sexta-feira, 23 de abril de 2010

"Alice no país das maravilhas" (em cartaz).

Um país sem maravilhas

Fellipe Fernandes*


A mistura dos enredos de dois livros de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, pode parecer, por critério de expectativa, engenhosa, mas no filme de Tim Burton torna-se também um ponto de dispersão. Em termos comparativos de pouca elegância, é como se uma senhora de meia-idade, ao fazer uma cirurgia plástica, olhasse o seu reflexo e não se reconhecesse.

Ou se refinarmos o pensamento, podemos dizer que há um descolamento de dimensões narrativas que influi no processo de adaptação cinematográfica que analisarei ao recobrar também, entre outros, mas especialmente os estudos de Robert Stam e Tara Collington, de quem tomo emprestados os conceitos de carnavalização (mistura de elementos diversos em que as regras ou padrões sociais, morais e ideológicos comumente seguidos são subvertidos ou postos de lado) e cronotopo (a unidade de espaço-tempo, indissolúvel e de caráter formal expressivo) como embasamento teórico.

A mescla de ambas as tramas de Carroll mostra que a relação entre os textos literários e o próprio filme em si não se correspondem mutuamente, uma vez que a obra audiovisual de Burton exagera nos aspectos carnavalescos da fonte originária, transferindo o foco principal tempo-espacial para as considerações representacionais que estão ligadas à tentativa de fidelidade em relação ao original, tendo a expressão “tentativa” mais como uma indicação de pretensão e não como o sucesso que se pode obter no resultado.

Lembremo-nos então da noção de paródia que, por princípio, envolve também o conceito de apropriação e imitação, observando que, com o travestismo carnavalesco do texto original, temos a descrição de uma latente influência que uma adaptação sofre quando as mudanças feitas colocam em questão as pressuposições ideológicas da fonte. O que, na Alice de Burton, está, especialmente, na decisão de implantar uma hierarquia – não de poder, mas sim de importância – entre os personagens do filme que não existe nos livros de Carroll.

Ou seja, há no filme certo distanciamento psicológico dos personagens, fato que os torna caricatos e que desvia a atenção do espectador para longe de temas que realmente importam para a história, como a solidão implicada em tais personagens em sua gênese e também a rede de interdependência que essa mesma solidão cria entre eles. Isto é, parece não haver justificativa que dê razão à diminuição presencial de outros personagens como a lagarta azul ou o gato risonho que, no filme, aparecem notas de rodapé se comparados à Rainha Vermelha (ou de Copas) e ao Chapeleiro Maluco, respectivamente interpretados por Helena Boham Carter e Johnny Depp.

O que também é um sinal muito claro da falta de coordenação ideológica entre Burton e Disney, o estúdio que o produz. Esse cabo de guerra silencioso converteu a história de Alice em um filme sem personalidade, que transita entre o bonito e o estranho, o que prejudica substancialmente a noção de transposição espaço-tempo que se supõe a adaptação cinematográfica de textos literários, o que reflete diferentes preocupações culturais e pode explicar a diversidade das reações do público às novas narrativas da mesma história contada.

Obsessão com o 3D

Uma explicação para a atual obsessão com a tecnologia 3D e também para compreender um pouco o conceito artístico de Burton em Alice. Sim, a arte conceitual é forte e bonita e, não obstante, é, ao mesmo tempo e de certo modo, uma espécie de redução semântica e maniqueísta, sendo esse exagero visual uma ferramenta para esconder a fragilidade da adaptação e, consequentemente, do comprometimento que sofre a narrativa.

E se formos, além de qualificar, também quantificar o prejuízo sofrido com aspectos técnicos, basta notar que o filme é entediante e tedioso ao perder ritmo nas cenas de ação, por exemplo. Com a transição da história para a segunda metade do filme, o eixo é convertido numa fantasia muito mais branda e estereotipada que o distancia ainda mais do original. No final das contas, somos colocados diante de uma trama sem emoção ou situações que pouco empolgam, e muitas das surpresas reservadas para o final, quando aparecem, já estão cansadas e pedindo desesperadamente para que o filme termine de uma vez por todas.

