segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os amantes (em cartaz)




Amantes e a falência das convenções 


Rodrigo Cássio*


Ao espectador mais exigente, um filme como Amantes, de James Gray, tende a provocar uma reciclagem da experiência com as narrativas dramáticas que nada acrescenta ao escopo do gênero. Antes disso, o que o filme sinaliza é a falência dos seus próprios meios de afetar o espectador – sem, com isso, deixar de insistir neles, muitas vezes conciliando as piores ideias com um estilo que, de algum modo, atribui uma sobrevida estética ao seu conteúdo. Nesse sentido, James Gray se mostra empenhado em não perder de vista uma consciência sutil dos limites que cercam as suas personagens. E junto com as personagens estamos cercados, os espectadores, nos mesmos limites. Personagens que amam – como o nome do filme já indica – e, amando, falam, agem, sofrem e desejam de maneira exacerbada. 


Estão em cena convenções já desgastadas de tal modo que, nas mãos de um cineasta atento a esse desgaste, elas não podem se firmar sem advertências que as contradizem e relativizam. A recepção razoavelmente entusiástica da crítica talvez levante mais questões sobre si mesma – sua coerência, seus valores, suas afirmações, seus cineastas favoritos – que sobre o filme propriamente dito. Até que ponto é recomendável chancelar um cinema como o de Gray? Talvez, até o ponto no qual um drama que exige do espectador apenas uma cumplicidade suspeita, e não uma cumplicidade absoluta, comece a cominar a sua própria superação, a sua denunciadora – e incômoda – falta de sentido. Não podemos ir muito longe, assim.



Por isso, é difícil defender Amantes. Pode ser o caso de uma indesejável conivência com aquilo que alguns espectadores desavisadamente esperam do cinema, de um certo cinema que, ao mesmo tempo em que reposiciona a mise-en-scène entre as principais realizações de um filme, abstém-se de uma crítica dos preceitos que erigiram a mesma mise-en-scène como expressão de uma cultura: se estamos cercados nos limites das personagens, é patente que nos interessamos por sentir da mesma maneira pela qual elas sentem, aderindo à arquitetura de carências e compensações que as direcionam pela trama. 


Em Amantes, o tripé se arma na relação entre a família, os negócios e o desejo amoroso-sexual. Leonard, o protagonista, é o jovem “de meia-idade”, bipolar, que mora com os pais. Desde que a noiva o deixara, pelo infortúnio de uma incompatibilidade genética que os impediriam de ter filhos, Leonard é assolado pela tentação do suicídio. Amantes é a narrativa que divide Leonard entre dois pólos (a sua bipolaridade projetada nas instituições sociais), personificados respectivamente em duas mulheres: de um lado, Sandra, filha do sócio de seu pai, com quem um namoro de tinturas tradicionais representa a conveniência de um ideário de prosperidade familiar e pujança financeira; de outro, Michelle, a vizinha instável e sem raízes, adepta das diversões inconsequentes e amante do seu patrão, um homem casado.



Sandra deseja Leonard, que deseja Michelle, que deseja o amante casado. No entanto, o amante não troca a sua família por Michelle, que não deseja Leonard, que não deseja Sandra. Em princípio, são dois movimentos: o primeiro, uma cadeia de relações conduzida pelo desejo; o segundo, um arremedo do desejo na dimensão da aparência, no qual as personagens agem de acordo com as convenções, mas sem que elas concretizem os verdadeiros interesses das personagens.


Nesse passo, recaímos no drama burguês, confiantes em seu poder de significar o real. No entanto, somos surpreendidos pelos obstáculos do processo, e chamados a reconhecer o seu insucesso – inclusive, isso se dá naquelas cenas que, pela força do estilo, deixam suas marcas. Duas delas dialogam sintetizando a moldura pré-sabotada de James Gray. Quando Leonard e Michelle finalmente têm uma relação sexual, a moça está de frente para a câmera, e lança seu olhar a ela repentinamente, buscando o espectador. É uma cena de intimidade e explosão sexual, e o olhar da personagem desmonta a imersão do público no texto. Em outro momento, quando Leonard oferece uma jóia a Sandra, e em seguida a abraça, é a vez de o protagonista fitar o espectador, buscando a câmera com o olhar. O gesto de Leonard, assim como o de Michelle na outra cena, denuncia a irreconciliável dimensão da aparência na qual se inscrevem todos os desejos. 


