domingo, 18 de abril de 2010

Educar pelo cinema

 SEM PALESTRA, COM TEXTO

Lisandro Nogueira*

Nos últimos dois meses troquei vários emails com Contardo Calligaris. O objetivo era convidá-lo para realizar uma conferência em Goiás. Em todos os emails a educação e o interesse estiveram presentes. Cecília, minha amiga de longa data, o conhece desde os anos 90 - teve contato ainda em Porto Alegre, nas palestras inteligentes e audaciosas feitas por ele.

Boa parte do pessoal do Cineclube Antônio das Mortes, sempre gostou, estuda e admira a teoria freudiana. A admiração cresceu depois que observamos o interesse dos psicanalistas em debater o cinema. Eles sempre foram mais disponíveis do que outros intelectuais, além da presença constante nas mostras e sessões de cinema.

Cecília lembra constantemente que Calligaris gosta muito de cinema. Cita  trechos de filmes em palestras e acompanha bem de perto os lançamentos nacionais e internacionais. Mas não deu certo sua vinda, por problemas de agenda, e o convite deve ser refeito em outro momento. Como consolo para o "choque de datas", Cecília enviou uma entrevista do psicanalista e pediu que eu publicasse no blog. Segue abaixo a entrevista: 

* * *
  
Educar pelo cinema*

Quase sempre, na vida de um adolescente, não basta preparar-se para o futuro; ele quer viver

QUANDO CHEGA uma convocação da orientação pedagógica do colégio de seus filhos, alguns pais já sabem que escutarão queixas: o garoto não estuda e não presta atenção, anda com uma gangue, dever de casa nem se fala etc.

Para mim, a queixa mais alarmante é a que diz que nosso filho é legal, mas não se interessa por nada -não só por nada do que a escola lhe propõe: nenhum esporte, nenhuma atividade extracurricular, nenhum hobby, nada.

Ele pode, eventualmente, ser obcecado com sua aparência (roupas, marcas, corte de cabelo), mas, no mais, ele só gosta de jogar conversa fora num shopping, beber cerveja, ficar no MSN e, às vezes, fumar cigarros ou baseados. O baseado é pior: afasta das tarefas cotidianas e do desejo, e, quando o afastamento se torna angustiante (os adolescentes sofrem com sua própria inércia), volta-se ao baseado para acalmar a angústia.

É um tranco que muitos pais atravessam do jeito que dá: desde as punições (cortar mesada, computador, saídas) até as tentativas desesperadas de envolver o rebento nas atividades dos adultos. "Ele vai jogar bola comigo", "Por caro que seja, se formos para o Quênia, ele vai se interessar, ao menos, pela vida dos elefantes. E pode querer ser veterinário", "E se comprássemos um cachorro do qual só ele se ocuparia?", "E se ele trabalhar na ONG daquela amiga que cuida de crianças de rua?", "Se ele encontrasse uma namorada, não seria o estímulo que lhe falta?".

O fato é que quase sempre chega um momento, na existência de um adolescente, em que, de repente, preparar-se para o futuro não lhe basta. Ele não quer se preparar, quer viver. Só que não sabe bem o que seria "viver": o mundo, como dizia a mãe de Forrest Gump, é uma caixa com chocolates variados, mas, no caso, por não conhecer os gostos e os recheios, o jovem hesita e morre de fome.

Os pais e os adolescentes que passam por essa situação não precisam se desesperar. O tempo cura muitos males, e a vida não é tão curta assim que um adolescente não possa "perder" alguns anos (tanto mais que nem sempre os ditos anos são propriamente perdidos).

Enfim, pais e adolescentes, que estejam ou não em apuros, não percam o livro de David Gilmour, "O Clube do Filme", que acaba de ser traduzido pela Intrínseca e que é uma pequena joia de coragem e sinceridade.

Gilmour conta como, confrontado com um filho de quinze anos que ele adorava, mas que não se interessava por nada, diante do espetáculo intolerável da aflição do garoto com as obrigações escolares, ele decidiu retirá-lo da escola. Mas nada de "Se você não quer estudar, tem que trabalhar; vagabundo não cabe nesta casa". Gilmour inventou uma educação alternativa: nenhuma obrigação, salvo a de não usar drogas (crucial) e a de compor, com o pai, o clube do filme, ou seja, assistir, três vezes por semana, a filmes que o pai escolheria e introduziria com breves comentários. Depois disso, a cada vez, pai e filho conversariam sobre o filme. O garoto, evidentemente, topou.

Começaram assim vários anos em que pai e filho viveram uma relação que não era parasitada pela necessidade de forçar o garoto a estudar, mas não foi nenhum paraíso: o pai, que atravessava um tempo de fracasso profissional, não parava de questionar sua própria decisão (será que ele estava acabando com o futuro do filho, que, aos 16 anos, não sabia onde está a Flórida no mapa?), e o filho não tinha como não sofrer com a sensação de estar sem rumo na vida.

A história acaba bem. Mas, cuidado, não é uma receita praticável, a não ser por quem tenha uma coragem de leão e, sobretudo, consiga amar seu filho mesmo que ele não corresponda aos sonhos dos pais (tipo de amor muito mais raro do que a gente imagina). Além disso, eu me perguntei se não teria sido possível instituir o clube do filme sem que o garoto saísse da escola (talvez não, talvez sim).

De qualquer forma, terminei o livro com dois pensamentos.

1) Há uma coisa que nossos filhos precisam conquistar, e que nunca vai ser uma matéria do programa: é o desejo de viver. Nessa tarefa decisiva, a ficção talvez seja o melhor recurso. E, das ficções, o cinema é a mais facilmente acessível.

2) Os adolescentes devem se preparar para sua vida futura, mas, igual eles estão vivendo, agora. Às vezes, parecemos sacrificar radicalmente seu presente em troca de nossa própria (ilusória) tranquilidade quanto ao seu futuro.

* publicada em 22.07.09, blog "Verdes trigos".

6 Comentários

Maria Euci Carvalho disse...

Finíssima a visão dele dos adolescentes e pais. Li esse livro e concordo que não é fácil fazer esse clube do filme.

Elaine disse...

Gostei imesamente do livro "O clube do filme". Não gosto muito é do Contardo Calligaris. Psicanalista gosta de falar de tudo, de querer saber de tudo.

Expedito Gomes disse...

O texto é bom e objetivo

Toca na ferida da educação. Nossos adolescentes precisam de orientação e apoio. Discordo da Elaine, aí em cima. O psicanalista mostra que sabe do que está falando.

Anônimo disse...

Eu sei que o livro é bom. Qauero saber se os filmes exemplificados são bons. Sei lá, tem muita coisa ruim.

Tatiana Cristina disse...

Que texto bacana Lisandro!

Vi uma apresentação do Contardo, no Café Filosófico, e foi maravilhoso, assim como também da Maria Rita Kehl, eles são explêndidos.

Ficar sem rumo na vida não é fácil, e não é só "privilégio" da adolescência. Os jovens também estão sujeitos a isso.

Vou até imprimir esse texto.

Tomara que role esse conferência aqui com o Contardo.


Abraços...

Alfredo - Anápolis disse...

Calma gente! O livro é ótimo e instrutivo. O texto realça o livro e a importância de contribuir para melhyorar nossos adolescentes.

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