domingo, 4 de janeiro de 2009

Inácio Araújo - especial para o blog.

Entrevista com Inácio Araujo - crítico de cinema da Folha de SPaulo

Lisandro Nogueira


Em 1985 li "Casa de meninas" do Inácio Araújo (na foto, ele é o que está no meio - ao lado de Alvaro Machado e Luiz Zanin - não achei uma foto dele sozinho). Logo descobri que era também crítico de cinema. De lá para cá, não perdi o contato com suas críticas na Folha de SPaulo. Desde então elas se tornaram referência. Visitou Goiânia e Goiás Velha várias vezes para debater Eric Rhomer, Hawks, Glauber Rocha e tantos outros cinemas e cineastas. Ele conhece tudo do melhor cinema americano: os filmes vigorosos da década de 50. Um dos seus cineastas prediletos é Howard Hawks.

Tenho uma admiração especial pela escrita concisa e inteligente, além dos insigths primorosos. Não é fácil fazer crítica de cinema no jornal diário: o texto deve ser sintético e edificado com rapidez. Manter a qualidade do texto, durante tantos anos, dia após dia, não é para qualquer um. Sempre disse a ele que suas críticas me lembram um pouco Moniz Viana, Francisco Sales e José Lino - críticos de cinema nos anos 50/60. Essas influências só reforçaram seu estilo próprio e peculiar para fazer a análise do filme.

Abaixo uma entrevista especial para o blog. Generoso, rigoroso e bem humorado (características fundamentais para um crítico de arte), Inácio enviou as respostas prontamente:

> *1. Por que gostas tanto de Howard Hawks .

EU NÃO SABERIA RESPONDER EM POUCAS PALAVRAS. POR SORTE, O HENRI LANGLOIS DEU UMA DEFINIÇÃO PERFEITA: ELE "É O LE CORBUSIER DO CINEMA". ISTO É: NUNCA DECORATIVO, DEPURAÇÃO MÁXIMA, LIMPIDEZ, PRECISÃO, CONSTÂNCIA.

2. Volta e meia dizem que o cinema dos 60/70 continua insuperável. Você concorda com os motivos para tal constatação?

ACONTECE QUE ENTRE OS ANOS 50 E 70 VOCÊ TINHA EM ATIVIDADE TRÊS GERAÇÕES DE CINEASTAS: OS QUE VINHAM DO MUDO, OS DO PÓS-GUERRA, OS DOS ANOS 60. E O CINEMA ERA UMA ARTE NO APOGEU, "A ARTE DO SÉCULO". HOJE NÃO TEMOS TUDO ISSO, O ESPAÇO DE CRIAÇÃO FICOU UM POUCO MAIS APERTADO, JÁ NÃO É UMA ARTE POPULAR, MAS AINDA TEM UMA VITALIDADE BOA.

3. Noto um sincero mal estar em você em relação ao cinema brasileiro contemporâneo. Esse cinema perdeu o alvo?

HÁ DUAS COISAS. É UM CINEMA MAL PREPARADO. ELE FICOU PROFISSIONAL NO MAU SENTIDO. É ASSIM: VOCÊ ESCREVE O ROTEIRO, O FULANO FOTOGRAFA E EU DIRIJO. COMO SE AS COISAS NÃO TIVESSEM A VER UMA COM A OUTRA. ENTÃO TEMOS UM CINEMA EM QUE A AUSÊN CIA DE PAIXÃO EQUIVALE À QUADRADICE, AO ATRASO.

POR OUTRO LADO, OS CINEMAS VIVEM DE SEUS MOMENTOS HISTÓRICOS. O NOSSO GRANDE MOMENTO FOI NOS ANOS 60. A ALEMANHA, NOS 70 (E AGORA ESTÁ VOLTANDO) ETC.POR FIM, NÓS FAZEMOS BONS FILMES, SIM. O DO TONACCI, O DO CARLÃO, O DO PAULO CALDAS (ESTOU ESQUECENDO DE ALGUNS) SÓ PARA FALAR DE COISAS DESTE ANO. O PROBLEMA É QUE SE VOCÊ SOMAR TODOS OS ESPECTADORES DESSES FILMES ACHO QUE NÃO DÁ CEM MIL. NÃO É MOLE.

