sábado, 10 de outubro de 2009

Bastardos inglórios (em cartaz)


Lisandro Nogueira

Estou em São Paulo para o encontro da Socine e encontrei com Inácio Araújo. Imediatamente perguntei sua opinião sobre o novo filme de Tarantino. Ele respondeu: "Já publiquei um texto". Araújo é meu crítico de jornal predileto. Segue o texto dele:




Longa diverte e inscreve diretor entre os grandes

Inácio Araújo*


Toda vez que Quentin Tarantino toma da câmera, o cinema se lembra de que é, também, uma festa. O espectador se dá conta disso antes de se completar o primeiro minuto de projeção de "Bastardos Inglórios". Sabemos que o filme vai nos falar de coisas da Segunda Guerra, mas que não terá muito a ver com a história dela.


Estamos na França ocupada pelos nazistas. Após uma brilhante introdução (um coronel busca uma família judia numa propriedade rural), nos vemos diante do grupo de soldados (todos judeus), que, tendo à frente um tenente da América profunda, tal como celebrizado pelo cinema de guerra, dispõe-se a exterminar o maior número possível de nazistas e aterrorizar o próprio Hitler.


"Bastardos..." não se impõe pela história que narra -sua "falsidade" salta aos olhos- mas pela capacidade de criar, a cada sequência, um cinema de segundo nível, sem permitir (pelo contrário) que o espectador perca, nem por um instante, o prazer de estar no cinema.

O que significa, no caso, a expressão "segundo nível"? É, antes de tudo, que o cineasta, ao contar sua história, não procura criar nem nos coloca diante de nenhum tipo de "ilusão". O fantástico tenente que Brad Pitt cria, por exemplo, não é um oficial saído do exército, mas de 1.001 filmes em que americanos intrépidos, puros, um tanto inocentes e grosseiros se lançam a suas missões.


Porque, se não presta nenhuma reverência à "verdade histórica", Tarantino mergulha com paixão na história do cinema, para nos lembrar que estamos diante de uma apaixonante fantasia, tão real quanto, digamos, os "faroestes spaghetti" que os italianos produziam algumas décadas atrás, em que não eram mais inspirados pela saga da conquista do Oeste mas pela própria saga do faroeste, pelos sonhos e mitos que o cinema soube criar.


Assim, em vez de tentar compor um Hitler "verossímil", "Bastardos..." busca, simplesmente, criar um Hitler cômico. Um atentado à história? Não, apenas a lembrança daquilo que Chaplin um dia descobriu e Ernst Lubitsch desenvolveu.


O diretor faz um cinema irrepreensivelmente moderno, que a cada sequência parece reavivar todas as reflexões que Godard ousou um dia fazer. Com "Bastardos...", Tarantino inscreve-se de vez entre os grandes cineastas da história.

* Inácio Araújo é critico de cinema da FolhaSP - publicado em 8 de outubro.


34 Comentários

Thomas Silva disse...

O real e a crítica.
Deu vontade de ver o filme. !!
Crítica é isso, depois de pronto a gente fala.

Alfredo disse...

Discordo do renomado critico. O filme é ruim e chegado num cinismo bravo.

Polly disse...

O filme é maravilhoso. Vale a pena ver, Thomas!
Os atores estão em seu melhor, e que aula de interpretação, boa escola para aspirantes de Rede Globo.
É um filme cinéfilo, que elogia o próprio cinema. É um filme chiste. É Tarantino e isso basta.
Foi um prazer de assistir, de verdade!
Tarantino cresceu em seus diálogos. E brincou com a história, a parte da história que mais deixou trauma e ferida.
Não achei um filme cínico, Alfredo, pelo contrário, cínico seria se ele filmasse Hitler se matando (rá!). Só que aí, não seria mais um filme de Tarantino e sim um documentário qualquer de história!!
Adorei a crítica do Inácio Araújo, Lisandro, obrigada por postá-la aqui.
Beijo grande,
Polly

Túlio Moreira Rocha disse...

Ao final da sessão de "Bastardos Inglórios" meu sentimento era um só: excitação. E a vontade de ver de novo era quase incontrolável. Por se tratar da última sessão do dia, vou ter que deixar para essa semana, mas o 7th QT implora para ser revisto. É assim com todas as obras-primas dele, o maior cineasta americano da geração pós-Coppola/Scorsese/De Palma. No sábado antes dos Bastardos, retrospectiva, com revisão de "Pulp Fiction", "Jackie Brown" e os dois "Kill Bill".

