domingo, 30 de agosto de 2009

Festivais de cinema fazem média com os pobres?

La teta asustada, elogio a indulgência


Almiro Franco*


         A teta assustada (em cartaz no Cine Lumière), da novata Claudia Losa, lança uma armadilha ao expectador. Pede aos que acompanham a história que sejam indulgentes, e nem mesmo o faz com intenção. O pedido não é “oficial”, não é claro, apenas acontece. Uma lamentável conseqüência de todo o movimento inerte da história.
         Chamam La teta asustada a doença que molesta os filhos das mulheres que sofreram abusos durante o período do terrorismo no Peru. As crianças nascem amedrontadas, “sem alma”, com medo de viver. É isto que diz Lúcio (Marino Ballon), tio de Fausta (Magaly Solier), sobre o mal que ataca sua sobrinha. Assim mesmo, sem precisão sobre qual época de terrorismo e sobre que abusadores são esses. É tão somente um comunicado que serve de pretexto extravagante para que o interpelado acompanhe a trama. Que não é outra senão esta: uma mulher estranha, que acaba de perder a mãe, decide enfrentar seu estado interessante (sua doença), e trabalhar em casa da rica senhora Aída (Susi Sánchez), em Lima, para conseguir pagar as despesas do funeral. Fausta vive em uma espécie de arraial provinciano nos arredores da cidade.
         A teta assustada é um filme que apenas parece bom. Basta que o expectador se distraia por um momento e está feito, instado por alguém e sem ter o que dizer, pode tornar uma avaliação positiva. É mesmo provável que o faça. O encanto se processa assim: Llosa realiza um filme em que atuam amadores, uma protagonista expressiva, trata de temas relevantes, de outro país o Peru, e as complicações são invulgares. Mas em nenhum momento vemos a história para além de sua superfície. Sem ser provocado, sem ser instigado, sem saber exatamente o que fazer com os eventos estapafúrdios que enfeitam a tela, o espectador é abandonado à sua tranqüilidade e desamparado, decide que o que vê é adequado e importante.
         A diretora resvala no tema político, mas o abandona completamente. Temos que adivinhar se a moléstia de Fausta foi causada por militares saídos das intermitentes ditaduras, ou por “militantes” dos incontáveis movimentos insurgentes, e qual é a posição do filme em relação a essas perturbações. Nos aproximamos de Fausta, descobrimos que sofre, e ficamos receptivos à sua clausura. Mas Soleur, a despeito de seu impacto, do efeito que causa nas lentes da fotógrafa Natasha Brier, não consegue nos dizer nada. A personagem, sua dificuldades improváveis, seus parentes, os costumes idiossincráticos, parecem estar ali somente para ser surpreendidos em sua curiosidade. É como se o registro fosse o de um documentarista que não consegue se decidir entre mostrar fatos pitorescos ou se “envolver” com a encenação de uma ficção envolvente. Tudo é deixado sozinho, isolado, um desfile estrangeiro e distante que passa pela tela, nos assusta um pouco e vai embora.
         É necessário dizer que mesmo a reprovação em relação à A teta assustada é um exercício. O expectador, durante todo o movimento do filme, não experimenta reações fortes ou inspiradoras. Sejam elas de qualquer espécie. Claudia Llosa não realiza uma obra banal, tenta apresentar seu país e comentá-lo, mas falha porque não parece preocupada em fazer a necessária tradução. 

Trata-se de uma história imensamente local. Funciona, infelizmente, como uma espécie de etnografia. Recebemos a estranheza em relação à outra cultura com uma calculada relativização e, destituídos de qualquer provocação maior que a curiosidade, tendemos a devolver o serviço etnográfico com um sorriso amarelo e um apaziguador “muito obrigado”. Parece que deu certo. O filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlin, e aqui o Kikito, no Festival de Gramado. De resto, os festivais de cinema costumam mesmo se empolgar com películas “interessantes”, se faladas em outro idioma, tanto melhor.

* Almiro Franco realiza monografia na UFG/ Facomb sobre crítica de cinema

25 Comentários

Lisandro Nogueira disse...

Olá Almiro,

Concordo com você: o filme é frágil, apesar dos bons momentos: cenas bem realizadas, boas intenções e a direção razoavelmente segura da jovem diretora.

