quinta-feira, 25 de novembro de 2010

"Você vai conhecer o homem dos seus sonhos" (em cartaz)

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos! (You Will Meet a Tall Dark Stranger, Wood Allen, 2010): 

ou.. Tudo pode dar errado...

 

João Angelo Fantini*

o verdadeiro objeto buscado pelo neurótico é uma demanda que ele quer que lhe seja feita. Ele quer que lhe façam súplicas. A única coisa que não quer é pagar o preço (lacan, O Seminário, livro 10: a angústia)

O mais estranho para mim foi o filme ser apresentado como “comédia” (talvez a coisa engraçada seja essa...). Um dos filmes mais dramáticos de Allen desde Match Point - embora tenha seus momentos irônicos que, como os cenários, tem acidez inglesa.
Seria um contraponto a Tudo pode dar certo? As fantasias neuróticas mais comuns (o bom casamento sem fim; o par romântico; a parceira sexual ideal, o sucesso profissional etc) vão se dissipando, mostradas através - acho que se poderia dizer – de uma narrativa fria e as vezes um pouco cruel.
Só uma personagem parece alheia aos dramas, a ex-prostituta que se casa com o sessentão (Antony Hopkins) e ao ser questionada pelo marido se o filho que esperava era dele mesmo responde:

“ah...mas
isso importa?” 

Essa, como diria Lacan, não se perde. Vai direto ao ponto: sexo e dinheiro (claro que, para escapar ao significante aniquilador da feminilidade- dinheiro - é preciso fazer circular a sequencia dinheiro-filho-pênis, o que ela tira de letra no filme). Os outros pobres personagens tropeçam como bêbados nos seus sonhos e vão se esborrachando um a um.

Ninguém é poupado, nem jovens, nem velhos. Apenas um casal da Boa Idade (?!) (que se escora em uma forma de misticismo canastrão) terminam juntos: isto é,
ninguém que usa sensatez ou coragem se salva. Sim, os tolos vencem mais uma!

Um fato à parte durante a exibição, ao menos nessa pré-estreia, foi que muitos espectadores tentaram rir de qualquer cena no inicio do filme e progressivamente foram ficando silenciosos. (aliás, cada vez mais o espectadores simulam as “risadas enlatadas” das séries cômicas americanas: se o sujeito vê antes de entrar que se trata de uma comédia ele já começa a rir, antes de tentar apreender o que está se passando..)
Naomi Watts (incrivelmente sem viço), proporciona a melhor cena do filme tentando falar da sua paixão para  Antonio Banderas. 

A comédia mesmo, fica para a mesa espírita onde um homem tenta pedir a esposa morta que aceite seu novo casamento.
Quem narra o filme? Um Outro do Outro qualquer..
O moreno do titulo é a imagem reciclada pela cartomante picareta que anuncia o novo no estranho e que nunca chega. 

Enfim, um Wood Allen pessimista. Porém, ainda diverte e faz pensar.
A tempo, a mensagem inicial do filme:
life is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing.” (Macbeth, William Shakespeare)
ps. o trailer é um truque publicitário. 

* João Angelo Fantini é prof. na UFSCAR - meu amigo desde 1980.

8 Comentários

Expedito Gomes disse...

Esse Wody Allen não gosta das mulheres. Ele é misógino. E o filme não é lá essas coisas.

Rodrigo Cássio disse...

Olá Fantini, só não concordo que a comédia se limita à ótima cena da mesa espírita. Eu ri muito do começo ao fim. O humor do Woody Allen é sutil, como sempre. E, também como sempre, esse humor é essencial. Grande filme.


Expedito, de novo essa ideia de que o Woody Allen é misógino? Isso não tem cabimento. Dê uma olhada no filme brasileiro "Muita calma nessa hora", que está em cartaz atualmente. Ele sim é misógino: reduz as mulheres a estereótipos e objetos dos homens, tentando fazer graça com isso (mas não consegue - o filme é o pior que eu vi esse ano).

Porém, ninguém fala que "Muita calma nessa hora" é misógino. É que a misoginia de verdade também é sutil, disfarçada, assim como o humor nos filmes do Woody Allen.

João Angelo Fantini disse...

Caro Rodrigo

Sim, sempre é possível que eu, como o antigo personagem Sinfrônio, não tenha entendido a graça. È que achei que as situações eram trágicas e os desfechos também, como por exemplo a cena do Viagra. É verdade, muita gente riu no cinema nesta hora...mas de quem eles estavam rindo?

Rodrigo Cássio disse...

João,
Não questiono que sejam situações trágicas e embaraçosas. Mas entendo o Woody Allen como um diretor que põe o riso em um patamar diferente do convencional, distante das comédias enlatadas que você citou. Quem sabe não é por isso que os espectadores, acostumados a elas, ficaram silenciosos com o Woody Allen? Porém, o humor está lá: é uma intenção do filme. Se não rimos, é porque a comunicação não foi feita, ou porque, talvez, adotamos uma postura mais distanciada e crítica, valorizando as outras coisas que o filme tem. Penso que o Allen sempre faz boas "comédias", apesar de não ser apenas isso que ele faz (e por isso, inclusive, elas acabam ficando tão boas).

Expedito Gomes disse...

"Muita calma nessa hora" pelo menos é um filme que é sincero e não usa de artimanhas intelectuais para se impor. Esse filmes do Woody Allen é bem machista. Eu acho que seus filmes são machistas demais.

Igor A. disse...

Olá, Lisandro, Rodrigo e João Angelo.

Gostei muito do texto, mas o filme não conseguiu me tirar a péssima impressão que tenho de Woody Allen. Vejo a emergência de formas bem mais inteligentes e sutis de discutir a fragilidade e a (falta de) inteligência das relações humanas aparecerem por aí sem nem 1/8 do reconhecimento que o baixinho tem. Esse filme não me agrada e, sinceramente, não me leva a grandes reflexões.

Embora o cara tenha suas qualidades, a mim sobra apenas a velha filosofia de porta de banheiro, o ranço e mais do mesmo espírito rabugento. Reiterar que todos um dia iremos nos encontrar com o "tall dark stranger" de Bergman é válido, possível e necessário. Mas dizer isso da mesma forma sempre só leva ao "so-what?". E então?

Lisandro Nogueira disse...

Woody Allen faz sempre os "mesmos filmes". Penso que deve ser por isso q é muito bom. São poucos os cineastas que conseguem manter a qualidade depois de décadas: ele consegue!! Oscila aqui e ali. Mas sempre tem algo a dizer; sabe roteirizar (cria histórias com bom ritmo), escolhe e revela bons atores e coloca o "dedo na ferida", ou seja, quem tem coragem de criticar com tanta sutileza psicanálise, religião e tantas outras coisas?

Anônimo disse...

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