quinta-feira, 12 de março de 2009

O cinema, a escola e a formação necessária




ENTRE OS MUROS DA ESCOLA, UM FILME FUNDAMENTAL


Lisandro Nogueira


[Este texto é dedicado ao seu Danilo, meu amigo e vizinho, um homem bom]


O ator Sean Penn presidiu o júri do Festival de Cannes 2008. Ele e os demais membros não tiveram dúvida: estavam diante de um filme especial. Entre os muros da escola, de Laurent Cantet, está sendo exibido em mais de vinte países e mostra o cotidiano de uma escola nos arredores de Paris. François Bégaudeau é professor de língua francesa no ginásio. Converteu sua experiência no livro "Entre os muros da escola". Relata o cotidiano de conflitos entre ele e os alunos, a maioria franceses procedentes do Marrocos, de Mali, da China, da Tunísia e das Antilhas.

O filme surge num momento ímpar, em que reverbera, em todos os quadrantes do mundo, a questão: qual o lugar da educação e qual o papel do professor na vida contemporânea? Se dentro da sala de aula há o encontro de várias civilizações, podemos hoje afirmar que o professor e a escola não são tão importantes como antigamente? A relação de extremo conflito na sala de aula reflete uma sociedade embotada de mal entendidos e entropias?

A escola, em sua trajetória histórica, terminou por constituir-se no espaço privilegiado para ver e refletir. Entre os seus muros está hoje o melhor lugar para se pensar as inúmeras formas de construir e reconstruir o processo civilizatório. Ela vive, é verdade, uma crise sem precedentes (em Goiânia, a polícia militar acaba de ser autorizada a entrar nas escolas para revistar alunos e colocar ordem no recinto). Mas pode ser o mais preciso termômetro a sinalizar soluções de curto e longo prazo para uma sociedade complexa e com os valores humanos em grande desequilíbrio.

Não é por acaso que a sociedade tornou-se violenta. Se os valores humanos estão em xeque, em razão, como se sabe, de um sem-números de fatores (desigualdades sociais imensas, consumismo alienante, fundamentalismos de esquerda e direita sobrepondo-se ao eixo dos valores iluministas e republicanos etc), a violência é a faceta mais contundente de um modelo civilizatório que a mim me parece extenuado e quase esgotado.
São múltiplas violências, simbólicas e reais. Precisamos urgentemente da teoria e do pensamento. Na contramão da ênfase na técnica e na ciência "tresloucada" (exemplos: o cientificismo de boa parte da psiquiatria que carimba todo mundo como "doente mental" com suas classificações risíveis; os argumentos pseudocientíficos das inúmeras pesquisas, pagas com o dinheiro público, que valorizam procedimentos nos quais o ser humano torna-se mero número nas estatísticas – ver o filme O jardineiro fiel), o Humano deve prevalecer para equilibrar a corrida técnico-científica que ergue e destrói algumas coisas interessantes de forma extremamente rápida e estúpida.

Um dos instrumentos principais para equilibrar a situação continua sendo a ênfase na educação. Parece um discurso gasto. Todavida, o filme Entre os muros da escola suscita o debate e a reflexão visando atitudes importantes para virar o jogo nesse começo de século.

Fiquei muito animado e motivado na sessão de terça-feira passada no Cine Lumière. Será um dos meus filmes "de cabeceira" na sala de aula. Fiquei também irritado, perplexo, alegre e triste com a relação entre o professor e os alunos. E fiz inúmeras perguntas sobre a mise-en-scène durante a projeção. O estilo de Cantet é problemático até certo ponto ao colocar os adolescentes para atuar. Porém, não reside aí um problema maior. Há momentos em que um filme transcende os problemas da mise-en-scène e outras questões narrativas. Talvez eu possa estar enganado e por isso vamos continuar a conversa aqui no blog.

