quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Caetano Veloso e Paulo Francis...

 ...pensando e debatendo o Brasil....em 1983


Lisandro Nogueira*



"Que país mais chato este, em que os inteligentes brigam e os burros andam de mãos dadas!" (W. Olivetto)



   Em 8 de outubro de 1983 o jornal Folha de São Paulo abriu seu caderno Ilustrada para a "polêmica do século". O exagero é evidente. Porém, os debatedores eram de alto nível e, na verdade, não foi uma "polêmica", mas sim um embate inteligente no qual dois ótimos intelectuais pensavam naquelo momento as questões do Brasil.

Os temas da "polêmica" eram liberdade de expressão, papel dos intelectuais e a qualidade do jornalismo e da MPB. Quem eram os dois intelectuais? Caetano Veloso e Paulo Francis.O jornal convidou vários artistas e professores para opinarem sobre o bom debate. Leiam abaixo a matéria de Ruy Castro.



QUEM FAZ MAIS A SUA CABEÇA: PAULO FRANCIS OU CAETANO VELOSO



Ruy Castro*



É a polêmica do século. Ou a deste fim de semana -por aí. A cidade está acompanhando, entre perplexa e apaixonada, a briga entre o jornalista Paulo Francis, correspondente da Folha em Nova York, e o cantor e compositor Caetano Veloso, pelas páginas deste caderno. Há algumas semanas, Paulo Francis criticou a entrevista que Caetano realizou com Mick Jagger no programa "Conexão Internacional", da TV Manchete, classificando de reverente e submissa a postura de Caetano diante do complacente líder dos Stones.
Caetano não gostou e, numa entrevista coletiva nesta terça-feira, rompeu publicamente com Francis, a quem sempre admirou.. A resposta de Paulo Francis foi publicada na edição de quinta, em que ele devolve a Caetano os epítetos e lamenta que um argumento cultural seja respondido com insultos.
Tsk, tsk. Mas a briga existe e não se fala em outra coisa. Espera-se que ela sirva pelo menos como base de discussão sobre o conceito do intelectual no Brasil, a liberdade de expressão e a maior ou menor qualidade da nossa atual produção artística. Afinal, ambos têm mais do que cacife para isso.
São pessoas corajosas, inteligentes e talentosas. E estão entre os intelectuais e artistas que mais fizeram cabeças neste país nos últimos 20 anos. Quem faz mais a sua cabeça: Paulo Francis ou Caetano Veloso? Esta foi a pergunta que a Folha fez a várias pessoas influentes. Eis as respostas