É incrível como o cinema de Tarantino está em constante movimento, a cada revisão novas referências da cultura pop são percebidas e assimiladas. O cara é um gênio. Talvez o melhor em atividade no cinema mundial, hoje. Falando em outro gênio, De Palma, é ótimo perceber como Tarantino está cada vez mais depalmiano: ele gira a câmera 360º freneticamente em torno de seus personagens; divide a tela; filma de cima; tira as paredes do cenário para dar uma panorama geral do ambiente. E a música? Impossível falar de QT sem comentar o quanto esse cara consegue utilizar bem a música, desde a clássica até o pop e country norte-americano.

O melhor filme do ano e um dos 10 melhores da década. É "Os Intocáveis" da década 2000. Vida longa a De Palma e Tarantino.

Candido Cesar disse...

Filme fraco. Nota seis.

Lian Tai disse...

Ótimos filme e crítica!

Zé Abrão disse...

eu gostei do filme, mas esperava mais. O melhor do filme pra mim foi que realmente os diálogos melhoraram e que as atuações foram muito boas, adorei o caipira forçado do Pitt, a atriz que faz a Shosanna é perfeita e a Diane Kruger saiu super bem com um papel sério em um filme grande, mostrando toda sua capacidade.

Elaine disse...

Tarantino não consegui realizar um grande filme. Ele bom mas aqui pecou pela "comédia pela comédia". Infelizmente!!!

Riccardo Joss disse...

Quando penso que nada mais pode surgir de bom no cinema, Tarantino vem com um filme de guerra sensacional. Gênio.

Maria Euci disse...

Confesso que vou ver o filme novamente. Não foi possivel emitir uma opinião. Há avançoes e retrocessos.
Para quê tanta grancinha com o nazismo?
Vou ver de novo.

Daniel Christino disse...

Tarantino é um irregular. No filme há momentos realmente incríveis, como a cena inicial - quem não viu ali uma homenagem a Imperdoáveis, do Clint Eastwood e, ao fim da cena, com o plano da porta, John Ford? - e a cena da taberna.

Mas as referências nos conseguem levar até um certo limite, assim como a paródia só existe porque houve, antes, um original. Neste sentido o cinema do Tarantino é, realmente, de segunda ordem, como disse o Ignácio Araújo.

Mas ele melhorou sua "dicção". Os planos estão mais seguros, as sequências são filmadas com total controle do tempo, sem pressa, dando aos atores espaço para desenvolverem seus personagens.

Mas ainda vai demorar um tempo até que o Tarantino consiga tratar temas mais relevantes, com personagem multifacetados e tramas emocionalmente mais complexas. Ainda falta um pouco para que ele seja um grande cineasta. Falta-lhe superar a paródia.

pelosdias disse...

um chute no saco do melodrama. eu juro que vi influência até de Monty Python ali.

mas o melhor é a ironia escorrendo pra todo lado.

e a trilha sonora? putz! o cara sabe andar entre a clássica e a pop. muito bom!

João Angelo Fantini disse...

Estou com o Daniel, que ainda falta a Tarantino. Discordo em parte do Inácio Araújo, pois penso que Bastardos é mais que fruição estética, mas que há um forma de enunciação diferente nos filmes do diretor.
Partilho do entusiamo da Polly, pois acho que o cinema gonzo de Tarantino faz falta hoje, em nosso mundo politicamente correto.
Cabotinamente, indico meu comentário no blog Clínica da Cultura indexado nos links daqui. Desculpe aí Lisandro...

Lisandro Nogueira disse...

João, Polly, Daniel e tantos amigons bons: cheguei de SP e não vi o filme (resfriado e o problema do ar condicionado). Os comentários são instigantes e quero ver o filme com urgência. Aliás, a TV Anhanguera quer um comentário na sexta-feira sobre ele. Zé Abrão e Túlio sempre questionando com pertinência. Confesso que ainda não "entrei" na filmografia do Tarantino (ver os filmes mais vezes além das estréias nos cinemas. Mas gosto das pancadas contra o "politicamente correto" e a montagem ágil com bons propósitos.
João: divulgue seu link sempre. Vou ler seu texto.

Lisandro

Caroline Pires disse...

Esse foi o primeiro filme do Tarantinho que vi. Então o que digo são só impressões... Me incomodou um pouco alguns personagens muito caricaturados... mas foram importantes para deixar o filme menos tenso. Confesso: me diverti muito com o Brad Pitt forçando aquele sotaque do sul dos EUA e querendo falar italiano...