Porém, os festivais estão fazendo "média" com os filmes latinos. Será o politicamente correto dos americanos tomando conta dos festivais da europa?

Victor Hugo disse...

Belo texto Franco. Só reclamarei de uma coisa: você não assiste os filmes q eu indico. Abraço a você e ao prefessor Lisandro.

Túlio Moreira Rocha disse...

Observei um aspecto interessante em todas as resenhas e críticas que li a respeito de “A teta assustada”. Praticamente todos os críticos de cinema “reclamaram” da abordagem superficial no que diz respeito ao terrorismo que provocou a doença da protagonista. Não acho que o terrorismo peruano que permeia o passado dos personagens seja realmente importante para a trama. Tampouco concordo que se trata de “uma história imensamente local”. Os críticos se decepcionaram porque esperavam uma alegoria glauberiana elaborada a partir das cicatrizes de um trauma histórico.

Por favor, o filme não se propõe a isso. É, absolutamente, uma história intimista, sobre um medo universal: o temor de se envolver com o outro, de superar os limites do próprio eu e de encarar o pânico cotidiano que é viver a vida. Não é um filme para revelar “outro país o Peru” (sic). As ruas de Lima usadas como cenário poderiam ser de São Paulo ou Bogotá. A família de Fausta poderia ser descendente de imigrantes japoneses, e a tal doença poderia muito bem ser uma espécie de “maldição oriental”. Em “A teta assustada”, não importa o cenário, não importa a cultura local. O filme é imensamente universal. Os olhos temerosos da protagonista são entendidos em qualquer lugar do mundo. É um olhar de enfrentamento que não precisa de legenda.

Franco disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Franco disse...

Padawa, isso não é verdade. Eu apenas não faço isso... imediatamente. Por exemplo, dos quatro filmes que me emprestou, há meses, já assisti dois. Detalhe: o segundo título “queimei” somente neste final de semana. Abraço, meu amigo.

Franco Neto disse...

(Lisandro) Não me agrada concordar com um intelectual festejado, acho mais desagradável ainda concordar com um intelectual “de esquerda”. Mas acompanho o que diz Zizeck. Vivemos uma época que tem obsessão por inclusão. Todos devem ser ouvidos e tudo é negociado paciente, demorada e artificialmente. Vemos isso nas universidades e nos festivais também. Uma pena.

Rodrigo Cássio disse...

Túlio, boa observação. O filme é bom e algumas críticas que ele tem recebido são injustificadas.

Se ele não se propôs a discutir enfaticamente o terrorismo, não deixa de construir uma bonita e intrigante parábola daquela comunidade indígena, refletindo as diferenças sociais do Peru.

De fato, fala-se muito que o filme abandonou o tema do terrorismo, mas pouco se comenta a personagem musicista, patroa de Fausta, que representa um novo "estupro" para a comunidade em que ela vive.

Realmente é a intimidade e o universal que estão em foco, ali. Concordo contigo. E isso não faz com que o filme deixe de ter a sua dimensão política.

O Festival de Berlim errou quando premiou Tropa de Elite, isso sim.

Túlio Moreira Rocha disse...

Rodrigo, a dinâmica local/universal é muito frágil, na minha opinião. O local é, na maioria das vezes, apenas o pano de fundo para o desenvolvimento de um conflito que é, quase sempre, universal. O mundo é gigante e tal, mas a essência, os problemas e as relações humanas se repetem, apenas trocando o figurino e falando línguas diferentes de acordo com o lugar do planeta.

Se não fosse assim, seria impensável Walter Salles adaptar um livro (“Abril despedaçado”) do albanês Ismail Kadaré para o cinema, transportando a história para o sertão brasileiro do começo do século. O sertão, a cultura da cana, o linguajar regional, são apenas particularidades, elementos do ambiente. Os conflitos principais (a força e a tradição da família, a busca pela emancipação e pela opção de escolher o próprio caminho) são sentimentos fortemente universais.

Sugiro a quem queira conhecer mais o Peru, esse magnífico país, que assista ao documentário “Os latino-americanos: os peruanos”, da Televisão América Latina (disponível em http://www.tal.tv). Se o interesse for assistir a uma belíssima história, de superação e enfrentamento, com momentos de absoluto lirismo (como a cena em que Fausta canta a música da sereia e consegue sua primeira pérola, uma coisa linda demais, que chega a arrepiar a alma), “A teta assustada” é uma ótima pedida.

