terça-feira, 8 de setembro de 2009

Escrever sobre o filme

 
 
Escrever sobre filme, uma experiência


Lisandro Nogueira

 
Em "sala de aula cinema é outra coisa". No início dos anos 90 um aluno não cansava de recitar esse mantra. Peço aos meus alunos que façam constantemente  exercícios de  "ver-e-escrever-sobre-o-filme. Ver sem compromisso é muito bom e prazeroso. Porém, para quem realiza uma gradução ou pós-graduação, o "ver o filme" têm também outros significados.  Por isso, é fundamental se dedicar com concentração e certa "objetividadade". O prazer não deixa de existir. Contudo,  temos um outro compromisso: a reflexão!!

Há um ano criei o blog com o incentivo do Daniel Cristhino e Eduardo Horácio. Inicialmente pensei apenas no relacionamento com os alunos. O projeto caminhou com pernas próprias e angariou amigos, colaboradores e  debates de muito bom nível. Não perdi a idéia inicial: os alunos escrevem cada vez mais e os comentários  são instigantes  e interessantes. 

Sempre lanço o desafio em sala de aula para que escrevam sobre filmes e publiquem aqui ou enviem por email. Aprecio bastante quando o aluno é sincero e afirma não gostar de "tal filme". Nesse momento eu o convido a escrever exatamente sobre o filme de que "não gostou". É um exercício e tanto e os progressos na visada são admiráveis.

A Mayara Calácio não gostou do filme "Onde os fracos não tem vez". Fiz o convite e ela escreveu o texto abaixo. Gosto do texto sincero da minha aluna da graduação. Tenho certeza que ela escreverá outros textos até o final do ano.


O filme, o mistério


 Mayara Calácio*


Onde os fracos não tem vez, ou, No country for old men, ou, Mato para ver o tombo, é um dos filmes mais misteriosos que já assisti. A pergunta enigmática que baseia o mistério é: será em que parte o filme mereceu ganhar 13 indicações ao Oscar e 6 troféus?

     Acredito que não tenha sido no início, já que a fala do narrador oculto e em primeira pessoa não traz muitas novidades, e as imagens que completam a narrativa, além de não me somarem informação alguma sobre a continuidade do filme, me dão sede, sabe, tipo Vidas Secas de Graciliano Ramos, que por se tratar de um enredo construído no árido, na seca nordestina, quanto mais você lê, mais sede você tem. Na trama, a maioria das filmagens é feita em locais áridos, de muita poeira e sol (faroeste) quando na cidade, são locais interioranos afastados, ainda no Texas.

     Pode ser que as indicações ao Oscar tenham sido válidas no desenvolvimento do filme. Onde os fracos não tem vez tem como protagonista o ator Javier Bardem, um psicopata chamado Anton Chigurh, que tem acordos com traficantes de drogas para resgatar todo o dinheiro das transações. Azar de Llewelyn Moss, interpretado por Josh Brolin, que encontra o dinheiro e muita gente morta em volta dele, e o leva embora. Aí, os 90% do filme mostram a corrida de sobrevivência entre o gato e o rato. 

     Mas falo que as indicações e premiações do Oscar fazem sentido aqui porque o ator Javier Bardem que interpreta o psicopata quase não tem falas a decorar. Por isso, sua interpretação fica triplamente importante, afinal, tem que ter boa pontaria para poder matar tanta gente como ele. Sem contar com a serenidade de cada assassinato. Ele foi até capaz de decidir a vida de um dono de lanchonete no “Cara e Coroa”! A vida já foi mais valorosa para o Oscar.

