sexta-feira, 6 de março de 2009

A máquina voraz do mundo...

Stroszek, seu Danilo e Gelsomina.

Lisandro Nogueira

Quando saía para comentar na TV o fraco O menino da porteira e o razoável O leitor, vi minha rua cheia de carros da polícia - eram sete viaturas e aproximadamente trinta policiais: homens armados, carros enormes e um aparato logístico parecido com os filmes de ação. Todo esse contigente tinha uma missão: levar os pássaros que o senhor Danilo, 86 anos, e sua senhora, perto dos 80, criam há mais de vinte anos.

Criavam os animais com cuidado, carinho e jamais fizeram negócios com aqueles pássaros tão coloridos e animados. O processo contra eles foi inclemente. A lei foi cumprida à risca e o tempo ficou morto às 14h na casa do senhor Danilo. Estava lá, conversei com o pessoal do Ibama, com os policiais e, no final, sem ter o que fazer e, desolado, fiquei ali por um bom tempo.

Não sei como será a vida do casal daqui prá frente. Como acordar e não ver os animais que os ajudavam a dar sentido à vida?. Argumentei com o pessoal indiferente do Ibama: "deixem esses pássaros com seu Danilo até ele morrer. Eles, com certeza, serão tratados melhor aqui do que no viveiro do Ibama". Não!! É uma ordem judicial. Foi a resposta.

Será que esses pássaros serão tão bem cuidados? Não era melhor deixá-los sob a guarda do seu Danilo, com o acompanhamento do Ibama? Não é melhor para a conservação de animais raros a tutela de uma pessoa que cuida com cuidado e carinho? Que leis ambientais são essas que um tecnocrata, lá em Brasília, decide pela vida simbólica e real de um casal de idosos?

Ainda tentei argumentar que seria importante para o seu Danilo visitar o viveiro do Ibama. Ele teria o contato com os pássaros que tanto ama. Resposta: o viveiro do Ibama não pode ser visitado por ninguém. Pensei!! O Ibama leva os pássaros em nome da lei mas não permite que o dono possa ver seus animais de estimação (ou qualquer pessoa da sociedade civil). Sou contra pássaros presos em gaiolas; mas aqueles criados em cativeiro e seus tutores merecem um tratamento diferente. Não resolveria soltá-los nas matas. Não conseguiriam sobreviver.

Não sei o que a família do seu Danilo vai fazer daqui prá frente. Vou acompanhar o processo e dar minha solidariedade.

Quando o luto tomou conta de vez da casa do seu Danilo, com os familiares e vizinhos chorando, desamparados, lembrei de uma cena do filme Stroszek (1977), de Werner Herzog. Os oficiais de justiça vão retomar a casa de Bruno, Scheitz e Eva (foto). Eles não deixam somente de ter uma casa, simplesmente "deixam de existir" simbolicamente. A cena é terrível e mostra o olhar triste de cada um e a impotência reinante.

Sem rumo, eles partem para um parque de diversões. O final é magnífico. A cena da galinha rodopiando dentro de um "brinquedo para adultos" já vale o filme. Mas a cena do teleférico, lúcida, calma, resposta diante dos absurdos da vida, apazigua a alma. Bruno e Scheitz vão embora?

Talvez seu Danilo nunca mais veja os pássaros que tanto ama. Quando saía da casa, sem esconder às lágrimas, ainda lembrei de outro filme: As coisas simples da vida (2003) e de seu personagem principal, Jian. Há duas ou três cenas no filme que mostram seu olhar de extrema solidão e tristeza. A câmera passa lentamente pelos seus olhos e podemos enxergar tanta dor e tanta beleza. Mas também uma resignação envolvente e absurda.

Vi no meu amigo e vizinho o mesmo olhar de Jian. Uma mistura estranha de resignação e transcendência, de amor pela vida e pelos pássaros. Ao mesmo tempo, um olhar firme de indiferença pelas coisas mesquinhas da vida; um olhar de quem já deu o mundo "por visto" e vai deixar a voragem do tempo carregar os últimos passos. Qual o signficado? Qual o sentido sem o quintal colorido e cheio de sons?

Já no portão me veio o olhar e a perplexidade de Gelsomina, diante da crueldade da vida, em La Strada (1954). Com Luísa, ao lado, no carro, lembrei de Kit Moresby, Débora Winger, em O céu que nos protege, de Bertolucci. Ela tem o olhar perdido quando entra num restaurante e a câmera se afasta e encontra o Paul Bowles, escritor e narrador do filme, cego. Uma voz narra o avesso da vida e os dois olhares não se encontram...ela é o desespero, ele, a resignação e o ponto final.

Ver a tragédia de um homem de 86 anos e seu olhar "sem chão" sintetiza toda violência crua do cotidiano de tiros, sequestros, banalidades do mal e tanta perplexidade sem fim. Violência real e violência simbólica se encontram para enfraquecer o arco da promessa de coisas boas que são poucas e fugazes.

Lembrei também de um trecho do poema "A máquina do mundo", de Drummond:

"A treva mais estrita já pousara sobre a estrada de Minas, pedregosa, e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo, enquanto eu, avaliando o que perdera, seguia vagaroso, de mãos pensas".


Os filmes me ajudam a recompor o espírito depois da dor. Sofremos com as dores do mundo, com os sofrimentos sem sentimentalismo dos outros, que são também as nossas dores. São os modos de sofrer e de garantir aqui e ali o bom humor e alegria efêmera.

ps: lembrei do Lourival Belém Jr., psiquiatra e cineasta, que trabalha com o mundo terrível dos presídios e dos meninos deliquentes: se tratam os idosos e as aves dessa forma, dá para imaginar como são tratadas as pessoas nas cadeias públicas?

52 Comentários

Eduardo disse...

A brutalidade da tecnocracia é mesmo de espantar e de indignar. Pra quê tantos policiais, tanto barulho, tanta exposição? Belo texto, emocionante e bem escrito.

daniel christino disse...

Contando a história para minha esposa nos perguntamos se este não seria um dos raros casos em que valeria a pena subornar alguém ou ligar para algum pica-grossa pedindo um favor. Quando uma lei instrumentaliza pessoas (os policiais) e lhes retira toda a humanidade a ponto deles argumentarem que estão fazendo o que fazem por uma razão externa (a lei) aí sim estamos diante da “banalização do Mal”. Nenhuma lei pode se sobrepor a nossa humanidade, pois nenhuma lei retira seu valor de si mesma ou do estatal. Quando faz isso, destrói o que há de humano nas pessoas e destrói pessoas

Rodrigo Cássio disse...

Que texto bonito, Lisandro. Lembrei de uma cena de O Leitor. Perguntam à personagem de Kate Winslet se ela não tinha pensado em abrir os portões e impedir que as prisioneiras judias morressem no incêndio. E ela diz algo como: "nós éramos guardas, apenas cumpríamos ordens".
Em tempos em que "justiça histórica" é chamar ditaduras de "brandas", o seu relato leva a pensar, muito oportunamente: o que precisamos, de fato, são leis e punições mais árduas?

