quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A qualificação do olhar no cinema.

A qualificação do olhar, o cinema moderno e o filme Ninho vazio.

Lisandro Nogueira*

"qualificar o olhar significa criar, insurgir-se, brincar com a dúvida e contemplar as oscilações da vida. Oscilações naturais: algumas, trágicas; outras, magníficas".

O filme Ninho vazio, do argentino Daniel Burman, é uma autêntica “aula” de qualificação do olhar. Penso que filmes devem ser vistos para divertir. Mas o que vemos neles presta-se, principalmente, a cultivar o espírito.

A vida é bela e trágica, com suas surpreendentes e intensas alegrias e inevitáveis e irreversíveis perdas. Como dizia Jean Cocteau, a vida é “um trem expresso que caminha para a morte”. Mas, antes de ela chegar, há mil possibilidades de viver certas intensidades deliciosas. Uma dessas intensidades é a experiência estética: apreciar e contemplar a criação artística.
O cinema nos dá essa possibilidade. O cinema moderno, a partir dos anos 40, em oposição ao cinema clássico hollywoodiano, sempre foi um campo fértil para o surgimento de obras propícias à experiência estética.

O cinema moderno tem características que o fazem diferir bastante dos filmes de estrutura narrativa clássica – principalmente do cinema clássico hollywoodiano. As quatro mais destacadas são a idéia de um cinema autoral, o baixo orçamento, a renovação da linguagem cinematográfica e o trabalho de direção.

O cinema de autor é precioso, porque destoa do cinema industrial e toma um caminho oposto ao deste. Naquele, busca-se para o diretor um lugar semelhante ao que têm o escritor na literatura e o pintor na pintura. Além de buscar o singular da obra, aquilo que é único, original – o que faz do cinema uma arte.

A autoria

A idéia de autoria no cinema não é, pois, coisa pequena. É ela que fornece substância para o cinema incluir-se no sistema tradicional das artes. Até hoje a autoria no cinema é objeto de controvérsias. Aceita-se muito mais a noção de “política dos autores” (os franceses da Nouvelle Vague dos anos 50/60 que revolucionaram o esquema da produção cinematográfica) do que a de autoria propriamente, nos termos da literatura e da pintura.

Entretanto, é pouco provável que alguém, hoje, ouse negar o estatuto de autor a Bergman, Glauber Rocha, Orson Welles, John Ford, Buñuel. A visão de mundo particular de um filme como O discreto charme da burguesia (de Buñuel) ou O homem que matou o facínora (de Ford) autoriza-nos a afirmar que o filme pode, sim, equivaler a uma obra da literatura ou da pintura. O mais importante, porém, é a constatação do estilo próprio, desenvolvido em uma linguagem diferente da escrita e dos códigos das outras manifestações artísticas. Não há como negar a singularidade do cinema nesse quesito.

Um componente do cinema de autor são as temáticas recorrentes. Na obra de Hitchcock, a culpa é um tema recorrente; nos filmes de Buñuel, a crítica à igreja católica e a fina ironia em relação aos costumes burgueses; em Glauber Rocha, as alegorias magníficas sobre a Revolução são recorrentes. Visão particular de mundo, estilo próprio e temáticas recorrentes formam os pilares da autoria.

A outra característica do cinema moderno, o baixo orçamento, ajudou a gerar um cinema oposto ao cinema clássico industrial. Sem muitos recursos, o cinema foi para as ruas: buscou temas do cotidiano (o neo-realismo italiano); outro, a Nouvelle Vague, abusou da criatividade, sem as amarras do grande produtor e sua vigilância contábil; e o Cinema Novo brasileiro criou a estética da fome, com recursos parcos e apelos à independência na criação de estilos próprios.

Assim, com orçamento escasso e visão particular de mundo, outro cinema, distinto do clássico, foi formulado. A renovação da linguagem foi radical, embora haja dialogado, aqui e ali, com a estrutura clássica narrativa (um exemplo: Ladrões de bicicletas, de Vittorio de Sica). Hoje, com a diversidade de temas, estilos e visões de mundo, o cinema contemporâneo dá prosseguimento à linha ousada do cinema moderno e proporciona obras cinematográficas significativas e experiências estéticas fecundas.

Ninho vazio e o cinema moderno

Ninho vazio (El nido vacio, 2008), de Daniel Burman, corrobora a continuidade de um cinema moderno: procura afirmar uma visão de mundo particular, propõe um estilo próprio e recorre a temas como a família e a dissolução/conciliação de laços afetivos. Não é obviamente um cinema moderno radical e está mais próximo de um tom ameno, em relação aos cânones. Mesmo assim, distancia-se de um cinema meramente linear, afeito à narrativa prenhe de lugares-comuns, de montagem rápida.