     Outro suposto motivo para os troféus é que a história foi surpreendentemente ousada ao colocar os únicos dois xerifes da região com papéis comediantes. Ou seja, os únicos que poderiam deter o psicopata, são os dois palhaços do enredo que sempre chegam atrasados ao local do crime. Seriam eles os fracos? Mais um diferencial: é uma pena que não tenha indicação ao Oscar para quesito Engenhosidades de Armas. Juraria que esta seria mais uma conquista de Onde os fracos não tem vez. A arma mais poderosa do assassino é um tubo de ar comprimido. O tubo é colocado diretamente na testa da vítima. Assim, o psicopata sai arrastando essa invenção com ele, tipo o assassino de “O massacre da serra elétrica”.

 
     O final é completamente incompreensível. O psicopata dá fim à sua última vítima (a esposa do azarento, o rato, que achou o dinheiro e, vejam só, também morreu) e em seguida sofre um acidente inexplicável de carro, mas sai andando. Não ficaria muito triste se me dissessem que eu quem não tive capacidade de compreendê-lo, até porque não faria muita diferença na minha vida. Eu sou até contra o tráfico de drogas! Prefiro mesmo é entender Machado de Assis e suas narrativas que mesmo há mais de 100 anos, ainda conseguem explicar o complexo sistema social que eu vivo, e o principal, sem precisar matar tanto. 

     O fato é que assisti novamente ao filme tentando buscar respostas ou até saber interpretá-lo. Não as consegui, é verdade. Mas estou feliz de ter sobrevivido não só ao psicopata, mas a todo o filme. Dessa vez assisti na minha casa, não tinha mesmo para onde fugir. Quero ainda chegar ao ponto de ver este filme e me maravilhar porque alguma coisa tem para ele ter conquistado 6 troféus do Oscar e ser indicado a 13. Eu contei: foram 14 mortes mais um pombinho que ele matou só por prazer. No começo até achei que cada morte equivaleria a uma indicação, mas aí sobraria uma. Morri de tédio.

* Mayara Calácio é aluna de jornalismo na UFG.

29 Comentários

Pedro disse...

* Quem são os cineastas Irmãos Coen?

Joel Coen e Ethan Coen, conhecidos profissionalmente por "Irmãos Coen”, ganharam por quatro vezes o "American Filmmakers" Academy Award. Por mais de vinte anos, esse par tem escrito e dirigido numerosos filmes de sucesso, desde comédias (O Brother, Where Art Thou?, Raising Arizona, The Hudsucker Proxy) até filmes policiais (Miller's Crossing, Blood Simple, The Man Who Wasn't There, No Country for Old Men), e filmes que combinam os dois gêneros (Fargo, The Big Lebowski, Barton Fink e Burn After Reading). Os irmãos escrevem, dirigem e produzem seus filmes juntos, embora recentemente Joel recebeu um crédito particular por direção e Ethan por produção. São conhecidos no negócio de filmes como "O diretor de duas cabeças" por compartilharem visões similares sobre seus filmes. Se atores chegarem em qualquer um dos irmãos com uma questão, provavelmente receberão a mesma resposta.(Wikipédia)

Candido Cesar disse...

Gostaria de voltar a ser aluno. Já tenho mais de 60 anos. EScrever sobre o que a gente vê enquanto é novo é muito diferente.

Mayara você não pára mais o seu ritmo e poderá intensificar sua visão crítica. O que me chamou a atenção é que você não gostou do filme e escreveu bastante sobre ele e ainda o considera um mistério. Isto é, ainda tem coisa para falar.

Tatiana Cristina disse...

Cândido, você tem uma visão madura e experiente sobre as coisas, fato que muitos jovens cobiçam. E sobre a Mayara ter escrito muito sobre algo de que não gostou, posso fugir a regra mas penso que é mais fácil escrever sobre aquilo que não gostamos do que sobre aquilo que gostamos, pois é mais fácil identificar os defeitos do que as qualidades, e isso se vale até para o nosso dia-a-dia, quando observamos as pessoas, um prédio, uma obra de arte, um carro, uma roupa e etc...

