sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Abraços partidos (em cartaz)


Um espelho para Almodóvar

RodrigoCássio*

Os filmes de Pedro Almodóvar buscam o espectador por meio de uma emotividade tornada clichê no imaginário melodramático: estão em cena os romances infelizes, os caprichos do destino, a violência, a morte e o sexo como ápices da experiência de personagens que vivenciam uma tensão constante entre o desejo e a fatalidade, o prazer e a dor. A força do cineasta, contudo, não está na opção por mobilizar os sentimentos desse universo conflitivo. A sua originalidade não está tanto nas regras do jogo, mas sim na admissão de novos jogadores, às vezes simplesmente reordenando as peças no tabuleiro.


Por isso, em seus filmes, a homossexualidade não é mais um tabu, mesmo quando o pano de fundo é a relação amorosa enquadrada no modelo tradicional de família; a religiosidade não é mais soberana para com os valores; o bem e o mal se contaminam com hedonismo, injetando na ação a exigência de que toda volição seja consumada. Somando-se a esses elementos, em Abraços Partidos (novo filme que Almodóvar concebeu, segundo diz, durante uma crise de enxaqueca), a arquitetura das vontades passa necessariamente pela transformação destas em imagens.


Quando o casal que protagoniza a obra está em fuga, viajando pelo litoral ibérico, Lena (Penélope Cruz) se comove com a cena de um documentário. A situação em que estão imersos ela e seu companheiro, o cineasta Mateo Blanco (Lluís Homar), parece refletida no filme a que assistem juntos, sentados em uma sala de estar – espaço privado por excelência, que confirma o amor irrefreável de ambos no seio do drama doméstico. O documentário amedronta, e Lena chora. A reação de Mateo a essa comoção, provocada pelas imagens da televisão, assinala o que mais interessa a este filme de Almodóvar. Em vez de apenas um abraço reconfortante na amada, Mateo vai além: ele programa uma máquina fotográfica Canon, na mesa em frente, para registrar o gesto de carinho.


À imagem atemorizante do documentário, tida como uma ameaça de que o amor do casal não prospere, sobrepõe-se o registro de uma outra imagem, apontando a união que pretende ser duradoura e superar obstáculos. Uma imagem após a outra, e são sempre elas a fonte das aproximações e dos distanciamentos. A imagem é um fetiche para quem vê ou quer ser visto, e também um possível remédio para quem sofre exatamente por causa delas. Em Abraços Partidos, Almodóvar aporta como jamais fizera na autorreflexividade do cinema moderno e se empenha numa meditação sobre o próprio ofício.

É por querer ser imagem que Lena se candidata como atriz a um filme de Mateo Blanco. É por não querer ser abandonado que Ernesto Martel (José Luis Gómez), seu marido, tenta apreender Lena como imagem, munindo o próprio filho com uma câmera e instalando-o no set de gravação – o mesmo filho que, anos mais tarde, tentaria transformar o ressentimento pelo pai em um novo filme. As imagens, dentro do filme, são um centro ordenador do discurso. Sinal de maturidade de uma obra? Talvez, pois é também sintoma de esgotamento: Abraços Partidos é um filme que não consegue evitar os riscos que sempre rondaram Almodóvar em sua aposta alta no melodrama.


A extravagância visual que marca outras realizações do diretor está mais contida, assim como as ironias (dois itens caros ao seu estilo). Até o humor é circunscrito em um domínio particular, em nome de certa gravidade sem a qual as referências internas ao cinema não teriam a mesma chancela. Trata-se, sobretudo, de um filme que projeta na obra de Almodóvar a possibilidade de mutações mais incisivas, deixando em aberto os seus próximos passos. Entre os poderes do cinema comercial, hoje, de emocionar e de pensar a si mesmo, o diretor talvez reconheça o lugar que ele próprio ocupa e toma esse reconhecimento como matéria-prima para novas criações – o que certamente explica, em parte, a sua tão falada crise de enxaqueca.

* Rodrigo Cássio é mestrando em cinema na Facomb/UFG

10 Comentários

Cris disse...

Oi, Rodrigo. Como sempre, vc mandando muito bem em suas observações. Só a título de informação, há um conto de Edgar Allan Poe cujo nome é "o retrato oval" (ou algo do tipo)no qual ele também trata dessa temática: a apreensão da pessoa através de uma imagem. No caso em tela, a apreensão da vida de uma pessoa em uma fotografia. Vale a pena a leitura desse conto. Boa sorte no seu mestrado. Vc realmente é muito, muito bom.

Rodrigo Cássio disse...

Cris, obrigado pela referência! As várias imagens de Lena diante de espelhos talvez nos permitam um paralelo com o Allan Poe. Afinal, ela é a personagem que, depois de tudo, sobrevive como pura imagem, recriada no filme que Mateo Blanco decide montar adequadamente (e que bela parte é aquela em que assistimos o “filme dentro do filme”: Garotas e Malas). Obrigado pela leitura e a oportunidade de desdobrar as ideias. Abraços!

Herondes Cezar disse...