Lisandro Nogueira disse...

Caros Eduardo, Daniel e Rodrigo: a sociedade civil é fraca e, do ponto de vista iluminista, mal educada. Desta forma, ela apóia atos autoritários. O Estado fica forte e faz o que quer; é lamentável não confiarmos no aparelho de ESTado. Os pássaros são melhor cuidados pelo seu Danilo do que no viveiro do Ibama. Aliás, para ter acesso é preciso um ritual burocrático. E mais: alguns pássaros são caros e raros: quem vai se responsabilizar e fiscalizar? Esse é um exemplo do "travamento" do país. Ora, o Ibama poderia tutelar esses animais por intermédio do seu Danilo. Seria uma parceria sociedade civil e Estado. Infelizmente.....(lisandro nogueira)

Tacilda Aquino disse...

Muito bom seu texto. Fiquei emocionada, principalmente porque tenho um pássaro preto e um sabiá em casa, que tomo conta desde que meu pai faleceu, há 17 anos e não sei o que faria se o Ibama aparecesse por lá.

Lisandro Nogueira disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

MARIA CRISTINA disse...

Lisandro, seu texto está muito bom e mostra que a vida e arte é a mesma coisa. Realidade e ficção se misturam. Mais belo que seu texto foi o seu gesto de solidariedade e apoio como se fosse um funeral simbólico, por enquanto dos passáros.Sua admiradora Cristina.

Consolação disse...

Lisandro, se tivessemos mais pessoas solidarias e sensiveis como vc, a vida com certeza seria bem melhor.
Fiquei muito sensibilizada com esse texto belo.
Me orgulho muito de vc "Lisandro Nogueira" como diz o nosso amigo Piere.
Sua super admiradora,
Consolação

Anônimo disse...

Prof. Tem certas coisas que não adianta lei, é a ética de nascença e da educação que aciona. Não é na força é na mente. Não é no som é no silêncio. Não é na luz é na sombra. Somos poucos. Fato. "De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”
(Rui Barbosa).
Abraço ético,
Thomas Silva

Anônimo disse...

Lisandro,
Seu texto deveria ser leitura obrigatória dos fiscais do ibama,
quem sabe, se cotizasem todos e devolvessem ao casal seus queridos
pássaros.
Emendo ao meu o comentário lúcido e
oportuno de Daniel Chistino.
Parabens.
Socorro Souza.

Anônimo disse...

Pessoal,
Seu Danilo pagava 50, reais por dia para o seu ajudante. Tb. ficou sem o emprego. A compaixão deve estar acima das leis em casos como esses. O certo era o Ibama fazer uma tutoria com seu Danilo e deixá-lo continuar tratando bem as aves. Uma questo que me intriga: por que ninguém pode visitar o viveiro do Ibama? Coisa torta essa. (Pedro)

Anônimo disse...

Caro Lisandro
obrigado pela mensagem e pelo excelente blog.
Um abraço
Jorge Coli

João Angelo Fantini disse...

A coisa pode ser vista assim: temos nosso caminhão de leis e um pais que....bem, é só dar uma olhada pros lados. Ai voce vai a Londres, dá uma olhada pros lados, tira uma idéia, e depois reflete que aquele caras não tem nem constituição escrita.

João Angelo Fantini disse...

é outro assunto. mas não vou deixar passar:
Dia da Mulher. Se eu fosse mulher, não aceitava esta descriminação calada. Se fosse indio, também não aceitava o Dia do Índio.

Lisandro Nogueira disse...

João,
Na hora da confusão na casa do seu Danilo, eu vi o processo. O Ibama de Goiás, segundo o fiscal, até queria deixar as aves em paz. Mas o Ibama nacional, em BsB, assinado pelo presidente (q. já saiu do cargo) afirma no processo que era para cumprir "as prisões". Você já viu o tamanho e o ridículo de parte das leis ambientais?. Como sempre, os grandes estão fora da lei e os pequenos são penalizados.
ps- sobre o Dia da Mulher: as mulheres mais interessantes e inteligentes nem sabem que existe esse dia.

Lisandro Nogueira disse...

Thomaz, Socorro e Consolação: devemos entrar no site do Ibama. Já fiz isso e enviei meu texto. Vou lá pessoalmente nesta semana. Vou pedir para visitar o viveiro. Aprendi com Lourival Belém: pequenas lutas geram muitas transformações.

Anônimo disse...

Não sabia do fato e tb sou vizinho da casa, pois moro em frente ao professor Lisandro. Era agradável acordar com os pássaros cantando. Belo texto professor. (victor hugo)

Fernando disse...

Lisandro,
também fiquei chateado com a situação do seu Danilo... A burocracia é mesmo burra... Agora o Ibama não foi lá de livre vontade... será que algum vizinho seu não denunciou?
É por estas e outras que estou preparando minha mudança pra fazenda. Quando você não acredita mais nos homens, deixa de ser revolucionário.... e não dá pra ficar aqui sem algum espírito revolucionário. Que você ainda tem... ainda bem!

Rodrigo Alves disse...

Lisandro, uma lástima. Sugiro que publique esse excelente artigo com a Karla Jayme, da editoria de Opinião, do Popular. Tenho certeza que daria ainda mais o que falar. Grande abraço.

Lisandro Nogueira disse...

Caros amigos,
Entrei em contato hoje, segunda-feira, com o Ibama. A senhora Mirza, da comunicação, me atendeu via telefone. Ela me disse que o processo corre desde 2000. Disse a ela q. nada justifica aquele aparato policial. Solicitei autorização para visitar o viveiro do Ibama. Ela disse ser complicado, por questões sanitárias, mas que vai agendar uma visita proximamente. Vou aguardar e acompanhar o processo

Lisandro Nogueira disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

Leo disse...