Me corrijam se eu estiver errada... mas... não sei se por que andei estudando melodrama... enxerguei umas pitadinhas aqui e ali sim. Na verdade se a gente parar para pensar o melodrama está em todos os lugares!

A busca constante por gerar sensações (pela montagem) e reações de comoção (pelo enredo) para mim já é melodrama... não vou exemplificar por que muita gente ainda não viu...

Claro que não estou falando que o filme é um exemplo melodramático... muito pelo contrário... mas que tem uma redençãozinha aqui e uma puniçãozinha acolá isso tem mesmo...

Túlio Moreira Rocha disse...

Prof. Daniel Christino, nada mais relevante no mundo que falar sobre Big Mac, Hattori Hanzo e escalpos nazistas. O resto é filosofia de botequim e lero-lero. Tarantino é o cara!

Rodrigo Cássio disse...

Daniel: Tarantino sem paródia não seria Tarantino! Os filmes dele não pretendem mesmo ser emocionalmente complexos. E isso tem parte na grandeza do seu estilo, a meu ver.

Carol: A partir do que disse para o Daniel, acima, acho que é oportuno pensar o que há de melodrama, especificamente, em Bastardos Inglórios, e em como o Tarantino rejeita abruptamente esse gênero, na mesma medida em que rejeita carregar o seu filme de emoção, preferindo concentrar o seu esforço em certa saturação das imagens e das referências internas ao cinema.

Pense naquela cena em que a projetista Shosanna sente compaixão pelo oficial Fredrik Zoller, logo após de atirar nele. A chave dessa cena é o melodrama, que aparece de repente no filme. Como o Tarantino resolve isso?? Nós dois, que vimos o filme, sabemos. E não é nada parecido com uma solução melodramática - o que é sintoma de como o filme lida com essa referência, apenas uma entre outras, como o western! :)

Gostei de Bastardos Inglórios. Ele mostra um Tarantino maduro. Não acho que seja obra-prima, porque Pulp Fiction tem um lugar definitivo nos anos 1990. Mas é um dos melhores filmes dele, sem dúvida.

Anônimo disse...

Maravilhoso filme!!!!!!! E Ironia pura!!! mais com um estilo que so o Quentin Tarantino sabe fazer, mostrando uma realidade multicultural e linguistica tão evidentes na II GUERRA MUNDIAL, coisa que poucos diretores tiverão corajem de fazer ate hoje. Alem do mais a grande descoberta do sensacional ator austriaco Christoph Waltz, como o tenente-coronel alemão Hans Landa, ele merece todos os premios na sua categoria principalmente um Oscar,e que não sera desta vez para o bonitinho Sr. Brad Pitt.

Caroline Pires disse...

Oi Rodrigo,
sempre aprendo muito com seus comentários aqui no blog. Tinha pensado exatamente nessa cena que você disse, achei que a forma como ela termina fosse uma "redenção" para Shosanna...

Mas hoje, depois de digerir um pouco mais o filme (literalmente porque ele é um filme pesado que parece ficar entalado no nosso estômago!) entendo o que você diz e vejo bem melhor as paródias do filme... realmente estão para todos os lados.
Puxa vida... ando forçando muito a barra para o melodrama... preciso ver outros filmes... hehehe Obrigada.

Lisandro Nogueira disse...

Caros amigos,

Pensemos na primeira sequência (cenas, planos, ângulos) do filme: desde a chegada do tenente até o momento da fuga de Shosanna.

Há ali os hibridismo dos gêneros: o faroeste, o drama, o spaguetti italiano, a comédia (o riso louco e cínico do Coronel), o filme de guerra e um pouco do filme de ação. Em nenhum momento, Tarantino se entrega para o "infantilismo", característica de um cinema industrial contemporâneo ao misturar os gêneros (lembrar da filmografia de Spielberg). Observem como ele filma em "primeiro plano" e "closes": não há espaço para a simplificação e consolação através do olhar do personagem.

A performace do fazendeiro, no embate com o Coronel, é uma aula de direção de atores. Tarantino tira tudo do personagem, com closes perfeitos: no final não há reação e somente lágrimas de puro humanismo. Cria-se o suspense, os diálogos lembram os duros jogos de palavras dos personagens do faroeste e, no final, temos a fuga do "herói" que certamente voltará para o acerto de contas. Lembrei dos faroestes de Howard Hawks e seu jeito de reciclar os gêneros tão comuns do cinema. Mas reciclando-os sempre com criatividade.

