quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Chico Buarque - entrevista repleta de sabedoria, alegria e lembranças.

CHICO BUARQUE PARA TODOS


Augusto Massi


 


Nesta entrevista, realizada em duas etapas, na casa do compositor, no Rio, ele fala sobre sua formação literária, sobre suas ligações com a música e sobre sua família. Filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, autor do clássico "Raízes do Brasil", Chico comenta a relação com o pai e revela a existência de um irmão alemão, por ele desconhecido. Dizendo-se um "homem cordial" (conceito cunhado por seu pai), Chico também fala sobre seus amigos, seus parceiros e, apesar da timidez, não evitou temas delicados, como vícios e manias. Quase um cinquentão, Chico comemora 30 anos de carreira em plena forma e diz que hoje se sente mais leve do que na época das cobranças políticas.

Folha - Começando por sua formação literária: o que você leu quando jovem? Que autores foram decisivos? Você lê bem em outras línguas?

Chico Buarque - Eu leio bem francês, italiano e espanhol. Quando criança, falava italiano e inglês porque morei em Roma durante dois anos e estudava em escola americana. Com 10 anos de idade eu falava italiano e inglês correntemente. Eu tenho até hoje uma carta em que uma professora americana, ao despedir-se de mim, disse que um dia ainda leria um romance "written by Francisco Buarque de Hollanda". Depois parei e esqueci ambos. O italiano eu retomei quando fui morar novamente na Itália, em 1969. Mais tarde quis retomar o inglês e fui tomar umas aulas. Foi engraçado, minha professora disse que eu tinha uma boa pronúncia, mas que o meu vocabulário era muito infantil...
Na tradução do "Estorvo" para o inglês eu fiquei em Londres uns dez dias, diariamente, com meu tradutor. Consegui entender o suficiente para detectar o que não estava correto - mas não conseguia apontar soluções.
A partir dos meus 15, 16, 17 anos, na minha adolescência, eu comecei a ler muito. E comecei a ler muito em francês - que ainda hoje eu escrevo melhor do que falo. Era influência da biblioteca do meu pai. O que ele mais tinha era literatura em língua francesa. E ler foi uma maneira que encontrei de me aproximar dele.

Folha - Você poderia explicar melhor essa relação?

Chico Buarque - A minha tentativa de aproximação com meu pai foi através da literatura. Ele vivia fechado na biblioteca, e eu, que tinha medo de penetrar naquele território, começei a ler algumas coisas. Ele me indicava desde clássicos, como Flaubert, até Céline, Camus e Sartre. Li, ainda em francês, Kafka, Dostoiévski, Tolstói e uma boa dose de literatura russa. Mais prosa do que poesia: meu conhecimento de francês sempre foi suficiente para prosa e insuficiente para poesia. Eu me lembro de, lá pelos 18 anos, ir para a Faculdade de Arquitetura com esses livros em francês, o que era uma atitude um pouquinho esnobe. Talvez para me valorizar dentro de casa ou talvez para agradar meu pai.

Folha - Quando a gente começa a ler sempre surge aquele primeiro livro capaz de transcender o próprio mundo da literatura, aquele autor que sozinho passa a constituir um universo, que nós dá um susto e muda a nossa vida. Diante de que autor você sentiu a vontade de escrever?

Chico Buarque - Como eu dizia, eu tinha amigos com quem falava e discutia literatura em francês. Era uma atitude um pouco exibicionista, até que um colega me deu uma debochada: "Mas você só vem com esses livros para cá, por que não lê literatura brasileira?" Eu respondi: "Você tem razão". E comecei a ler o que não havia lido até então, de Mário de Andrade, Oswald de Andrade até Guimarães Rosa, por quem me apaixonei. Guimarães Rosa talvez seja esse marco para mim. Foi uma descoberta. Durante um bom tempo, queria escrever à la Guimarães Rosa. Participei de diversos concursos de contos naquela época, textos cheios de neologismos.

Folha - Você começou pelo "Grande Sertão: Veredas"?

Chico Buarque - Comecei com "Sagarana", "Corpo de Baile" e cheguei até o "Grande Sertão".

