segunda-feira, 28 de junho de 2010

"NIne", o filme: a presença materna



Análise da presença/ausência materna em Nine

 Renan Melo*

Já perdi a conta de quantas vezes assisti Nine, esse fantástico musical de Rob Marshall com elenco estelar, fotografia impecável, trilha arrebatadora e direção de arte estupenda. Só no cinema foram seis sessões. Em casa infinitas vezes. E o melhor, tenho sede para muito mais. O fato é que cada vez que vejo essa película única, nasce a vontade de tecer textos e mais textos ao seu respeito, como faço agora.

Para mim, a grande chave de Nine está na figura de Mamma, interpretada magistralmente por ninguém menos que Sophia Loren, ícone do cinema italiano. Mamma, como todos sabem, é a mãe do protagonista Guido Contini, cineasta italiano de grande renome que traz nas costas o fantasma do fracasso de seus últimos filmes e busca inspiração para rodar seu nono filme: Itália. E é aqui que nasce o meu devaneio para encilhamento da presente análise: Buscaria Guido Contini a inspiração para seu filme ou o preenchimento que a morte de sua mãe causou? Para mim, sem sombra de dúvidas, a segunda alternativa. Aí vão os porquês.

Mãe como luz

Conversei com várias pessoas sobre a figura de Mamma em Nine e poucas se atentaram para essa importante presença materna. Na verdade não a entenderam muito bem. O curioso é que foram essas mesmas pessoas as que mais criticaram o filme por sua aparente “falta de sentido”. O fato é que o roteiro de Nine está muito mais no seu visual, no seu simbólico e nas suas entrelinhas. 

O roteiro de Nine se sobressai a essa busca-clichê de boas falas e diálogos inteligentes, apresentando ao espectador um banquete de imagens que conversam entre si. E é nesse imagético mágico que encontro um dos pontos da crucial presença materna em Nine. Reparem o primeiro instante em que Mamma aparece, logo na canção “Overture Delle Donne”. Ela está cercada de mulheres, que se afastam no exato instante em que um raio de luz a desvenda para o imaginário de Guido. Em Nine, mãe é luz. E luz, por consequência, é inspiração. Sempre.

O filme se segue e constantemente temos a associação de luz à figura da mãe. Mas é na sua canção, intitulada de “Guarda la luna” (reflitam), que esse raciocínio é coroado. O set do até então “Itália” é, na verdade, a metáfora da imaginação de Guido. Nele todas as mulheres de sua vida dançam, passeiam, brilham e choram. Mas é na canção de Mamma, uma canção de ninar (reflitam novamente), que temos a invasão de inúmeras velas. Todas acesas para iluminar a mente de Guido, a imaginação de Guido. Nesse cenário nosso protagonista cresce, “valseia” um pouco, e volta a ser aquele menino de nove anos. Um menino que tinha abraços maternos para resolver qualquer problema. 

Um menino que era abraçado, que era ajudado e não um homem imaturo na situação de acalentar a amante em sua tentativa de suicídio. Lembram? “Guarda la luna” se inicia no exato instante em que Guido está nos braços de Carla, após sua tentativa de suicídio. Transportar-se para a infância é seu maior desejo naquele instante, já que lá era ele quem tinha o colo, não quem oferecia.

E para casar com todo esse visual de luz, uma canção extremamente simbólica, reforçando o meu argumento de que o roteiro de Nine está muito mais nas suas entrelinhas. “Guarda la luna che brilla lassu”, (Olhe para a lua que brilha no alto), ou seja, é a lua como elemento que ilumina a escuridão, é a lua como metáfora da mãe que ilumina a obscura busca por inspiração de Guido. Tudo é na verdade uma tentativa de acalmar o gênio, do tipo “Quando tudo estiver escuro, Guido, olha para o céu, que eu estarei lá, iluminando seus caminhos”. A mãe é onipresente na vida de Guido. Seja na escuridão, seja como a própria luz.

Mãe como mulher

Gostaria de ter conhecimentos aprofundados sobre o universo freudiano para tecer esse ponto da análise. Entretanto, como não o tenho, me limito a uma argumentação de certo modo superficial, o que não a faz menos importante. Recordemos o filme: Guido é casado com Luisa, tem Carla como amante, Claudia como musa, teve uma prostituta que marcou sua infância e é rodeado por mulheres loucas por uma noite com ele, a exemplo da jornalista interpretada por Kate Hudson. O porquê de tantas mulheres em sua vida, respondo logo: Guido nunca encontrou, nem nunca vai encontrar, uma mulher que substitua sua mãe. Sim. A mãe, que já falecera, fora a mulher mais importante da vida do protagonista que, enquanto busca inspiração para o próximo filme, passeia pelas várias figuras femininas de sua vida na esperança de que alguma substitua a figura materna, na esperança de que alguma conceda o colo que ele tanto procura. Guido é uma criança. Uma eterna criança. Sua lascívia não passa de uma caracterização da adolescência constante. Ele está perdido. Precisa da mãe. Ele quer colo.