Eu adoro a visão dos irmãos Coen, já vi váris filmes dessa dupla e não canso de me surpreender. Mas falando de Onde os Fracos Não Tem Vez, eu apreciei muito o filme, é denso, violento e misterioso, mas é real, a vida moderna é assim, infelizmente. Mayara gostei do seu ponto de vista e se o filme não somou a você, a mim ele fez diferença. Sendo este o "lance" do cinema, causar diversas emoções, impactos, ser rico. Pelo contrário ele não teria graça. A divergência de opiniões é o que nos caracteriza como seres verdadeiramente pensantes.

Lisandro já lhe disse em sala que seu blog é de alto nível! E foge da máxima da maioria dos blogs que é ser um diário, a sua pagina na internet chega a ser uma Ágora, e foi isso que me chamou atenção desde o começo.

O que mais me fascinou é que nesta Agora ops... seu blog, você não é um mediador, déspota ou um autoritário, você é um professor on line, um esclarecedor.Tem sua opinião e quando necessário a coloca em pauta, de um jeito que soa como "ensinamento" e isso - pelo que vejo - deixa todos que comentam aqui muito a vontade e verdadeiramente sinceros.

Escrever sobre um filme não é realmente uma tarefa fácil, não existe um manual a ser seguido para que pelo menos se tenha um roteiro.Dentre as diversas qualidade que é preciso ter para se escrever sobre um filme destaco que é preciso ter atenção, sensibilidade, poder de questionamento, cultura, saber escrever. Todo conhecimento - por incrível que pareça - é válido.No mais, praticar praticar e praticar é uma necessidade indispensável, é assim que penso.

E sem querer dar uma de vítima Lisandro, e usando um pouco de gerundismo, estou tendo sim dificuldades em escrever sobre filmes, parece que até agora não estou acertando em nada, todavia pretendo ultrapassar esta “suposta” dificuldade o quanto antes, com a sua ajuda é claro.

Túlio Moreira Rocha disse...

Achei interessante o dilema da Mayara... Comigo aconteceu algo parecido, mas com o filme "Terra em Transe"... Tentei assistir a esse filme 5 vezes antes de conseguir de fato. Em cada tentativa, eu chegava um pouco mais longe, mas nunca conseguia ir até o fim da projeção. Quando finalmente consegui, o filme se tornou, para mim, uma das poesias mais impactantes com que já tive contato, com uma frase de que nunca esqueço ("Como diariamente mil notícias amargas que definem o mundo em que vivo")...

Quanto ao "Onde os fracos não têm vez", é um filme muito onírico, o meu preferido dos Coen ao lado de "Barton Fink". O final, com as divagações do Tommy Lee Jones, é um testemunho do mistério intransponível e inexplicável que cerca a dinâmica de vida e morte...

Mayara, lhe sugeriria assistir ao filme de novo, mas sem se preocupar com o número de Oscar que ele ganhou... O Oscar é uma das coisas mais traiçoeiras do cinema, poderia listar aqui uma sequencia interminável de injustiças, bizarrices e afins. No caso de "Onde os fracos não têm vez", a Academia acertou. Mas o filme é muito mais que o número de estatuetas que ele ganhou. É o retrato mais sombrio da psicopatia humana. Talvez seja, ao lado de "O Silêncio dos Inocentes" (premiado no Oscar) e "Seven" (ignorado pelo Oscar), a revelação mais palpável do perigo e da fragilidade de existir. Eu te pergunto: onde os fracos têm vez?

Igor disse...

Com ou sem Oscar, jamais poderia concordar com a visão da Mayara sobre "Onde os fracos não tem vez".

Tomando por base alguns trechos do texto dela, entendi que a grande razão de não ter aprovado o filme é o fato de ele ter ofendido sua própria moral. Espero estar equivocado, até porque esperar que um filme agrade pelo simples fato de validar seus preceitos é uma bobagem que o espectador já superou, espero.

Como a Mayara, é óbvio que não sou a favor do tráfico de drogas. Aliás, quem é? Sendo contrários ao assassinato, por exemplo, também deveremos boicotar filmes cruciais na história do cinema?