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AUGUSTO DE CAMPOS, poeta e tradutor: "Não tem dúvida: sou 100% Caetano".
JÚLIO MEDAGLIA, maestro e um dos inventores do tropicalismo: "Neste momento, Paulo Francis é mais criativo. Ultimamente, Caetano só tem feito boleros".
DÉCIO PIGNATARI, poeta e professor de literatura: "Os dois fazem igualmente a minha cabeça. Paulo Francis é um homem claramente ideológico e às vezes incursiona no terreno artístico. Caetano é o contrário".
MINO CARTA, jornalista e editor da revista Senhor: "Com respeito por ambos, nem um nem outro".
GILBERTO BRAGA, autor de novela "Louco Amor": "Pela emoção, Caetano. Pela razão, Paulo Francis. Mas, pelo que andam dizendo um do outro, eu poria os dois de castigo durante uma hora".
CARLOS BRICKMAN, jornalista, editor de economia da Folha: "Entre os dois, graças a Deus fico com Millôr Fernandes".
HENFIL, cartunista: "Paulo Francis. Pela sabedoria, pelo compromisso com as outras pessoas e pelo seu orgulho de ter sido preso por suas idéias, enquanto Caetano se envergonha disso. Caetano diz que não lê jornais, mas é capaz de citar o dia e a página de qualquer jornal que tenha falado dele, mesmo que seja a 'Gazeta de Nanuque'. E eu gosto mais da música do Francis".
BELISA RIBEIRO, apresentadora do programa "Canal Livre": "Caetano. Porque, por ele, dá para a gente se apaixonar".
ZÓZIMO BARROZO DO AMARAL, colunista: "Paulo Francis. Eu faço parte da macaquice do auditório dele".
FÁBIO MAGALHÃES, secretário da Cultura municipal: "Nenhum dos dois".
JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI, filósofo e professor: "Os dois não fazem nem o meu pé, quanto mais a minha cabeça".
CARLITO MAIA, publicitário: "Quem faz a minha cabeça é o Goulart, que me corta o cabelo".
FLÁVIO GIKOVATE, psicanalista: "Caetano Veloso. Sem comentários".
JOÃO CÂNDIDO GALVÃO, jornalista, editor-assistente de Veja: "Paulo Francis, porque é mais paradoxal. Caetano anda muito óbvio".
SÓCRATES, jogador do Corinthians e da Seleção: "Admiro os dois como profissionais destacados em suas respectivas áreas, mas nenhum deles faz a minha cabeça. Aprecio informações do Paulo Francis, gosto de muitas músicas do Caetano, mas nenhum deles influi na minha maneira de pensar ou agir".
CASAGRANDE, centroavante do Corinthians: "Caetano Veloso. É um poeta. Gosto também do comportamento dele, que é agressivo com a sociedade. Aliás, como o meu".
MARÍLIA GABRIELA, apresentadora do programa "TV Mulher": "Quando eu quero poesia, prefiro Caetano. Quando quero bom jornalismo, prefiro Paulo Francis".
JOÃO DÓRIA JR., presidente da Paulistur: "Nenhum dos dois. Mas eu prefiro a doçura musical do Caetano à acidez redacional do Paulo Francis".
ANGELI, cartunista: "Eu misturo os dois. Pego o lado doce do Paulo Francis e o ferino do Caetano".
GERALDO MAYRINK, jornalista, editor-assistente de IstoÉ: "Paulo Francis - porque, pelo menos, nunca pediu a minha cabeça, como fez o outro. Além disso, Francis se tornou um dos maiores entertainers do nosso show business".
EDUARDO MASCARENHAS, psicanalista: "Caetano, claro, porque tem mais humor, talento e arte que o sr. Paulo Francis. Caetano já me faz a cabeça há 15 anos. Já o sr. Paulo Francis, no que respeita a subjetividade, é extremamente primário. Mas eu não sei como andam os interiores do sr. Paulo Francis".
WASHINGTON OLIVETTO, publicitário: "Que país mais chato este, em que os inteligentes brigam e os burros andam de mãos dadas!".
ANTONIO MASCHIO, ator e proprietário do Spazio Pirandello: "Paulo Francis, sem dúvida. É um homem do mundo. Caetano, quando muito, é um homem do Brasil. Se todas as bichas do Brasil fossem 'travadas' como o Paulo Francis, este país estaria muito melhor".
CLODOVIL, costureiro: "Eu, hein? Nesse angu, eu não me meto!".
APARÍCIO BASÍLIO DA SILVA, escultor e perfumista: "Paulo Francis. É um conselheiro literário formidável".
PIETRO MARIA BARDI, diretor do Museu de Arte de São Paulo: "Na minha idéia, é Paulo Francis, hoje o maior, mais atual, mais vivo, mais inteligente e mais inventivo escritor brasileiro".
TÃO GOMES PINTO, jornalista da Folha: "Caetano Veloso".
CAIO TÚLIO COSTA, jornalista, secretário da Redação da Folha: "Entre a razão e a emoção, eu fico com Paulo Francis".
MARTA SUPLICY, sexóloga: "Eu gosto dos dois, mas nenhum faz a minha cabeça".
TAVARES DE MIRANDA, colunista social da Folha: "Quem faz a minha cabeça é Jesus Cristo".
RUBENS GERCHMAN, artista plástico: "Paulo Francis. Ele está há anos no centro da ação --sempre no front".
JOSÉ GUILHERME MERQUIOR, diplomata, ensaísta e acadêmico: "Não gosto da expressão 'fazer a cabeça'. Acho-a alienada. Quem faz as minhas idéias, com muita dificuldade, sou eu mesmo. Não tenho nada a considerar sobre esses dois personagens".
THOMAZ FARKAS, produtor cinematográfico e empresário: "Os dois me fazem a cabeça, cada qual do seu jeito".
HELENA SILVEIRA, jornalista e colunista da Folha: "Quem me faz a cabeça é Anthonio Carlos, meu cabeleireiro. Admiro Paulo Francis como colega, gosto de Caetano com restrições. Guru é coisa que já era".
JOSÉ ROBERTO AGUILAR, artista plástico: "Caetano é meu amigo, moramos três anos juntos em Londres. Mas o Francis também é genial e seus livros são monumentais. O problema do Francis é que ele é de uma geração que só ouve jazz e música clássica, e passou a largo da geração do rock. Assim, fica reduzindo tudo a uma coisa de 'lumpenproletariat'. Mas o rock não é só isso. O rock já tem sua literatura e sua cultura".
CARLOS VOGT, lingüista e professor da Unicamp: "Gosto da música do Caetano e acho divertida a destemperança com que escreve Paulo Francis".
JOSÉ MIGUEL WISNIK, professor de literatura: "Cada um de nós faz a sua própria cabeça, mas as sete faces do Caetano ressoam mais em mim do que a cabeça de papel do Paulo Francis".
JULIO BRESSANE, cineasta: "Minha cabeça é feita pelos dois. A região que Caetano ocupa, que é a da poesia e onde habito, é a maior. Mas o Paulo Francis, que é hoje o maior articulista do Brasil, também ocupa uma região imprescindível. Inclusive já começamos a trabalhar juntos numa adaptação para o cinema do seu romance 'Cabeça de Papel'".
ZIRALDO, teatrólogo e humorista: "Sou Caetano. Mas não assumo".
MILLÔR FERNANDES, pensador e humorista: "Olhem, não me meto em briga de baianos".

