leitor". Não há nada que os aproxime - ao menos é essa a impressão que tenho sem ter visto o filme que possibilitou Kate Winlet levar uma estatueta para casa. "Quem quer ser um milionário" tem, sim, seus méritos e é possível hoje em dia fazer um filme mostrando realidades tão distintas - e ao mesmo tempo tão próximas - de nós. Não estou questionando as qualidades de "O leitor", mas não é porque tratou de um assunto tão caro aos nossos tempos modernos, o Holocausto, que devem necessariamente premiá-lo. E outra coisa, por que se guiar pelas premiações do Oscar para ver um bom longa? Fica a dica.

Rodrigo Magalhães disse...

Como muitos filmes,"Cidade de Deus" por exemplo, o começo é legal, mas ao decorrer da estória, vai ficando enjuativo, exaustivo, cansativo e tudo de "...tivo" que tiver sobrado, menos "positivo".
Apesar disso, é possível assistir até o final, sentir prazer com algumas cenas, e ter curiosidade do que vem pela frente.
Aconteceu com "Quem quer ser milionário". Mas o final, logo depois do final, quando todos estão dançando, me fez ficar com náusea, arrependimento de ter assistido. É a mesma coisa que estar fazendo algo incrível, estar conquistando o mundo por exemplo, só que não passa de um sonho.

Resumindo, o filme é legal mas extressativo sem precisar, mas a dança no final estragou tudo.

Thiago disse...

E não achei a cena das fezes apelativa (que foi feita originalmente, frise-se de pasta de amendoim e chocolate... quantas gordinhas não gostariam de estar no lugar de Jamal...). É a metáfora de onde podemos ir, do que podemos fazer, enfim, para alcançarmos nossos sonhos. Nem que seja preciso chafurdar na m*rda. Ah, por favor, apelativo é ver Tom Cruise embarcando na onde de filmes de Holocausto para fazer, em síntese, uma ode a si mesmo. Pronto, desabafei. (rs)

Rodrigo Magalhães disse...

Imagine os personagens destes filmes: O Poderoso Chefão, Gritos e sussurros, algum do Woody Allen e até mesmo este Quem quer ser milionário. Agora imagine estes personagens dançando no final do filme.
Mas que !#@$@#!$¨¨&%$¨#%$#

Thiago disse...

Engraçado, Rodrigo, eu vi aquela cena da dança, proposital e maliciosamente ali colocada como forma de aproximar Hollywood do universo bollywoodiano. Ridículo? Talvez por estarmos habituados a ver os personagens do cinema ocidental cantarolando apenas em musicais.

Rodrigo Magalhães disse...

Talvez. Mas imagine os filmes ocidentais de comédia, em que os personagens dançam no final. Isso é normal e encaixa bem. Mas filmes com um enredo sério (drama, etc), não combinam com danças cômicas.

Thiago disse...

Daí concordo com a matéria da Folha, no sentido de que a "diferença entre filmes americanos e estrangeiros dilui-se cada vez mais". Por que pensar apenas sob a ótica cinematográfica da América?

(Ops, desculpa, Lisandro, empolguei. Acho que vou abrir um blog também, hehe...)

Thiago (again) disse...

Ah, Rodrigo, eu acho que até os favelados e um ex-favelado milionário, que penou durante a história toda, também têm direito à redenção final. Eu vi ali um momento de pura epifania. Nem que que seja dançando na estação ferroviária eles conseguem ser felizes. Por favor, não sejamos tão carrancudos. E, por favor, não levemos tão a sério a estética da favela.

Thiago (pronto, não falo mais, rs) disse...

Salvo engano, para os indianos, dançar, mas do que pura diversão, é momento de celebração da vida. Vi por esse viés.

Rodrigo Magalhães disse...

Já disse para meus pais e para alguns amigos íntimos, quando eu morrer, faça uma festa, no bom sentido. Chorem, mas coloque no meu velório, alguns violinistas tocando a mais colorida das músicas: "primavera" de Vivaldi.
Posso ter exagerado na música, mas eu quero isso.

Mas, em um filme, salvo os extras, making off, cenas como aquela não se encaixam bem. É engraçado, mas há algo que não atrai muito.

Rodrigo Magalhães disse...

Para acabar, sei lá, sou um cara muito sério, mas muito legal, e misturo no dia-a-dia coisas trágicas com alegria, só que neste filme, ficou tão, tão, tão, brega.

Thiago disse...

OMG! E ninguém duvida da seriedade de Björk em "Dançando no escuro"...

Lisandro Nogueira disse...

Rodrigo Magalhães e Thiago, compreender o cinema significa trocas, debates, saber ouvir e avaliar todas as variáveis. Muito bom o diálogo dos dois. Vale a pena falar sempre do filme, da obra. Vamos continuar o diálogo. Uma pergunta: que "complexo de culpa" é esse que assola o cinema mundial? Há uma necessidade de "ficar bem" com os pobres de qualquer maneira...mas no final as coisas podem estar caminhando para o outro lado, ou seja, alguém ganha com esse populismo. Não gostei do filme e penso ser ele um sintoma do mundo contemporâneo: como enfrentar o dilema das diferenças é sempre complicado, apela-se para os efeitos espetaculares e a "boa vontade". Cinema morno, diga-se de passagem.

Marco A. Vigario disse...

O filme não chega a ser ruim. Tem bons momentos. O problema é que por trás da fachada de novidade, de sinfonia pop, estão as velhas fórmulas, os velhos romances. Como diz o Inácio, o que há de bom no Milionário são justamente os pontos em que ele se aproxima de Cidade De Deus - montagem e ritmo ágil, sobretudo. Inácio é um craque, sem dúvida. Só não consigo aceitar esse argumento dele de que "mais valia a um cineasta inglês falar das mazelas inglesas". Sei que a intenção aqui é problematizar o lugar do cineasta, mas, pra mim, não é essa "a" questão. Se fosse um indiano falando da pobreza da Índia, então seria menos mal, ainda que de forma igualmente distorcida? A mesma crítica sobre a nacionalidade tem sido feita a Sam Mendes, também inglês, que costuma abordar as "fantasias" da classe média americana (vide Foi Apenas Um Sonho e Beleza Americana). Aqui no blog, por exemplo, nós aprovamos Foi Apenas Um Sonho. Então pergunto de novo: a nacionalidade realmente importa?
Abraço!

Tiago Bênia disse...

E aí, Lisandro? Correu muito?
Pois eu corri. Desse filme então, no dia anterior, disparei do cinema depois de ficar meio desesperado com esse filme.

Um abraço!

Lisandro Nogueira disse...

Olá Benia,
Corri muito com a Viviane. Foi bom apesar do calor. Estou agora na expectativa dos bons filmes, depois do turbilhão Oscar. Gostei muito de "Foi apenas um sonho".

Anônimo disse...

"foi apenas um sonho", com críticas de verdade, aqui:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=19619375&tid=5302167655539937903&start=1

sem amargura.

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