Tatiana Cristina disse...

Concordo com o Túlio, e digo mais;


Ao assistir o filme, o sentimento que mais me dominou foi o de “choque”. Mesmo sabendo do que se tratava o filme, não tinha noção de que a história fosse ser contada daquele jeito. Na sala de projeção havia mais duas pessoas, uma senhora de aproximadamente 60 anos, e um rapaz de uns 20 anos. Ela na minha frente, e ele atráz.

O meu choque começou logo na primeira cena quando a mãe de Fausta, cantava músicas (em sua língua indígena) sobre a época em que foi estuprada e os acontecimentos posteriores. Minha imaginação foi nas alturas, ficava visualizandro cada verso daquela canção acontecendo. Daquele momento em diante, engoli seco e decidi que ficaria até o fim. Posteriormente, as cenas da batata cortada, me deixaram realmente aflita e inquieta, como não ficaria em um filme de terror.

Depois vieram as cores maravilhosas, contrastes deslumbrantes, e cenas hilariantes. Confesso que a diretora deixa sim o espectador “solto”, me senti perdida as vezes, sem saber o que pensar e como encaminhar meus pensamentos diante das próximas cenas. Isso foi angustiante, mas de fato foi compensador. Confuso? È assim que me sinto até agora.

Mas acredito que esses desafios de pensamento sejam bons, contudo um filme não pode deixar o espectador tão alheio, a não ser que seja sua verdadeira intenção, assim ele vai invocar apenas um público que esteja querendo ter essa reação.

Ao meu ver, Claudia Llosa intercala no filme tons de documentário e realismo fantástico, contanto, poderia ser melhor. Eu aplaudo a Claudia, porque ela soube trabalhar com a imaginação, sem mostrar cenas grotescas, e isso é difícil, ninguém pode negar!


E sobre o questionamento do politicamente correto, eu não acredito. Creio sim que existam interesses alheios ao nosso conhecimento por traz de tais premiações, e as consequências do resultado "desses interesses" veremos e sentiremos mais tarde. No entanto as películas tem qualidade.

Rodrigo Cássio disse...

Túlio,
É isso. Mas penso que o Peru também pode ser encontrado no lirismo de "A Teta Assustada". Por que não?

Túlio Moreira Rocha disse...

Sim, Rodrigo... O fato de a história se passar no Peru torna o filme especial, com certeza muito diferente e com particularidades que não seriam mostradas se a história se passasse na Argentina ou no Egito. Penso que o Peru está ali, presente em cada fotograma, pelas circustâncias em que o filme foi planejado e produzido, mas continuo acreditando que não é o plano principal do longa, que não se trata, como o texto do Franco afirma, de algo "imensamente local".

Tatiana, engraçado que quando fui ver o filme, na minha sessão também havia duas pessoas, uma mulher mais velha bem na frente e uma moça numa poltrona do meio. Suspeito que eu seja o rapaz de uns vinte anos, hehe (assisti esse filme na quinta-feira passada, sessão das 17h, no Bougainville)...

Maria Euci disse...

Túlio e Rodrigo, gostei muito do filme. Vocês não acham que ele lembra um pouco "Diários da motocicleta", quando tenta retratar a América Latina e seus aspectos menos conhecidos?

Tatiana Cristina disse...

Túlio!
Eu também fui na quinta a esse horário, então eu te vi!
Eu era eu a moça do meio.
Que mundo pequeno, se tivéssemos combinado, não teria dado certo. O mundo virtual cruzando com o real...
E vou te contar a maior, quase que eu puxei papo com você na hora em que estávamos saindo, eu estava na frente no corredor olhando os cartazes e você estava atráz de mim, só que teve um momento que eu andei rápido demais e te perdi de vista!

Abraços..

Franco Neto disse...

Olá Túlio, obrigado pelos comentários.

