sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Amantes partidos: ensaio sobre expectativas e frustações


Amantes partidos

Obra-prima de James Gray é um ensaio sobre expectativas e frustrações

Túlio Moreira*

Cena: Bar Mitzvah. Momento de silêncio. Todos devem fechar os olhos e fazer um pedido. O indefectível toque de Für Elise no celular de Leonard (Joaquin Phoenix) rompe a concentração de todos os que assistem à cerimônia. O sogro quebra o constrangimento com uma piada expressa. Todos esquecem o deslize do sujeito e continuam a comemoração. Mas Leonard e o espectador de Amantes (Two Lovers, 2008) sabem que aquela não era uma chamada qualquer. Afinal, é Für Elise.

Drama que surpreendeu pela boa recepção (com louvor) por parte da crítica especializada, Amantes se destaca pela estrutura simples e a fidelidade com que retrata os anseios que cercam uma relação amorosa. Muito do êxito do filme se deve ao desempenho de Joaquin Phoenix, que comprova seu talento para personagens densamente introspectivos. Leonard exige ainda mais do ator, por possuir uma bipolaridade que o leva do mais intenso isolamento a momentos de extrema descontração – em questão de instantes.

A obra-prima de James Gray começa com um ensaio de suicídio. A câmera do cineasta está tão abalada quanto o personagem de Phoenix. Leonard sobrevive. Os comentários alheios o incomodam. Na mesa do jantar, os julgamentos persistem. Ele sente o peso de ser o centro das atenções depois de várias tentativas de tirar a própria vida, deprimido por uma relação que não deu certo. As reviravoltas do amor guardam uma irônica surpresa para o rapaz. Ele, que não tinha mais nada, passar a conviver com duas mulheres bagunçando a cabeça. Surge uma dúvida entreatos.

Gray não confunde seu espectador. O diretor evidencia a preferência de Leonard pela vizinha comprometida, a problemática Michelle (Gwyneth Paltrow). As investidas de Sandra (Vinessa Shaw) e todo o apoio da família parecem não inspirar Leonard. Ele prefere a instabilidade e as incertezas que pontuam seu esboço de relacionamento com Michelle. Mas o comprometimento da garota e a pressão familiar entregam o homem para Sandra e por algum tempo ele parece conformado com a situação.

Aí está a deixa para a descrição que abre este texto. Für Elise é o ringtone escolhido por Leonard para identificar as chamadas de Michelle. Apesar de decidido a tocar a vida ao lado de uma pessoa que significa apenas carinho e apreço, diante da impossibilidade de viver plenamente a paixão pela vizinha, Leonard não consegue afastar totalmente a imagem perturbadora da personagem de Paltrow.

A característica mais marcante da direção de James Gray é o distanciamento moral em relação a seus personagens. O diretor se exime de julgar e deixa as ações fluírem de acordo com as escolhas de seus objetos cênicos. Um diálogo despretensioso requer uma câmera igualmente singela. Em um momento de conflitos expostos, a lente do cineasta extravasa a tensão latente. O diretor reconhece compartilhar as mesmas expectativas da platéia em relação às decisões que conduzirão a história ao desfecho.

Provavelmente, a cena que mais demore na cabeça do espectador após o término da projeção seja a visão de duas pessoas conversando ao telefone enquanto se observam pela janela, em andares opostos do mesmo prédio. A perspectiva da distância desafiada pelo recurso da voz ao telefone, ou simplesmente a entrega de Leonard ao exercício do voyeurismo, é a metáfora mais exata para a separação física e emocional que afasta e aproxima, ao mesmo tempo, os amantes do título.

A atmosfera de solidão que cerca Michelle (personagem à altura do talento subestimado de Gwyneth Paltrow) e as verdades contidas em rápidos encontros na cobertura do prédio desenham, corroboradas pela fotografia sóbria e a trilha sonora densa, a textura da dúvida que sacrifica Leonard. O desenrolar dessa delicada relação, se fosse construído embasado em algum romantismo ingênuo, poderia colocar a perder toda a exatidão crua que engrandece o filme. Mas James Gray sabe, até o último minuto, como conduzir um retrato sincero das dimensões sentimentais que carregam as frustrações e as objeções do amor.


