terça-feira, 29 de setembro de 2009

UP Altas aventuras, reflexão sobre o ato de seguir em frente (em cartaz)



Dê balões a sua imaginação


Túlio Moreira Rocha*


Up – Altas Aventuras, novo Disney/Pixar, começa com uma interessante premissa metalinguística: o cinema povoa o imaginário infantil e cria ídolos para toda a vida. No entanto, o que se descobrirá, no decorrer do belo filme, é que muitas vezes o que a telona mostra é resultado de maquiagem e truques de edição, capazes de disfarçar a insanidade dos tais heróis.

A animação é sobre a superação de um passado ainda muito presente pela força das memórias afetivas. Carl Fredricksen, numa dublagem inesquecível de Chico Anysio na versão brasileira, é um velhinho rabugento e simultaneamente simpático, que perde o grande amor de sua vida, Ellie. O casal viveu décadas de felicidade sustentada por um pacto feito ainda na infância: partir em busca de um paraíso perdido na América do Sul. Viúvo, Carl mora em uma singela casa de campo encravada em meio ao caos de uma grande metrópole. A imagem de sua pequena residência incrustada no coração de uma cidade em expansão é também o retrato dos velhos tempos que insistem em ficar. E não só o passado: o sonho também persiste.

A partir daí, a animação mostrará a aceitação, gradual, de sua nova realidade. Ele não só não poderá mais viver suas aventuras ao lado de Ellie, como terá que escolher entre ficar preso aos objetos e sentimentos das décadas anteriores ou aproveitar a oportunidade de partir em busca de novas conquistas. Entenda, Up – Altas Aventuras não pretende dizer ao espectador que é preciso desconsiderar sua história de vida, mas é uma mensagem bem direta àqueles que parecem não ter vontade de seguir em frente, de escrever novas páginas de seus livros de aventuras.

Em sua saga na incrível casa voadora levada por balões multicoloridos, Carl encontrará a companhia de personagens impagáveis como só a Disney/Pixar sabe criar. E cada um terá seu papel nas mudanças vivenciadas pelo velhinho. Russell, o pequeno escoteiro que por acidente embarca na nave-residência, irá preencher a lacuna deixada pela impossibilidade de Carl e Ellie terem filhos. É aí que o filme comove na abordagem sobre a terceira idade. Nunca é tarde demais para desenvolver outras relações, ganhar novos amigos e se aventurar pelas cachoeiras perdidas da América do Sul. Diante de todas essas lições, o espectador dá um desconto para a inverossimilhança que predomina durante toda a projeção, para se deixar levar por essa belíssima fábula sobre a superação e a redescoberta de si mesmo.

Os outros personagens também provocam acessos de risos e gargalhadas na plateia. Um enorme pássaro colorido e um cãozinho falante, dissidente de um exército de caninos obesos e malvados, irão completar a trupe de desbravadores, que terá pela frente grandes desafios. O maior deles é outro enfrentamento ao passado de Carl, relacionado à ideia que deu início ao texto. Fredricksen irá se decepcionar quando descobrir que o herói de sua infância é, na verdade, um psicopata histérico que escraviza cachorros e é obcecado em capturar o pássaro exótico.

Up – Altas Aventuras é, como toda animação dos estúdios de Walt Disney, um convite, a crianças e adultos, para a reflexão sobre a vida e nossas decisões. As promessas antigas parecem não fazer o mesmo sentido diante de uma sequência incrível de novos acontecimentos, ainda que se conserve o apelo afetivo às experiências já vividas.


Pode-se dizer que o filme é, nesse quesito, um forte discurso em prol da valorização dos idosos. Mesmo que faça sacadas engraçadas em torno de elementos como a dentadura ou o andador, a animação é sempre sobre escrever o próximo capítulo, superar-se constantemente no minuto seguinte. Tudo isso marcado pela delicadeza ao tratar de temas como as relações familiares, a separação e a morte. Não se assuste se casas voadoras erguidas por balões de gás hélio atravessando o céu da cidade passarem a ser coisa comum daqui pra frente.

* Túlio Moreira Rocha é aluno do curso de análise de filmes na FAcomb/UFG.

11 Comentários

Pedro disse...

Pessoal,
o filme continua em cartaz.
Gostei demais do filme e do texto do Túlio Rocha.
ps- Túlio deve ser torcedor do Vila Nova, como todas as pessoas inteligentes que moram em Goiânia.

Túlio Moreira Rocha disse...

hehe, vilanovense na medida do possível :p

lisandro disse...

Tulio, o personagem do filme, Carl, lembra muito o Vila Nova: os obstáculos, os óbices e os entraves são vencidos pela vontade e pelo espírito de permanência e alegria constante (mesmo na dor e no extremo sofrimento).

Carl e Vila Nova: semelhanças!! E você, que eu saiba, é um grande torcedor.

Blog da Confraria disse...

Muito bom o texto e a análise de superação dos obstáculos. O filme é uma fábula fantástica. Eu não gostei muito da parte da coleira do cachorro falante, mas o filme é superior a isso.