Folha - E na área de poesia, você chegou a conhecer o Manuel Bandeira?

Chico Buarque - Conheci Bandeira, Drummond, e conheço João Cabral. Bandeira eu conheci desde pequeno, porque ele era muito amigo de meu pai e padrinho de meu irmão mais velho, Alvaro Augusto. Tem até um daqueles poemas...

Folha - Do "Mafuá do Malungo"...

Chico Buarque - É, tem um para o meu irmão Alvaro Augusto. Já mais velho, quando fui morar no Rio de Janeiro, mas garoto ainda, fomos visitá-lo. Fui com o Tom e o Vinícius. Foi um encontro interessante. Ele tocou um pouco de piano e começou a contar umas histórias do meu pai. "Ah! o Sérgio"... e no meio de algumas lembranças ele mencionou "aquele filho alemão". Eu perguntei: "Que filho?" Eu não sabia que meu pai tinha tido um filho na Alemanha. O Vinícius me perguntou: "Você não sabia?" Eu disse: "Não". Era um pouco segredo lá em casa. Meu pai tinha tido um filho alemão antes de casar. Eu fiquei muito chocado e quando pude ir a São Paulo perguntei ao meu pai sobre isso. No começo ele não quis falar, mas depois abriu o jogo.

Folha - E você chegou a conhecer esse irmão?

Chico Buarque - Não. Eu até tinha vontade. Numa entrevista antiga, que meu pai deu para o Jorge Andrade, na revista "Realidade", ele falava uma coisa engraçada. Ele dizia que tinha a pele muito branca e quando viajava perguntavam se ele era filho de alemão. Ao que ele respondia: "Não, sou pai de alemão." Meu pai viveu na Alemanha no começo dos anos 30, morou dois anos e veio embora. Tinha uma namorada que ficou grávida. Eu não sei bem a história desse namoro. Mas ele chegou aqui e, passado um tempo, casou-se com a minha mãe. Eu só sei que mais tarde, durante a Guerra, a mãe desse menino mandou uma carta a meu pai pedindo para ele enviar documentos provando que não tinha sangue judeu. Minha mãe, que sempre se ocupava das coisas práticas, foi quem descolou os papéis provando que meus avós e bisavós não tinham sangue judeu. Os papéis foram entregues ao Consulado Alemão aqui no Brasil. Foi a última notícia que se teve dela e do filho. Volta e meia eu e meus irmãos tentamos descobrir o paradeiro desse irmão, que hoje teria uns 60 e poucos anos. Há algum tempo surgiu uma pista interessante. Um senhor, afinador de piano, disse que conheceu um Buarque de Hollanda.

Folha - Ele foi registrado como Buarque de Hollanda?

Chico Buarque - Não, foi registrado com o nome da mãe, que é um sobrenome comum, Ernest. Mas o primeiro nome dele é Sérgio, um nome que não existe na Alemanha. Ele é Sérgio Ernest. Eu já fui à Alemanha e já procurei na lista: Ernest é que nem Oliveira. Havia alguns com a inicial "S". Eu ficava especulando se poderia ser um deles. Pensava em telefonar, mas achava bobagem. O que ia dizer? "Oi, sou seu irmão." Ou: "Você é meu irmão?" Sabemos que ele ficou em Berlim, mas se no Leste ou Oeste, se morreu na Guerra, se a mãe contou ou não contou, isso não se sabe. Então, aparece um afinador de piano dizendo que conheceu um colega da fábrica de pianos com sobrenome Buarque de Hollanda. Achamos que de repente o cara, sabendo o nome do meu pai, poderia ter recuperado o sobrenome. É uma história um pouco inverossímil. Mas, enfim, o cara poderia ter assumido o nome paterno e ter tentado entrar em contato com o pai. Mas, um Buarque de Hollanda, afinador de piano na Alemanha era muito inverossímel. Finalmente descobriu-se que ele existia mesmo, mas não era o meu irmão. Não conferia com a idade. Era filho de um outro Buarque de Hollanda que andou por lá.

Folha - É muita coincidência, ainda por cima na área da música! Não era carregador de piano, não?

Chico Buarque - Pois é, não era... Bom, eu estava no Manuel Bandeira.

