sábado, 2 de abril de 2011

Direitos do consumidor: pais devolvem filho a mais...



 Bruna Surfistinha, mercadoria devolvida
João Angelo Fantini*
 
Pais curitibanos que pagaram por inseminação artificial encomendaram dois filhos, mas foram surpreendidos com a chegada de três crianças. Fizeram valer seus direitos de consumidor e não tiveram dúvidas: deixaram uma das crianças na maternidade.

Não, não é primeiro de abril. Este fato, acontecido em janeiro, chega agora à mídia e é um exemplo de como os filhos são, cada vez mais, tratados como investimento, enquanto o mundo do trabalho torna-se lugar de afeto. 

Empresas convocam seus funcionários para viver sua vida em função do trabalho (traga sua família para festas de final de ano, comemore seu aniversário entre seus colegas de trabalho, etc.); ao mesmo tempo, quando um filho não se sai bem em inglês ou em matemática, a cobrança é feita em termos trabalhistas: “Ei, garoto! Este é o resultado do que investi em você? É assim que você devolve os 32 mil e seiscentos reais que paguei para você este ano?”. Por que então o espanto quando filhos matam os pais para "adiantar" o recebimento da herança?

Não, o mundo não está ficando louco. As pessoas respondem, como sempre fizeram, transformando as demandas sociais em sintomas. Como outros objetos de consumo, nos tornamos objetos de troca.

“Um país se faz com homens e livros ” (ideias), como disse Lobato, ou com carros e celulares? Se você tem dúvida do que vai acontecer, não precisa esperar mais. Veja os resultados nas ruas e nas universidades: aumento dos congestionamentos e universidades públicas que não conseguem preencher suas vagas, pois os candidatos não conseguem a pontuação mínima para tal (algumas universidades como USP, Unicamp e outras Federais ainda fazem, neste momento, sua sexta - sim, sexta - chamada para preenchimento de vagas (veja em http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2011/03/universidades-publicas-de-sp-ainda-nao-preencheram-vagas-do-vestibular.html).

As crianças não são idiotas, como Freud nos alertou cem anos atrás. Elas aprendem com exemplos. Assim, aprendem com seus pais que sem carro e celular não são nada, isto é, não podem sustentar um mínimo de acesso ao social.

A votação da lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, vulgo LDB, que organiza o futuro das crianças, e, porque não, do país, tem menos espaço nas TVs do que o futebol ou o BBB.

No mais, para desopilar o fígado, não entendi Contardo Calligaris ter gostado do filme Bruna Surfistinha (gostou do quê?). Pareceu-me um conto de fadas para prostitutas e adeptos, inconsistente como a vida romanceada de qualquer neurótico que esconde suas dores. Salvo a interpretação de Deborah Secco (especialmente a expressão facial), que representa bem o drama da maioria dessas mulheres: não sabem para que aquela movimentação toda serve, então, preferem receber em cash.

Sem moralismos quanto a isso, mas prostituição resulta, com frequência, em devastação psíquica, muitas vezes para profissionais e clientes. Raquel Pacheco, a Bruna do filme, parece, também, ter sido uma triste espécie de mercadoria devolvida.

Continuamos fazendo piadas com coisas sérias e levando a sério o que é diversão, achando que o Brasil está se tornando "rico". Rico de quê?

Lembro Stallone, o filósofo: “Vai faltar macaco no mercado” (veja em http://veja.abril.com.br/blog/vida-em-rede/twitter/%E2%80%98cala-boca-sylvester-stallone%E2%80%99-221-000-mencoes-no-twitter/).

Lembro também Glauber Rocha: "No Brasil, Alziro Zarur é mais importante que Lênin". (Quem são? Vá ao Google).

Desculpem o mau humor.
Agora, como Glauber, eu vou calar a boca.



* João Angelo Fantini é professor na UFSCar.Ex-professor na UFG e autor de "Imagens do pai no cinema".

10 Comentários

Rodrigo Cássio disse...

Muito bom texto, Fantini.

Lembrou-me do comentário de uma aluna do Lisandro na Mostra Godard, essa semana, sobre o filme Viver a Vida. Por que a Nana morre no final? Ela tornou-se mercadoria. Descartável como são as mercadorias.

Abraço

Elaine Camargo disse...

Esse texto é muito bom. Tudo virando mercadoria. É o fim.

Ivan Bueno disse...

É, esse mundo do aquecimento global é um mundo "fresco", fútil, superficial. A importância das coisas está em sentido inverso em muitos casos. Vai-se "surfando" nesta onda superficial, quando filhos viram "bens de consumo" que podem ser devolvidos. Absurdo! Simplesmente absurdo! Bela reflexão, belo desabafo, belo alerta.

Ivan Bueno
blog: Empirismo Vernacular
www.eng-ivanbueno.blogspot.com

Marília Fleury disse...

Sim, sim, sim. Certíssimo, claro, preciso, oportuníssimo.

Tyago de Paula Ferreira disse...

Ótima publicação. Agora pela manhã recebi uma carga de boas publicações... Essa é uma delas!

Keila disse...

Realmente, ótima publicação.

Infelizmente, respirar é bem caro! Cada passo nesse mundo tem um preço, literalmente!

Pura mercadoria! É o fim. Dá até medo do "amor" desses pais.

Hoje realmente os "valores" são "outros".

Como diz um grande amigo: O Único caminho é a espiritualização.

Thiago Pena disse...

Cultuamos o errado, o bizarro, o trágico e o deturpado. Inversão de valores é aqui mesmo no Brasil. Depois de Maria BBB e Bruna Surfistinha pop stars, tendência é ser "do rock"... Excelente texto!

Maysa Puccinelli disse...

E há medida em que tudo que é simbólico se embrulha no preço imaginário, o sentido da vida perde o peso Real de seu valor.

Ana Maria disse...

Poxa! Se eu soubesse "como", devolveria meus dois filhos. Ah! João. Adoro!!!
Nunca tive qualquer admiração pelo trabalho de Deborah Secco, mas acho que ela teve um desempenho bem convincente.

João Angelo Fantini disse...

Obrigado pelos comentários!
abraços a todos
joao angelo fantini

http://joaoangelofantiniclinicadacultura.blogspot.com/2011/03/cisne-negro-black-swan-e-receita-de.html

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