Estava em dúvida se iria ou não ver "Abraços Partidos" no cinema. Agora, depois de ler o texto do Rodrigo, já não posso deixar de ir. Um bom texto é assim: provoca em nós o interesse de ver o filme, se lido antes; ou amplia nossa visão do filme, se lido depois. Esse texto, por suas qualidades, me leva a crer que cumpre bem essa dupla função.
Abraços

Túlio Moreira disse...

Rodrigo, gostei bastante do seu texto... Gosto muito dos filmes do Almodóvar, apesar de sentir uma certa repetição estética e temática a cada obra - o que não é algo necessariamente ruim. Tá certo que admiro diretores que conseguem passear por diferentes universos, como Stanley Kubrick ou Martin Scorsese, mas Almodóvar também não deixa de merecer elogios...

O lance da imagem, apesar de presente em vários outros filmes (como Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela, A Má Educação...), realmente ganhou mais importância nesse Abraços Partidos, e o resultado final se tornou uma obra pontuada por uma metalinguagem deliciosa.

Rodrigo Cássio disse...

Herondes, penso que o filme é bom, mas não é ótimo. Este ano tivemos poucos filmes deste nível, infelizmente. Abraços Partidos acaba se destacando por causa disso. Fico feliz, sobretudo, por ter lhe agradado a leitura! Grande abraço!

Túlio, eu também gosto do Almodóvar. Já diferente de você, tenho um apreço especial por diretores que se “repetem”. Estes aprofundam mais no desenvolvimento de um estilo, seja lançando mão dos gêneros, como o Almodóvar, seja rompendo com eles. Estou curioso para saber como será o cinema dele daqui pra frente! Abraços.

Anônimo disse...

Rodrigo
Parabens pelo artigo. Muito melhor que o filme que achei um melodrama sonolento.
Que bom que outras pessoas viram coisas interessantes!
escreva mais!
abs
joao

Marcelo disse...

«Muitas coisas, fique dito de uma vez por todas, quero "não" sabê-las. - A sabedoria impõe limites ao próprio conhecimento» F. Nietzsche

Fabrício C. Santos disse...

É definitivamente um ano em que o Cinema resolveu fazer cafuné no próprio Cinema, vide aquele monstro de homenagem que foi "Bastardos Inglórios".

Esse aqui também é uma puta homenagem não só ao cinema, mas aos seus ofícios e, claro, às imagens. Tem uma fala final belíssima.

O tom noir, o suspense que o Almodóvar trabalha e retrabalha é muito interessante, principalmente pela trama ser construída por personagens partidos ao meio e que, de uma forma ou de outra, interpretam ou se interpretam: Mateo e seu pseudônimo; Lena e sua condição com Ernesto; até o documentarista, entre seu antes e depois.

E poucos cineastas filmam o vermelho como o Almodóvar. Ainda mais a Penélope em vermelho, o que acontece várias vezes. Adoro como o Pedro nunca força uma sensualidade nela, e justamente isso, essa casualidade com seu corpo, que faz chamar tanta atenção, e parece deixá-la muito à vontade. Não à toa, suas melhores atuações são em filmes dele.

Essa coisa do Almodóvar com cores e com o vermelho me lembra seu interesse pelo kitsch, e como ele entrega charme ao kitsch. Acho que o melhor momento disso é a cena da lágrima no tomate.

Tem outras coisas muito boas. A cena da escada (é, aquela), feita com tanta simplicidade, até suave, eu diria. Ou então quando ela entra no salão enquanto o Ernesto está assistindo às gravações, e ela diz "Me enfoque", e a câmera do Almodóvar muda o foco pra ela, e ele é cercado por falas gêmeas, de imagem e realidade. Bonito, tenso, cinematograficamente inescapável.

Ah sim, o filme do Mateo lembra muito alguns primeiros filmes do Almodóvar, hehe.

p.s.: que lugar mais interessante aquele que cerca a estrada de quando eles fogem de carro. Uma terra rocha, com uns buracos e umas plantações, filmada lá de cima, à distância. Antes de revelar a estrada e o carro, pensei que fosse uma maquete, ou uma plantação. Muito bonito.

Vívian Rodrigues - a engenheira disse...

Bem lembrado Fabrício, linda aquela paisagem.

Há pouco tempo comecei a me aventurar nesse mundo do cinema. Pra falar a verdade, desde o semestre passado quando fiz uma disciplina de núcleo livre com o Lisandro. Até então não conhecia absolutamente NADA de cinema. Desde então procuro filmes, textos e livros a fim de aprofundar mais no assunto. Essa semana fui ao cinema com um casal de amigos e assisti "Abraços Partidos". É o primeiro filme de Almodóvar que vejo, então não posso entrar nessa discussão de comparações e repetições de temas.

Adorei o filme. Pra mim foi um filme que me deixou entusiasmada e curiosa para conhecer um pouco mais do diretor. Almodóvar que me espere, pois estou louca pra aproveitar as férias e devorar (ou ser devorada) por mais alguns de seus trabalhos.

Parabéns pelo texto Rodrigo, muito bem escrito.

Lisandro Nogueira disse...

Olá Vivian,

Que bom!! Você gosta cada vez mais de cinema. Eu já imaginava q. você queria muito conhecer mais, perceber mais, etc. Fico feliz!!

Na Cara Vídeo (rua 10, centro, em frente Catedral), você encontra quase todos os filmes do Almodovar.

Um abraço,
Lisandro

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