terça-feira, 6 de julho de 2010

"Tudo pode dar certo", de Woody Allen (em cartaz)


A mulher, um gozo a mais

João Angelo Fantini*

É conhecido que o olhar do homem sobre a posições femininas, com alguma regularidade, se reduz, na sua pobreza, a três formas de apreender a mulher: como a (perversa) religiosa ; a (histérica) prostituta; a (psicótica) mulher casada. No primeiro caso, temos a bondade excessiva que se transforma em perversão, isto é, onde longe de aceitar o outro, faz desse objeto de suas próprias fantasias perversas; no segundo a mulher que coloca o homem no lugar do absoluto para depois destitui-lo, reafirmando eternamente sua insatisfação; no terceiro, a mulher que a despeito de quem seja o parceiro, casa com o casamento em sí.


O filme de Wood Allen (Whatever Works, 2009), neste sentido, reencena esta fantasia masculina sobre a mulher, incapaz de apreende-la para além da máscara (a mascarada lacaniana). Absolutamente misógino e cético, o personagem central – Boris (fazendo o “papel” de Allen) - está no lugar do morto-vivo, isto é, do ser que caminha para a morte, numa espécie de imortalidade, que Freud chamou de Pulsão de Morte: um estranho impulso que insiste, além da vida e da morte. Mais do que a história narrada em sí (suas tentativas hilárias de suicídio, sua absoluta descrença em qualquer forma de relação humana), há uma forma de enunciação no filme de desvela este lugar: Boris se dirige diretamente ao espectador, o que via de regra, quebra do “efeito de realidade” do cinema, isto é, revela o truque cinematográfico.

Então, por que neste caso isto não acontece? Simplesmente porque ele é o ÚNICO que fala a câmera, enquanto os outros personagens o tomam como maluco.

Desta jogada genial, mantem-se o lugar do espectador, que situa Boris em um lugar “a parte” no filme: meio personagem, meio narrador. Mais ainda, alguém que sabe um pouco sobre o futuro da história. Mas a pergunta é: quem poderia saber mais do futuro? Ora, somente alguém que já tivesse vivido..

Boris também pode ser visto como uma continuação de “A Última Noite de Boris Grushenko” (Love and Death, 1975), onde o personagem de mesmo nome (que finalmente se casa com a mulher que ama, para descobrir que ela está envolvida numa trama para assassinar Napoleão), diz que, “todos os homens vivem sob uma sentença de morte. Todos irão, cedo ou tarde. Mas eu sou diferente. Eu tenho que ir as 6hs de amanhã. Na verdade eu teria que ir as 5hs, mas eu tenho um bom advogado...”

É deste lugar de morto-vivo, enunciado no início do filme, “Hello, I Must Be Going” (tirada de Groucho Marx), onde o cinismo defende a angustia, que Boris conta suas histórias, isto é, a história de como sua vida circulou e circula em torno das figuras femininas, especialmente da sua absoluta sideração quando se trata de entender o universo feminino.

Neste sentido, Boris retoma as 3 fantasias masculinas sobre a mulher, especialmente na figura da jovem interiorana Melody que passa de garota bondosa a perversa (quando dizendo ajudar se instala como dona da casa - aluna atenta de sua mãe carola Marietta); como dona de casa (psicotica) que começa a viver um casamento nunca consentido por ele; e por fim na histérica, que destitui seu lugar de possuir o falo (inteligente, perspicaz) para trocá-lo por outro que o tem (na fantasia dela) o falo (jovem, bem integrado socialmente).

A mulher, para além da falação interminavel sobre ela, desvinculada da exclusividade do gozo fálico, desfruta, segundo Lacan, de um gozo a mais. Isto é, para além da sedutora figura mascarada que serve de tela para o olhar e as fantasias masturbatórias masculinas, encontra uma outra parte, que resiste ao mero papel feminino (da mulher “para casar”, esteio da dominação masculina) exigido no amor romântico, para incorporar o enigma (o véu que nunca cessa de ser retirado): um gozo de outra ordem, além do phallus, sobre o qual, também ela, nada sabe dizer...