O cineasta fez uma jogada de alto risco ao receber Brad Pitt no elenco. Entre seguir as normas (coisa da indústria) e criar (coisa do artista), consegue equilibrar o pêndulo e ganhar a aposta. Um ator desses no elenco significa, na maioria das vezes, aceitar quase tudo que a indústria impõe. Ele sabe jogar e realiza um "cinema autoral" demonstrando total amadurecimento.

Não de deixa de trabalhar com o tema da violência, tão caro na sua filmografia, porém, consegue manejá-lo em outra chave, flertando com o cinema de ação comum e, ao mesmo tempo, sofisticando sua maneira de abordá-lo. Penso que a ironia madura perpassa a necessidae de carregar demais nas cenas violentas.

Não é propriamente um filme sobre o Nazismo. É um filme irônico e pespicaz que, em primeiro lugar, coloca o bom cinema no seu devido lugar - hoje, tão carente de bons roteiros e bons diretores; também não se posta vingativo, como aparenta, ao lado da causa dos judeus. Ironiza, isso sim, a brutalidade humana e o mal (mal em todos nós).

E para não dizer que não faz concessões (que não compromentem o filme), Brad Pitt sobrevive como "herói". Contudo, um "herói" risível, na beira da idiotia plena.

Cineasta bom brinca com o cinema, ri com ele e nos coloca no espaço da fruição estética: com inteligência e alegria .

aron disse...

Rodrigo, é ou não é um chute no saco do melodrama? tenho que rever Pulp Fiction, porque to até achando que Bastardos pode ser melhor.

Túlio, estou com você nessa. esse filme é -> !! !? =D

Caroline Pires disse...

Tudo bem Aron, nesse caso o melodrama apanhou...
mas... ah... não tem jeito eu adoro um melodrama bem feito.
E concordo que Bastardos Inglórios é !!!!.

Thomas Silva disse...

É um filme gostoso de ver, ótima fotografia, gosto da câmara do Tarantino, a qualidade da imagem, o ritmo, o humor e, a ironia.
O prof. Lisandro sintetizou bem o filme, e como sempre dá uma aula por trás das câmaras, só não concordo em uma coisa: que ele não se entrega ao infantilismo ao misturar gêneros; o que é legal no filme.
Saí da sessão meio angustiado pois não gosto muito de ver sangue, mas lembrando do filme agora, me deu vontade de vê-lo de novo.
Taí, vou ver Bastardos novamente.

Luis Fernando disse...

Lisandro você disse que Spielberg infantiliza com seus filmes, coisa que não concordo de forma alguma, se for assim Tarantino infantiliza com Kill Bill, são dois diretores ótimos com o forte nos efeitos... Fora que suas historias são em meu ponto de vista muito bem desenvolvidas, assim como a lista de Schindler que soube tratar muito mais a imagem que os efeitos, império do sol...
Efeitos especiais, não vejo qualquer problema e uma forma que a tecnologia entrou no cinema com força, claro o que mais conta e o roteiro, ambos tem ótimos roteiros... e minha opinião!!!

E acho que a valorização da imagem faz bem ao roteiro e não infantiliza nada, como dizer então que resgate do soldado ryan foi infantilizado?

Abraço Lisandro!!!

Fabrício C. Santos disse...

Em estética, deve ser o melhor e mais impressionante do Tarantino, desde as gruas no salão à longa orquestra de conversação na taverna. O começo é brilhante, com aquele plano abertíssimo do pai lenhando e a filha abrindo a "cortina" (a roupa no varal) para a vinda dos nazistas.

O Tarantino usa os dois primeiros capítulos para informar e estabelecer que esse é um "filme de guerra" emoldurado pelo faroeste, em especial o italiano. É "once upon a time" de cara, mas não no Oeste, e sim na Franca ocupada pelos nazistas; é trilha gritando Morricone; é a chegada de Landa e os nazistas evocando Henry Fonda e seus comparsas em "Era Uma Vez no Oeste", incluindo aí o sobretudo nazista que lembra as vestimentas dos bandidos do Leone.

O diálogo travado com o pai francês... aquilo é o duelo, com a tensão de um duelo, uma falação que o Tarantino parece, nesse filme, adicionar mais pausas, uma paciência fascinante para um filme cheio desses duelos dialoguistas, onde adquirir certa informação é o tiro certeiro. Aqui ele faz o que é seu: ao contrário de um duelo típico de faroeste, onde se fala muito pouco ou quase nada, Tarantino trava vários na lábia, no papo e, me desculpem aqueles que esperavam AÇÃO e não viram, mas tem muita ação, se pensada nesse sentido. O Tarantino, por sinal, meio que leva ao pé da letra aquilo que o Hitchcock fala sobre revelar ou não a bomba sob a mesa, que é o que diferencia susto de tensão/suspense; e aquele leite iluminado por uma luz superior também me fez pensar em Hitchcock.