Folha - Foi o Manuel Bandeira que entregou...

Chico Buarque - Foi ele que entregou. Era compadre do meu pai, assim como o Vinícius, que conheci também desde pequeno. Na verdade esses amigos de meu pai da área literária estavam um pouco distantes quando eu fui morar no Rio de Janeiro. Naquele tempo ia-se pouco a São Paulo. Não é uma coisa como hoje, que você vai e volta. E quando foi morar em São Paulo meu pai se distanciou um pouco do meio literário. Ficou mais ligado à história, ao mundo acadêmico.

Folha - Você chegou a conhecer o Oswald de Andrade?

Chico Buarque - Não lembro de ter conhecido, mas meu pai também não tinha uma relação muito próxima com o Oswald, ele era mais próximo do Mário.


Folha - O Drummond comentou numa entrevista, em tom de crítica, que você ligou uma vez à noite, já meio tarde, para dizer que tinha uma pessoa da Nicarágua querendo conhecê-lo. Houve isso?

Chico Buarque - Era o embaixador da Nicarágua no Brasil. Não me lembro o nome dele agora, mas você sabe que na Nicarágua todo mundo é poeta. Ele era fissurado pelo Drummond, que tinha escrito uma crônica anti-sandinista e ele queria explicar essas coisas. Fomos à casa do Drummond, já meio tarde. Mas ele foi muito simpático.

Folha - Você teve outros contatos com o Drummond? Em pelo menos duas músicas você faz referência explícita à poesia dele - "Flor da Idade" (75) e "Até o Fim" (78). A leitura de poesia brasileira é uma coisa presente para você?

Chico Buarque - Claro. Li tudo de Bandeira, Drummond e João Cabral. Com Drummond eu tinha contato. Não posso nem dizer que era uma amizade. Eu o visitava esporadicamente, mas ele sempre foi muito carinhoso, me mandava livros com dedicatórias, bilhetes, enfim, a gente se comunicava. Ele era muito fechado, muito tímido, eu também já não sou muito... E acho que havia um problema: uma vez ele brigou com meu pai...

Folha - É?

Chico Buarque - É, por causa de mulher.

Folha - E quem era?

Chico Buarque - Quem era o pivô eu não sei. Ambos eram solteiros na época.

Folha - Como é o seu contato com o Rubem Fonseca?

Chico Buarque - Sou amigo do Zé Rubem, gosto muito dele. Ele sempre me dizia que eu era um escritor. Ele tem um pouco isso de incentivar novos autores, de dar força. Ele leu o primeiro capítulo de "Estorvo", que foi traduzido para o inglês, porque o Luis Schwarcz (editor) estava trabalhando a possibilidade de vender o livro para o exterior. Esta primeira tradução, acompanhada do original em português, foi enviada ao Zé Rubem, que conhece muito bem o inglês, para ver se estava boa. O Zé Rubem, que já vinha me atiçando para escrever um livro, teve uma conversa comigo. Fez algumas observações muito interessantes. Quando o livro ficou pronto, entreguei a ele e ao Luis. O Zé Rubem veio aqui em casa cheio de anotações e até sugestões de mudanças.

Folha - Você foi receptivo?

Chico Buarque - Sim, sim. Já na primeira leitura ele observou que havia duas ou três construções que ele considerava inadequadas. Tinha uma palavra em inglês - e ele falou: "Isso é um horror". Era "flash". "Tira esse flash", ele disse. Eu não sei nem se deveria falar sobre isso, porque o Zé Rubem não gosta de dar entrevista e eu não posso dar entrevista por ele. Mas, enfim, eu tenho que dar esse crédito a ele, que foi a primeira pessoa, junto com o Luis Schwarcz, a me instigar a escrever o livro, dizendo, "você é escritor, você é escritor". Outra observação curiosa é que em certa passagem de "Estorvo" o personagem está numa festa e de repente uma moça, na frente dele, baixa o vestido e os seios ficam prá fora. O Zé Rubem me perguntou se havia baixado uma Dercy Gonçalves. Eu não concordei muito, achava justamente interessante, aquele absurdo, assim meio nonsense. Para contentar o Zé Rubem, deixei mais suave, só um seio de fora.