O IBAMA está sendo pintado mais uma vez de vilão contra “pessoas idosas e doentes”, pois “levou embora a felicidade” dos mesmos ao apreender “os animais que ajudavam a dar sentido à vida” de um senhor de 86 anos e que supostamente eram cuidados há vinte anos.
Vamos aos fatos: Este senhor foi autuado no ano de 2000 por possuir mais de 400 animais em cativeiro de forma irregular. Vou repetir: Mais de 400 animais. O senhor entrou com recurso e os animais foram deixados com o mesmo, pois o IBAMA não possuía uma estrutura adequada para recepcionar tantos animais na época. O recurso foi julgado em todas as instâncias e o Presidente do IBAMA decidiu que eles deveriam ser retirados do local, ou seja, retirados de quem capturou todos aqueles pássaros, pois poderíamos abrir precedentes e beneficiar quem cometeu uma ilegalidade ao tirar tantos animais de sua liberdade.
Na última sexta-feira, dia 06 de março de 2009, voltamos à residência daquele senhor com um efetivo grande de policiais ambientais e agentes do IBAMA uma vez que eram esperados mais de 400 animais na residência. Em respeito à idade do senhor, deslocamos inicialmente somente uma equipe com três agentes para dizermos por que estávamos ali e contamos também com o apoio do corpo de bombeiros que deslocou uma viatura até o local. Somente após percebermos que o senhor reagiu bem à notícia de que iríamos levar os animais, o restante da equipe foi até a residência.
Encontramos lá somente 121 aves. Alguns dos animais que também supostamente serão “melhor tratados na residência do senhor de 86 anos do que nos viveiros do IBAMA” apresentavam claros sinais de estresse, pois nem penas possuíam, algumas gaiolas e viveiros não possuíam nenhuma condição de manter os animais e pasmem: pelo menos 2 sabiás laranjeiras estavam cegos porque os olhos foram furados, estratégia geralmente utilizada por criadores para fazer com que a ave cante também durante a noite.
Adicionalmente, apreendemos 6 alçapões, um deles novinho, que acabara de ser fabricado, demonstrando a intenção “bondosa” do senhor de continuar a prender novos animais para continuar dando “sentido a sua vida”.
Agora questionamos, que sociedade é essa que acredita que o correto é deixar com quem retirou, prendeu, acabou com a liberdade para seu simples deleite daqueles que um dia voaram e coloriram nossos céus?
Que sociedade é essa que acredita que por uma pessoa ter vivido muito e ter muito a ensinar, como todos os senhores com mais de 80 anos, devem ter seus atos ilegais perdoados, sem qualquer punição?
Nós do IBAMA lembramos-nos do filme Fernão Capelo Gaivota, que nos arrepia ao demonstrar não só a importância de não se acomodar e de tentar superar seus limites mas também a importância da verdadeira liberdade e de “voar” cada vez mais alto.
As vítimas nessa história estavam dentro de gaiolas, alguns há muito tempo, outros provavelmente há pouco tempo não colorem mais nossos céus, apenas porque “pessoas que nunca comerciaram estes animais” queriam colorir e dar sentido a sua vida. Agora, no CETAS do IBAMA estes animais passarão por quarentena, terão as melhores rações disponíveis, além de biólogos, veterinários, tratadores e voluntários a sua disposição para serem mais bem tratados. E por fim, todos ficariam surpresos ao perceber que passarinhos que passaram anos em cativeiro (só no CETAS mais de um ano) já estão com vários filhotes na natureza, pois entraram para o PROJETO ASAS do IBAMA e foram soltos novamente. Lá, em uma propriedade em Aragoiânia, estão colorindo novamente nossos céus e deixando descendentes, que esperamos, nunca sejam capturados por “senhores inocentes”.
Leo Caetano
Coordenador de Fauna e Recursos Pesqueiros

Leo Caetano disse...

Professor,
também publiquei a resposta em um BLOG que pode ser acessado aqui>
http://soueuleo.blogspot.com/

valdirarosa.blogspot.com disse...

Prof. Lisandro Nogueira,

Interessante seu texto encaminhado a alguns colegas do Ibama, bonito e emocionado. Gostaria apenas de pontuar alguns comentários que não posso deixar de fazer, pois foram surgindo em minha mente durante a leitura.
Mas antes de tudo gostaria de deixar claro que aqui escrevo como ser humano e não como servidora do Ibama.
Sou apaixonada por cinema e talvez por isso o texto tenha chamado tanto minha atenção. Assim como no filme “O Leitor”, em nosso dia a dia também vivemos questões que não estão ligadas à moral, mas à justiça instituída por leis vigentes em nosso país. E o mais importante de tudo, toda história tem o outro lado, a outra versão, assim como no filme. Muitas vezes, para quem acredita apenas naquilo que quer ver é impossível olhar além de suas próprias lentes ou não lhe foi dada a oportunidade de conhecer o entorno.
Ao afirmar “levar os pássaros que o senhor Danilo, 86 anos, e sua senhora, perto dos 80, criam há mais de vinte anos.” Foi esquecida a condição dos pássaros, que idade eles tinham? De onde vieram? Criam baseados em que? É melhor para os pássaros viverem engaiolados? Isso é amor? No local foram encontradas diversas arapucas montadas para capturar novos pássaros (que são livres por natureza!), simplesmente para satisfazer um amor egoísta de vê-los apenas em seu quintal.
“O tempo ficou morto às 14h na casa do senhor Danilo”, ora, o tempo já estava morto para a maioria daquelas aves. Que direito é esse de se achar “DONO” dos pássaros?
Não são pássaros presos que têm que dar sentido à vida das pessoas, mas elas mesmas é que têm que encontrar sentido para suas próprias vidas dentro de si mesmas.
Enquanto pessoas passam a vida a criar pássaros em gaiolas, fazendo disso suas vidas, pássaros morrem todos os dias por isso, seja no tráfico durante o transporte horrendo, seja na hora da apreensão de um espécime que deixou em seu ninho filhotes que ele deveria voltar para alimentar, mas não conseguiu, pois afinal aquele ser humano precisa dele para dar sentido à sua vida!
O que garante que um animal silvestre é mais bem tratado com aquele que se acha “dono” do que num Centro de Triagem de Animais Silvestres – CETAS, que posteriormente será readaptado para retornar à natureza? Já vi muita gente achar que o melhor alimento para um papagaio é dar-lhe arroz com feijão e ainda dizer que ele “é muito bem tratado, come o mesmo que minha família”.
Quanto à visita ao CETAS, imagine todos os animais que são apreendidos receberem visitas de seus intitulados “donos”, além de ser estressante para os outros animais, que não têm nada a ver com isso, teríamos gastos imensos para conseguir recepcionar todas essas pessoas, sem contar nas doenças que muitos animais poderiam transmitir a elas ou vice-versa.
Convido o senhor a conhecer o Projeto ASAS que a equipe de fauna desenvolve, é belíssimo! Quem nos dera, enquanto humanos, pudéssemos fazer isso com nossos presos também...
E por falar em “impotência reinante”, esta sim vivida por todos os pássaros capturados da natureza, também lembrei de um filme, “Encaixotando Helena”, onde o ator principal tem a macabra idéia de cortar os membros de sua amada para mantê-la presa a ele, assim como muitos desses “donos” fazem com suas aves.
O olhar “sem chão” citado em seu texto lembrou-me bem o olhar “sem céu” dos inúmeros pássaros apreendidos todos os dias, não sei se já viu algum recém aprisionado, após ter passado o desespero (quando fica se debatendo na gaiola).

Lisandro Nogueira disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

Daniel Christino disse...

