terça-feira, 19 de abril de 2011

Roberto Carlos, sentimento e sentimentalismo

 
Sentimento e sentimentalismo
 
Lisandro Nogueira

"Tenho pena de quem chora/ De quem chora tenho dó/ Quando o choro de quem chora/ Não é choro, é chororô." (Gilberto Gil)

Roberto Carlos é um mito. A celebração do mito "Roberto" esconde a complicada mistura de sentimento e sentimentalismo em suas músicas. São emoções em demasia em detrimento do encontro entre experiência estética (aprimorar o gosto) e sentimento (cantores-compositores populares como Caetano Veloso e outros da MPB são exemplos positivos dessa difícil alquimia). Choramos fácil com suas músicas sentimentais. O "choro fácil" não eleva o espírito e nos afunda, geralmente, em lágrimas de ressentimento, rancor e autopiedade. Chorar é preciso e necessário. Mas há diferenças entre o choro (sentimento) e o chororô (sentimentalismo).

Esquecemos que sua música é limitada - estamos envoltos no sentimentalismo que consome nossas chances de aprimorar o gosto estético. A exacerbação das emoções ligeiras nos atinge de tal forma que o bolero (certo melodrama) de grande parte de suas músicas soa como "verdade musical". Se somos domesticados por um gosto musical tão profundamente entranhado na cultura, como aprimorar esse gosto? Ou seja, vamos ouvir sempre Roberto Carlos. E poucos, muito poucos, terão a oportunidade de ouvir Tom Jobim.

No Brasil e na América Latina sentimental Roberto é indiscutível. Ele é a síntese da América Latina lacrimejante que não suporta a ausência de uma conclusão para as coisas do mundo. Tudo tem de ter um final, de um jeito ou de outro, e este tem de ser de acordo com uma felicidade ou infelicidade quase sempre masoquista ligada ao senso comum do "sentimental eu sou".

Sua honestidade e sinceridade ecoando nas canções quase não dá a oportunidade para a crítica. Ouvi-lo criticamente é quase uma heresia, pois ele emana sempre o bem e o amor. Quem pode ser contra as tantas emoções ligeiras? É o costumeiro argumento de quem o declara Rei, superior, imbatível.

Roberto Carlos não é um oportunista, como parte dos cantores sertanejos. Canta e compõe há anos com o compromisso de levar o melhor sentimento para seu público. Esbarra, porém, nos limites da cultura melodramática latina com sua obsessão pela comunicação rápida (gestos, sons e movimentos), com o intuito de tocar sentimentalmente os corações.

Roberto Carlos canta, encanta e nos domestica para não vermos com mais complexidade a dor e o sublime das coisas - com nuances e poesia. Como suas músicas "fecham" sempre todas as questões com uma esperança de amor melô, com boas intenções ingênuas, perdemos a oportunidade de ir além, de sair da prisão do choro fácil em direção a todo sentimento. O choro fácil, sentimental, é uma armadilha poderosa: quem chora dessa forma tem as pessoas (a família, os amigos e os parentes) nas mãos. Ou seja, quem chora assim não mente nunca.

Lembremos que alguém "chorando fácil" significa que no fundo está maquinando algo perigoso, mesmo que seja de forma inconsciente.

As músicas de Roberto Carlos nos revelam muito mais do que podemos imaginar. Seus limites musicais são os nossos limites e refletem nossas boas intenções embebidas pela credulidade ingênua - presa fácil para o agente do mal, travestido de bonzinho, em lágrimas fáceis, agir em nosso nome, seja na política, nos negócios e no amor. Por outro lado, evocam também nossa profunda ignorância sobre as coisas mais complexas do mundo.

Com as músicas dele, nossos sentimentos tendem sempre a ser "sinceros". Roberto Carlos emociona, mas engana: choro fácil, boleros melodramáticos, temas cotidianos tratados com superficialidade e apego à "simplicidade" são bolhas de sabão - ainda que flutuem nos ventos das boas intenções - diante das tragédias e do sublime da vida.

Lisandro Nogueira é professor de cinema na Facomb-UFG▩. Publicado hoje no jornal O POPULAR.

11 Comentários

Anônimo disse...