 
Folha - E como foi a recepção crítica no exterior?

Chico Buarque - Foi muito diferente em países onde me conheciam e em outros onde eu era absolutamente inédito. Na França eles souberam respeitar minha opção literária. Mas isso depende também de como é conduzido o lançamento, do nível dos jornalistas que destacam para a entrevista etc. Na Espanha, por exemplo, de vez em quando eu me via falando com rádios para as quais o foco era o compositor. As perguntas que faziam eram ao autor de músicas. Já na Noruega não tinham a mínima idéia, assim como na Holanda, onde ninguém me conhece como músico. A dificuldade nos países onde a música era mais conhecida é exatamente o fato de que eles recusam um pouco a possibilidade de um escritor brasileiro ser, de certa forma, inovador - ao contrário do que acontece com a música. Eles aceitam a originalidade da música popular brasileira tranqüilamente, mas a literatura eles vêem com mais surpresa. Imaginam o Brasil como um país ainda em grau de civilização inferior ao deles, o que favorece a criação musical. Era difícil explicar por que é que eu estava largando um ofício, que para eles era tão mais viável, tão mais apropriado, por um outro que os europeus dão banho nos brasileiros. Mas o livro foi muito bem aceito de uma forma geral. Houve críticas muito boas.

Folha - Você acha que em relação ao Brasil esse problema poderia ser colocado de que forma? Você acha que foi diferente?

Chico Buarque - Na verdade eu estava fora, não quis nem estar aqui na época do lançamento. Eu sentia que havia uma desconfiança brutal, mas brutal, antes de o livro sair. O livro estava pronto para ser muito mal recebido. Isso eu tenho certeza. As pequenas notinhas, as ironias que me chegavam...

Folha - Mas, você ficou de modo geral satisfeito?

Chico Buarque - Fiquei. De modo geral o livro foi muito bem recebido. Houve críticas negativas, mas houve um respeito por essa minha opção. Afinal - não posso ser modesto - foi uma opção corajosa. Não é muito fácil você abandonar o que sabe fazer durante tanto tempo por uma aventura.

Folha - Algumas coisas que você não estava conseguindo dizer através da música foram transmitidas através do livro. Houve essa questão? Ainda que intuitivamente você se voltou para a literatura?

Chico Buarque - Não, isso não é intuitivo. Eu tenho bastante claro que a música me conduz para algumas coisas e me limita. Eu sempre disse que conhecia os meus limites literários diante da música. Eu sabia que para mim era insuficiente aquilo como literatura. As coisas que eu digo no livro, não tenho música para dizer. Eu também não estabeleço terrenos hierarquicamente superiores. Através da música digo coisas que eu não conseguiria dizer sem ela. Em relação à música eu sou um autor muito mais passivo do que na literatura. É evidente que eu sou um músico intuitivo e não sou um escritor intuitivo. Eu tenho noção perfeita do que estou escrevendo.

Folha - A grande imprensa fez uma leitura genérica do livro. Certos detalhes passaram despercebidos, como o núcleo da amizade, como a questão da figura do delegado, da relação familiar, com o pai sempre ausente...

Chico Buarque - Só que a história para mim não tem muita importância. A história do amigo ser homossexual não é clara porque eu não quero que seja, porque não é importante que seja. Mas uma crítica que se publica num jornal qualquer precisa de gancho e os ganchos são os mais pobres possíveis. Eu reconheço que é muito difícil fazer uma resenha desse livro. Onde é que está? Por onde vai pegar? Esses problemas eu enfrentei muito nas traduções. O tradutor não percebia exatamente o que era e achava que estava mal contado ou que ele não havia entendido direito por problemas de compreensão do português.

Folha - Como você chegou ao título "Estorvo"?

Chico Buarque - O título surgiu já com o livro quase pronto. Ele surgiu no texto. Não tinha título. Tirei de um trecho, em que o sujeito caminhava pela multidão, que era um estorvo. Troquei a palavra no texto por obstáculo ou empecilho e fiz o título. Houve até uma certa resistência no começo, pelo título ser estranho, um pouco repulsivo.