James Gray não acreditaria no que faz? É por isso que suas personagens se esquivam de afirmar os momentos-chaves da trama sem essas ressalvas que deslocam o lugar do espectador? Vale a nota de que abandonar um gênero poderia ser caminho melhor do que abraçá-lo com um punhal nas mãos. Em Amantes não deixa de prevalecer a parcela burguesa do drama, salvando a sua personagem mais melodramática – Leonard – a fim de que a estrutura sufocante das convenções se revele um arcabouço suficiente, preferível em relação ao descontrole dos sentimentos, mas tão falso que as próprias personagens “salvas” pelas compensações do filme se recusam a confiar nelas. 


Como exemplar de gênero, os diálogos fracos de Amantes chamam mais a atenção do que a celebrada encenação de uma ou outra passagem bem dirigida. Todavia, nem mesmo nesse quesito o filme é pleno. Se as cenas de Leonard e Michelle, como a do primeiro encontro no terraço do prédio – com a beleza dos atores que se movem no quadro, em conjunção com as paredes que recriam o enquadramento –, exploram o cenário de modo louvável (exceção da sequência da balada na boate), todas as cenas com Sandra, por sua vez, incorrem apenas em um reforço da caricatura que é esta personagem. 


Mesmo que o filme se assente, em boa parte, no drama familiar, o desmantelamento dessa instituição é resolvido sem que o tema venha à tona em sua máxima controvérsia. Filme de virtudes pontuais, Amantes só pode ser uma grande obra quando o que nos resta para exaltar é alguma coisa mais ou menos parecida com o que seria realmente grande. Talvez como na constrangedora felicidade de Sandra, ao receber aquela jóia: a felicidade dos que se entregam a um amor sem substância; pura aparência, e não as pulsões da vida, com toda a sua carga de revés e contradição.

* Rodrigo Cássio é jornalista e realiza mestrado em cinema na UFG.

8 Comentários

Elaine disse...

Poderia me explicar porque o filme não consegue deslanchar e fica dando voltas e acaba na conciliação total na comunidade judaica? Fiquei pensando como esse tipo de cinema não gosta de encerrar com nada que seja danaso aos bons costumes.

Blog da Confraria disse...

Eu gostei do filme, é certo que ele não se aprofunda, contudo, mostra toda essa bipolaridade, mesmo que superficial, porém, de um modo sutil.

É um bom filme

Rodrigo Cássio disse...

Olá Elaine!
O que seria "deslanchar" para você?
Concordo com o que você diz ao final. Esse cinema não gosta de contrariar os "bons costumes". Dito de outro modo, é a estrutura do melodrama fazendo valer a sua força.


Bog da Confraria: Eu não disse no texto, mas a interpretação do Joaquin Phoenix (o Leonard) é excelente. Vale a pena ver o filme por causa dele.
Não o considero um bom filme, mas também não é de todo ruim. É o que disse no texto: filme limitado, com algumas partes muito bem encenadas.

Elaine disse...

Cássio, acho que você foi bem com o filme mas foi bondoso com o final, com os judeus. E outra coisa que me chamou a atenção foi como ele volta solenemente para os braços da judia e sua família. A cena ficou caricata. E concordo que o ator está bem, o Phoenix.

Rodrigo Cássio disse...

Elaine: Sem dúvida. Essa cena do final é quando ele a presenteia com a jóia. Repare no olhar de Leonard para a câmera: o próprio filme desconfia dessa caricatura, que, de resto, atinge toda a dimensão familiar, e especialmente a personagem Sandra.

Alfredo disse...

Gente!! Há momentos que as análises entram em declive. Esse filme é muito sem charme. Para refrescar lembrem de Desejo e perigo, esse sim um filme quente.

wertem disse...

Rodrigo,

Parabéns pela força e precisão de seu texto.

Abraço,

Wertem

Rodrigo Cássio disse...

Olá Wertem,
Bom vê-lo aqui. Obrigado pela leitura atenta de sempre!
Um abraço,
Rodrigo

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