Mestre Lisandro,
Cumprimento-o pelo excelente texto, mas lamento não poder concordar com tudo que você diz. Roberto Carlos foi meu ídolo quando eu passava da adolescência para a vida adulta. Naquela época (anos 60), a música dele era mais bem-humorada, além de veicular o vocabulário que todos repetíamos: "é uma brasa", "legal", "morou?" etc. Além disso, acredito que a obra musical do Rei é bem mais complexa do que o seu texto dá a entender. Senão, como explicar a admiração do próprio Caetano Veloso, que gravou canções dele? Para evitar incompreensões, teria sido útil se você houvesse mencionado algumas canções que justificaram o seu ponto de vista expresso nesse texto tão bem escrito.
Abração,
Herondes

Anônimo disse...

Será que tudo o que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda

Ana Luiza Magalhães disse...

Lisandro,

adorei o texto.
Sinceramente, nunca achei o Roberto Carlos merecedor do título de Rei. Concordo que ele tem composições bonitas que emocionam, mas realmente é sim melodramático.
Rei pra mim é Chico Buarque, Belchior, Tom...enfim.
Abraço grande,
Ana Luiza Magalhães.

lisandro nogueira disse...

Caro Herondes, o texto é uma reflexão sobre o "choro fácil". Tenho o maior respeito pela trajetória do Roberto Carlos. É um cantor/compositor sério e bem intencionado. Mas suas músicas refletem esse melodrama latino limitado estet...icamente. Ouço suas músicas - não são minhas preferidas. Vejo limites na obra musical.Converso sempre com meus alunos: o problema não é ouvir determinados cantores como Roberto, e sim ignorar aqueles sofisticados (poesia, nuances, densidade. Acredito sim na formação do gosto. A cultura latino americana tem um forte viés melodramático. Causa mais danos do que benefícios.

Há muito anos estudo o Melodrama. Por isso, o conceito do "choro fácil" - as músicas dele embalam (moldura) esse choro.

Anônimo disse...

eu "choro fácil" com as músicas do Roberto
hahahaha

Maysa Puccinelli disse...

Reflexão interessante... Enredou o glamour do manto real no pano-de-chão melodramático de qualquer plebeu. Mas, ás vezes, há quem possa (ou possa crer) lavar a alma com bolhas de sabão.

Uma questão: Talvez a forma que as letras de certas canções assumem em outras vozes introduz patamares diferentes de apreciação estética, haja vista interpretes como Maria Bethânia. Penso que nestes momentos a obra inteira – forma e conteúdo – supera o sentimentalismo melodramático com tons de sentimentos sublimes.

lisandro nogueira disse...

Maysa,
O CD de Maria Bethânia cantando Roberto CArlos é bem melodramático e sentimental em demasia. Ouvi novamente, várias vezes, e, novamente, constatei que, mesmo em outras vozes, Roberto é Roberto.

Maysa Puccinelli disse...

"Eu sei que vou te amar", Tom/Vinícius: sentimentalismo melodramático legítimo.

Na voz do Roberto é uma.
Na voz do Tom é outra.
Na voz da Bethânia é uma canção completamente diferente.

Do mesmo modo se diferem as possibilidades de fruição estética na interpretação de cada um. Resta algo que nem o sentimentalismo em demasia dá conta... que resiste ou se revela para além do chororô.

E se cada interpretação é singular, nem sempre Roberto é só Roberto.

Anônimo disse...

O professor escrevendo sobre música é um ótimo crítico de cinema.

Lisandro Nogueira disse...

Maysa,

Prefiro, sem sentimentalismo, "Eu sei q vou te amar" com Caetano Veloso ou Vinícius. Com Roberto ou Betânia: piegas!!

Thomas Silva disse...

Sentimento ou sentimentalismo é inerente mais em quem ouve do que em quem compõe.
Tom, Chico, Vinicius, Cae, Gil, Djavan, Milton... pode ser sentimentalismo ou sentimento, depende de quem e como ouve. Todos estes compuseram músicas melosas de invejar abelha
Roberto é legal até final de 70 compondo com Erasmo; de 80 pra cá usou e abusou de receitas a la sullivan&massadas.

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