O meio nos atrapalha um pouco, um único texto não é suficiente para comunicar adequadamente suas intenções. O espaço é curto e um blog pede que as exposições sejam rápidas, eu diria até apressadas. Isso para qualquer um que decida escrever, claro. E é um problema, muitas vezes.
Tenho certeza que não quis vilipendiar a importância que a temática cultural desempenha neste filme. Acredito que você jamais diria, em outra oportunidade, com mais tempo, que em A teta assustada o país em questão é meramente um cenário, um palco distante para a encenação de uma história universal. Tampouco precisaríamos que Claudia Llosa dissesse, como disse, que “este é um filme para o Peru”.
É evidente que ela se preocupa sobremaneira com o que é peculiar em seu país, joga com isso, cria relações de estranhamento, de aproximação, de contraste. Os exemplos são vários: a doença de Fausta (que convenientemente dá nome a história); o estratagema insólito que a personagem arruma para se defender de um possível estupro; a permanência do corpo de sua mãe em casa, vários dias depois da morte, e conservado pela ação conjunta, quase ritual, do grupo de mulheres que preparam o corpo; as festas de casamento em que os convidados desfilam os presentes, anunciados por um locutor. Estou certo, Túlio, que não considera esses episódios universais, o vulgo de grande parte das pessoas que conhece. Mais: como bem sabe este é o segundo trabalho da diretora e já no primeiro ela acompanha a história de Madeinusa (interpretada pela mesma Magaly Solier), e novamente registra um ritual peculiar em que os moradores do vilarejo Manayaycuna suspendem as interdições morais ou religiosas pelo período que dura a sexta feira santa até o domingo de Páscoa. Porque nesta duração Deus estaria morto. Então, você concordará, essas referências não são meramente fortuitas.
Se me permite dizer, Túlio, seu discurso deixa revelar certa inspiração relativística. Em muitos momentos diz claramente que essa história é igual a qualquer outra, quase como se pretendesse advertir seus leitores para que não sejam preconceituosos, que valorizem o outro. Veja, sentiu necessidade defender esse “país lindo”, e de promover, depois de feita essa justiça, A teta asustada como uma “belíssima história”.

Franco Neto disse...

Acredito que por isso deixou de dar ênfase a àquela parte tão essencial do modo como Llosa constrói seus filmes. É justamente esse discurso relativístico, essa cultura de valorização, que critico em meu texto. É um erro considerar um filme bom ou sublime apenas porque seus habitantes são estrangeiros, povoam locais distantes e enunciam suas falas em outra língua. Desconfio que você não defenderia esse filme com tanto entusiasmo se em lugar de Solier atuasse Scarlett Johansson, se deslocássemos as desventuras da personagem para Los Angeles, e se colocássemos no lugar de Llosa algum diretor norte-americano.
Falar de temas culturais, fazer críticas a filmes como esse é mexer em um vespeiro. Os discursos ficam eivados de paixões, prejudicados por elas. Vou tentar voltar ao que eu disse, nos distanciamos um pouco. Este A teta assustada é um filme morno. Tem alguns bons momentos: Solier fotografa de maneira impressionante, a diretora tem sim uma sensibilidade sofisticada, mas, como disse, isso não acontece como resultado de todo o filme. São períodos. E isso porque Llosa se mete nessa confusão entre o que é verdadeiramente universal - os sentimentos - e o que é inusitado e local. Algo nessa equação não se resolve adequadamente e a impressão geral é amena. O expectador não é perturbado. Tendemos a classificar o visto como bom, importante, merecedor. Por que não o fazer? A história não nos fez nada de mal? E, o mais importante, se acrescentamos aqui este tema, este local, estas personagens está pronta a receita que garante uma boa avaliação. É preciso fazer justiça, Llosa não prepara essa armadilha. Não é uma intenção deslavada, ela infelizmente acontece e o filme se beneficia dessa indulgência, desse modismo chamado relativização. Todo discurso hoje parece que - se quiser ser correto, íntegro - precisa dessa espécie de purgação dos pecados. Pecados contra a América - Latina, contra as minorias, contra qualquer coisa.
Fico por aqui, já me estendo bastante. Peço que ainda faça um pequeno exercício, Túlio: você se sentiu mais provocado pelo filme ou pelas críticas em que pode intuir esse “ataque” cultural? Acho importante fazer essa reflexão. Mais uma vez obrigado pela conversa.

Abraço,
Franco Neto.

Franco Neto disse...

Deus do céu, o comentário ficou muito grande. Tive que dividir em duas partes. Peço desculpas.
Mais uma coisa: escrevi Zizeck ali atrás, o certo é Zizek. Não sei por que insisto em botar esse “c”. Vou começar a citar teóricos goianos.

