quarta-feira, 30 de setembro de 2009

"Sintra é um belo lugar para morrer": carta de Glauber Rocha.



"SINTRA É UM BELO LUGAR PARA MORRER" *


 
Disse isso a Patrick Bauchau, ator que passou por aqui com a equipe de Wim Wenders, filmando O Estado das Coisas. Expliquei ao Patrick que "para a média de idade de um latino-americano, aos 42 anos já vivi bastante".

A doença, a precariedade financeira e as incertezas me levam a pensar que vivo em Portugal meu segundo e último “exílio”, foi o preço que paguei no Brasil pela liberdade artística.



 Sintra, 26 de abril de 1981.Aqui é bonito. Escrevo diante de uma panavisão sobre o Atlântico camoniano e sebastianista do alto de uma montanha antes habitada por Byron numa linda casa onde viveu Ferreira de Castro... O romancista João Ubaldo Ribeiro está hospedado aqui com a Berenice grávida... As coisas vão bem, estou feliz no meu feudo à beira mar plantado vendo todos os dias naves partindo na construção do IV Império de Sebastião Ressuscitado...”




O clima em Sintra é ameno, a paisagem deslumbrante, parece que redescobri o paraíso. Vivo com Paula e as crianças, Ava e Aruak, florescem.  “Me sinto reprojetado nas origens”. 




Em Paris  foi duro, passei o Natal e o Reveillon de 1980 com a família e poucos amigos, acompanhando uma retrospectiva de meus filmes e apresentando A Idade da Terra", mal recebido no Brasil e no Festival de Veneza. Fiquei magoado.

Quero “tempo e calma” para começar um novo filme, mas não vejo uma saída. “Briguei com mais de 200 pessoas no Festival de Veneza”, o júri rejeitou o filme, perdi o chão.




“Não quero mostrar esse filme em Festivais. Talvez no Museu de Arte Moderna. Muitas pessoas comparam A Idade da Terra com Guernica”.  Rompi com tudo, é uma obra radical:

"Do filme DI CAVALCANTI para cá eu rompi com o cinema teatral e ficcional que fiz de Barravento até Claro. A Idade da Terra é a desintegração da seqüência narrativa sem a perda do discurso (...)

"Esse filme materializa os símbolos mais representativos do TERCEIRO MUNDO, ou seja: o imperialismo, as forças negras, os índios massacrados, o catolicismo popular, o militarismo revolucionário, o terrorismo urbano, a prostituição da alta burguesia, a rebelião das mulheres, as prostitutas que se transformam em santa, das santas em revolucionárias. "Tudo isso está no filme dentro do grande cenário da História do Brasil e das três capitais, Bahia, Brasília e Rio.”.(...) .” 




Dizem que estou louco, gastei todo meu patrimônio nesse filme, vendi nossa casa no Rio de Janeiro, o orçamento estourou e o filme é um fracasso de público.

Mas não se trata de loucura, busco um outro cinema: "um filme que o espectador deverá assistir como se estivesse numa cama, numa festa, numa greve ou numa revolução. É um novo cinema, antiliterário e metateatral, que será gozado, e não visto e ouvido.”
Longe do Brasil tento colocar a cabeça em ordem, Sintra ajuda, “o cinema novo foi uma revolução cultural feita por garotos... é difícil aos quarenta anos viver depois da revolução”. O coração parece que vai explodir…
 

4 Comentários

Rodrigo Cássio disse...

Texto emocionante.

Concordem ou não com Glauber, ele foi um artista com a consciência aguda do seu momento histórico, na política e na arte.

Hoje, os cineastas brasileiros mais reconhecidos são menos artistas, e muito mais admnistradores de um ofício.

Lisandro Nogueira disse...

Perfeito!!
É isso: "administradores de um ofício".
O contexto era outro. Mas exatamente por isso mesmo, Glauber tinha a noção e a ligação com o seu tempo.
Não vejo ressentimento nessa carta. Vejo ternura e poesia. E, também, a exata consciência da chegada e permanência de uma "loucura-curta".

Lisandro

Polly disse...

Otimo ter acesoo as angústias e dúvidas de um cineasta como Glauber Rocha. Nada de espetáculo, muito de alma, alias, só um pouco de espetáculo (só para não me chamarem de reducionista!!!)

Querido Lisandro, qual seu e-mail? Preciso combinar com vc, sua mais que esperada presença no cineclube da faculdade de direito.
Queremos vc e o Belém na mesma mesa.
Ontem quem esteve lá foi essa grande pessoa ai de cima: Rodrigo Cássio.
E não é que surgiu a ideia de fazermos um encontro com o pessoal do seu blog. Já pensou?
É...marcamos um local legal e reunimos: vc, as pessoas q te ajudam aqui e todos os que comentam.
Seria legal, ne?! O clima e a estação favorece.

Beijo enorme!

P.S.: Aí Rodrigo, falei, agora é só esperar!Rs...

Lisandro disse...

Olá Polly,
Que bom!! email: lisandronogueira@gmail.com.
O mês de novembro será terrível: final de semestre: 6 monografias e mais a dissertação do Rodrigo.
Mas vamos combinar primeiro a Fac. de Direito. A reunião do pessoal será muito interessante, mas precisamos conversar pessoalmente. Penso que seria um bom encontro: os alunos estão "tomando conta do blog" e amigos novos e antigos aparecem para dar sua contribuição.

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