4. Para finalizar: Fernando Meireles e José Padilha desancaram Glauber Rocha. Por que Glauber Rocha incomoda tanto?

TALVEZ ELES NÃO TENHAM ENTENDIDO AINDA O TAMANHO DO GLAUBER Rocha, SUA IMPORTÂNCIA.E TAMBÉM TEM ISSO: ELES SABEM QUE O TEMPO É OUTRO, QUEREM FAZER FILMES QUE SEJAM VISTOS. NÃO QUEREM DAR MURRO EM PONTA DE FACA.ENFIM, NÃO DÁ PARA CONDENÁ-LOS POR ISSO. QUANDO EU DISSE LÁ EM CIMA QUE O ESPAÇO DE CRIAÇÃO DIMINUIU ESTAVA, ACHO, TENTANDO FALAR DAS DIFICULDADES A QUE OS CINEASTAS TÊM DE RESPONDER.

5. Obrigado Inácio...
Estou com saudade do pão de queijo e do empadão...

6. E tem mais: bolinho de arroz, pamonha e café no coador...quentinho...

10 Comentários

Lisandro Nogueira disse...

Howard Hawks: nasceu em 30/05/1896 e morreu em 26/12/1977 (81 anos)
Nome de Nascimento: Howard Winchester Hawks
Cidade: Goshen, Indiana
País: Estados Unidos

Filmografia:
Rio Lobo (1970) (Longa-metragem)
El Dorado (1966) (Longa-metragem)
Hatari! (1962) (Longa-metragem)
Onde Começa o Inferno (1959) (Longa-metragem)
Os Homens Preferem as Loiras (1953) (Longa-metragem)
O Inventor da Mocidade (1952) (Longa-metragem)
O Rio da Aventura (1952) (Longa-metragem)
Rio Vermelho (1948) (Longa-metragem)
À Beira do Abismo (1946) (Longa-metragem)
Uma Aventura na Martinica (1944) (Longa-metragem)
Águias Americanas (1943) (Longa-metragem)
Corvetas em Ação (1943) (Longa-metragem)
Bola de Fogo (1941) (Longa-metragem)
Sargento York (1941) (Longa-metragem)
Jejum de Amor (1940) (Longa-metragem)
Paraíso Infernal (1939) (Longa-metragem)
Levada da Breca (1938) (Longa-metragem)
Meu Filho é meu Rival (1936) (Longa-metragem)
Duas Almas se Encontram (1935) (Longa-metragem)
Viva Villa! (1934) (Longa-metragem)
O Pugilista e a Favorita (1933) (Longa-metragem)
Scarface, A Vergonha de uma Nação (1932) (Longa-metragem)
O Código Penal (1931) (Longa-metragem)
Patrulha da Madrugada (1930) (Longa-metragem)

Marco A. Vigario disse...

Queria saber em que sentido exatamente Meirelles e Padilha desancaram Glauber... Você quer dizer indiretamente, por meio dos filmes, ou em alguma entrevista que eu perdi?

Lisandro Nogueira disse...

Marco Aurélio, foi na revista Bravo. No ano de 2007. Teve grande repercussão.

Eduardo H disse...

A entrevista de Padilha e Meirelles, na íntegra, pode ser lido no link abaixo:
http://bravonline.abril.com.br/conteudo/assunto/assuntos_291145.shtml

Marco A. Vigario disse...

Pois é, li a entrevista e fiquei sabendo da repercussão, inclusive de uma outra matéria que cita Meirelles e um humorista do Casseta e Planeta pra criticar o Glauber. Li também uma reportagem sobre o lançamento de Ensaio Sobre a Cegueira - com nova alfinetada no Cinema Novo. Tudo muito ruim. A impressão que tenho é que a Bravo tá cada vez pior.