Longe de fazer apologia ao crime, o filme, na verdade, mostra as possibilidades de intensidade do mal, revelando a apatia que ser fraco num mundo de lobos pode trazer. Como evitar, a partir daí, uma reflexão sobre a própria vida?

Javier Bardem está impecável e sugiro que a Mayara não deixe, claro, de procurar analisar a sociedade que vive tendo Machado de Assis como referência. Mas a comparação com os Cohen... Por que mesmo é preciso escolher um dos dois?

Elaine Camargo disse...

O filme é bom (tem seus equivocos e exageros) e gostei da sinceridade da Mayara (apesar dela exagerar um pouco nas qualificações).
Não sei se teria a coragem dela. Mayara é corajosa e coloca seu sentimento no seu texto.

Marco A. Vigario disse...

Onde Os Fracos Não Têm Vez é baseado no livro do Cormac McCarthy, que é um grande escritor americano. O filme reproduz um retrato amargo que ele faz dos EUA - a violência, a ganância, a banalização da vida, a perplexidade diante do mal... O que é aquele anticlímax no final com um xerife frustrado e aposentado que não consegue entender o mundo de hoje (relata um sonho em que o pai acende uma fogueira para ele no meio da floresta fria e escura)? Não só o filme instiga essa reflexão sobre a contemporaneidade como o faz de maneira incrivelmente hábil e bela! O que é a montagem desse filme, verdadeira aula de economia e precisão? Embora duro e amargo, Onde Os Fracos Não Têm Vez me proporcionou momentos de grande prazer dentro do cinema.

Lisandro Nogueira disse...

Boa noite, Marco, Tatiana, Túlio e Igor e Elaine Camargo:

A apreciação de vocês é muito boa e o filme merece todas essas considerações.

O exercício da Mayrara é louvável e sincero. Ela inicia agora uma trajetória de longo percurso. E gostei do primeiro passo: coragem, , sinceridade e muita vontade de aprender - isso ´é o mais importante. A maneira dela abordar é completamente espontânea e aponta para uma "boa contradição saudável". Mayara não gosta mas vê mistério. Ou seja, seu olhar vai ser aprimorado cada vez mais ao trabalhar essas contradições.

Os comentários de vocês enriquecem o exercício da Mayara, pois sinalizam uma maturidade para ver e escrever sobre o filme. Esses comentários servem como um farol para quem inicia o processo de análise de filmes.

Os comentários são ótimos e a coragem da Mayara me encanta.

Polly disse...

Ousadia da Mayara fazer uma crítica "não-gostei" desse filme, atitude louvável sim, apesar de não concordar em nada do que ela escreveu. (hehe...)
Onde os fracos não tem vez é um puta dum filme. Sem trilha sonora, sem musiquinha para distrair, filme estéril(isso foi um elogio), que enoja as almas mais sensíveis que gostam de dar sentido a tudo. Mereceu o Oscar e todos os trofeis pq simplesmente incomoda(mistério?). Assim como falar de incesto causa repudia, abordar a banalidade da vida em uma joguinho de cara e coroa tb.
E tira M. de Assis da jogada!
Fui grossa? DEsculpa Mayara, aprovo sua coragem "indecente" de falar mal do filme. Tb odeio V de Vingança.

Lisandro, já cansei de elogiar seu blog.

Abraço, Polly

Melchiades PcdB - DCE disse...

Ora, ora, quem tem a coragem de dizer que nao suporta os filmes do Godard, do Glauber Rocha e dos Irmãos Coen? Muitos falam que gostam desses filmes mas não os vêem em casa.

"Onde os fracos não tem vez" é um filme fraco, pretensioso e sem propósito. Um filme violento para banalizar os sintomas sociais.

Polly, você me desculpa, mas o filme nao incomoda, ele é ruim mesmo.

Kraxpelax disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Polly disse...

ok...
entao ficamos com a máxima: questão de gosto!!!