Até.

Rodrigo Cássio disse...

Olá Franco,

Muito legal você acirrar o debate.

Não penso que o culturalismo deva ser uma chave central na avaliação deste filme. Aliás, "A Teta Assustada" se interessa bem menos pelo tema da alteridade que outros filmes recentes, como "Gran Torino" ou "Entre os muros da escola", ambos celebrados aqui no blog.

Se criticamos o filme a partir do sucesso dele nos festivais, corremos o risco de criticar não o próprio filme, mas um suposto ponto de vista dos júris que o premiaram. Não acho que seja um bom caminho.

Concordei com o Túlio que Llosa transita entre o local e o universal. A meu ver, essa é uma qualidade da obra, e não entendi muito bem por que você considera que a diretora se perde nesse aspecto. No mesmo sentido, defendo que o filme é “político” justamente neste movimento de acesso ao universal a partir do particular. A política não está só no estupro da mãe, que é um dado prévio, indireto, e conscientemente não abordado pelo filme; ela está também (e sobretudo) nas consequências desse ato.

Não se tratando de um cinema realista (verossímil), o espectador não deve se sentir desamparado pelos eventos estranhos que vê. Importa mais que os eventos, ali, sejam “verdades” enquanto metáforas de uma condição humana. Quero dizer que a maneira como a verdade é partilhada também define a política. E o que é mais importante no argumento deste filme que a verdade? Qual a verdade daquela doença de Fausta? Não entendê-la como uma metáfora da condição política do excluídos do sistema é não entender a mensagem política do filme. Não há abandono da política. Ela está presente em outro nível de leitura da obra – e por isso não posso concordar que é um filme superficial.

"A Teta Assustada" emociona sem os excessos do melodrama. Deveria tê-los? Aí sim situaria bem o espectador? Aí sim seria um filme quente, e não morno? O filme de Llosa pede para ser contemplado, e não exatamente sentido. A ação importa pouco. Até mesmo certo esquematismo na construção das personagens (que impedem o filme de ser ainda melhor) são secundários em face do predomínio da imagem. E é da imagem, em si mesma, que vem o sentido, assim como a “verdade mentirosa” daquele tipo mágico de representação.

Sei não, mas quando Clint Eastwood faz um filme comum, que nada exige do espectador além do riso cínico em relação a um “politicamente correto” deturpado nas lutas culturais (e que continua deturpado, depois do filme dele), é considerado um gênio! Já quando uma latino-americana faz um filme bonito e instigante, reclamando um pouco mais de alma das pessoas, a crítica lança sobre ela todo tipo de suspeitas. Como entender isso?

Vamos continuar o debate!

Um abraço.

Rodrigo Cássio disse...

Maria Euci, agora você me pegou, porque faz muito tempo que vi "Diários de Motocicleta". Por alto, não vi semelhanças no filme de Llosa. Penso que são bem diferentes. Salles fez um roadie movie, Llosa é mais preocupada com as imagens em si mesmas. O que posso dizer é que gostei mais de "A teta assustada". Abraço!

Túlio Moreira Rocha disse...

Tatiana, estou sempre no Cine Lumiere na quinta-feira nesse horário, hehe... da próxima vez, puxe assunto! xD

Franco, que bom que vc contra-argumentou, mas do mesmo jeito q vc manteve sua opinião, eu mantenho a minha. Sim, o filme é peruano, a diretora é peruana, o elenco é peruano, ¡es sin duda una película peruviana! mas continuo discordando com a afirmação "imensamente local".

é claro que a cultura local, indígena, de uma comunidade q vive na periferia de Lima, que é uma metrópole por si só periférica (e sim, uma das cidades mais fascinantes da AL), tem seu papel na trama. mas olhar o filme como sendo prioritariamente local é uma opção do crítico. Eu não escolheria por analisá-lo assim. Sempre prefiro me reter na universalidade. Acho que um filme como o "Amor à Flor da Pele", do Kar Wai, poderia se passar no submundo carioca dos anos 30, por exemplo. Da mesma forma que "Conflitos Internos" funcionou tanto na China quanto nos EUA.