* São Paulo: 8 de outubro de 1983 - Ilustrada
Com colaboração de Âmbar de Barros

18 Comentários

Pedro disse...

Pessoal,

Caetano de novo...agora o cotejo inteligente é com Paulo Francis. Parece que os interlocutores do baiano eram mais inteligentes. Paulo Francis dá de dez nesses atuais interlocutores do Caetano.

Riccardo Joss disse...

Francis é referência de bom jornalismo. Caê deveria ser comparado com Carlinhos Brown e Cláudia Leite.

Candido Cesar disse...

Achei bom ver as opiniões de tanta gente (alguns já se foram para o além) boa em 1983. Eu sempre desconfiei que o Henfil era um sujeito ressentido. E ele gostava de Francis, que era na época de direita, e não gostava de Caetano que sempare foi de esquerda - mesmo que comentendo alguns equivocos.
A opinião de Olivetto é brilhante.

Elaine -sociologia UFG disse...

Boa tarde!! professor Lisandro, peço para transcrever aqui o artigo de hoje, 11.11, de Fernando Barros, publicado na Folha de São Paulo:

* Caetano é "neguinha"

SÃO PAULO - "Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro." Diante da ira que provocou nos companheiros, Caetano Veloso voltou ontem às páginas de "O Estado de S. Paulo" para comentar esse trecho da entrevista que havia concedido.
O compositor lembrou que o próprio Lula se vangloria da sua fala pouco instruída e que é forte inclusive por isso. E avisou aos petistas: "Dizer que FH era mau governante e Lula é bom é maluquice. Ambos foram conquistas brasileiras importantes. Marina seria um passo à frente". Sobre esse último ponto, podemos brincar: "menas, menas".
De resto, os embates entre Caetano e a esquerda remontam aos anos febris do tropicalismo. É duvidoso que o lulismo seja de esquerda, mas Caetano, de novo, se põe à esquerda da esquerda, dando mais um nó no coro dos "progressistas": "Detesto essa mania de que nada se pode dizer que não seja adulação a Lula".
Quem teve a felicidade de ver seu show no fim de semana pôde presenciar a homenagem a Neguinho do Samba, negro semianalfabeto, um dos fundadores do Olodum na Bahia, morto há poucos dias: "Influenciou mais a mim e provavelmente a vocês da plateia do que a obra inteira de Lévi-Strauss. Isso é o que eu teria a dizer aqui sobre analfabetismo e preconceito".
O ápice, porém, foi a interpretação de "Eu Sou Neguinha?" -acompanhada no palco por uma gestualidade que valorizava de maneira ostensiva e lúdica a interrogação sobre a identidade sexual do cantor.
Caetano é um dos maiores artistas brasileiros -isso já é sabido. Mas é também um espírito livre e um intelectual incomum num sentido muito preciso (e talvez o único verdadeiramente precioso): sempre está no debate público de sua época sem subordinar convicções e ideias a cálculos táticos ou conveniências políticas. Ousar pensar pela própria cabeça, sem a tutela do grupo ou medo da patrulha da maioria: por que não? Por que não?

