segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O olhar domesticado e a formação do espectador

O “olhar domesticado” e a formação do espectador

Lisandro Nogueira*


O sucesso de um filme da indústria do cinema deve-se, em parte, ao fato do espectador vê-lo somente uma vez.  O avanço da indústria do cinema, a partir dos anos trinta do século passado, fez crescer a quantidade de filmes oferecidos ao público ávido por novidades. É impossível acompanhar tantos lançamentos e, principalmente, ver, mais de uma vez, um título. Acresce-se a isso o deficiente trabalho de formação educacional que vise uma “pedagogia das imagens”. 


Talvez estejam nesses dois fatores duas grandes dificuldades para a formação de pessoas com senso crítico em relação aos filmes, sendo uma delas o fato de serem capturadas logo no primeiro olhar. Como geralmente não têm oportunidade de rever as narrativas, ou de terem uma boa formação para as imagens (cinema, etc.), ficam trancafiadas no que denomino “olhar domesticado”: um olhar preso ao senso comum das histórias contadas com imagens em movimento e ao círculo vicioso das narrativas previsíveis que viciam o gosto e não despertam o senso do juízo estético.


Por outro lado, esse espectador é “soberano”; seu olhar é “complexo”, pois depende de inúmeros fatores para se formar e estabelecer balizas intrínsecas e externas, tanto que alguns afirmam ser quase impossível afirmar a existência de um “olhar domesticado”.
Isso, em parte, é verdade, e compartilho com a noção de soberania e complexidade do olhar. Porém, a minha experiência como professor me permite lançar breves indagações que considero pertinentes.


A formação de professores (multiplicadores para o exercício da fruição estética), que pode contribuir para a educação do olhar, e o simples exercício de rever um filme por parte de qualquer indivíduo são abordados para mostrar como o espectador pode usufruir da apreciação de filmes e programas televisivos, criando, desta forma, um olhar com trânsito mais livre, aberto a novas possibilidades narrativas. 

*
Durante um tempo trabalhei com a formação de professores da rede pública. O objetivo era iniciá-los no ambiente das imagens cinematográficas e televisivas, visando à utilização pedagógica de filmes e programas em sala de aula. Uma das primeiras constatações: os professores são apreciadores contumazes da televisão. 

A cultura cinematográfica é incipiente e conhecem pouco sobre as cinematografias fora do universo hollywoodiano.


O antídoto imediato que pensei para esse estado de coisas foi o de mostrar as cinematografias que se opõem ao modelo narrativo predominantemente americano. Minha ideia era voluntariosa: ao exibir o “filme de arte” (conceito bastante “danoso” quando se pensa o processo de formação) imaginava que a questão estaria resolvida. Ao mesmo tempo em que resgataria o professor do “cipoal coercitivo” da indústria cultural, lhe daria instrumentos para combater os filmes hollywoodianos na batalha entre o “bom filme” (de arte) e o “mau filme” (cinemão).


Um momento hilário nesse processo foi o da exibição para professores, alunos e comunidade escolar do filme Deus e o “diabo” na terra do sol, de Glauber Rocha. Cônscio do exercício de formação, apresentei as credenciais do cineasta, contextualizei historicamente a narrativa e vi minhas intenções naufragarem depois de vinte minutos após o início do filme. 


Glauber Rocha é um dos mais importantes cineastas do mundo. Seus dois filmes, Deus e o “diabo” e Terra em Transe, são respeitados e admirados. Todavia, num processo de formação, ele pode fazer parte (e fez), mas deve vir depois de um intenso e árduo trabalho com os filmes da escola clássica - americanos na origem e encontrados nos quatro cantos do planeta.


O processo de formação foi completamente reformulado. Após a constatação de que o antídoto para o “olhar domesticado” estava na fruição dirigida e na dissecação do “filme clássico”, o horizonte se abriu para uma perene “pedagogia da imagem”.


Um dos exercícios mais eficazes foi exatamente o de ver o filme mais de uma vez. A partir daí, dissecá-lo, desconectar as partes e “refazê-lo” na cabeça de cada participante.
Realizar conjuntamente a dissecação de um filme clássico (dos anos 30 até os anos 60) ou de estrutura clássica (o filme clássico contemporâneo) foi um dos melhores exercícios com os professores. Vimos Crepúsculo dos deuses, filmes americanos dos anos 50 – fonte para os dramaturgos das telenovelas brasileiras – e filmes contemporâneos. Observaram que existem filmes e filmes americanos, ou seja, perceberam que Scorsese, Nicholas Ray, Elia Kazan, Orson Welles são tão bons quanto qualquer cineasta “de arte”.