Não quero com isso entrar no julgamento de qualidade entre cinema e literatura, como se ambos não pudessem coexistir e tampouco a ideia de haver entre eles uma relação de aproveitamento subserviente, uma vez que, como expõe Ismail Xavier, livro e filme são “dois extremos de um processo que comporta alterações de sentido em função do fator tempo, a par de tudo o mais que, em princípio, distingue as imagens, as trilhas sonoras e as encenações da palavra escrita e do silêncio da leitura”.

Nunca acreditei – e assim continuo crendo – que um filme adaptado da literatura tenha necessariamente que ser comparado ao livro do qual se originou. Uma adaptação é apenas mais uma interpretação de uma história, tal como são também diferentes as imagens e entendimentos que cada um de nós tira da mesma história quando a lemos. O que eu enxergo não é o mesmo que você vê, ainda que estejamos olhando para o mesmo ponto.

Todavia, o que me faz não gostar de Alice no País das Maravilhas de Tim Burton é a pretensão entranhada em sua narrativa que, se analisada de maneira abrangente, é uma indicação muito explícita da forma como, situada sob os conceitos tecno-futuristas de sua manufatura, olha para a trama de Lewis Carroll a partir das escolhas estéticas que foram feitas em sua adaptação com uma mirada de realidade que exclui a atualidade do texto original, sendo que o próprio filme, em questões de narração – esse aspecto comum às duas artes –, é a parte pouco original da discussão.

* Fellipe Fernandes: ex-membro do grupo Cine-análise (20063/06), na FAcomb-UFG, foi meu orientando na graduação e  pós-graduação em cinema e realiza mestrado na Espanha, Alicante, sobre "Cinema e literatura".

18 Comentários

Expedito Gomes (dos Correios) disse...

Discordo de você, Felipe. O filme acerta quando renova a Alice do romance e do cinema.

Lisandro Nogueira disse...

É muito bom ser professor! Tenho contribuido para que alunos obtenham uma boa visada crítica. Fico feliz!!

Fellipe começou no nosso grupo "Cineanálise" (Lorena Verli, Paula Coutinho, Erica Lettry), fez graduação em cinema e pós tb., sob minha orientação. Hoje, está na Espanha fazendo mestrado em "Cinema e Literatura".

Quando o aluno se interessa verdadeiramente por algo, estabelece objetivos e metas, ele segue adiante, mesmo com todas as dificuldades. Parabéns Fellipe!

Marina Morena disse...

(obs: teclado sem acento)
Ola professor, lembra de mim ? Marina Morena.
Pois eh, hoje estou nos Estados Unidos estudando ingles e tive a oportunidade de assistir Alice na lingua original e sem legenda, heheh.
Devo dizer que concordo plenamente com o Fellipe. O filme me causou estranhamento e fiquei um tanto entediada. Penso que ha uma super valorizacao da estetica - figurino, maquiagem, cenario e tecnologia 3D - mas pouca relevancia nas questoes que envolvem a historia e o drama dos personagens.
Abracos, saudades!

Fabrício Cordeiro disse...

Ainda não vi o filme, e portanto não ainda não li o texto. Mas deu pra ler o "obsessão com o 3D", o que me lembra um comentário recente que fiz no twitter:

Tem mais filmes em 3-D do que casos de gripe suína. Sério, quando começa a vacinação?

Beijos e queijos,

@fabridoss

Fabrício Cordeiro disse...

Enquanto não vejo, recomendo "Alice" do Jan Svankmajer, mestre de animação stop-motion. Talvez seja a melhor versão. Existe em DVD.

Lisandro disse...

Olá Marina Morena, estou sabendo da sua estada aí nos EUA. Boa sorte por aí. Fellipe vai no ponto certo: o filme nao convence! E faz boa comparação com a literatura.