O final de Nine, um dos melhores da história do cinema para mim, prova essa onipresença da mãe. Vão saindo mulheres e mais mulheres dos bastidores da imaginação de Guido, todas para a cena final e, segundo o próprio protagonista, a mais importante: o instante da reconciliação. E é no auge da bela canção “Finale” que surge ela, Mamma, para se posicionar no centro de tudo, no centro da mente de Guido que, com nove anos, prefere ficar ao seu lado. Não há esposa, amante, prostituta, confidente, fã ou musa que invada o espaço da mãe, a onipresença da mãe.

Alguns trechos da canção “Guarda la luna” justificam o amor incondicional entre Guido e Mamma e respaldam esse ponto da análise. “Always remember my son... you will always be mine, yes, mine” (Sempre se lembre meu filho, você será sempre meu, sim meu). E também: “Do you think so many will love you as I do?” (Você pensa que alguém vai amar você como eu amo?). Por essas e outras que ressalto minha afirmação do início desse texto: Guido Contini busca muito mais o preenchimento que a morte de sua mãe lhe causou do que a ideia genial para rodar o próximo filme. Até porque um fator desencadeia o outro. O interessante é que Nine só existe porque a mãe não existe mais.

Mãe como Sophia. Sophia como Itália.

A metalinguagem de Nine é um de seus pontos altos. Cinema como homenagem ao próprio cinema. Mais do que um musical, Nine é uma declaração de amor ao que o cinema italiano tem de melhor. São inúmeras as referências, desde a fonte de La Dulce Vita na cena em que a musa, “fonte” de inspiração (reflitam), declara seu amor contido até o trecho dos garotos, amigos de Guido-criança, saindo dos bastidores para a principal cena do filme, como em Cinema Paradiso. E é nessa coleção de belíssimas imagens que Mamma deixa de ser mãe de Guido Contini e se projeta na imagem de Sophia Loren como mãe do cinema italiano, como ícone desse cinema tão peculiar. Ninguém melhor do que ela para interpretar essa personagem. Sua atuação brinda o filme como melhor musical de todos os tempos. Pelo menos para mim. É drama, é música, é romance, é comédia, é dança, é arte. É a mente vasculhando o próprio fluxo de consciência do artista. Um passeio que somente uma equipe como a de Rob Marshall consegue realizar. Em Nine tudo, eu disse tudo, se encaixa perfeitamente. Confesso que poderia ficar linhas e mais linhas aqui comprovando isso. Porém, prefiro deixar como brecha para o próximo texto.

E para você, uma última dica: Assista Nine com outros olhos e descubra um dos melhores filmes da sua vida.

* Renan Alves Melo é jornalista.

11 Comentários

Anônimo disse...

Excelente texto e análise.

Anônimo disse...

O filme é uma belíssima homenagem às grandes damas do cinema italiano. Eu gostei muito da atuação de Daniel Day Lewis, um grande ator.

Diogo Stival disse...

Caro Renan, compartilho da mesma ideia e análise. Parabéns pelo texto. Espero que seja o primeiro de muitos. Leva jeito.

Juarez Rodrigues disse...

É um filme muito bom, e a análise não deixa a desejar. Além do mais, a figura da mãe é uma perspectiva interessante de estudo desta obra. Parabéns!

Lisandro disse...

Renan escolheu um foco para avaliar "Nine". E foi bem simples nas palavras e sofisticado nas intenções.

Anônimo disse...

Um olhar apaixonado e apaixonante. Uma análise à luz de uma perspectiva simbólica deveras interessante e intrigante: por que não vi a mãe com esses olhos até agora?


Mariana Paiva

Luiz Henrique disse...

NINE é realmente fantástico! Uma belíssima canção das inquietações pelas buscas,resposstas e a inerete fuga.A maternindade, concordando com você, é um dos focos que merecem teu texto. Se dedicar a uma representatividade das mães em NINE é ser gentilmente receptivo ao diálogos, cenários, atores e roteiros.
Parabéns pelo ótimo texto e por sua dedicação ao filme!

Beto disse...

Seu ponto de vista é incrível. Compensa assistir o filme novamente (e várias vezes, como vc mesmo fez), tendo dessa vez, esse mesmo olhar!

Virginia disse...

Complexo de édipo, diria Freud.

Juliana Gomes disse...

ótima crítica renan .

Anônimo disse...

Apesar de esperar mais de NINE a análise me fez ter uma nova percepção do filme. Muito bom!

Marcella

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