Leo, você e a Sra. Valdirosa me obrigam a relativizar o que disse acima. Parabéns pela iniciativa de responder ao post do Lisandro. É sempre importante falar com pessoas e não apenas com Instituições. Torna a conversa mais humana e, porque não?, mais significativa.

O problema, ao meu ver, não são os funcionários do IBAMA, nem a Instituição em si. O problema está nos fundamentos de uma lei que iguala, moralmente, homens e animais.

Entendo que devamos sentir compaixão também pelas aves, alijadas de seu direito à felicidade, mas não consigo imaginar um sistema jurídico no qual seja necessário pesar, como iguais, direitos de homens e de animais. Falta aos animais aquela característica que faz dos homens indivíduos no sentido completo do termo: a consciência moral.

O paroxismo dessa idéia está no fato de que, se os pássaros merecem "povoar o céu em liberdade", também merecem “ruminar tranquilamente nos campos” as vacas abatidas nos frigoríficos, os porcos nas granjas e, no limite, os ratos exterminados em nome da saúde pública. Porque negar a estes animais os mesmos direitos concedidos aos canários?

Por certo não podemos admitir maus tratos e, sinceramente, pelo relato do Lisandro, acho difícil imaginar em seu Danilo o prazer sádico de cegar sabiás.

Em última análise, meus caros, estamos todos enrolados nas teias do sentido. Um funcionário diligente de sua função acaba desenvolvendo argumentos para justificar e "dar sentido" à sua atividade. Ao fazê-lo, a maioria opta por uma complicada antropomorfização dos animais, atribuindo-lhes tonalidades afetivas características dos humanos: alegria, tristeza, felicidade. Fazemos isso com nossos animais de estimação e até com objetos inanimados. Energizamos estes objetos com grandes doses de afetividade.

Do modo como eu vejo o único lugar no qual a liberdade dos pássaros encontra-se no mesmo patamar da liberdade humana é neste mundo estranho forjado pela lei ambiental. Nele, funcionários competentes e ciosos acabam obrigados à violência (simbólica) contra um senhor de mais de 80 anos, educado numa época na qual possuir passarinhos em gaiolas era não apenas legal, mas motivo de orgulho.

A coisa fica ainda mais complicada se nos lembrarmos que a ação dos aparelhos de Estado é sempre uma ação violenta, porque despessoalizada. É da natureza destes aparelhos e é bom que assim seja, do contrário estaríamos todos entregues à lei do mais forte. Ainda assim, humanizar sua atuação é fundamental, porque estamos lidando com seres humanos e não com animais – perceberam, agora, a diferença entre eles?

Você está, por dever de ofício, obrigado a cumprir sua função. Eu compreendo. Mas lembre-se de que nada substitui nossa consciência. E lembre-se também que dentre todos os animais, o homem ainda continua sendo um magnum miraculum, a referência última da nossa moralidade.

Rodrigo Cássio disse...

Olá, Daniel. A nossa legislação ambiental não iguala, moralmente, homens e animais. A lei aplica-se a partir do que é singular nos animais desprovidos de consciência moral: a existência física e biológica.

Quando se defende que os pássaros habitem os céus, ou, antes ainda, que eles não sejam presos indevidamente em gaiolas, o que está em jogo é a preservação de um ambiente propício para o ciclo vital desses animais, e não a liberdade tal como ela pode ser definida em relação aos homens. Logo, não vejo sentido em perguntar "Por que negar a estes animais (vacas, porcos) os mesmos direitos concedidos aos canários?". Mas os “direitos” já são os mesmos! A liberdade dos canários é a de não serem vítimas de condutas humanas agressivas ou predatórias, nem de serem retirados de um ambiente adequado. Na legislação, os canários já não são “livres” no sentido humano.

Todo animal (inclusive vacas e porcos) está a salvo, segundo a lei, de maus tratos. Podemos matar vacas e porcos, pois, segundo a nossa cultura, esses animais nos servem de alimento. Contudo, devemos cuidar para que a morte seja rápida, evitando uma dor desnecessária. No mesmo sentido, não podemos criar animais de corte em más condições, ou explorar o trabalho de um cavalo se ele está extenuado. Não se trata de prevenir prejuízos morais, mas físicos, de modo que não há "humanização" dos animais. Há, sim, muita coerência (até demais) com a ausência de consciência moral dos animais não-humanos, o que os torna seres eminentemente instintivos, corpóreos, sensitivos.

Logo, se eu não estiver equivocado, não há nada de errado na lei ambiental (pelo menos no que diz respeito a esse tema). Se algum ser humano, emaranhado na “teia do sentido”, resolve antropomorfizar os pássaros, e considera que eles devem ser livres porque possuem algo semelhante a uma cultura, isso pode ser uma tremenda ingenuidade, mas não um problema jurídico.

***

Por outro lado, e aí eu concordo com você, corremos sempre o risco de que o cumprimento mecânico da lei transforme os homens em animais (ou seja, o nosso problema tem o sentido inverso). Nesse ponto, as críticas de Lisandro ao procedimento do Ibama no caso do Sr. Danilo me parecem muito boas. Do mesmo modo, vejo nos depoimentos dos funcionários do Ibama, aqui no blog, uma defesa importante da legislação ambiental, que é muito bem vinda para o melhor entendimento da questão.

Parabéns ao blog pelo bom debate!

Lisandro Nogueira disse...

Caro senhor Leo Caetano e senhora Valdirosa,

O blog é aberto e vou conduzir o debate com o Ibama da mesma forma que conduzo os debates cinematográficos: com civilidade e respeito. Agradeço aos servidores do Ibama por terem acessado o blog para continuarmos tão interessante debate. Porém, tenho os seguintes pontos para esclarecer:

1. Sou contra aves presas em gaiolas e sou favorável ao combate ao tráfico de animais no Brasil. Porém, sou contra o exagero, a exibição de poder e a pressão psíquica contra quem quer que seja;

2. “Que sociedade é essa que acredita que por uma pessoa ter vivido muito e ter muito a ensinar, como todos os senhores com mais de 80 anos, devem ter seus atos ilegais perdoados, sem qualquer punição?”. São as palavras do senhor Leo Caetano. Penso ser muito duro falar em “punição” e cercar uma pequena casa de um aparato policial daquele tamanho. Mesmo que o criador de aves fosse totalmente culpado, eu estaria defendendo a dignidade humana e o respeito ao cidadão de 86 anos de vida. Da mesma forma, um órgão ambiental e seus representantes deveriam primar pelo processo humano e educativo e jamais falar em “deleite”, “punição”, além de usar de ironias como “senhor inocente” e “pessoas idosas e doentes”. Nosso dever, como sociedade civilizada, é contribuir para o processo de formação educacional e cultural;


3. Sou totalmente contra o forte aparato policial para uma ação como aquela; se a pessoa morrer amanhã (o dono dos pássaros) em consequência de todo aquele aparato de homens armados, qual será a “verdade legal”?;

4. Se o Ibama trabalha com a educação ambiental por que ficou preso somente ao processo (às leis e suas punições) e não realizou um trabalho educativo e comunitário durante esses oito anos em que investigou o criador?