No final, é preciso ser tolo para amar, mais que isso, diz Lacan, os não-tolos erram: é preciso ser tolo para amar uma mulher e não se sentir ameaçado em sua virilidade. No final do filme, tudo dá certo, não porque Boris está certo, mas porque decide, de fato, não entender mais nada.
Não sejam muito “espertos” homens!

* João Angelo Fantini foi assíduo frequentador do Cineclube Antonio das Mortes nos anos 80. Atualmente, professor na Faculdade de Psicologia da Federal de São Carlos.

15 Comentários

Elaine Camargo disse...

Vai ser machista lá na China, senhor Fantini. Aprenda um pouco sobre o mundo e da relação complexa entre homem e mulher. Me responda, Fantini, qual o gozo daquele neurótico se não é sempre subjulgar todo mundo, inclusive as mulheres. Me responda mais, por favor, Woody Allen sempre foi machista: ou não? Caetano Veloso, tão adorado nesse blog, já disse que Woody Allen é super machista. Me responda: qual filme de Woody Allen que não é misógio igual ao seu texto.?

Elaine Camargo, psicóloga.

Daniel Christino disse...

O texto não é machista. Na verdade, ele até rende certa homenagem à "complexidade" da alma feminina. Melhor não entender mesmo. Os homens se dão muito mal no jogo dos encantamentos (mulher-bruxa, faltou este arquétipo!), da sedução e da dissimulação. E sim! Há um princípio obscuro, ctônico, operando aí. Nem a própria mulher o sabe. João Fantini está certo, Woody Allen está certo: melhor não gastar energia tentando entender. Melhor se entregar!

Diogo C. Castro disse...

Professor Daniel, fui seu aluno na Alfa. Gosto de cinema. A Elaine é radical demais. O filme de Woody Allen apenas aponta o certo, isto é, devemos nos entregar as mulheres. Elas sabem o que fazer com a gente.

Diogo Castro - ex-aluno de Jornalismo Alfa.

Daniel Christino disse...

Que bom que você acompanha este Blog, Diogo. É sempre bom ver ex-alunos interessados em cinema. Vamos continuar conversando.

Alfredo Gomes disse...

Esses lacanianos, na verdade lacaios do sofrimento humano, usam essa psicanálise para profanar o ser humano em sua profundidade. Woody Allen nunca foi um cineasta confiável. Nem em Hollywoody ele foi aceito.

Vívian Rodrigues disse...

Estou do lado do Daniel. Não considero o texto machista, pelo contrário, ele eleva a feminilidade a um patamar no qual a única recomendação é: "Não sejam muito “espertos” homens!" Sou romântica ao extremo, acredito que nós mulheres temos uma percepção que vai além, e que os homens perdem muito do seu tempo tentando entender. O segredo, Boris encontrou no final, quando ele "decide, de fato, não entender mais nada."

Gostei muito do texto, sr. Fantini conseguiu organizar palavras para retratar o que senti em alguns momentos. E que talvez minha exatidão de (quase) engenheira ainda não me permitem.

Elaine Camargo disse...

Vivian Rodrigues, você é daquelas mulheres que gostam de se posicionar de forma submissa aos homens. Você é romântica e ainda elogia um texto machista e misógino. Sinceramente, é por isso que os homens continuam agindo como esse jogador, Bruno. São textos assim que incentivam um olhar preconceituoso contra a condição feminina.

Vivian Rodrigues, não te conheço mas acho que você poderia rever suas posições quanto a assimentria da relação homem-mulher no Brasil.

Elaine Camargo

Caroline Pires disse...

Oba!!!
Estava me roendo de vontade de outro post polêmico... Então... como eu adoro dar palpite, lá vai:

"Olho por olho e o mundo acabará cego".
(Mahatma Gandhi)
Bom, ao meu ver o mundo já está mal das vistas. Parece que em algum lugar bem próximo dos dias de hoje alguma coisa deixou de fazer sentido... se quebrou e se transformou. Vai ver que por isso ando tão interessada na pós-modernidade... se é que ela existe mesmo.