E sim, me incomodaram os críticas que reclamaram da pouca abordagem sobre o terrorismo peruano. Porra, se quer saber sobre terrorismo peruano tem que ler História do Peru. "A Teta Assustada" não se propõe a isso. É um filme sobre Fausta. Não sobre Fausta, a peruana. Ou sobre Fausta, a alemã, Fausta, a húngara. Fausta, solamente.

Franco Neto disse...

Olá,

Gostei da conversa, Túlio e Rodrigo. Obrigado pela atenção.
É preciso que eu corrija um detalhe. Eu não disse que o principal problema do filme é que ele passa ao largo das questões políticas. Não me concentrei nisso. Peço, por gentileza, se quiserem voltar ao primeiro texto que escrevi será possível perceber o que explico agora. Me permitam corrigir. A despeito da curiosidade e estranhamento que provoca, eu disse que o filme causa uma “indolência” durante o desenvolvimento da história, em relação às questões que se propõe a tratar. Entre elas a política. Nesse contexto é que fiz tal referência. A teta assustada não é um filme panfletário, felizmente.
Nessa parte, respondo a você, Rodrigo. É inevitável, você sabe, quando assistimos a um filme usamos vários filtros, nossa recepção é em parte condicionada. Isso vale para qualquer um. Percebo que você encontrou uma impensável função política para esse A teta assustada. Veja que mesmo quando concordava com Túlio tendia levemente para o que depois se confirmou nessa sua última mensagem. Suas palavras: “Qual a verdade daquela doença de Fausta? Não entendê-la como uma metáfora da condição política do excluídos do sistema é não entender a mensagem política do filme”. Se me permite dizer, Rodrigo, acho essa passagem um pouco exagerada. Você politizou um filme que não tem esse perfil. Discordo do Túlio quanto à avaliação que faz do filme, mas, veja, ele consegue ver bem que a história caminha em outra direção, aí sim, mais intimista. Pensar que Llosa arquitetou todo o seu filme, a excêntrica história de Fausta, apenas como uma gigantesca metáfora para denunciar a opressão do sistema (qual sistema?) não me parece ser melhor maneira de entender a película. Por que não dizê-lo de fato? Por que procurar um atalho, talvez maior que o caminho, para dizer isso? Por que não fazê-lo, mesmo que recorrendo à metáforas, de maneira mais clara? Ou seja, seria mais lógico se se “declarasse”, de fato, como um filme político, não concorda?
Existe um princípio lógico, você deve conhecer, chamado Lâmina de Ockham. Ele afirma que se existem duas explicações para um mesmo fenômeno, ou manifestação a tentativa mais simples, menos aparatosa, tende a ser a mais acertada. Acredito, Rodrigo, que a história de Fausta, é a história de Fausta. História fortemete influenciada, matizada pelo apelo cultural e local, mas isso. Existe, claro, uma insinuação política, mas não acho que ela seja uma função, a tese forte deste filme. Seria como escrever todo um texto para dizer um assunto, falando de outro. Acho estes “outros níveis de leituras da obra” um pouco perigosos. É possível encontrar praticamente qualquer coisa em “outro nível de leitura”.
Entenda, por favor, não estou tentando proclamar a maneira correta, esgotar a “conversa” com o filme. Você concordará que existem exageros em algumas abordagens “polissêmicas”. Parece, pelo menos em uma avaliação muita rápida, que superestimou o discurso político de A teta assustada, a função que este discurso tem dentro da obra. Bom, é isso. Novamente agradeço a atenção.


Abraços,
Franco Neto.

Rodrigo Cássio disse...

Oi Franco,

Por sorte, a arte não é ciência, e não precisamos de uma lei, como a de Ockham, para embasar as representações. Já imaginou se os filmes se submetessem a uma navalha que lhes retira tudo o que não é parcimonioso? Como seria isso? O fim das metáforas, das abstrações, das alegorias?

Com certeza nenhum discurso é polissêmico de maneira infinita, e é preciso que a leitura de uma obra seja fundamentada com dados oferecidos por ela própria, ou então por outras obras, outros discursos, numa perspectiva intertextual. Não é um “vale tudo”. Mas “muita coisa” vale, desde que a leitura seja coerente. O texto é um processo. Não é algo acabado quando o autor o entrega aos leitores. Ele continua a existir em cada nova leitura, em cada apropriação justificada que o reconstrói em outro momento.