Folha - Como compositor, você parece ocupar lugares e ângulos diferentes. Por exemplo, em Samba de Orly (70), dá uma visão de quem está fora do país e já em "Meu Caro Amigo" (1976) dá uma visão de quem está de dentro. O mesmo ocorre com "Pivete" (78), retrato do próprio, e em "O Meu Guri" (81), sob o ponto de vista da mãe. Usando uma metáfora musical, sua música sempre tem lado um e lado dois. A visão de Chico como artista político reduz bastante a apreensão destas outras facetas. Ou seja, o fato de você dar voz a outros personagens, paradoxalmente, acabou restringindo a sua individualização artística.

Chico Buarque - Essa tendência de enxergar sempre através do político de certa forma cristalizou uma idéia que não me satisfaz, absolutamente. Muitas vezes isso aconteceu por que eu queria. Mas eu canto uma música no show que fala disso e que agora não tem mais nada a ver com o momento em que ela foi composta. Me perguntaram por que essa música política no meio do show. Mas ela é na verdade um pouco a negação disso tudo. A música se chama "Pelas Tabelas". É um sujeito procurando uma mulher, apaixonado, no meio da manifestação pelas diretas. É essa confusão do individual com o coletivo e apontando muito para o individual naquele momento coletivo. Mas a leitura predominante é a política, que é uma leitura viciada. "Pelas Tabelas" é um samba que eu gosto de cantar e que estou cantando nesse show, porque ele também tem um pouco essa confusão do "Estorvo", essa barafunda mental.

Folha - Você está mais em paz com isso hoje?

Chico Buarque - Estou mais em paz com isso. A partir do momento que eu escrevi o livro acho que já estava assumindo uma opção atrevida. O fato de escrever o livro já era uma recusa em atender a expectativas.

Folha - A sensação que eu tenho é que você está mais leve.

Chico Buarque - Parcialmente, porque a cobrança ainda existe. O artista está sempre devendo alguma coisa, algum tipo de explicação. A gente tem que encontrar a sabedoria de ficar com várias dívidas e não pagar o que é cobrado. Eu me sinto muito mais livre em relação a isso, e não é de hoje, é dos anos 80 para cá.

Folha - Eu queria que você pontuasse alguns momentos de virada de sua obra.

Chico Buarque - Eu considero "Tem Mais Samba" (64) como minha primeira música, o marco zero da minha obra. Meu disco "Construção" (71) também é um momento importante. O disco anterior ao "Construção" é muito confuso. Há atenuantes para isso: eu gravei a voz na Itália, os arranjos foram feitos aqui, mas a própria criação das músicas é confusa, você percebe que eu estava um pouco perdido. Já não queria fazer o que estava fazendo e estava sem encontrar uma linguagem. "Construção" foi um disco de chegada ao Brasil e de reencontro com uma linguagem de renovação. Eu não sei te fazer essa cronologia, datar exatamente, através das músicas, uma evolução clara. Mas entre a primeira música e "Construção" houve todo um momento de reaprendizagem, que foram os anos de 67 e 68, quando eu tomei contato com Tom Jobim, contato real com a música, que para mim era muito de ouvido. Eu comecei a fazer música por causa da bossa-nova, uma coisa muito à distância, eu morava em São Paulo, não sabia nada de música, era absolutamente intuitivo. As minhas primeiras parcerias com o Tom e o meu contato com ele me levaram para esse caminho da música mais consciente, menos primitiva. Hoje eu sou um músico mais preparado evidentemente do que há 30 anos, quando escrevi "Tem Mais Samba", e isso eu tenho a impressão que se pode perceber.

Folha - Trabalhar sob pressão pode ser produtivo?

Chico Buarque - Trabalho mais por necessidade do que por desejo. Eu não faço um disco quando quero, faço quando preciso e não sei exatamente o que é que dita essa necessidade. Com certeza não é uma pressão estranha, de fora, é uma pressão que eu mesmo me coloco e não sei qual é a natureza dela. Mas a verdade é que isso vale para todos os meus discos. Vale para tudo, porque na realidade você nunca acha que está pronto. Tem uma hora que você coloca um ponto final para não ficar maluco. Mas quando passa um certo tempo você olha para trás e pergunta: "Por que eu não fiz isso? Por que não fiz aquilo?" Sempre dá um certo arrependimento. Outro dia eu li que o pintor Pierre Bonnard ia com seus pincéis escondidos para o museu onde estavam as obras dele expostas. Quando o vigia não estava olhando ele dava uma pincelada e corrigia um trabalho de dez anos atrás. Eu me identifico perfeitamente com isso.