Sobre o Meirelles, a impressão que tenho é que o cara tá meio deslumbrado com o sucesso. Talvez Tropa de Elite realmente seja mais popular que Terra em Transe. Mas e daí? Se o critério for a popularidade, então Titanic é o filme mais importante de todos os tempos.

Goste-se ou não, Glauber ficou. Taí sendo citado como referência até hoje.

Anônimo disse...

Marco Aurélio, alguns dialogam com a tradição, outros, não. Será que querem espaço e para isso "batem" nas referências? Os filmes de Glauber Rocha (1942-1981), principalmente "Deus e o Transe" e Terra em Transe, são referência. Os
filmes de Glauber permanecem porque forma e conteúdo são instigantes.Meireles é talentoso e realiza filmes importantes. Mas vamos ver seus filmes daqui a 40 anos...será que terão força para permanecerem? (lisandro nogueira)

João Angelo Fantini disse...

De certa maneira, entendo os novos cineastas brasileiros, especialmente os que vivem em sao paulo. A critica daqui bate duro neles e sempre os comparam ao passado, especialmente com o Cinema Novo.
é muito chato. Meirelles é um grande cineasta. acho mesmo que dos maiores que tivemos. e mais, nao é arrogante coisa nenhuma, pois no lugar que ele chegou em termos de critica mundial, acho que nem o Glauber, mas isso precisaria conferir.
já escrevi aqui e repito: nossa critica de cinema, 80 % no minino, saiu de um mesmo lugar. vc sabe de onde Lisandro.
Bateram nele para c... em Cidade de Deus (linguagem publicitária etc etc). é um puta filme. ou ele consegui enganar o mundo inteiro menos a iluminada critica paulista?
Valtinho também andou apanhando estes tempos (só faz filme de miséria com garotinho, filme para europeu chorar etc etc). pessoalmente náo gosto dele, bem, nao gosto é de melodrama. mas achei a pancadaria excessiva tambem.
não digo isso do Inácio especialmente. acho ele bastante ponderado, mas a voz é única por aqui e quem falar contrário leva porrada.

Anônimo disse...

Olá João,
Meirelles é um bom cineasta. Mas o considero um "grande" cineasta. Quem sabe um dia...Os cineastas brasileiros, pelo contrário, são bem mimados. Existem aqueles mais "queridos". Concordo com você q. existe uma crítica falsamente de esquerda e sofisticada. Não sabem fazer a crítica sem o ranço ideológico. E protegem cineastas fracos e mal preparados. Sobre Walter Salles: penso que melhorou muito com "Linha de passe" - um grande filme. (lisandro)

Anônimo disse...

João, uma pergunta antiga: você gostou de "Tropa de elite"? (lisandro)

Anônimo disse...

Não gosto, abomino, reprovo a utilização nos diálogos do "você isso, você aquilo.."

Eu sou do tempo em que se escrevia com elegância, e, em vez do "você" se utilizava "se", "a gente"...

Vejamos alguns exemplos: Em vez de "ACONTECE QUE ENTRE OS ANOS 50 E 70 VOCÊ TINHA EM ATIVIDADE TRÊS GERAÇÕES DE CINEASTAS",

poder-se-ia dizer com elegância:

"ACONTECE QUE ENTRE OS ANOS 50 E 70 SE TINHA EM ATIVIDADE TRÊS GERAÇÕES DE CINEASTAS".

Ou, ainda, ao invés de:

"O PROBLEMA É QUE SE VOCÊ SOMAR TODOS OS ESPECTADORES DESSES FILMES ACHO QUE NÃO DÁ CEM MIL",

poder-se-ia dizer com elegância:

"O PROBLEMA É QUE SE SE SOMAR TODOS OS ESPECTADORES DESSES FILMES ACHO QUE NÃO DÁ CEM MIL".

Vamos melhorar o nosso português, aproveitando agora essa última reforma no nosso idioma, que acaba de entrar em vigência.

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