5. Não vi o carro do corpo de bombeiros. Pode ter estado lá antes da minha chegada. Mesmo assim, nada justifica ali a permanência de tantos homens armados;

6. Outra pergunta: se era uma operação delicada, não seria mais prudente a permanência da ambulância do corpo de bombeiros durante toda a operação policial?;

7. Vocês me viram lá, de manhã e à tarde. O senhor Léo até me mostrou rapidamente o processo. Mas, em nenhum momento, me mostrou pássaros cegos , arapucas e maus tratos. Deveria tê-lo feito;

8. Isso não iria mudar em nada a forma como eu vi e senti toda aquela situação constrangedora. Contudo, seria um dado importante para a formação do meu juízo sobre a complexidade da questão;

9. Em 10 dez anos nunca vi uma ave cega ali naquele viveiro. Nunca vi também arapucas: será que ele escondia para que ninguém visse? Não entendi porque o senhor não me mostrou na hora todos esses problemas;

10. Sento-me incomodado com o uso da palavra “deleite” em relação ao criador dos pássaros, como se ele fosse um facínora . Talvez muitas dessas aves não estivessem vivas se não fossem os cuidados dele. Posso inferir que o próprio Ibama acreditou nisso durante oito anos, por uma ou outra razão. O Ibama é também responsável pela educação ambiental;

11. Disponho-me a acompanhar pedagogicamente todo o processo até a soltura definitiva das aves nas matas de Aragoiânia. Penso que será interessantíssimo para o órgão abrir-se para a sociedade civil, para que ela possa acompanhar durante anos (posso acompanhar essas aves lá no cativeiro do Ibama quanto tempo for preciso) esse delicado caso e suas conseqüências ambientais, emocionais, sociais e simbólicas;

12. Reafirmo mais uma vez que não sou um especialista da área e, portanto, minha contribuição restringe-se à defesa da humanização das políticas públicas para o meio ambiente, afim de valorizar o ser humano em qualquer circunstância antes de se falar em qualquer punição.

Obrigado pelo debate. E vamos continuar...

selecao disse...

Ainda bem que o Ibama não foi na casa do vovô em 1900 e bolinha !

Leo Caetano disse...

Em relação aos questionamentos do Professor Lisandro, tenho a esclarecer:
Resposta> O grande efetivo foi encaminhado ao local porque esperávamos mais de 400 animais, o que faria com que demorássemos muito na residência contando e identificando os animais se o efetivo fosse pequeno. O fato dos policiais estarem fardados e armados é questão de uniforme e equipamentos de utilização no dia-a-dia dos policias ambientais. Quando percebemos que o número de pássaros não era tão grande até alguns policiais aguardaram do lado de fora da residência.

Resposta: Em nenhum momento o IBAMA ou a Polícia Ambiental faltou com o respeito ou foi agressivo com qualquer pessoa que passou pela residência daquele senhor. O contrário também foi verdade, e os parentes do senhor em nenhum momento faltou com o respeito com a equipe presente.

4. Se o Ibama trabalha com a educação ambiental por que ficou preso somente ao processo (às leis e suas punições) e não realizou um trabalho educativo e comunitário durante esses oito anos em que investigou o criador?

Resposta: o processo demorou pois foi analisado em diversas esferas, chegando até a ministra de meio ambiente e ao presidente do IBAMA. Nesse período não houve investigação, pois não havia mais nada a ser investigado. Como o senhor havia recorrido os animais somente poderiam ser retirados após análise final do presidente do IBAMA. O IBAMA possui um programa nacional de educação ambiental para o combate ao tráfico.

5. Não vi o carro do corpo de bombeiros. Pode ter estado lá antes da minha chegada. Mesmo assim, nada justifica ali a permanência de tantos homens armados;

Resposta: Primeiramente chegou apenas um carro do IBAMA, quando solicitamos a presença do corpo de bombeiros para que pudésemos dar a noticia que levaríamos os animais. Estes chegaram e perceberam que não era necessária sua presença ali, mas foi-nos dado contato direto com a ambulância. Somente depois o restante das equipes chegaram ao local. Tantos homens estavam lá para contar, identificar e carregar rapidamente todas as aves, pois esperávamos mais de 400.

6. Outra pergunta: se era uma operação delicada, não seria mais prudente a permanência da ambulância do corpo de bombeiros durante toda a operação policial?;

Resposta> O pessoal do corpo de bombeiros não poderia ficar ali se nenhuma emergência estivesse acontecendo, uma vez que outras emergências poderiam ocorrer em outros pontos da cidade> caso fosse necessário tinhamos um carro a disposição em minutos.

7. Vocês me viram lá, de manhã e à tarde. O senhor Léo até me mostrou rapidamente o processo. Mas, em nenhum momento, me mostrou pássaros cegos , arapucas e maus tratos. Deveria tê-lo feito;

Respostas> Nosso foco não era convencer as pessoas ali presentes da ação do IBAMA. Mas as gaiolas sem condições estavam espalhadas pelos quintais. Os alçapões foram apreendidos conforme documentação do IBAMA. Somente após avaliação de médico veterinário no IBAMA no CETAS constatamos que alguns animais estavam cegos. Os parentes que nos acompanharam viram todos os alçapões apreendidos.

8. Isso não iria mudar em nada a forma como eu vi e senti toda aquela situação constrangedora. Contudo, seria um dado importante para a formação do meu juízo sobre a complexidade da questão;
Resp: Sem comentários.

9. Em 10 dez anos nunca vi uma ave cega ali naquele viveiro. Nunca vi também arapucas: será que ele escondia para que ninguém visse? Não entendi porque o senhor não me mostrou na hora todos esses problemas;

Resposta:pois eu repito que estavam lá as arapucas. Pergunte aos parentes mais próximos que também estavam lá e viram as arapucas sendo apreendidas. Tudo que foi apreendido foi assinado pelo senhor, inclusive as 6 arapucas.


10. Sento-me incomodado com o uso da palavra “deleite” em relação ao criador dos pássaros, como se ele fosse um facínora . Talvez muitas dessas aves não estivessem vivas se não fossem os cuidados dele. Posso inferir que o próprio Ibama acreditou nisso durante oito anos, por uma ou outra razão. O Ibama é também responsável pela educação ambiental;

Resposta:O Objetivo do IBAMA não é manter todas as aves vivas. Nosso objetivo é contribuir para a conservação das espécies, deixando que a seleção natural "decida" quem vai viver e reproduzir e quem vai morrer.