Folha - Bom, eu queria que você comentasse "Piano na Mangueira", que está em "Paratodos", e falasse de sua parceria com Tom Jobim. Penso que "Eu te Amo" e "Anos Dourados" são verdadeiras obras-primas da canção popular brasileira e um casamento perfeito entre letra e música. Você não acha que falta uma crítica mais atenta, capaz de ressaltar a importância destas músicas?

Chico Buarque - O que eu digo, já disse e repito é que há muito pouca crítica de música. Há muita crítica de letra. É muito difícil alguém que compreenda a parte musical mesmo. Então é dificil encontrar quem saiba escrever sobre Tom Jobim. Nem compensa, é claro. Você não vai publicar uma partitura num jornal, publica uma letra, porque qualquer um pode julgar aquilo. Para mim isso é frustrante, porque eu vejo a letra tão dependente da música e tão entranhada na melodia, meu trabalho é todo esse de fazer a coisa ser uma coisa só, que, geralmente, a letra estampada em jornal me choca um pouco. É quase uma estampa obscena. Mas voltando ao Tom, ele é o meu maestro soberano. Na verdade, foi meu primeiro parceiro. Eu tinha feito uma música com o Toquinho, no comecinho de 65. Eu nem sabia fazer letra, entendeu? Eu demorei um pouquinho, fui aprendendo a fazer. Foi o Vinícius que me aproximou mais do Tom, que deu uma força para essa parceria. Era difícil fazer letra para o Tom. Ele já era meu mestre. E é um excelente letrista. Geralmente, quando ele me mostra uma música, eu digo: "Faz você, faz você." Mas, às vezes, ele me convoca mesmo. Foi o caso desse "Piano na Mangueira".

Folha - "Paratodos" tem uma marca que é a "volta ao samba", a volta à estrada da música, que vai sendo reforçada numa sequência de canções: "Paratodos", "Choro Bandido", "Tempo do Artista" e o "De volta ao samba", que completa a idéia.

Chico Buarque - É. A quarta foi para esgotar mesmo o assunto, até correndo o risco de ser redundante. Ela entrou no finzinho, no último fim de semana de gravação. É engraçado, eu já tinha material suficiente para um disco, 11 faixas já era bom, mas aí eu falei: tem mais uma, segura que eu tenho um samba novo, um samba que vai completar uma idéia que para mim é importante.

Folha - O disco tem uma cara, inicialmente, mais densa, que aponta para um sentido "sério". Mas a partir de De volta ao samba, entra em outro registro, há mudanças de tom, há brincadeira e humor, como em "Biscate", por exemplo.

Chico Buarque - "Biscate" é uma brincadeira com as palavras, é uma brincadeira com a harmonia. A harmonia do "Biscate" é inusitada, está quebrada. Aliás, eu acho que o próprio "Paratodos" tem uma certa leveza. Tem alguma coisa de épico, mas é uma música leve. Mas o humor está mesmo presente. A própria "Foto da Capa" tem humor.

Folha - Pensando na figura feminina, o que você acha que mudou desde o primeiro Chico para cá? Você é uma pessoa apaixonada?

Chico Buarque - Eu sou uma pessoa muito afetiva, uma pessoa que age por afeto. Eu sou o homem cordial. Eu sou um homem que age por impulso. Esse meu lado afetivo está talvez na música, que sofre esses arroubos afetivos. Eu faço uma distinção bastante clara: na literatura sou um cidadão sem afetos. O fato de estar solitário escrevendo um livro que vai ser apresentado em público e que vai ser lido individualmente, isso me despe um pouco desse sujeito atirado e algo ingênuo. Já a música me emociona, eu fico em lágrimas. Eu sou um bobo como músico. Mas tenho o outro lado, racional e muito crítico, muito seco, que é um lado que quase não cabe na música, que precisa de outro veículo.