Mas voltando ao assunto..nos últimos meses estou vendo muito Woody Allen... seus filmes estão na minha agenda quase toda semana, e a única conclusão que tiro é que
ele consegue desvendar nossas neuroses mais doloridas, colocá-las na tela e nos fazer rir de nós mesmos.

Ele não se leva a sério, não quer que o público o leve a sério e nem que se leve a sério! Por isso seus filme são gostosos.

Woody Allen não tem nenhum problema "com as mulheres", ele entra em embate com a natureza humana, com nossa sociedade deturpada, com as escolhas que fazemos... e arrisco dizer... com as angústias do indivíduo pós-moderno...

Em seus filmes ele se esforça para nós deixar um pouco a distância... justamente para pensarmos nisso...se "entrassemos" no filme ele não seria comédia... seria drama!!!

Tem coisas que são simples... são por ser... uma casualidade e uma brincadeira... se formos levar para o "olho por olho"... mais miopes ficaremos!

Tava com saudades do blog...

Vívian Rodrigues disse...

Elaine Camargo,

"...um texto machista e misógino. São textos assim que incentivam um olhar preconceituoso contra a condição feminina"

Sinceramente, o texto me mostra ser o oposto do que você descreve. Não percebo o tom machista e preconceituoso que você observa, digo: no texto e no filme... não na realidade.

Rodrigo Cássio disse...

Não vi nada de machismo nesse texto! Ao contrário: Fantini até fala da pobreza do olhar masculino! Há um tom cético, no final, muito interessante, pois combina com o espírito do Woody Allen.

Sobre homens e mulheres: não há amor sem entrega, sem alguma forma de submissão. No plano afetivo, isso deve ser objeto de um acordo, de uma cumplicidade respeitosa. A intimidade de um casal, quando bem vivida, é um dos poucos refúgios da nossa sociedade esmagadora. O feminismo que não entende isso é papo furado.

Abraços desde Belo Horizonte.

Elaine Camargo disse...

Vivian, Rodrigo e Caroline, infelizmente voces nào entenderam o que eu disse. O texto é muito machista. O que é o machismo? É a misóginia explicita. O texto coloca categorias, classifica e levanta grandes preconceitos.

O Woody Allen é sim machista. Lembrem dos filmes Crimes e Pecados, Macht Point, Poderosa Afrodite, Zelig, Melinda e Melinda. Eu poderia citar mais filmes dele. O que vocês nào querem entender é a adulacao do texto ao machismo do cineasta. Vejo também um pouco de menosprezo no texto. A citacao final diz tudo. Leiam, por favor, a citacao final e me respondam sobre o preconceito. O que é isso, gente. As mulheres precisam se valorizar nào avalizando a guerra que Woody Allen promove, em seus filmes, entre homens e mulheres.

Pedro e Patricia disse...

Pessoal,

João Fantini pisou no tomate. Fala coisas sérias mas faltou dizer que a mulher tem uma história de sofrimento dentro do cristianismo. Patricia, minha namorada, não gostou nem do filme e nem do texto. Eu também não gostei do texto. O filme é razoável. ps- "Ligão", liga para mim. Chega o mês de julho e você some.

Leonardo Priori disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João Angelo Fantini disse...

Escrevo para agradecer os comentários, inclusive os contrários.
A lógica da sexuação no entender da psicanalise lacaniana é um tanto complexa mesmo, e está longe das discussões de generos, mas fundada na lição freudiana sobre ativo/passivo e não sobre homem/mulher/homossexuais/etc; daí o fato desta discussão (quando pensada em termos positivos) sempre acabar em tragédia/comédia, como Allen consegue captar, acredito.
Agradeço ao Lisandro a postagem e convido para a leitura do meu blog onde retomo esta e outras questões especialmente a partir do cinema.
abraço a todos e até uma próxima!
fantini

http://joaoangelofantiniclinicadacultura.blogspot.com/

Lisandro disse...

João Fantini fez um texto atilado e correto. Ele vai além da falsa questão "machismo/feminismo". O prof. Fantini sempre escreve e participa do blog com pertinência. Meus agradecimentos e volte sempre. O blog dele tb. pode ser acessado: joãoangelofantiniclinicadacultura.blogspot.com

Lisandro Nogueira

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