Anônimo disse...

Se fosse a opinião de um "Melchiades", eu levaria na base do gosto pessoal... Mas o cara já se apresenta como "Melchiades PcdB - DCE" e isso explica um bocado de coisas... daqui a pouco aparece algum "Lucas - IURD" ou "Patrícia - Governo do Estado", hehehe

Melchiades Brito disse...

O anônimo não coloca seu nome. A minha filiaão partidária é no sentido de ajudar a transformar as relações sociais. Acho que o cinema não deve ser elitista. O elitismo no cinema produz situações de mero deleite. É aparentemente crítico mas afunila-se com os ideias burgueses. A burguesia aparenta ser crítica. O cinema de arte é então aparência somente.

Maria Euci disse...

Caros amigos do Blog,

Vamos entender que o propósito do texto é um exercício aberto da aluna Mayara. O professor Lisandro abre o blog com esse objetivo também: colocar os alunos para refletirem através dos filmes.

O texto é sincero e justo com a visão da aluna. O filme é bom mas têm problemas. Concordo com Mayara sobre o excesso de violência. Vi um filme dos cineastas que me tocou bastante chamado O homem que não estava lá".

Maria Euci.

Rodrigo Cássio disse...

Melchiades,
Então Glauber Rocha era apenas um bom burguês, é isso?
Com todo o respeito, essa lógica aí que você usou está pelo menos uns 50 anos atrasada. Isso em relação ao cinema, porque, em termos de compreensão teórica da arte e do capitalismo, o atraso é maior: talvez uns 70-80 anos.
A esquerda precisa ir além para "transformar as relações sociais". Precisa transformar a si mesma. E ninguém mostrou isso melhor que o Glauber, em 1967. Veja lá Terra em Transe, e vamos pensar mais sobre isso.

Mayara Calácio disse...

Mayara,

Pois é, ter escrito sobre este filme foi um ótimo exercício. Estimulou minhas indagações e um olhar contemplativo que ainda não tinha liberado.

Apesar de muitos não concordarem com minha opinião sobre o filme, e nem eu tinha a pretensão de que isso fosse acontecer, afinal, não entendi a essencia do longa, achei realmente "uma pena" o comentário do Igor.

Não sabia que alguém teria a capacidade de levar ao pé da letra a frase "Eu sou até contra o tráfico de drogas!", não pelo menos no contexto em que estava inserida. Eu apenas usei a grande arma que grandes filmes e grandes diretores usam para apimentar suas produções: I-R-O-N-I-A.

Obviamente, ainda sim, sou contra o tráfico, consumo de drogas ou algo do gênero. Por princípios? Sim! O ser humano é muito maior que isso. Mas não deixo(pelo menos tento)que os meus valores influenciem meu gosto por um filme, até porque posso afirmar com antecedência que, se assim fizesse,não gostaria de 99% deles. Sou uma careta-quadrada-eclética.


Mas.. Háa, poxa, achei que usando desta arma irônica eu poderia ao menos chegar perto das verdadeiras intenções dos diretores, ou quem sabe, produzir um filme. Mas desisti: se o Igor (colega de sala que respeito muito) não entendeu a ironia de uma frase tão simples, tão pouco entenderia um filme meu. (Entendeu?)

Obs: Polly, viu que Igor não concordou com nada no meu texto? Mas em um ponto nós concordamos: MACHADO DE ASSIS. E é por isso que não posso deixá-lo fora da jogada. Ele é universal. Afinal, estamos falando de arte ou não?

Marco A. Vigario disse...

Se o Melchíades opta por estabelecer uma dicotonomia tão generalista quanto "cinema de arte" e "cinema comercial" (imagino), e se o cinema de arte é "aparência somente", então temos um comunista defendendo o "cinema comercial" - ou seja, a indústria, o capital, os grandes estúdios, as grandes estrelas... rs
Essa história de "elitismo" é complicada. Quer dizer que se muita gente gosta de funk e pouca gente gosta de música clássica, então música clássica é ruim porque é elitista?