Folha - Tem alguma coisa que você acha que não fez, uma canção, algum sonho?

Chico Buarque - O que eu gostaria realmente e que eu me sinto incapaz é na hora de cantar, o artista em cena, no palco. Me sinto preso, me sinto exposto, não me sinto livre para ousar. Quando eu vejo um show do Caetano, dessas cantoras todas, do Gil, o prazer deles de estar no palco! O que também me atraiu na bossa-nova foi a estética da timidez. Estar com o violão e mostrar aquela sua música - você é um compositor que canta. Se não fosse isso eu não teria virado cantor. Eu pude me apresentar no palco porque havia uma permissão e até um estilo, numa época, para esse tipo de artista, o compositor que canta com o seu violão, protegido. O movimento tropicalista quebrou isso e me deixou um pouco atordoado. Enquanto artista eu já era insuficiente para a performance intimista. Naquele momento era quase inaceitável. Eu tenho quase um pudor de estar ali cantando.

Folha - Além de jogar futebol (atualmente Chico joga três vezes por semana e é bom jogador), o que você mais gosta de fazer fora da música?

Chico Buarque - Tenho muita vontade de reler. Tem um livro que volta e meia eu leio sem compromisso, porque é um diário lindíssimo, do Ernest Junger. Agora estou lendo "A Caixa Preta", do Amos Oz. O último livro brasileiro que eu li é um livro escrito em portunhol, chama-se "Mar Paraguaio".

Folha - Qual seria seu cineasta predileto?

Chico Buarque - Fellini e Buñuel. Mas eu me sinto muito mais em casa com Bunuel, não é um juízo de valor, é uma questão de afinidade.

Folha - E qual a cantora que você tem mais afinidade?

Chico Buarque - Eu acho que a Gal, a Bethânia, a Nara. Eu sempre gostei mais da minha música cantada por outras pessoas. Não vou fazer aqui uma distinção entre elas, que eu não sou louco - até porque elas são muito diferentes. Acho que eu sei que música Gal cantaria melhor, que música seria mais adequada para Bethânia e Nara, que não está mais aí.

Folha - Existia o mito de que você bebia muito. Você diminuiu?

Chico Buarque - Não era mito não, eu bebia muito. Bebia todo dia e bebia coisas fortes. E fui parando, comecei a enjoar, não é nenhum mérito meu não, acho que meu organismo é que foi pedindo água. Então hoje eu só tomo vinho, cerveja, e nem todo dia.

Folha - Droga você nunca experimentou?

Chico Buarque - Já experimentei drogas também, experimentei e gostei. Mas parei com as drogas ilegais. Cocaína, nunca mais. Na verdade as drogas nunca foram um problema sério para mim, mas poderiam vir a ser, porque eu tenho uma certa propensão ao vício. Sou uma pessoa que cria hábitos, se eu fosse supersticioso seria impossível de tratar, tenho facilidade para criar manias e luto contra isso. A única droga que realmente me afeta hoje é o cigarro, sou um fumante compulsivo, então procuro me disciplinar. Isso poderia ter acontecido em relação ao álcool, ter virado um alcóolatra e talvez tenha chegado perto. Consegui, por algum motivo que não é tanto disciplina, poder beber socialmente, de vez em quando. Mas ainda assim, se eu entro numa temporada de shows, tenho que tomar vinho.

Folha - Você dança?

Chico Buarque - Não, sou meio desajeitado, sou desengonçado. Quando eu danço as pessoas acham graça...

Folha - E das manias do cotidiano?

Chico Buarque - Gosto de andar. Eu sou um andarilho, ando, ando e penso melhor andando. Daria uma entrevista mais brilhante se tivesse um outro andarilho ao meu lado com gravador.

Folha - A gente pode tentar da próxima vez.
Folha de São Paulo - 09/01/94

3 Comentários

Polly disse...

Que bom ler essa entrevista!!

Beijo
Polly

Anônimo disse...

ecah...

Ivan Dutra disse...

Ótimo ler esta entrevista!
Me senti até mais próximo de Chico.
Obrigado!

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