11. Disponho-me a acompanhar pedagogicamente todo o processo até a soltura definitiva das aves nas matas de Aragoiânia. Penso que será interessantíssimo para o órgão abrir-se para a sociedade civil, para que ela possa acompanhar durante anos (posso acompanhar essas aves lá no cativeiro do Ibama quanto tempo for preciso) esse delicado caso e suas conseqüências ambientais, emocionais, sociais e simbólicas;

Resposta: O IBAMA é aberto a sociedade, vide quantas matérias todas as redes de televisão já fizeram no CETAS, inclusive sobre a soltura de animais silvestres e do projeto ASAS - àreas de soltura de ANimais Silvestres. Entretanto, o Cetas, como expliquei, não está aberto para visitação da sociedade civil, simplesmente porque lá temos um local de quarentena, que deve ser o mais isolado possível e porque o objetivo do CETAS não é virar um zoológico, mas sim recuperar quantas aves e animais forem possíveis. Se abrimos para um devemos abrir para todos. Por outro lado, visitas excepcionais, como as que o senhor tem interesse, estaremos abertos, desde que agendadas antecipadamente como a que vamos realizar juntos no CETAS. Infelizmente temos nessa semana um a feria de pesca para realizarmos, e como quero acompanhar o professor pessoalmente, para melhor discutirmos, marcaremos para o início da semana que vem.

12. Reafirmo mais uma vez que não sou um especialista da área e, portanto, minha contribuição restringe-se à defesa da humanização das políticas públicas para o meio ambiente, afim de valorizar o ser humano em qualquer circunstância antes de se falar em qualquer punição.

Resposta> Deixar de punir, quem quer que seja, gera na sociedade sensação de impunidade que pode fazer com que aumente os crimes ambientais. Se um faz errado e não é punido abre espaço para que outros também cometam crimes.

Obrigado pelo debate. E vamos continuar...

Também agradeço a oportunidade de discutirmos tão interessante assunto
10/03/09 19:52

Leo Caetano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leo Caetano disse...
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Leo Caetano disse...

Sobre os argumentos do sr. Daniel Christino tenho a dizer que não estou tentando justificar minhas ações. Eu realmente acredito que qualquer pessoa que tenha tirado qualquer animais silvestre nativo da natureza tem que ser multado e ter a ave apreendida conforme a Lei. Explicarei porque mais a frente. Isso não quer dizer que eu acredite que o IBAMA deve fiscalizar todas as casas pra saber se tem animais irregulares. Existem crimes maiores que devem ser apurados. [
Também acredito que o homem pode utilizar os recursos naturais. Inclusive criar animais em gaiolas. Mas para isso tem que procurar animais regulares, criados em cativeiro para esse fim. Existiam diversas formas daquele senhor possuir mais de 400 animais e todos legais. Mas ele optou por retirá-los ilegalmente da natureza. Existem diversas categorias que podem ser cadastradas no IBAMA em qeu a pessoa pode adquirir animais criados em cativeiro e reproduzi-los.
O problema de tudo está na retirada indiscriminada de animais da natureza, opis esta pode reduzir consideravelmente as populações, as levando a extinção. Acredito também que mesmo que aquele animal não possa voltar a natureza, ele deve ser apreendido, pois assim desistimularia a retirada de animais na natureza. Imagine se o IBAMA regularizasse todos os animais retirados ilegalmente da natureza... As pessoas continuariam retirando animais da natureza para serem regularizados. Se elas sabem que nunca poderão regularizar, e ainda podem levar multa se comprarem animais de traficantes, podem deixar de comprar estes animais. Sei que nesse caso o punido vai ser o mais fraco, mas se ninguem compra o traficante não pega animais na natireza. Não estou dizendo que o senhor em questão traficava animais, mas provavelmente pode ter comprado alguns de traficantes, pois muitos não ocorriam em Goiás.
Por fim, somente porque alguem está disposto a comprar um único papagaio, pelo menos 9 morrem durante o processo de captura e venda.
Continuo a afirmar que apesar do grande efetivo, não faltamos com o respeito que o senhor ou qualquer outro cidadão merecia. Podem questionar aos membras da família se houve alguma grosseria durante a operação...

Anônimo disse...

Falar do Ibama rende mais que falar de cinema.

Anônimo disse...

Pessoal,
O Ibama é bom, combate tráfico de animais, etc. Mas nesse caso pisou na bola. Como provar essas arapucas e se cegou as aves? Ora, eles deveriam ter mostrado na hora para o Lisandro. Agora não dá para falar mais nisso. Meu deus!! Oito anos e ficaram só monitorando papéis e processo?. Tinha que ter humanismo. Levava as aves e deixava alguns pássaros tutelados até seu Danilo morrer. Seria humano e menos frio.(Pedro)

Anônimo disse...

Caros amigos, acho que o Ibama faz um bom trabalho combatendo o trafico de animais, mas neste caso deveria prevalecer o humanismo. "Wilson"

Daniel Christino disse...

Rodrigo, toda lei insere-se num determinado contexto semântico, nem sempre evidente, que modula suas possíveis interpretações. Assim como uma vela, a lei reduz o mundo ao círculo da sua luz. Ao fazê-lo ela tipifica uma ação e produz o criminoso. É o modo como ela funciona. O Sr. Danilo pode ser considerado um criminoso somente na medida em que o Estado sustenta a vinculação da lei. Não há discordância neste sentido. Porém não é isso que estamos discutindo aqui.

Defender "um ambiente propício ao ciclo vital desses animais" significa entendê-los como parte de um estado de natureza ideal, isto é, sem a interferência da perfectibilidade humana (você entendeu o termo, certo?). Essa é uma característica muito antiga do discurso ambiental, principalmente da ala conservacionista, e possui profundas raízes anti-humanistas que acabaram se cristalizando na legislação.

A mesma idéia inspirou a criação das primeiras reservas ambientais e obrigou o deslocamento de populações inteiras - como foi o caso em algumas regiões da Mata Atlântica e do litoral - cujo modo de vida foi radicalmente alterado ou mesmo desapareceu. O WWF até hoje é raivosamente conservacionista, atrelando o financiamento de projetos a metas quantitativas de preservação.

Quando o IBAMA diz que o Sr. Danilo cometeu um crime, ele alude tanto a esta característica sistêmica da lei (lei é para ser cumprida), quanto a este fundamento anti-humanista de que falei. É por isso, acredito eu, que o termo "senhores inocentes" vem entre aspas na fala do Sr. Leo Caetano.

É contra esse conservacionismo anti-humanista, conformado na lei, que estou argumentando.

Daniel Christino disse...

Caro Leo, quando digo "justificar" não estou pensando em alguém que comete um erro e depois precisa inventar uma desculpa. Você não faz isso.

Quando digo "justificar", refiro-me à necessidade de atribuir sentido às nossas ações, ou seja, dar razões, a nós mesmos, sobre o motivo de fazemos o que fazemos. Muitas vezes esta é uma operação inconsciente.