Melchiades Brito disse...

Rodrigo,
Os cineastas devem pensar em fazer filmes nao apenas no aspecto da estética. A arte não é somente de uma classe. Cinema é arte mas é muito mais cultura e sociedade. Aliás, Rodrigo, não existe estética sem lastro social. Observe o Renascimento: concorda? Para terminar, Glauber Rocha apoiou o regime militar apesar da sua grande obra "estética".

Melchiades Brito disse...

Marco Aurelios, uma pena!! Você não entendeu o que eu disse. Leia acima minha resposta para Rodrigo. Existe a estética. Mas ela não exsite sem lastro social.
O elitismo existe sim e o Lula faz bem em rechacar os artistas que queriam "estetizar" o seu governo e o Ministério da Cultura - eu acompanhei isso.

Rodrigo Cássio disse...

Melchiades,

Você certamente acusa o Glauber de ter defendido o regime militar por causa daquele texto em que ele vê com esperança a possibilidade de que, a partir dos próprios militares, o Brasil fosse conduzido a um regime civil. No entanto, esse argumento
(1) descontextualiza o texto de Glauber, que não simplesmente “apóia” o regime militar, mas o diferencia internamente com o propósito de vislumbrar a sua superação;
(2) usa equivocadamente esse texto para criar uma imagem total de Glauber que não corresponde ao que ele realmente representa na história do Brasil;
(3) deixa de falar do próprio cinema para falar do que fez ou deixou de fazer um cineasta em outro âmbito da intervenção na sociedade, o que nos afasta do tema realmente levantado por você.

Essa discussão sobre o elitismo foi feita no cinema novo, e entender bem o Glauber é entender o motivo pelo qual não existe uma dicotomia entre “cinema elitista burguês” e “cinema comunicativo da classe desfavorecida”. Só uma noção bem primária de ideologia pode alimentar essa ideia de que a arte moderna é um mero deleite dos privilegiados, e não uma forma de crítica que se constitui com fins emancipatórios (o que não apenas é possível, como foi realizado por artistas como, por ex., o próprio Glauber).

Veja só: o que é realmente desejável politicamente? Que as “massas” tenham o seu gosto atendido, continuando a serem “massas”, ou que os indivíduos que a compõem possam se elevar a uma experiência estética pela qual podem desenvolver as suas potencialidades humanas, como já queria Marx? Afinal, a sensibilidade estética é um potencial humano, ou não é?

Reclamar do elitismo da arte moderna é uma forma de ressentimento que a esquerda deveria rejeitar com todas as forças. Em geral, trata-se de um indício de paternalismo, que pouco faz em nome da “transformação social”, a não ser afirmar o direito à mediocridade e ao pior – o que é algo bem distinto da ideia de emancipação que os simpatizantes da esquerda queremos.

Marco A. Vigario disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Melchiades Brito disse...

Rodrigo Cassios,
vejo a questão de outro modo. O elitismo sufoca a emancipação de que você tanto fala. Sua idéia de emancipação não combina com o elitismo. Se esses filmes ficam presos somente ao artistico, eles pouco contribuem para a emancipação. Não custa lembrar que o elitismo e as posições de direita caminham quase sempre juntas. A verdadeira esquerda valoriza o artistico até certo ponto mas sabe que a luta social é muito mais importante.
Os filmes artisticos não contribuem para essa emancipação. É triste falar mas é a verdade. Se você quer ser de esquerda ou simpatizante dela, valorizar filmes do Godard, etc não o coloca ao lado da luta social.

Rodrigo Cássio disse...

Melchiades, meu caro,
Uma coisa que a boa direita costuma ensinar, e muito bem, é que há ocasiões em que não se trata de ver as questões de diferentes modos, mas de procurar aprender mais e qualificar as nossas perspectivas.
Só nos resta que eu fique com a minha esquerda, e você com a sua...