Daniela Ortega disse...

Olá, achei interessante a crítica.
Ainda não assisti ao filme, mas isso também me preocupa: a abordagem literária.
O Tim pode ter focalizado muito nas animações e estética, ao seu estilo, mas... está perdendo a essência... por todos esses motivos.

Hugo Batista disse...

O filme é muito bom e não entendo as críticas aqui esboçadas. A qualidade textual é superior. Sem falar nas imagens prá lá de revolucionárias.

Elaine Camargo disse...

Eu concordo com o Hugo. Gente!! O filme é belo demais e conta uma história muito importante. Fellipe, seu texto intelectualmente é bom, mas deveria ver o filme com sensibilidade.

Rodrigo Cássio disse...

Fellipe, gostei bastante do texto. Vou assistir ao filme hoje, e sua abordagem me antecipa algumas boas questões. Vou escrever também, e dialogamos. Um abraço!

Fabrício Cordeiro disse...

Um 3-D para a enfadonhice de "Alice no País das Maravilhas". EnfaDo-Do-Donho.

Parece que saí da sessão de um outro filme da série Nárnia.

Iusley disse...

A credito que o 3D está para o cinema atual assim como os filmes falados e coloridos para o cinema de algumas décadas atrás, digo isso porque nunca assisti a um filme em 3D. Talvez o impacto do 3D seja até menor do que o impacto causado pelo primeiro filme falado. Além disso, acredito que, como qualquer outra técnica cinematográfica, o 3D pode ser utilizado criticamente. Isso depende muito do diretor. É uma forma, que sempre pode ser tensionada com um bom conteúdo.Além disso, talvez com o passar do tempo o 3D se despotencialize, devido à sua banalização.

Thiago Lopes disse...

Acredito que o filme acertou quanto ao visual, a estética do filme é realmente interessante tal como Carroll nos faz abusar da imaginação em seus livros. Burton nos apresenta uma outra Alice, ele não quis contar o livro nas telas isso é perceptível logo de início; Burton apenas utiliza do universo de Carroll para contar algo de sua autoria, no entanto sem a genialidade que lhe é comum. Acredito que o livro escrito por Carroll é intocável e Burton deve pensar algo parecido, pois tudo que vi no filme era de certa forma novo, desde a essência dos personagens até as ações vividas por eles, pois os livros não as contemplam. Ele cita uma ou outra coisa dos livros como parte de uma "memória revivida" e não como de fato ocorreram.
O próprio filme da Disney, o desenho animado, é mais fiel ás obras (pois também mescla os dois livros). Burton faz um pós-alice, ele traz uma Alice crescida e moldada pelas lâminas da realidade e sociedade conservadora de volta ao País das Maravilhas, retirando a inocência da antiga Alice, que soaria falsa na versão de Burton. Acho que para assistir o filme sem julgamento devemos também nos permitir voltar ao País das Maravilhas, afinal quem é que nunca se perguntou "O que teria acontecido se Alice voltasse ao País das Maravilhas já crescida?", Burton só respondeu o que sua imaginação lhe permitiu. Não digo que o filme acertou, mas apenas que é uma nova ótica e não há muito que comparar com a obra literária.

Lisandro disse...

As comparações com a literatura são muito complicadas. Aproveito para indicar "Narrativa literária e narrativa fílmica", de Maria do Rosário Bello (edição portuguesa).

O problema é a ênfase no "visual", o deslumbramento com o 3D. Perde-se muito da história, do drama.

ps- Thiago, apareça mais vezes.

Anônimo disse...

Professor poderia trazer comparações entre o filme de Tim Burton e o livro de Lewis Caroll,as diferenças e semelhanças de ambos trabalhos ?

Anônimo disse...

Adorei o filme! Eu adorei o blog, Adorei o filme e Adorei a ALICE...
Bejos

Anônimo disse...

E MEU NOME É AMANDA

Anônimo disse...

A importancia desse livro ?

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