A temática recorrente de Burman, a família e seu deslocamento no mundo moderno, é realçada para mostrar, de forma abrangente, as vicissitudes de um processo extremamente doloroso. Aqui impõe-se o estilo próprio do autor, ao não se render ao sentimentalismo nem às convenções totais de um cinema clássico narrativo.

O tratamento que Burman dá à família em crise é singular; não é a reconstrução de uma família nostálgica o que se procura, mas sim o lugar da morte, em sentido metafórico, dos desejos e dos laços que ajudam a manter outras filiações afetivas.

O estilo de Burman também remete ao moderno. Em alguns momentos “perdemos” o eixo da verossimilhança (a verdade da semelhança: aquilo que nos faz acreditar que o que vemos é o real reproduzido) e o filme nos lança para além do “olhar domesticado”. Há um desconforto e uma desestabilização do lugar perene do espectador mal-acostumado à cômoda linearidade do cinema americano. Mas ele não chega a ser tão extremo como nos filmes mais ousados do cinema moderno.

O ritmo lento é o que mais afeta a domesticação e isso influi na sentença, entre interrogativa e exclamativa, comum na fala do espectador desavisado: “este é um filme de arte?!” ou mesmo “é um filme de crítico?!”. Ninho vazio caminha devagar, a câmera claudica, para criar sensações de vazio e de uma possível desorientação após a saída dos filhos. Não há o que fazer com a irreversibilidade do tempo e o casal pressente a morte de uma teia de significados não mais possíveis de amparo e consistência.

Ninho vazio tem também outra característica básica do cinema moderno. A narrativa não se contenta em narrar somente as cenas externas. Como assinala Ricardo Musse, o filme procurar captar o fluxo de consciência: “estados e movimentos interiores, subjetivos: pensamentos, sentimentos, temores, fantasias etc. Esse relato pode ser associado tanto ao mundo onírico (com os deslocamentos e condensações apresentados por Freud na Interpretação dos sonhos), como ao da criação artística (afinal, trata-se do esboço de um livro) ou ainda das associações livres que se praticam no divã de um psicanalista”.

Ninho vazio dá continuidade à linha perene do cinema moderno. Cinema instigante, que “desampara” o espectador e coloca-o no mundo incômodo e criativo das interrogações, além de contribuir para qualificar seu olhar. Afinal, qualificar o olhar significa criar, insurgir-se, brincar com a dúvida e contemplar as oscilações da vida. Oscilações naturais: algumas, trágicas; outras, magníficas.
* O artigo foi publicado (19 de fevereiro) em O Popular.

9 Comentários

Anônimo disse...

O artigo foi publicado hoje, dia 19 de fevereiro, no caderno Maganize do jornal O Popular.(Pedro Vinitz)

Anônimo disse...

Caro Lisandro, gostei muito do seu texto que tem qualidades e um gosto
pela leitura que esta alèm do filme criticado. Alias, pelo tom que se
nega a julgar parece mais um ensaio. A sensaçao que da é de um
movimento que passa pelo filme criticado e depois sai desta condiÇao
de critico para olhar a historia do cinema, a arte e a vida.
Tenho mais ainda pouco mais de uma semaninha no Brasil, vamos ver o que acontece
Um grande abraço.
Wiliam Farnesi

Anônimo disse...

Lisandro,

gostei muito do artigo.
Agradeço tembém sua gentileza em me citar ao final.

abraço
Ricardo Musse.

Anônimo disse...

Oi Lisandro,
Tenho acompanhado as boas matérias do seu blog. Inclusive repeti no meu uma entrevista que você fez com o Ricardo Musse, de muito interesse para os cineclubistas que visitam o meu blog no Ponto de Encontro Cineclubista. Continue com seu bom trabalho.
Abraços.Beto Leão.

Anônimo disse...

Oi professor! Belo filme, belo texto. Navegando por aqui forever.
Thomas Silva

Victor Hugo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Mestre Lisandro,
Seu texto é bem pensado e faz pensar. Desenvolve, com admirável clareza, uma tese. Não vi o filme, mas isto não fez falta, o texto está aquém e além dele. Receba, mais uma vez, o meu aplauso.
Herondes

Lisandro Nogueira disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

Lisandro Nogueira disse...

Farnesi, Beto, Thomaz e Herondes: obrigado pelas palavras. Eu penso sempre na idéia de "qualificação do olhar". Eu fui sendo "qualificado durante toda a vida" por muitos professores, amigos e leituras e filmes. Eu não ouvia jazz até os 23 anos. Um amigo generoso, Rondo de Castro, qualificou minha audição, me apresentou ao jazz, aos músicos, etc. É um processo de longa maturação, que rende frutos excelentes. Um abraço, Lisandro.

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