Lisandro Nogueira disse...

Olá Melchiades,

Há um ano eu indiquei os livros "Marxismo e literatura", "Sertão Mar" e outros dois. Você ficou de organizar um colóquio. Naquele momento critica duramente o "cinema elitista".

Muito boa sua participação aqui no blog.

Estou esperando o colóquio para ampliarmos o debate.

Um abraço,

Lisandro

Igor Augusto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Igor Augusto disse...

Mayara, ao tecer minhas considerações sobre seu texto, não pretendia criticá-la pelo simples fato de não ter gostado do filme.

Consigo me lembrar de quando você disse, em sala de aula, que não conseguia entender a razão do sucesso desse filme no Oscar. Por um lado, achei bastante corajoso da sua parte emitir uma opinião que desautorizasse a Academia. Por outro, fiquei receoso de que a coragem fosse, na verdade, falta de apuro de sua parte. Suas palavras provaram a segunda hipótese.

Tentar dividir o filme em partes para justificar os prêmios, por exemplo, mostrou que você teve uma enorme dificuldade de abstração ao assistí-lo. Assim, passou a observá-lo a partir do peso de ter recebido elogios e premiações da crítica. Você não relaxou e, vendo o filme a partir dessa ótica, não conseguiu apreendê-lo.

O filme acontece, antes de tudo, na sala de cinema. Procure romper, pelo menos nos instantes em que estiver assistindo a qualquer coisa, com as associações que viu no pré-exibição. Se você começa seu texto explicitando essa preocupação, é sinal de que entrou na sala levando-a consigo.

Mesmo depois de sua réplica, acredito que sejam seus próprios valores, sim, que te afastaram de qualquer possibilidade de empatia com esse trabalho dos Cohen. Sobre seu uso da ironia: li antes e não encontrei; li depois e continuei não encontrando. Um dos dois precisa revisar o próprio conceito de ironia ou aprender a usá-la mais adequadamente.

Espero que nossas divergências sejam meramente técnicas e, como colega que sou, respeitando você também, que isso não atinja o nível pessoal. Grande abraço!

Mayara Calácio disse...

Oi Igor,


Com certeza não atingirá o nível pessoal. Como disse, te respeito. Inclusive, concordo plenamente você quando diz que eu tive "uma enorme dificuldade de abstração ao assistí-lo". Não neguei isso em momento algum, foi até o motivo pelo qual escrevi o texto.


Eu também "passei a observá-lo (o filme) a partir do peso de ter recebido elogios e premiações da crítica. Eu não relaxei e, vendo o filme a partir dessa ótica, não consegui apreendê-lo". Você fez a melhor leitura da minha postura frente ao filme. Acredito que foi isso mesmo.

Sobre a construção do meu texto, realmente acho que então temos uma discordância sobre o que seja ironia ou não. A minha ironia é quando eu digo uma coisa querendo dizer outra, ou seja, um SIM com intenção de NÃO. entre outros exemplos. Mas é essa intenção não precisa ser completamente antônima. Quando eu disse, por exemplo, "Eu até sou contra o tráfico de drogas" a ironia não faz significar que sou a favor do tráfico, mas que a maioria das pessoas é contra. Por isso, obviamente não foi este ponto que me fez não gostar do filme.

É isso,

não gostei mesmo do filme. A questão é que queria não gostar entendendo "Onde os Fracos Não tem Vez", ou seja, não gostar de algo que dominaria.

Abraçoo

:)

Anônimo disse...

Vinha lendo os comentários e tava gostando. Mas aí veio alguém misturano arte e política e meu ânimo pifou. Como é que ainda tem gente tão desavisada capaz de achar que só é boa a arte a serviço de alguma ideia política? Imaginemos esses tipos no poder, como deve ser na Coreia do Norte, em Cuba. Deviam ir plantar coquinho e deixar a arte para quem ama a arte sem adjetivo. Xô!

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