Entre os muros da escola rivaliza com o ganhador do Oscar. Quem quer ser um milionário é pobre em termos narrativos e induz ao pensamento tacanho do herói que tudo pode e a tudo vence. Mostra também a diferença entre os dois principais festivais de cinema do mundo. O primeiro, Cannes, apesar da sua guinada comercial nos últimos anos, ainda tem um forte tom de reflexão e costuma premiar filmes instigantes. O segundo, o Oscar, apesar de ter melhorado a seleção nos últimos anos, continua premiando alguns abacaxis, como afirma Inácio Araújo, num artigo publicado aqui no blog (ver post lá embaixo sobre ).

Vi o filme e não posso deixar de afirmar que senti um orgulho enorme em ser professor. É um filme que pede uma necessária reflexão sobre o atual processo civilizatório e é praticamente impossível ficar indiferente.
* Entre os Muros da Escola(Entre Les Murs)–França/2008. Direção de Laurent Cantet. Com François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela. Drama. 128 min.Legendado. 10 anos.
Lumière Bougainville: 15h, 18h e 21 horas.

8 Comentários

Anônimo disse...

Sr. Danilo, homem bom que tinha um monte de passarim preso. Passarim é pra voar... Não penso em prender quem prende passarim mas passarim tem que ser solto.
Alvaro Montes

Anônimo disse...

Pessoal,
O filme é muito bom mesmo!!
Sr. Montes: leia o texto anterior do blog e acompanhe o debate. O debate rebate o simplismo da questão colocada e vai muito além. Vamos aprender a debater com os franceses. (Pedro Vinitz);

Rodrigo Cássio disse...

Lisandro,
O grande circuito de Goiânia estava mesmo precisando de uma estréia animadora. Confesso que o último mês foi pouco estimulante para a cinefilia. Ao menos para a minha.
Um abraço

Anônimo disse...

Eu pedi autorização do Lisandro para publicar o comentário do Fantini publicado no blog "Clinica da Cultura". É a falta de educação boa, como fala o filme Entre os muros da escola, que ajuda a produzir essas coisas comentadas abaixo pelo Fantini:
"Vai continuar a cair avião: mais uma vez uma história repetida: pessoa em tratamento contra a depressão comete....
(Entra no cinema e atira em pessoas; entra na escola e massacra alunos e professores. entra na loja e rouba gravatas).
Além da triste morte de uma criança, sobra a tristeza de ver na mídia o mesmo discurso, descrevendo o personagem como um lúnatico.
Este sujeito não inventou nada: aprendeu com o discurso médico que não assumindo sua doença, poderia viver as custas da familia ou do estado, como vem fazendo muita gente, pois é `vitima`de uma doença...(serve também para alcoólatras, toxicômanos e quem sabe, até para pedófilos)
Aprendeu com a mídia que morrer só faz sentido se aparecer como espetáculo na tv. Viver também: é melhor ser Big Brother do que qualquer outra coisa.
Continuamos deste modo ou fazemos como a psicanálise nos ensina: cada um é responsável pelo seu sintoma". (Pedro)

Marco A. Vigario disse...

Esse filme é uma beleza. Acho que ele é bem sucedido justamente onde Gomorra não é: no uso da linguagem semi-documental para observar e compreender, não para impressionar e condenar.

Lisandro Nogueira disse...

M. Aurelio,
o filme estabelece desde já aquilo q. os americanos não sabem fazer bem quando abordam o processo educacional: ele abandona a narrativa clássica e problematiza o próprio cinema e sua maneira de abordar professores, alunos e a sala de aula. Concordo! É melhor q. Gomorra.

Gabriela disse...

No debate, um professor de cinema falou sobre alguns problemas do filme quanto á técnica, no mesmo momento parei para pensar, até que ponto a estética de um filme interfere no seu conteúdo e até que ponto a reflexão a que se propõe um filme se torna mais importante que questões técnicas e estéticas. Agora lendo seu post você diferencia dois prêmios do cinema quanto aos critérios de premiação. Mas eu continuo com a pergunta, até que ponto a estética de um filme interfere no seu conteúdo e até que ponto a reflexão a que se propõe um filme se torna mais importante que questões técnicas e estéticas?

Anônimo disse...

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