Landa é um dos melhores pistoleiros desse Oeste nazista, uma verdadeira suástica detectora de mentiras, e o Waltz o interpreta com um desses prazeres únicos. Ele é o personagem e a atuação magnéticas do filme, e dificilmente um nazista será tão divertido e sério ao mesmo tempo. Existem vilões que queremos que apareça na tela por serem atraentes em sua persona, tensão, comportamento, porque a escrotidão chega a ser legal, whatever... o Landa deve aparecer porque ele é divertidíssimo e, se pensarmos bem, nem se esforça para isso. Essa atuação maravilhosa tem a graça em pequenos toques, que não exatamente se destacam do filme, mas acompanham seu tom. Tirando a cena do "That's a bingo!", peguem qualquer cena do Waltz e ele poderia entrar bem em quaisquer filmes de guerra mais tradicionais/sérios. Brilhante.

O Capítulo 2 apresenta o "lado dos índios" desse faroeste muito particular. Escalpos, o sotacão sulista mais espesso possível do líder (para não haver dúvidas de onde ele é - Pitt se divertindo e nos divertindo como nunca, aposto), os apelidos bem indígenas, o nome escrito na arma... São os índios. Mas apenas como caracterizações do gênero, porque mocinhos e bandidos são definidos por aqueles que não são nazistas e por aqueles que são.

Com esse amor pela coexistência de gêneros, o Tarantino traz mais uma história de vingança (Shosanna tem ecos de The Bride), tema caro ao faroeste e também ao grindhouse, com o qual ele também floreia "Bastardos Inglórios" de vez em quando. Tem, claro, a agente dupla (Diane Kruger perfeita - lembrando que ela interpreta uma atriz) - que acaba de sair de uma mesa de jogo em que um dos nomes nas cartas era Mata Hari -, e é essa agente que deve passar importante informação numa taverna (faroeste de novo) cheia de nazistas.

Fabrício C. Santos disse...

(continuando...)

É basicamente isso. Se atores interpretam personagens, os filmes do tarantino, desde sempre, interpretam gêneros e subgêneros. Essa cara simplesmente entende que ele tem o poder de fazer isso, por Cinema não ser produto físico, mas essência que se conecta desde o nascimento do Cinema como arte.

E depois de apresentar o faroeste, Tarantino, do 3º capítulo em diante, traz esse Cinema. O Cinema em toda sua essência: a sala de cinema, a película, a projeção, cartazes, os artistas, as celebridades, os fãs, a obra, a crítica, a cinefilia, o Cinema, onde até Hitler é um espectador que se diverte horrores e Goebbels um diretor que se emociona.

O cinema em si, o lugar, é modesto, como os próprios personagens insistem em lembrar. Mas a primeira aparição desse cinema, nossa, como Tarantino filme com reverência, beleza e elegância. Chega a ficar grandioso, aquele contra-plongée enquanto Shosanna tira as letras, e o Daniel, que mesmo sendo um nazista estrela, torna-se pequenino e oprimido (plongée lá do alto) diante desse pequeno cinema.

Praticamente todos são subjugados pelo cinema e, mais importante, pelo Cinema, que desafia a História, desafia uma das maiores forças (e temas cinematográficos!), o nazismo, pessoalmente desafia Hitler. Kill Hitler.

Lisandro Nogueira disse...

Luis Fernando e Fabrício:

Luis: penso que quase toda a filmografia de Spielberg "infaliza o espectador". O Dispositivo (filme, aparato, público) é muito potente e a inteligência em misturar gêneros, infantilizar hérois, criar efeitos em detrimento do adensamento do drama vão de encontro ao mundo pós-moderno, exigente, competititivo e ameaçador em todos os sentidos. Não são os filmes diretamente que "infantilizam", mas eles são suporte para o nosso medo, "incapacidade" de compreensão e ajustamento a uma nova ordem. O que fazemos? Nos identificamos com aquilo que nos remente a uma inocência (refúgio, com o sentido de nos proteger). Nada mais legítimo e nada mais "apaziguador".