Entendo e admiro sua aderência ao cumprimento da lei. Mas precisamos nos perguntar, a fim de qualificar nossas ações, qual foi a inspiração para determinada legislação e se não podemos cumpri-la de um modo diferente do que estamos acostumados a fazer, mesmo que isso nos dê mais trabalho do que deveria.

A aplicação da lei - trabalho do juíz, mas também nosso - exige a capacidade de adequação ao contexto no qual tal lei opera, exatamente porque sua formulação nunca pode ser exaustiva. É a consciência dos indivíduos que anima o espírito das leis. Exatamente por isso uma lei não pode isolar-se em si mesma num sistema simbólico recursivo e automático.

Acho que a discussão está ótima e, mais uma vez, gostaria de destacar a inteligência e a boa vontade com a qual o Leo vem conversando conosco. Ele não tem nenhuma obrigação de fazê-lo e isso apenas ressalta sua disposição para o diálogo. E o prof. Lisandro que saiu dos seus cuidados para se solidarizar com um vizinho, coisa mais rara atualmente.

Anônimo disse...

Pessoal,
Conversei com a esposa do seu Danilo. as arapucas eram para pegar a enorme quantidade de pombos . eu e Alemão, Emanuel Castro, fomos lá. Essas arapucas não pegavam outros pássaros. No centro da cidade não apareceriam o tipo de pássaro que era criado pelo seu Danilo. Chorando ela me disse que eles nunca cegariam os pássaros. Meu deus!! em que mundo estamos. Me cortou ver o quintal vazio, a casa vazia e aqueles dois completamente abatidos. Ainda sou novo mas sinto uma tremenda decepção com essa coisa toda. A palavra do Renato russo é sempre lembranda pela rapaziada: falta coração e sobra punição sem justificação.(Pedro - assistente do blog desde o início)

Luiz disse...

Meu amigo Daniel

Teu último raciocínio importa-se correto, porém talvez creio que se não fossem estes primeiros esforços conservacionistas anti-humanistas, as tais reservas citadas na Mata Atlântica e do litoral estariam todas tomadas por agropecuária. Acho que o esforço valeu a pena.

Quiçá nem existessem reservas suficientes para ainda se pensar em conservar a Mata Atlântica. Quanto às culturas indígenas, muito provavelmente teriam seguido o mesmo caminho das outras populações em outras áreas de ocupação 'civilizatória': desaparecer (já que àquela época índios não possuim nenhum direito).

É inegável a contribuição da ciência Biologia para alguns dos maiores males da humanidade, seja como forma de fundamentação escusa de teorias, ou como próprio experimento levado à risca.

Mas o ranço que existiu e ainda existe está sendo eliminado com vários programas ambientais recentes (inclusive alguns da WWF) pautados nas, agora, mais óbvias constatações (vide Man and the Biosphere, da Unesco, por exemplo).

E a própria lei ambiental brasileira não é, de nenhum modo, conservacionista anti-humanista. O que realmente falta é a realização do que consta na lei, assim como da Constituição.

Rodrigo Cássio disse...

Daniel,

Não vejo necessidade na relação entre conservacionismo e anti-humanismo. Longe disso, parece-me bastante viável, sem contradições, a concepção de uma política ambiental sustentada em um discurso científico cuja matriz seja humanista.

O humanismo certamente não implica a conservação do "modo de vida de populações inteiras", se esse modo de vida é pernicioso ao mundo que deixaremos para as gerações vindouras. Um discurso como esse, a meu ver, tende a omitir os impactos perniciosos da forma de vida moderna sobre a natureza. No mesmo sentido, não precisamos destituir o homem do mundo ao elaborarmos uma lei orientadora das ações humanas.

Por fim, penso ser importante separar o problema do fundamento das leis do problema da aplicação das leis (no qual se inclui o entendimento dos seus próprios fundamentos).

Considerar o Sr. Danilo um "criminoso" é falta de humanismo, por certo. Mas isso não ataca os fundamentos das leis, e sim problematiza a relativização delas diante dos costumes: você bem observou que os valores mudam, e Sr. Danilo foi criado em um mundo que incentivava a criação de aves em gaiolas. De fato. Mas não precisamos refundar a lei ambiental para exigir um tratamento mais humano do Sr. Danilo.

Fernando disse...

Em 1989 trabalhei na prefeitura de São Paulo, governo Luiza Erundina, e minha função era disciplinar o comércio ambulante (camelôs) no Largo 13. A cidade estava tomada. Depois de muita conversa e enrolação que o PT sabe muito bem fazer, foram feitos acordos com os camelôs para o disciplinamento, só que eles não cumpriam nenhum e fomos pra apreensão das irregularidades. Era impressionante ver como a população que reclamava das ruas tomadas ficava ao lado dos camelôs no momento da apreensão... O povo é contra as instituições... Somos todos filhos do cristianismo e muitos de nós do marxismo, que achamos que todos os homens são bons ruins são as instituições. Aprendi que é justamente o contrário: o homem é essencialmente mau e egoista. Se temos alguma esperança é que as instituições funcionem.
Legal os funcionários do Ibama terem entrado no debate...

Lisandro Nogueira disse...

Caro Fernando,
Temos que tomar cuidado: muitas vezes as instituições extrapolam suas atribuições. O Brasil têm leis em demasia e, muitas vezes, elas são aplicadas somente para alguns segmentos. Outra coisa: as instituições não podem ter tanta força, pois corremos o risco dos "atos de força". Não é possível tratar da mesma forma grandes traficantes de animais e um criador de aves amistoso (um senhor de 86 anos). Esse senhor é pacífico, tem endereço fixo e não teve dos órgãos governamentais uma educação ambiental. Foi tratado de forma burocrática e desumana.

Tiago Bênia disse...

E a quantas anda a Maria de Fátima Piau?

Leo Caetano disse...