E vilanovense é um detalhe um tanto que conta!!

Túlio Moreira Rocha disse...

quem diria que iriamos chegar à associação entre Up e Vila Nova, hehe

mas faz sentido... só precisamos amarrar alguns balões e ver o time subir, \o/

ótima ideia!

Caroline Pires disse...

Puxa vida.... que filme delicado! E parabéns ao Túlio pelo texto.

A imagem da casinha voando por ai presa a "infinitos" balões coloridos para mim é um bela de uma metáfora sobre as inúmeras oportunidades e escolhas que temos na vida e que, muitas vezes, acabam por ficarem presas a algo que queremos a tudo custo conservar intacto. O passado, ou para alguns o presente.

Aos poucos... os "balões-oportunidades" vão muchando...Mais aí entra a grande "sacada" do filme: sempre é possível recomeçar!Up joga com a velhice, com a infância, com os "idolos" que adoramos sem conhecer, com os pais que não dão atenção necessária para os filhos.

Me peguei com lágrimas nos olhos umas 2 ou 3 vezes. A música (como foi discutido alguns posts atrás)foi fundamental. As imagens e a canção melodiosa de fundo resumiram em poucos minutos um romance que daria outro filme.

Disney/Pixar sabem nos pegar no ponto fraco não é mesmo? Claro que o filme faz uso de uma receita que conhecemos bem, tem um melodraminha adaptado e tudo mais...

Independente disso...essa noite eu devo sonhar com casas voadoras e balões coloridos...

Angélica Queiroz disse...

Confesso que fiquei surpresa ao entrar na sala de cinema para assistir Up e vê-lo cheio de adultos, já que eu pensava que seria uma das poucas a ir assistir a esse tipo de filme sem a companhia de uma criança. Mas, logo no início, entendi que o filme não era voltado apenas para o público infantil. Uma tocante sequência de passagem do tempo, narrada de forma tocante, fez muita “gente grande” chorar já nos primeiros minutos.

Peter Docter, conseguiu assim como em de Monstros S.A., sua estréia como diretor, divertir as crianças e emocionar os adultos. O filme, apesar de lançar mão vários elementos fantásticos, é voltado para a questão humana. Essa parte, as crianças deixam passar despercebida, e se divertem da mesma forma. Mas, na minha opinião, as reflexões que Up propõe são a melhor sacada do filme. Apesar de clichê, saí da sala animada com a idéia de que “nunca é tarde para sonhar, nunca se é velho demais para ser criança”. E isso, é impagável.

Não posso deixar de elogiar o texto do Tulio que, pelo jeito, se apaixonou pelo filme, assim como eu.

Tatiana Cristina disse...

Oi Túlio!

Ontem eu estava na sala do Lisandro, pela noite, e mais uma vez não deu para nós conversarmos - assim como no Bougainville,no dia do filme La Teta Asustada - mas tudo bem deixemos para a próxima!

Gostei do seu texto. Eu ainda não vi Up, mas estou muito a fim, só que estou sem tempo, entretanto li um texto sobre ele na revista Bravo deste mês, e gostei muito, se puder leia também, acho que vai gostar.

Abaixo o link:

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/cinema/critica-novo-classico-animacao-495879.shtml

abraços..

Fernando Quirino disse...

Tirando o fato do autor do texto e alguns dos comentaristas serem vilanovenses (não deve ser culpa deles, coitados) o texto ficou ótimo e apesar de Up deixar bem explícita sua mensagem, sempre rende um pouquinho mais de reflexão.

Não é novidade entre algumas produções Pixar esse tipo de toque a adultos e crianças, talvez devessem revisitar alguns dos clássicos Pixar pois apelam muito as relações familiares e suas intrincadas repercussões (de adoção a deficiência em outras animações até a velhice e os dogmas tratados em Up). Mesmo assim se superaram em história e principalmente em trilha sonora. Faz muito tempo que uma música de animação não colava na cabeça. Acho que a última foi o tema de Toy Story por Randy Newman.

De qualquer forma, tudo, até a dublagem nacional, contribuiu para o sucesso. Ótima visão a do texto.

Elaine disse...

Gente, esse filme é apenas bonzinho. Pra que gastar tanta tinta. Ele é óbvio demais.

Caroline Pires disse...

Olá Elaine,

creio que o interessante de se "pensar" cinema, é justamente desnudar os artifícios que o filme utiliza para gerar a comoção do público. Ele pode até ser óbvio a primeira vista, mas os esquemas que ele explora tem influências de modelos com séculos de história que vem sendo adaptados... isso dá um potencial imenso para interpretações.

Essa obviedade pode ser vastamente explorada, por exemplo, em que momento o filme nos "pega"? Na música? No enredo? Nos temas abordados? Como ele faz isso? Como o melodrama foi utilizado aqui? Como o filme consegue atingir adultos e crianças?
São questões como essas que fazem valer a pena pensar um filme, por mais simples que ele pareça ser a primeira vista.

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Blog do Lisandro © Agosto - 2009 | Por Lorena Gonçalves
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