No caso de “A Teta Assustada”, penso que a interpretação política que apresentei se sustenta na medida em que a personagem de Fausta, tomada como símbolo de uma comunidade historicamente submetida a uma violência externa (e a doença é o maior indício dessa condição, passada de geração a geração), é contraposta a representantes de outros grupos sociais que detém alguma forma de poder. Seja a partir da detenção de uma verdade (como o médico que a atende, portador do discurso científico), seja a partir de uma vantagem econômica (que não deixa de implicar a posse da verdade: eis a ideologia, o poder simbólico), como a da musicista rica que a contrata, a chantageia e abandona. Há uma relação entre poder e verdade, aqui, que se ajusta criativamente ao gênero de realismo do filme, que não é pautado pela verossimilhança, e sim pelo incrível, o absurdo, o inverídico (imagine a cena em que ela “apara” a planta que leva entre as pernas, com uma tesourinha: não existe uma leitura realista possível desse ato, pois se trata de uma metáfora absoluta; ela está podando a si mesmo, como mulher, como ser humano, posto que a sua subjetividade, de certo modo, é uma prisão). A política se dá, também, no âmbito da subjetividade: a política é pólis, diz do comum dos homens, que são sujeitos em relação. Fausta não pode ter uma existência como ser comunitário, até o momento em que rompe com a ordem da verdade, desafiando e renegando o que lhe oprimia.

Por isso, não penso que o filme trata a política com indolência. A não ser que o sentido deste termo seja bastante restrito, na sua crítica, desejando encontrar um conteúdo político na acusação do estupro da mãe, mas não na condição de Fausta. Você está certo: o filme é intimista. Ele fala de Fausta, se alimenta de Fausta. Acontece que Fausta é uma personagem cuja essência é histórica (e política): ela é a elevação ao absurdo das mazelas do subdesenvolvimento daquela cultura. Não poderia sê-lo, se o filme fosse realista e objetivo demais, como aquele médico que a dispensa da consulta, porque estão na fila pacientes em excesso.

Como você entende o “político” nessa nossa conversa?

Um abraço!

Anônimo disse...

Muito bom o diálogo de vcs. Estou aqui só lendo e aprendendo...

Lisandro Nogueira disse...

Rodrigo, Túlio e Franco Neto: só para lembrar outro "mantra": "todo filme é político". E penso que conseguimos ver a "política" nos filmes quando a visadad une forma e conteúdo. Quem faz isso muito bem é o Ismail Xavier. A análise do filme "Iracema", do Jorge Bodanski, publicada na revista Devires (vocês viram o filme e leram o texto em sala de aula?) é um bom exemplo. Ou mesmo a análise dos filmes de Griffith.

Penso que esse diálogo coroa o processo que começou na graduação. Vejam: Rodrigo, depois Franco e, agora, a participação do Túlio.

Fico muito feliz em ler o ótimo diálogo (sincero, respeitoso e franco) entre alunos tão bons.

Franco Neto disse...

Olá Rodrigo,

Muito bem. Penso que se continuamos a partir desse ponto (em que insinuamos nossas posições teóricas) nos distanciamos um pouco e a conversa com o filme se tornaria apenas uma referência para ambos. Veja se concorda. Tenho algumas reservas em relação às conversas em blogs, como disse antes ao Túlio. Tudo se passa quase tão rápido como na fala, só que não temos o auxílio da entonação, dos acentos afetivos. Corremos o risco de parecer mais frios e irascíveis. Pronto, parei com a filosofia de botequim. Mas, se talvez exista perda no tempo da reflexão, ganhamos com a espontaneidade, tudo é mais interativo. Aprecio sua argumentação.
Por último, peço ainda que observe essas conversas. Nos dedicamos, todos, se me permite dizer, menos ao filme do que ao que ele, acidentalmente, evoca. Acho esse dado importante.

Forte abraço,
Franco Neto.

Rodrigo Cássio disse...

Franco,
A minha intenção é ir ao filme, e não sair dele. Pelo menos é o que eu tentei motivar aqui.
Da minha parte, aprecio conversas em blog. Mas, como queira, qualquer hora continuamos, na "vida real". Valeu!

Lisandro,
Bem lembrado: "todo cinema é político".

Abraços.

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