* Túlio é aluno curso de Análise de filmes na Facomb/UFG.
Postado por Túlio Moreira no Natural Born Moviegoer.

5 Comentários

Pedro Vinitz, Alemão e Patricia disse...

Pessoal,

Esse filme é bom mesmo. O Túlio acertou na mosca.
Pedro

Polly disse...

Boa análise Túlio, calma, bem escrita. Adorei!

Acho que os sintomas da bipolaridade foram colocados em excesso justamente para justificar o desencontro do personagem. Nesse caso, um especialista diria que os bipolares não sao assim ou assado, mas em si tratanto de arte, de cinema, não há o que se criticar. Foi um filme fiel, exagerado em alguns pontos, no que tange a própria doença, mas fiel a ela mesma.

Sobre o amor, eu só consegui observar egoísmos.
Sobre a trilha, eu arrepiava.
É um filme frio!

Abraço,
Polly

Marco A. Vigario disse...

"Amantes" não é um filme fácil. Quando estava em cartaz em Goiânia, muita gente saía decepcionado das sessões porque entrava achando que era uma comédia romântica qualquer.
Gosto muito do texto que o Cléber Eduardo, da Cinética, escreveu sobre ele, mostrando que o Gray, mais do que "diretor", já pode ser considerado um "cineasta" (artesão das imagens):
http://www.revistacinetica.com.br/2lovers.htm
Pra quem se interessar pelo trabalho desse cara, recomendo que veja também "Os Donos da Noite", "Caminho Sem Volta" e "Fuga para Odessa".

Rodrigo Cássio disse...

Penso que esse filme foi supervalorizado pela crítica. É um filme bem realizado, mas pouco original. Alguns planos me chamaram a atenção pela beleza, mas isso foi compensado negativamente por alguns diálogos bem fracos e alguns esterótipos retumbantes, como o da cultura judaica. Quem gosta de bons dramas, deve gostar. Mas além disso, não vi motivo para tantos aplausos.

Fabrício Cordeiro dos Santos disse...

Dos melhores do ano passado. Phoenix num de seus melhores momentos, então é bom que esse hoax dele de rapper acabe logo.

Chega a ser desafiador dentro de um Cinema americano que sempre vende amor como algo certeiro, uma pílula de comédia romântica - o que também acontece, mas, claro, é coisa rara. Porra, tem um filme saindo aí cujo título é "Love Happens", com a Aniston e o Eckhart.

E esse personagem do Phoenix é triste demais. Já começa triste, com uma prévia triste. De tão triste, ele flerta com o desespero, um desespero dúbio: desesperado pela morte (começo, cicatrizes) e pela vida (o amor). Não fossem personagens tão autênticos e sóbrios, com uma direção sóbria, o Leonard seria patético até - e o que acontece com ele chega a ser meio patético. Mas ele se importa, se importa de verdade.

As relações são interessantes, quase num sentido cíclico. Ele fica com a que sobra, e durante todo o filme ele realmente pensa na Sandra como uma reserva (sério, impressionante como Gray e Phoenix deixam às claras tudo o que se passa na cabeça do Leonard, e sem um pingo de diálogo expositivo). Por outro lado, ele era o reserva de Michelle, mas ela acaba tendo a chance de ficar com o "titular" dela, e assim escolhe ser.

Importante: nós não sabemos se Michelle e Ronald vão dar certo (e não há nem como supor), tampouco se Leonard e Sandra vão dar certo. E curiosamente, existem dois casais despedaçados aqui, casais que, num outro filme, também poderia parecer que dariam certo, mas não deram: Ronald e a esposa, e Phoenix e sua ex-esposa.

p.s.: sobre "Os Donos da Noite", o Gray faz uma cena maravilhosa de perseguição na chuva, sob a perspectiva do Phoenix.

@fabridoss

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