Olá Fabricio, não por acaso o grande espectador das mostras "O amor, a morte e as paixões" (entre 2002 e 2005). Seu diálogo com o filme é muito pertinente e embasado. parabéns!!

Lisandro Nogueira disse...

Volte a ver o filme, Thomas Silva. Penso que vale a pena.

Fabrício C. Santos disse...

OBS: este comentário revela algumas cenas do filme.

Oi, Lisandro! Sim, sim, saudades daquela Mostra, que dominavam minhas tardes =)

Arrisco dizer que "Bastardos Inglórios" pode ser meu Tarantino preferido, superando minha paixão por "Pulp Fiction". Gosto de tudo o que ele fez, mas "Kill Bill" e, finalmente, "Bastardos Inglórios" me fazem enxergá-lo como um dos grandes cineastas americanos em anos, ou talvez mais que isso, não importa o quão convencido ele seja (convenhamos, ele encerra o filme auto-proclamando ser uma obra-prima).

Mais uma coisa: além de Leone, há belos e evidentes ecos de "Os Imperdoáveis" e "Rastros de Ódio" (como o Daniel, com quem tive aula, já observou), entre outros. Mas, conversando com um amigo, lembramos que a morte de Hitler, metralhado na cara, parece ser uma forte referência ao "Vá e Veja" do Elem Klimov, filme que é dos grandes representantes do Cinema soviético, herança direta de Tarkovski e seu "A Infância de Ivan" - ambos, claro, se passam na Guerra. Além de concretizar um desejo histórico, ter esse poder, "Bastardos Inglórios" realiza o desejo daquele garoto que só pode se limitar a cuspir sua metralhadora em um retrato de Hitler.

Fabrício C. Santos disse...

Para finalizar, gostaria de dizer que não concordo muito com sua visão sobre Spielberg, Lisandro. Penso que, exceto em alguns filmes, o que Spielberg faz não difere muito do que Capra (recheado de moralidade americana) e Chaplin (bastante emotivo, às vezes indiscretamente - era muito criticado na época por conta disso, aliás) também faziam, e faziam tão bem. Spielberg é um incrível contador de histórias, e só acho que esse seu estilo irrita quando ele, de alguma forma, se perde nesse contar ("O Terminal", exemplo mais recente, uma tremenda bobagem). Mas isso é assunto para outro tópico. Ou debate, rs.

Abraço!

Pedro disse...

Pessoal,
O Jorge coli escreveu sobre o filme: "O cineasta Quentin Tarantino consegue uma proeza no filme "Bastardos Inglórios": inventa uma perfeita comédia de humor negro com um tema sensível, avalia Jorge Coli em sua coluna Ponto de Fuga do caderno "Mais!" da Folha deste domingo (18).

O longa-metragem é uma ficção que se passa durante a Segunda Guerra. Um grupo de soldados americanos judeus espalham o medo e o terror no Terceiro Reich, assassinando nazistas.

Thomas Silva disse...

Prof. Lisandro,
Vale a pena sim.
Assisti Bastardos novamente.
Genial. A meia hora inicial é mais que genial.

Fabrício C. Santos,
Bravo!!!

O final do filme me incomoda, quando ele assina a obra.

Rodrigo Magalhães disse...

O melhor deste filme é o que mais me intriga. Não há como não adorar o personagem Hans Landa ou "Caçador de Judeus". Claro que suas ações são horríveis, e homem como aquele não devia andar pela Terra. Mas o modo que o ator fez a personagem é de tamanha luz, brilho, que até o perdoei no final do filme.
Eu fiquei tenso durante suas atuações, exatamente todas.

Me pergunto com frequência sobre esses meus gostos: Hans Landa, Hanniball, Curinga, etc. Acho que são gostos de desabafo.

fernando rodrigues disse...

pensar Bastárdos Inglórios, somente como uma homenangem ao cinema, seria diminuí-lo, porém Tarantino homenageia, e de maneira brilhante.
Seu humor em um tema tão complexo e porque não dizer saturado, o nazismo, é de se fazer pensar. Poucos filme tratam o nazismo dessa forma, com irreverência, humor e cinismo e aí que alterar a história faz todo o sentido. Fazer o que todos aqueles que se sentem de certa forma estarrecidos com a história de Hitler gostariam de fazer e nunca tiveram coragem é brilhante e corajoso.
Lembrem-se de que muitos já diziam....cinema é imagem e quando essas imagens podem surgir até onde a gente menos espera, como em uma nunvem de fumaça, vemos que de fato o cinema não tem limites...e isso é só o começo.

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