Amigos, parabens pelo ótimo debate. Mas vamos lá. Não entendi ainda qual deveria ser o procedimento do IBAMA para quem argumenta que nós fomos desumanos. Simplesmente deixar os animais lá? Como eu disse anteriormente a impunidade gera mais problemas. Claro que náo se compara o crime do Sr. em questáo com o estupro sofrido pela menina de 9 anos. Nao é isso que quis dizer, mas sabendo que retirar animais da natureza é prejudicial para a conservação da biodiversidade, o legislativo brasileiro propôs como crime ambiental a manutençáo dos mesmo em cativeiro sem que tenham origem comprovada. Ao mesmo tempo, criou alternativas e abriu espaço para quem quisesse ter animais em cativeiro. Atualmente para se tornar um criador amadorista de passeriformes basta entrar na internet, fazer um cadastro e se apresentar no IBAMA com a documetaçáo pessoal e está cadastrado. Com tantas opções, porque se manter na ilegalidade? E, dando tantas opções o IBAMA ainda deve dar uma chance pra quem insiste no erro? E tive informações que o sr. multado teve acesso a todas essas informações mesmo porque participou das associações de criadouros antes que o IBAMA fiscalizasse os mesmos.
No processo em questáo houve uma vistoria posteriormente à apreensào, em que um servidor verificou que havia novas aves dentro de gaiolas que ainda não haviam sido apreendidas. Ou seja, à época, mais animais foram capturados, mesmo depois de multado.
Lembramos que o IBAMA não fiscalizou somente pequenos criadores (apesar de que 400 animais é um grande número). Também apreendemos aves de grandes hotéis de Caldas Novas. Ano passado, realizamos uma operação em conjunto com a PF na qual apreendemos mais de 1500 animais em um único dia. Um desses criadores falsificava anilhas do IBAMA (que atestam a regularidade dos animais). Prendemos ainda toda a quadrilha do tráfico, passando por pessoas que retiravam animais na natureza atè aqueles que 'esquentavam' os animais. Estou escrevendo isso pra mostrar que temos tentado combater a retirada de animais da natureza de todas as formas e não somente pegando os pequenos peixes.
Se para sermos humanitários nós tivéssemos que deixar os animais lá, então nossa fiscalização nunca será humanizada. Lembro que a policia Ambiental é quem esteve presente no local juntamente com o IBAMA. Esta polícia é especilista em crimes ambientais, e pedimos seu apoio devido o grande número de animais que esperávamos encontrar lá. Mas como disse antes nenhum policial ou agente do IBAMA agiu com grosseria ou prepotëncia. Explicamos o motivo da nossa presença e agimos com a máxima educação possível.
Sobre educaçao Ambiental: q tipo de educação ambiental deveríamos ter feito com o sr em questáo? Dizer que ele náo podia mais pegar bichos na natureza? Bom, esse tipo de educaçáo ambiental acreditamos que temos que fazer com crianças e estamos fortalecendo uma estrutura e trabalhando em materiais para treinarmos professores das redes públicas e privadas de educação. Sobre as arapucas e os transportadores apreendidos nenhum deles caberia uma única pomba. Sobre mostrar as arapucas ao sr. Lisandro eu questiono: Por que deveriamos mostrar estes itens a ele? Nós mostramos estes aos familiares que fizemos contato no local. NA verdade não conhecia anteriomente o Professor Lisandro, que se apresentou como vizinho.
Sabemos da dificuldade de se tomar estas decisões de apreesnsáo de animais de guarda domestica, e este náo deve ser o foco do IBAMA, que deve se concentrar nos grandes traficantes, mas como disse antes, retirar os animais da posse de quem os retirou da natureza, náo importando quem cometeu o ato, pobre ou rico, grande ou pequeno, negro ou branco pode reduzir a pressão sobre os animais na natureza...
Minha cara está ai pra bater mesmo e estou aberto a sugestões de como deveríamos proceder em casos semelhantes, mas se coloquem em meu lugar. podem acessar meu blog tb para discutir tudo lá também. www.soueuleo.blogspot.com

Lisandro Nogueira disse...

Caros amigos,
agradeço a todos e especialmente ao senhor Leo Caetano, do Ibama, que está aberto ao debate, pela participação intensa aqui no blog. Vamos continuá-lo. Porém, não posso manter o texto no topo da página. Espero que compreendam e aceitem minha posição.

ComunicAia disse...

Nem tudo está perdido, Lisandro. Há alguns anos, ocorreu caso semelhante numa cidade-satélite do DF, mas o casal de idosos conseguiu na Justiça tornar-se "fiel depositário" - ou algo assim - dos animais. Além de ficar comprovado que eles tinham condições de cuidar bem dos animais, no processo judicial constou relatório médico que foi fundamental para a sentença final, pois alertava sobre as conseqüências psicológicas que a separação poderia trazer aos criadores. Fica a sugestão de orientar essas pessoas a recorrer à Justiça.

Rodrigo Cássio disse...

Daniel,

Gostaria de intervir uma última vez, pois acabei de reler a troca de comentários, e suspeito que não ficou muito claro o meu objetivo ao insistir, até com certa obviedade, que a lei ambiental não iguala moralmente animais e homens.

Eu não quis recusar que há um regime semântico no qual a lei se estabelece, tipificando os crimes e os criminosos, e, em última instância, o próprio mundo. Usando a sua metáfora, eu diria que se trata, aqui, de observar a luz que a vela da lei projeta sobre o real.

Ao mesmo tempo, eu penso que há um salto lógico em afirmar que a defesa de um ambiente propício ao ciclo vital dos animais significa entendê-los como parte de um estado de natureza ideal. Não necessariamente. Aqui, pode ser que o olhar que observa a luz, tão agudamente, deixou de observar a própria vela. Afinal, como é a lei, a vela?

Como disse o Luiz, logo acima, a nossa lei ambiental não reflete o conservacionismo anti-humanista, ainda que a origem do ambientalismo seja marcada por essa visão idealista, que a sua argumentação contesta (inclusive, se há algo em baixa no nosso mundo, são os idealismos, de todo tipo; o que pode fazer do seu alvo um espectro bastante frágil, já engolido pelas políticas de resultados, que o próprio ambientalismo mais recente abraçou).

Com isso, está claro pra mim o seu foco, o seu alvo, desde sempre. Mas não creio que este alvo esteja “conformado na lei”, ou “cristalizado” na nossa legislação. Nada prova sobre essa cristalização que algum membro do Ibama considere o Sr. Danilo um "senhor inocente", com aspas, na intenção de fazer valer a lei.

Bem, é apenas isso. Paro por aqui. Grato pela oportunidade do debate.

Lisandro Nogueira disse...

Olá Alfredo Costa,
Acredito que os familiares do senhor Danilo vão tomar as providências. Estou manifestando minha solidariedade diária: seu estado de saúde não é bom e quase não sai da cama. Está prostado!. É uma situação dificil e triste.

Rodrigo Magalhães disse...

Não sei muito bem o que está acontencendo aqui (em relação ao comentários), pois meus olhos estão pesados e não conseguirão ler tantas informações.
A única coisa que digo, a(`) princípio, tendo lido apenas o texto do Professor Lisandro, é que eu fiquei com aquela #&@* raiva do IBAMA. Sempre olhei para este órgão com certa desconfiança. Acho que eles deveriam se preocupar com outros crimes ambientais. Só estou com uma puta raiva do IBAMA, e vontade de, de, de, de, fazer muitas coisas, mas não adiatariam muito. Que raiva.
Mas a vida ainda é ótima e existe esperança, mas f%&$-@#!# os maus do IBAMA.

Anônimo disse...

Deixem o Ibama trabalhar. Até quando seremos coniventes com pássaros em gaiolas. Erraram com seu Danilo!? Talvez. Mas que continuem soltando os pássaros.
Anderson Rosa

Anônimo disse...

Ao Anônimo acima, erraram sim com o Danilo, e você acabou de errar.

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