Polly disse...

Bom perceber que quase ninguém levou muito a sério a questão.
E a Folha só quis nos divertir.
Ai, acho tudo isso tão chato.Eu ri!

Alfredo disse...

A pergunta que faço: em que essas polêmicas ajudam o Brasil?

Dourivan Lima disse...

Sinceramente, Lisandro, me empolguei mais com a polêmica sobre a economia americana, também na FSP, em que o Francis chamou Rogério Cerqueira Leite de gorducho e o professor retrucou convidando-o para conferir na próxima vinda ao Brasil se ele tinha gordura ou músculos.

Foi o ápice da inteligência combativa nacional.

Mas, falando sério, prefiro fechar com o embaixador JG Merquior (que também tinha esses acessos de vaidade e grosseria como polemista), quando ele disse que artista não é sinônimo de intelectual.

Ou, quem sabe, com Virgílio: "Quem sois para vos bater por tão grandes questões".

Valéria Borges disse...

Olha aí, eu também me lembro dessa polêmcia, Dorivano. O Paulo Francis a levou até o fim e o fisico também. Mas quais são as polêmicas de hoje? Vejo que o "politicamente correto" acabou com os bons debates. Todo mundo fica com medo de falar alguma coisa, de contrariar. É muito ruim isso.

zé disse...

tanta agitação pra tão pouca coisa.
reitero alfredo: em que essas polêmicas ajudam o país?

Polly disse...

Outra: Notícia velha. Polêmica velha!
[Puf]

Edigar disse...

Pelo contrário. Precisamos resgatar essas memórias e esses debates. Estão enganados aqueles que acham que o passado não é importante. A contenda entre Veloso e Francis é muito atual. EStou gostando desses posts.

Polly disse...

Edigar,
Sempre tive problemas com o passado. Preciso superar isso!Rs...
É o mundo anda tão pós-moderno!Quero polêmicas novas. Respeito as velhas, os velhos!
Eu adoro esse blog

Expedito da UEG disse...

Estão enganados aqueles que não acham de suma importância resgatar a história e seus debates importantes.
Eu vejo que estão implicando mesmo é com o cantor e compositor Caetano Veloso. Acho bom esses debates e não gosto muito é da música dele. Do Paulo Francis tenho muita saudade. Esse não deixaria a situação atual da política brasileira de pé, pois criticaria tudo, letra por letra. Todavia, Petrobrás derrotou o coração de Paulo Francis em 1987.

Riccardo Joss disse...

Polêmicas não TÊM que levar a algum lugar, se levou à reflexão, já valeu. Penso, loggo existo, né?

Elaine -sociologia UFG disse...

Ricardo, acho que você se enganou. A reflexão deve sim levar a algum lugar. Afinal, para quem servem os debates?

Expedito disse...

O melhor desse post é ver os depoimentos de gente tão interessante. Essa frase do Olivetto é ótima; Henfil era ambiguo; Casagrande um revolucionário jovem; Sócrates, o jogador, um boçal; Augusto de Campos: engraçado, e por aí vai.

Wilson Flores disse...

O melhor é o depoimento do Ziraldo:"Sou Caetano mas náo assumo". E ainda Caio Tulio: "Entre a razão e a emoção, eu fico com Paulo Francis".
Ö tempo passou e a coisa continua a mesma. Vida longa para Caetano. Sua mãe completou 101 anos e está lúcida. Então a possibilidade dele continuar polemizando é muito grande. Enquanto isso, Maria Betania canta.

Andreia disse...

Bem recuperado esse "artigo"!! Acho que a discussão da entrevista do Caetano ficou extensa e formou um outro texto. Para mim, nem Lula nem Caetano, o que me surpreende é o uso da expressão analfabeto como insulto, ofença. Junto com cafona! Daqui a pouco vamos repetir a expressão "baianada", tão comum na minha infância. 9,3% da população é analfabeta, seguindo critérios muito discutíveis. O artigo reproduzido pela Eliane faz um referência ao fato, mas não me convenceu, achei um pronunciamento infeliz do Caetano

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