Aos poucos, compreendendo o processo de construção da narrativa (trama, conflito, personagens, tempo, espaço e duração), os professores foram reconhecendo as estruturas e começaram a fazer perguntas sobre o seu próprio olhar em relação aos filmes, novelas, etc. Em seguida, vimos novelas e até telejornais.


No final do curso, mostrei filmes do cinema moderno: Ladrões de Bicicletas (De Sica), Acossado (Godard) e Terra em Transe (Glauber Rocha). Os professores não só gostaram bastante desses filmes como retiraram da cabeça a ideia equivocada de que são filmes “de arte”, complicados, herméticos.

Penso que a formação educacional, principalmente uma “pedagogia das imagens”, pode contribuir decisivamente para que os multiplicadores (professores e outros formadores) possam oferecer novas maneiras de estabelecer o olhar livre, olhar que permita ao espectador confrontar seu contexto histórico, seu cotidiano, sua formação, seus afetos com a experiência estética, seja através do filmes ou dos programas de televisão.


Desta forma, a soberania do espectador se completa sem a tutela dos pseudoformadores, aqueles que estão em lados opostos: os primeiros, execrando filmes e novelas que o público gosta e admira sem conhecer de perto o contexto do “olhar domesticado”; e os outros, pela exaltação desmedida da afirmação de que “gosto não se discute”.


·         Lisandro Nogueira é professor de cinema na Facomb-UFG. Publicado originalmente em O Popular em 14.02.2010 - fotos dos filmes "Crepúsculo dos deuses", "Terra em transe" e "Ladrões de bicicletas".

8 Comentários

Rafael Castanheira Parrode disse...

mto bom lisandro! Se as pessoas soubessem da importância dessa educação do olhar, de como essa ampliação do olhar abre novas portas, nos transporta pra outros planos, outras percepções e vivências...

' disse...

Ótimo texto, professor Lisandro. Os seus (e outros) comentários no post sobre o Cisne Negro já haviam me levado a uma reflexão, e agora com um texto mais fundamentado, consegui entender o que você quer dizer.
Esses conceitos de "estética" e "imagem", ainda me são estranhos quando relacionados com a capacidade de compreender o filme, pensá-lo. Digo, de que forma esses conceitos, a forma como são mostrados, interfere, interage, com o olhar?

Murilo G.

Thomas Silva disse...

Muito bom!
A música vive algo semelhante: "o ouvido domesticado". Mas no cinema tem um agravante, este norteia nossa cultura e costumes mais do que a música.
Refletir é caro e toma tempo.

Elaine Camargo disse...

Professor, acho que tenho o olhar domesticado. Ora, vou sair dessa domesticação. Vou ver então filmes de arte.

Declieux Crispim disse...

Texto excelente. Lisandro é uma referência para o bom cinema. Sempre comparo minhas notas às dele no jornal e geralmente são iguais. Sinto-me meio deslocado por ver o dito cinema de "arte", praticamente não há pessoas que compactuem com os meus anseios, sem contar que a maioria tem preconceito em relação a filmes que não sejam de Hollywood, que eu adoro por sinal, como John Ford, Billy Wilder, Chaplin, Capra, Welles, Woody Allen, Kubrick, Scorsese...), mas não é só isso que existe, há também Kurosawa, Godard, Truffaut, Resnais, Ozu, Carl Dreyer, enfim, há cinema de qualidade espalhado ao redor do mundo, mas desconhecido para a maioria das pessoas. Infelizmente, nem o melhor de Hollywood as pessoas assistem...

maria luisa disse...

Lisandro, adorei seu artigo (assim o considero) e digo que venho tentando, há anos, contribuir para essa formação do olhar do espectador. Às vezes me surpreendo com as respotas; muitas vezes não. Nem se trata assim do olhar domesticado X filme de arte. Trata-se de reflexão!!!
Tarefa difícil, mas vamos em frente.

ativista disse...

Parabéns ai pelo blog,Seguindo,segue ai tbm parceiro.
http://hiphopactivistface.blogspot.com/
vlw

lisandro nogueira disse...

Caros amigos, obrigado pelos comentários. O processo de formação é muito dificil, árduo e complexo. É fácil fazer uma crítica ligeira sobre os produtos da indústria do cinema. Mas é muito difícil participar de um processo de formação. Demanda tempo, suporte para a angústia diante de certas frustações e muito estudo.

Vamos continuar conversando e os convido para escrever no blog.

Lisandro.

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